A Poção de Panoramix

Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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O triunfo do homem massa: aridez e esterilidade.

Cansa. Cansa imensamente o mar de superficialidade afirmativa em que se vive. Por todos os lados está o homem massa – é necessário, sempre, dizer que não se trata do homem pobre – a espalhar as vulgaridades que traz na cabeça, os ditos que reputa graciosos, os disparates que reputa expressões de espontaneidade brilhante.

O tipo que vive a espalhar os títulos acadêmicos, sub-acadêmicos, pseudo-acadêmicos ou nada acadêmicos que obteve. Que propõe a irresponsabilidade e que corre para colher algum fruto que ela eventualmente dê e para afastar-se dos resultados desastrosos que provavelmente dará.

O tipo que tem inúmeros direitos adquiridos e quase nenhum dever, nem consigo mesmo. Não tem deveres de cordialidade, de contenção, de nobreza, de esforço, de decoro, de detenção de alguma cultura que vá além da resenha feita por outro igual a ele. Não tem obrigações com outros, com a vida em comum, com o Estado, com a honestidade intelectual.

Acha-se muito seguro de si mesmo e plenamente suficiente com as poucas e descoordenadas informações que ajuntou no cérebro. Fala de qualquer coisa, cita fulano e beltrano que não leu, pratica o oportunismo superficial porque acredita nele com devota sinceridade. Somente nisso não é dissimulado, pois acredita que todos são iguais, rebaixados ao mesmo nível de sub-homem.

O homem massa acredita em uma deformação da igualdade material. Essa crença é uma acusação de tudo quanto não for igual a ele, porque é intolerante com aquilo que o supera, que é menos mesquinho e estúpido que ele. Não percebe realmente essa diferença e apreende-a como se fosse alguma tentativa de mistificação.

Mede as pessoas por sua curtíssima régua e, por isso mesmo, diante do excepcional fica inicialmente perdido, não o compreende, não percebe algo que deva ser medido por outras réguas, e finda por julgar que está diante de alguma representação como é a dele. Retira do excepcional o que tem de superior para poder contê-lo na sua perspectiva vulgar. É, por isso, um destruidor, um assassino de nobrezas, um caçador de estetas.

Quem achar que isso é lamento de um leitor contumaz de José Ortega y Gasset, um leitor que tenta desconfiar de si mesmo todo o tempo, que tenta perguntar mais que responder, está certo. É isso mesmo, infelizmente.

Quando a vítima pensa que não existem algozes. Ou, identificação tola do discriminado com o discriminador.

Recentemente, voltou à evidência a discriminação que alguns brasileiros, notadamente paulistas e gaúchos, nutrem por nortistas e nordestinos, em geral. O que existia sem precisar de fermento, intensificou-se a partir de estímulos fornecidos pela recente campanha presidencial derrotada do candidato José Serra.

Os casos paulista e gaúcho são diferentes em pontos que merecem ser destacados. Existe no Rio Grande do Sul um separatismo relativamente forte e sincero. Acham-se outra coisa, embora pareça-me que não percebem que essa outra coisa e esse afã separatista os faria parte da Argentina, inevitavelmente. É algo mais sério, por um lado, e mais ridículo, por outro.

No caso de São Paulo, há uma discriminação que viceja nas classes médias contra nordestinos, algo mais ligado à superficialidade e à incultura que a qualquer outro fator, porque São Paulo não tem grande história e tradição, como o Rio Grande do Sul. Não se trata propriamente de um separatismo fundado em tradições, trata-se de uma tolice oportunista, porque querem manter o restante do país a trabalhar para eles.

Tanto antes das eleições, como depois do pleito, a exposição pública da discriminação fortaleceu-se pelo acirramento que um partido reputou estratégico. Passadas as eleições, seguidores do grupo derrotado assumiram a discriminação regional como forma de explicar a derrota.

A partir dessa visão claudicante da realidade, propuseram que as partes mais pobres do país escolheram a presidente Dilma e as partes mais ricas teriam escolhido o derrotado Serra. É falso esse corte interpretativo. A vitória de Serra nas regiões de São Paulo e do Sul foi muito mais discreta do que seus seguidores querem acreditar. Por outro lado, a vitória de Dilma nas regiões mais pobres foi realmente avassaladora.

A discriminação de nordestinos e nortistas em São Paulo é historicamente recente. Realmente, há cento e cinquenta, duzentos, trezentos, quatrocentos anos, acontecia algo diferente. Não havia propriamente uma discriminação em sentido inverso, havia absoluto desprezo por qualquer coisa que não fosse do Rio de Janeiro, de Recife ou de São Salvador da Bahia.

Paulistas ou bandeirantes, por muito tempo, eram quase sinônimos para bandidos sem limites, salteadores indisciplinados, caçadores, matadores e escravizadores de índios. Gente que deu muito trabalho à coroa e aos agentes públicos e cidadãos que gostavam de alguma ordem e de alguma vigência das leis.

É muito interessante procurar saber o que os jesuítas – com grandes pendores para cronistas – pensavam dessa gente selvagem, escória social da colónia, cuja presença era a certeza de confusões, roubos, estupros, morticínios e aprisionamento de índios. Os governadores e capitães-mores das províncias ricas não os queriam por perto e quando os contratavam como mercenários cuidavam de fazê-los voltarem o mais rápido possível para suas terras de origem, hoje o centro telúrico do mundo.

Se houve algo que se aproximou de uma nobreza – uma nobreza de espada, como dizem os franceses – na colónia, foi a aristocracia rural pernambucana, carioca e bahiana que conjugou interesses e expulsou os holandeses do nordeste do Brasil e seguiu adiante na empresa, em Angola. Essa gente carregou e seus dispersos remanescentes ainda carregam um profundo orgulho e sentimento de superioridade, decorrentes da grande e improvável vitória militar obtida.

Essa mesma gente passou a ter um profundo sentimento de injustiça com relação à coroa, que minimizou seus valores bélicos e deu-lhes apenas metade dos privilégios na administração do vice-reinado, impondo-lhes a convivência com uma pequena nobreza de robe, de origem na fidalguia urbana portuguesa. Esse sentimento está na origem de sua decadência e de sua propensão revolucionária no século XIX: 1817, Confederação do Equador, Praieira, todas em Pernambuco.

Mas, de paulistas ninguém cuidava, nem se ocupava de ter com eles algum preconceito. São Paulo é uma zona de terras férteis, cujo cultivo principiou-se a partir do Vale do Paraíba, ainda no Rio de Janeiro. Enriquece propriamente a partir do século XX, por causa do café. O Brasil era café e os dinheiros dessa cultura riquíssima puseram o país a seu reboque e levaram a industrialização também para São Paulo.

Pensando-se com toda a calma, a discriminação nutrida por alguns paulistas contra nordestinos é algo profundamente tolo. As migrações internas para São Paulo supriram a mão-de-obra que lá não havia, quando era mais necessária nos grandes impulsos da industrialização e da construção civil.

Não contaminaram com deselegância algum ambiente repleto de pessoas sofisticadas e cosmopolitas, porque São Paulo não era minimamente sofisticada ou cosmopolita, embora fosse rica. Não significaram supressão de trabalho porque foram exatamente suprir a falta de trabalhadores.

Hoje, é alarmante o nível de agressividade que certos grupos têm relativamente aos nordestinos, em São Paulo. Não é coisa desprezível e certamente é indicador de profunda ignorância e aviltamento, porque cultiva-se preponderantemente no meio de grupos de classe média, incultos e incapazes de grandes conquistas e, ademais, muito receptivos àlgumas formas de fascismo.

Eis que, depois das eleições, vieram à tona trocas de mensagens em redes sociais na internet, de conteúdo marcadamente preconceituoso. O episódio mais exemplar foi uma mensagem de uma jovem que incitava as pessoas a fazerem um bem a São Paulo, matando um nordestino afogado.

Essas condutas, sob a perspectiva estritamente legal, caracteriza dois crimes: racismo ou preconceito e incitação à pratica delituosa. Podem acarretar inclusive prisão em regime fechado de cumprimento. À vista do crime cometido, o Presidente da Seccional de Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil encaminhou ao Ministério Público representação pedindo a persecução criminal da jovem paulista incitadora de assassinatos de nordestinos.

Foi uma medida auspiciosa do Presidente da Ordem porque, além de serem crimes mesmo, convém tentar estancar a fermentação dessas manifestações que logo tendem à exacerbação e à disseminação do ódio sem razões muito tangíveis, ou seja, de postura proto-fascista.

A enorme maioria das pessoas razoáveis repudiou as manifestações racistas e preconceituosas, até mesmo as pessoas que as estimularam como modo de ação eleitoral, durante a campanha. Realmente, não convém terem seus nomes vinculados a coisa tão vil, embora tenham reputado conveniente estimular a vilania quando acharam interessante.

Curiosas mesmo são algumas reações de um e outro sujeito da mesma origem daqueles que a jovem paulista queria assassinados. É algo como a solidariedade da vítima com o algoz, mas é mais profundo. Tem um quê de subserviência, de tentativa de identificação com o algoz e de diferenciação com os semelhantes e, claro, de profundo oportunismo e vontade de obter destaque pelo escândalo.

Um e outro sujeito de alma subalterna e vontade de protagonismo pelo escândalo apressou-se a minimizar os crimes cometidos pela jovem paulista por meio de redes sociais. Como se fosse coisa desprezível. Sucede que isso só pode ser desprezível pela ótica do criminoso, então o fulano que minimiza o fato identifica-se à conduta delitiva, na verdade.

Procede a partir de um julgamento equivocado, segundo o qual a questão seria mais social e econômica que cultural. Ou seja, aceita que o preconceito dá-se entre mais ricos e mais pobres e põe-se ao lado dos mais ricos. Está ao lado do preconceituoso, como a dizer que ele mesmo exerce tal preconceito relativamente aos seus conterrâneos mais pobres.

Não percebe que a questão de fundo é muito mais cultural que propriamento social e econômica. Não percebe que pode estar um dia em São Paulo, com toda a indumentária de novo-rico, relógio rolex no pulso, modos afetados, tentativa de modificar o sotaque, mas que será reconhecido, ele mesmo o solidário com o algoz, como um nordestino. Bastará que abra a boca e diga qualquer bobagem.

E provavelmente seguirá sem perceber que ele é o que fala, identifica-se pela forma com que fala, que não perderá seu sotaque nem mesmo se tentar transmudar-se em uma caricatura absoluta. Mas tentará, porque sua alma é uma caricatura, porque seus valores são um adorno da sua ambição, porque seus elementos de identificação são algo que ele quer suprimir.

Não compreendeu que o preconceito regional é um movimento pequeno-burguês exercido por pessoas exatamente iguais a ele, ou seja, sem identidade, oportunistas, superficiais, ambiciosas de servir ao chefe que tenha o rolex maior no pulso, esse o grande critério de hierarquia. Não compreendeu que sendo iguais na pusilanimidade- senão não se identificariam – são ainda desiguais no critério fundador do preconceito: ele, a vítima subserviente, não fala como o algoz, embora tente.

Olhe aqui Mr. Buster, de Vinicius de Moraes.

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

Ratzinger faz política na Espanha.

O Bispo alemão de Roma está na Espanha. Hoje, em Santiago de Compostela, amanhã estará em Barcelona, para consagrar a Sagrada Família, a obra bela e nunca terminada de Gaudí.

Ele reclamou de um secularismo agressivo que haveria em Espanha, um comentário, a princípio, sem qualquer sentido. Se com isso quis dizer que o número de fiéis católicos praticantes recua muito, a declaração começa a ser perceptível, pois é uma constatação.

Todavia, resta algo de estranho na declaração, pois a melhor forma de seduzir não é reclamar da falta de seduzidos e, sim, buscá-los. Fica a parecer excesso de arrogância, como se estranhasse que os espanhóis estivessem a afastar-se, movidos por burrice, supõe-se, daquilo que seria uma adesão óbvia.

Pode ser abordada por outro viés, também. O Bispo de Roma pode estar a reclamar do Estado e do Governo espanhóis, que ele acha obrigados a promoverem uma certa religiosidade. Sucede que o Estado espanhol é laico e assim a declaração é puramente política. Sendo política e vinda de um estrangeiro e ademais ele mesmo Chefe de Estado, parece uma intromissão indevida nos assuntos espanhóis. Uma intromissão contrária à própria ordem constitucional, inclusive.

Talvez fosse melhor o cardeal Ratzinger limitar-se a uma das esferas, a religiosa ou a política. Poderia tentar a sedução da religião que representa, pois há elementos realmente sedutores nela. Poderia transcender-se, ou seja, ao político culto que é, e voltar-se para a promessa da imortalidade, que é muito superior à da justificação e teve em Espanha seguidores profundos.

Poderia falar em Teresa D´Ávila ou em João da Cruz, poderia falar na extrema poeticidade desses místicos ávidos de imortalidade. Poderia falar da ressurreição dos vivos, da transformação, da graça, da escolha, do reino de Deus.

Poderia, por outro lado, ser apenas político e chamar seus seguidores a pressionarem o Governo a dar-lhes apoio explícito e formal e a por na ilegalidade as diferenças. Criaria mal-estar por conta da flagrante e indevida intromissão, porém contaria com o provável silêncio complacente do Governo, desde que não se excedesse muito.

Não devia era lastimar-se de uma secularização agressiva, coisa intangível se dita assim de maneira ambígua. Quer parecer que a religiosidade católica é alvo de alguma perseguição? Buscam tomar-lhes os bens? Afinal, de quê reclama Ratzinger, da perda de fiéis ou da perda de privilégios estatais?

Acumulação de proventos na função pública.

As crises quase sempre são enfrentadas com remédios que, no conjunto, revelam-se inadequados. Como as doenças que não matam – ou não o fazem imediatamente, pelo menos – as crises estão ao sabor do tempo, na verdade.

Todavia, uma e outra medida acertada vem como resposta às crises. Podiam ser tomadas a qualquer tempo, mas costumeiramente as crises são necessárias para que elas se estabeleçam.

Pois bem, o Estado Português quer instituir a inacumulabilidade de pensões e outras remunerações da função pública. Ela insere-se na política de austeridade dos gastos públicos, que também prevê vários cortes orçamentais, um e outro de eficácia e justiça duvidosos. Essa, no entanto, parece algo quase intuitivo e que devia ser coisa natural.

Realmente, um viúvo ou uma viúva tem redução das despesas do grupo familiar quando acontece o falecimento do outro cônjuge. E, com a possibilidade de acumulação de salários e pensão da função pública, o sobrevivente pode estar a enriquecer sem causa, visto que a uma despesa menor corresponderão os mesmos rendimentos do anterior grupo familiar.

Outra forma de equacionar o problema é o estabelecimento de pensões proporcionais, quando o cônjuge sobrevivente já aufere rendimentos da função pública, como faz-se em alguns países. Essa proporcionalidade é estabelecida em função da idade do sobrevivente, dos seus rendimentos pessoais, dos rendimentos do falecido, número de componentes do grupo familiar em menor idade e outros mais que, em certas situações, podem significar a ausência da pensão.

A transmissão de um rendimento para o cônjuge sobrevivente – como pensão previdenciária – deve muito a uma realidade histórica bem determinada. Com efeito, eram muito comuns os grupos familiares cuja renda provinha apenas do trabalho de um dos cônjuges. Em tal situação, negar-se o direito à pensão era uma tremenda injustiça social, uma negação frontal do conceito de seguridade social.

Diferentemente ocorre quando um grupo familiar tem os dois cônjuges a auferirem rendimentos, principalmente se forem decorrentes de empregos públicos. Nestas situações, o direito à acumulação da pensão com o salário é medida de injustiça social, na medida em que representa um aumento de rendimentos a par com uma redução de despesas.

Evidentemente, o tratamento da questão deve passar pela consideração de algumas variáveis, para evitarem-se radicalismos também injustos. Há casos de grande disparidade de rendas entre os componentes do grupo familiar, em que seria recomendável o direito à opção entre o próprio rendimento e aquele da pensão.

No Brasil, essa possibilidade de acumulação conduz a situações verdadeiramente absurdas. Admitamos, por exemplo, um casal de  magistrados, cada um com salário à volta de 10.000 euros. Se um deles morre subitamente, o outro passa a auferir obscenos 20.000 euros, pagos pelo erário público, para exclusivo enriquecimento sem causa do sobrevivente, que já ganhava demais.

Não há qualquer interesse público subjacente a uma situação deste tipo, embora haja suporte legal. Quase sempre há base legal para os maiores assaltos aos cofres públicos, mesmo que os pagadores da conta – o povo submetido a impostos – não tenham a menor idéia do que acontece.

Essa questão conduz a outra, que a ela relaciona-se, no caso brasileiro. Trata-se da possibilidade de se acumularem cargos, funções ou empregos públicos, em detrimento do interesse público. Quando se trata do assunto, os interessados apressam-se a opor que a acumulabilidade está na constituição. Sim, mas e daí? A constituição não é um fato mais consumado e permanente que uma poça d´água, que virá a secar!

Essas acumulações são resquícios de uma visão precaríssima de função pública, uma visão impregnada até aos nervos de interesses exclusivamente privados e individuais. Está disfarçada por meia dúzia de declarações de boas intenções, quase todas meramente falaciosas e sem razões de serem.

Um funcionário público, por exemplo um juiz, pode dedicar-se a atividades empresariais – desde que não seja formalmente o sócio-gerente da sociedade – pode dedicar-se ao magistério. Acaba por não desempenhar a contento nenhuma das atividades a que se entrega, exceto, claro, a empresarial.

Em defesa disso, especificamente da possibilidade de acumulação de magistratura com magistério, diz-se que é medida tendente a trazer os melhores profissionais para o ensino superior. Mas, por que raios consagrou-se a idéia de que um juiz será um bom professor?

As atividades cumuladas devem-se permitir por diletantismo não-remunerado e sem prejuízo daquela que é paga pelo Estado. De resto, é melhor que cada uma seja exclusiva e, por isso mesmo, mais prestigiada pelo seu agente. Ora, um juiz é bom independentemente de ser professor e este não tem qualquer necessidade de ser magistrado para mostrar-se capacitado para o magistério.

A lógica atual implica um imenso desprestígio das atividades puras e principalmente das piores remuneradas, como é o magistério. Tornou-se coisa comum funcionários públicos graduados darem aulas e serem contratados pelas universidades exatamente porque são funcionários graduados. Findam por não serem, nem uma, nem outra coisa.

Um professor não deve sê-lo pela gana de aumentar seus já elevados rendimentos de magistrado. E um professor não deve sentir-se menos valoroso porque é somente professor. Na verdade, o que se entrega apenas a esta função devia ser profundamente cobrado e remunerado como o magistrado, para dedicar-se apenas ao magistério.

Convém fortalecer a noção de serviço público, sem ambiguidades, sem conflitos de interesses, de forma a impor e estimular ao funcionário a dedicação exclusiva. Sim, porque ele teve e terá a possibilidade de optar pelo desempenho de outras atividades. E também porque ele dificilmente poderá arguir que é miseravelmente remunerado na função pública.

O sistema atual aparentemente contempla critérios de ajuste e um deles é a compatibilidade de horários. Esse critério tem sua fragilidade evidenciada por uma rápida passagem pelo exemplo do magistrado. Ora, um juiz que dê aulas à noite, por exemplo, terá cumprido o critério da compatibilidade de horários com a função pública, porque não estará julgando em período noturno.

Todavia, um juiz que julgue adequadamente o volume de processos que a litigiosidade auto-referente brasileira significa nunca terá condições de preparar uma mísera aula, como ela deve ser. Ou, deixará de julgar adequadamente. Não será, enfim, nem bom juiz, nem bom professor e terá retirado a ocasião da universidade ter tido um bom professor.

Outro campo que padece desse hibridismo acumulativo de funções públicas e de pública e privada é a saúde. Os médicos são os reis da acumulação, têm inúmeros empregos, públicos, privados, têm participações ou titularidades de hospitais e clínicas.

Tendencialmente, descuidam das funções públicas e privilegiam o trabalho particular, em detrimento da população mais pobre, que recorre a um serviço público de saúde ruim. Grande parcela tem os empregos públicos como complementos de rendimentos, algo secundário, enfim, relativamente aos seus consultórios privados.

Ora, se o serviço público é ruim – ou pelo menos assim dizem alguns médicos – que não entrem nele! Vão para clínicas e hospitais privados ganharem o que acham merecido e dane-se a saúde pública. Isso obrigaria o Estado a contratar médicos públicos exclusivos com rendimentos compatíveis.

Esse hibridismo, esse contubérnio público-privado, resulta em serviços ruins. Resulta na noção de que o público é apenas um emprego cujos rendimentos devem ser acrescidos pela atividade privada, valorizada pela detenção do cargo público! E desestimula quem se queira dedicar àlgum deles exclusivamente, por convicção.

O may be man, por Mia Couto.

Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.

O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.

A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.

Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.

Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.

Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.

O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.

O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.

Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.

O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.

Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.

O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.

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