Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 62 of 126)

O furriel Tomás, do Lobo Antunes, diz o que é um crepúsculo.

Aqui não vai comentário sobre o Lobo Antunes, ou sobre O manual dos inquisidores. Vai uma transcrição de um trecho esplêndido. Um trechinho de algo que me chamou a atenção por identificação.  Ninguém percebe que os finais do dia, os escurecimentos, têm uma existência própria, uma cor própria, temperatura própria, que cores e sons e tatos misturam-se?

Pelas tantas, o furriel Tomás entra a dizer o seguinte:

… no momento em que o escuro impedir de nos vermos um ao outro esqueça-me que eu faço a mesma coisa: do meu lado e pronto, assunto resolvido, continuo a tratar das hortaliças em sossego, continuo a envelhecer em sossego, já reparou no brilho dos legumes se anoitece, na cintilação do limoeiro, como tudo se torna nítido e claro antes das trevas, o contorno dos telhados, o contorno das janelas, a vibração de susto de água nas cortinas, uma fissura microscópica da parede ou uma minúscula nódoa de grelado agora enormes e nas quais nunca tínhamos atentado, já reparou como os sons e as vozes mudam de cor, íntimos, vizinhos, inquietantes,  como parece que habitamos uma redoma de silhuetas e de ecos…

Pára mim não é assim quanto à nitidez das coisas, mas é assim com o restante e com o que não foi dito no trecho acima. É assim que são os escurecimentos…

Barcelona 3 x 1 Arsenal. Triunfo da arte futebolística.

Impressionante o domínio e a agressividade do Barcelona. Lembra-me as equipes de Telê Santana. Teve à volta de 70% da posse de bola e atacou durante o jogo inteiro, com passes rápidos e jogadas geniais de Messi.

Coitados dos british boys que narravam o jogo na ESPN, com indisfarçável lástima pelo insucesso do Arsenal. É uma gente que não se encanta com a beleza? São presas daquela conversa de que não se deve arriscar, de que o melhor é defender, que futebol bonito é ineficiente?

Narradores da ESPN: escravos apaixonados pelos senhores.

Vejo Barcelona contra Arsenal, no canal ESPN. Vejo e percebo – além do espetacular futebol do Barcelona – como são firmes as prisões da alma.

Os narradores da tal ESPN nasceram em Londres, cultivam a Rainha, tomam chá às cinco da tarde e falam com os incisivos superiores projetados para fora das bocas. São mais britânicos que o Big Ben, mas tentam disfarçar. É pior.

Isso é comum nos escravos saídos das classes médias altas brasileiras. Eles são devotados aos senhores, mais que a si, à beleza, à liberdade. Têm complexo de vira-lata e buscam senhores exteriores. Quanto menos próximos e mais ricos, tanto melhor.

O típico escravo oferece sua devoção ao senhor mais rico e àquele a que acostumou-se a considerar o mais poderoso, o mais tradicional. Os ingleses desempenham bem esse papel de senhores ricos, tradicionais e poderosos, logo são os que mais avidez de servir despertam nos servos brasileiros.

Parece-me que é coisa involuntária, porque narrador de futebol na televisão esforça-se para aparentar imparcialidade. Ou seja, se a servidão, a devoção, transparece, é porque foi maior que algum esforço de contenção. A coisa vem de dentro, é maior que alguma racionalidade, é maior que o assombro de ver este Barcelona jogar.

Eles não dizem mais que lugares-comuns sobre o futebol arte da equipe de Guardiola. Uma e outra obviedade sobre os riscos de deixar Messi dominar a bola. Eles sofrem quando os ingleses perdem o controle, quando batem e tomam cartões amarelos.

Eles amenizam as agressões dos jogadores do Arsenal, a ponto de adentrar o ridículo às escancaras: quando Van Persie meteu a mão na cara de Daniel Alves, o servo narrador pôs-se a dizer que não foi um murro e que por isso não estava caracterizada a agressão!

Bonito, só seria agressão se fosse aos murros. Muito bom…

É proibido urinar na rua! O Brasil tem compromisso firme com a tolice?

Uma mistura de esquizofrenia com burrice leva-nos a considerar prioridades imediatas as coisas mais tolas do mundo. E a roda da tolice gira, incessantemente, e faz surgir uma nova emergência com que todos se preocupam.

É condição necessária que a coisa seja da maior desimportância possível, ou seja algo que só pode ter alguma se for cuidadosa e seriamente tratada.

É condição necessária que a desimportância da moda seja abordada escandalosa e solenemente, mas nunca detidamente. É condição necessária que se admitam uma e outra piada, mas que nunca se pergunte o porquê de alguém ter alçado aquilo a assunto.

Neste momento, a tolice em evidência é a proibição de urinar-se na rua, durante o carnaval do Rio de Janeiro. 500 pessoas foram detidas porque cometiam esse delito gravíssimo. As tevês tratam das prisões, especialistas dão opiniões, um fulano acha isso, um sicrano aquilo.

Sinceramente, gostaria que o governo do Rio de Janeiro tivesse tomado essa iniciativa com o propósito consciente de fazer piada e desviar a atenção das suas fragilidades e problemas reais. Mas, a experiência prova que a tolice casa-se bem com a sinceridade e, portanto, para minha frustração, provavelmente cuidaram dos mijões por acherem isso importante.

Uma pessoa intelectualmente honesta, que visse a coisa desde fora – um estrangeiro – pensaria que todos os outros problemas estavam resolvidos e, então, os zelosos governantes tinham partido para cuidar dos detalhes. Que a implementação da sociedade perfeita estava quase levada a cabo e faltavam apenas detalhes.

Não! Está tudo por fazer e a polícia do Rio de Janeiro prendendo mijões!

Há poucos anos, a entrada no nirvana civilizatório, aqui no Brasil, se daria pela redução da tolerância alcoólica dos condutores, de quase nada a nada. Isso virou assunto a ser discutido, virou ponto de honra, virou medida de enorme seriedade, coisa que nos poria no mundo civilizado.

A mudança de quase nada para nada não podia resultar em outra coisa senão nada. O nirvana não chegou, os acidentes continuaram e aumentaram. De quase nada para nada não podia ser uma coisa importante, qualquer um que pensasse sabia.

Depois, outra forma de se atingir o paraíso veio a tona. Nesse país em que se pode roubar, matar, morrer por omissão de socorro em hospital público, ficar adulto analfabeto, estava terminantemente proibido fumar. Pronto, o mundo estava melhor, a vida em sintonia com os ditames da civilização.

 

Zapatero e Clinton na encruzilhada dos discursos.

José Luis Rodríguez Zapatero, Presidente de Governo da Espanha, disse que apoia uma intervenção militar na Líbia, desde que haja respaldo em Resolução do Conselho da ONU e apoio da Liga Árabe, para não parecer que estão apenas a querer roubar o petróleo. E para não parecer que se trata de neocolonialismo.

Ora, mas é precisamente disso que se trata, de garantir o petróleo e de continuar o colonialismo com tons suaves. Não se cuida de evitar morticínios ou violações a coisa alguma, porque eles acontecem diariamente em locais pobres de recursos e não despertam qualquer atenção.

A questão é que os limites estão muito próximos e invocar as desculpas formais habituais pode ser invocar o nada. Resoluções da ONU há delas para todos os gôstos e inclinações, para justificar o que se queira, conforme os interesses de quem as podem propor e, principalmente, segundo os de quem as podem vetar.

A Liga Árabe existe, ainda? É aquela de Mubarak e de meia dúzia de reis bancados por interesses não-árabes? É isso o que Zapatero acha justificação suficiente? Quantas pessoas de verdade, no Norte da África e na Península Arábica estão preocupadas com Resoluções da ONU ou papéis de Mubaraks e Al Sauds?

A Senhora Rodham Clinton ofereceu, recentemente, um comentário mais interessante que a simples desconexão formal de Zapatero. Este último deixou perceber o real motivo no que dizia ser a aparência a ser evitada. A primeira partiu para a análise errada, para a posição de recomendar aumento da dose de um remédio que já compromete o paciente de morte.

Hilary Clinton disse que os EUA estão perdendo a comunicação. Pode ser, mas não será por falta de bombardeio mediático e, sim por esgotamento da fórmula. Ela disse com a comunicação o que alguns franceses diziam com a manteiga: se algum prato não está ideal, mais manteiga.

Ela, a Sra. Clinton, está errada. Eles podem estar a perder prestígio e respeitabilidade, mas não é por falta de comunicações. Os EUA e a Europa monopolizam as comunicações – sejam elas jornalísticas, sejam culturais ou de entretenimento – para que sempre veiculem mensagens favoráveis a si.

Até os aparentes contrapontos são aqueles permitidos e escolhidos para manter-se uma coleção previsível de objeções binárias. Objeta-se nos limites propostos pelos próprios objetados. Faz-se oposição ao imperialismo nos termos em que os imperialistas acham divertido.

Ocorre que a realidade, vez por outra, revela-se mais forte que a aparência. Imagine-se, por exemplo, que décadas de pobreza em um país rico em petróleo um dia fazem as pessoas ficarem com raiva. E mais litros de tinta ou mais tempo de falação em televisões não adiantarão mais. É uma questão de aliviar-se a pressão, mais que de tentar escamotea-la.

Os EUA perdem prestígio no mundo porque são, objetivamente, os maiores agressores que há no globo. Por conta de suas necessidades internas, sejam de fluxo financeiro para seu complexo industrial-militar, seja para suprir suas necessidades de consumo, distribuem tiros e bombas como nunca se fez.

Assassinam em qualquer parte, aleatoriamente. Iniciam guerras que somente podem trazer lucros a quem vende armas. Criam conflitos antes inexistentes apenas para desviar a atenção para algum escândalo de política interna. São, enfim, um elefante desgovernado, que podem liquidar com vastas quantidades de pessoas ao sabor de uma pisadela aqui ou acolá.

Porém não conseguem livrar-se das explicações dentro de seu próprio modelo. Com relação às revoltas que se alastram desde o noroeste da África até às arábias, insistem nessa tolice de facebook e twitter, como se todos estivessem conectados a essas coisas. Como se os seus meios de inatividade confortável fossem os grandes intermediários das ações dos outros.

Ora, quem estava na rua, aos gritos, a trocar tiros, a incendiar carros, não estava em casa a escrever mensagens de 140 caracteres! Se isso fosse verdade – essa estória de revolução graças à internet – todas as anteriores teriam se devido ao papel! As revoltas devem-se às insatisfações, não aos meios destas propagarem-se.

Acontece que o paciente vai continuar a tomar os mesmos remédios, em doses cambiantes, até morrer ou curar-se por ele mesmo. Na verdade, os médicos não podem ver a doença, porque então teriam somente duas opções: rasgar suas licenças de médicos ou aceitarem-se assassinos.

 

Um Barcelona quase perfeito.

Acabamos de ver Barcelona x Zaragoza. Embora tenha findado apenas em um gol a zero para o Barça, foi uma exibição quase irretocável de posse de bola com passes rápidos. E o goleiro do Zaragoza esteve em grande dia.

Não foi à toa que a equipe espanhola ganhou o mundial quando deixou de ser fúria e tornou-se o Barcelona com o goleiro do Real Madrid!

Grande oferta de Milagres: o comércio evangélico.

 

Este é um templo da Igreja Mundial do Poder de Deus, em Campina Grande, Paraíba. Uma faixa de pano promete grande concentração de poder e milagres! A foto está ruim porque tirada do carro em movimento, desde um telefone, mas o essencial está lá.

É uma dessas denominações que negoceiam com o sucesso financeiro e os milagres, na lógica da retribuição de favores entre o pedinte e o Deus a quem se pede. Não há espaços para muitas sutilezas, nem licenças poéticas. Por exemplo, nota-se que não há o comércio da salvação, de forma ampla.

Nestas denominações, o comércio é de soluções imediatas para problemas concretos, tratado pelos intermediários que são os pastores. Os corretores dos favores divinos possuem o conhecimento dos desígnios divinos e expõem aos pedintes o que eles precisam fazer para obter os favores.

Esse deus é uma figura híbrida, porquanto não se apreende pela teoria da graça, nem pela predestinação. Ele é um deus em constante agitação com seus apetites imediatos e sedento de manifestações de adulação. É um rei a quem se deve visitar sempre com presentes, mesmo sem se saber se gostará deles e que sempre se fique nas ante-salas dos assessores.

Um deus a quem se deve seduzir, cuja vontade pode ser perquerida, passível de ser agradado ou desgradado por ações de criaturas suas, por ações que deviam para ele serem previsíveis e sem novidades. É, pois, um deus que se afasta nitidamente da definição doutrinária que lhe dá o atributo da onipotência, entre outros.

Claro que dar atributos a um deus já é um passo em direção à loucura e um namoro firme com a heresia. Um deus criador é o que é. Ele é independentemente dos adjetivos que lhe dão suas criaturas, que não o podem apreender simplesmente por meio da linguagem, dando-lhe predicados.

Mas, no caso do deus das denominações evangélicas que prometem milagres e poderes e favores, a absurdidade é mais flagrante. Digo mais flagrante no sentido de evidente, não que seja mais ou menos que outra. Sim, porque o deus omnipotente, omniciente e omnipresente é também absurdo.

O dos três atributos é absurdo pelo que não pode ser conhecido nestes termos, ou seja, não é objeto de investigação que conduza a ser adjetivado propriamente. O do comércio de favores é absurdo porque é contraditório.

Se é um deus que pode dar tudo a quem lhe pede – omnipotente – por que precisa ser agradado segundo padrões humanos para conceder esses favores? Se assim é, esse deus não é livre, porque precisa ser agradado. E, se não é livre, não tem o poder de sê-lo e, portanto, não é omnipotente.

Mas, aí abre-se uma senda para a percepção do caso. O grande fazedor de milagres é precisamente o pouco poderoso, assim como o mágico é precisamente o que menos altera a realidade. O milagre é a metáfora mais colorida que há, o recurso retórico mais forte e drástico, muito mais eficaz que a repetição e a ênfase discursiva ou de gestos.

Não é à toa que a enorme maioria dos milagres operam-se por intermediários. É sinal de que os intermediários são seus próprios realizadores, porque os deuses não têm porque os fazer. Uma deidade criadora não faz remendos pontuais na criação, pois melhor faria descriando-a e recriando-a novamente, com os erros sanados.

Nada obstante, os milagres existem, como as bruxas. Mas, são, como as bruxas, manifestações de poucos poderes, sinais ou metáforas, ou exortações. Costumavam ser entendidos mais pudicamente, mais reservadamente, até em respeito à sua significação e à sua ineficácia como meio de atuação ou resolução de problemas.

Mas, são comerciados e anunciados como fartos e frequentes e à disposição de quem deseje seguir o roteiro que leva a eles. Milagres que podem ser mágicas subtis e imediatas ou podem ser processos verificados em prazos variáveis. Que geralmente envolvem a obtenção de disponibilidades econômicas, de pagamento de dívidas.

Milagres como ganhos na loteria, como obtenção de tranquilidade, como um nome apenas para uma vantagem que se pode obter mediante um jogo de busca-e-recompensa. Milagres que são a negação da graça, porque se obtém por insistência e não se obtém apenas por ter sido a insistência pouca.

Grita-se mais alto para obter o milagre e, se não se o obtém é porque gritou-se pouco. Paga-se dinheiro por milagre e, se ele não veio foi porque pagou-se pouco. É preciso pedir ao intermediário, pagar a ele, em público, pois ele sabe de que o deus gosta. Ele mesmo, o intermediário, tem que ser um exemplo de beneficiado por milagre, a estimular os pedintes.

Ele será exemplo no carro que tem, nas vestes, na morada. Seu êxito material é seu certificado de amizade com o deus a quem apresenta as requisições dos pedintes. Sua intimidade e a condição de favorito percebem-se no seu sucesso crematístico, único sinal aceito na lógica mercantil.

 

Judaísmo no saldo de verão, em Campina Grande.

 

Todos os anos acontece, em Campina Grande, na época do Carnaval, um encontro chamado Nova Consciência. Era para ser um evento com ares ecumênicos e um certo sabor a exotismo. Nos inícios havia um predomínio de Hare krishnas e toda sorte de orientalismos superficiais, com os mantras, incensos e gente trajada com aqueles bonitos mantos bracos e sandálias de couro.

De uns tempos para cá, o que era interessante e pitoresco foi tornando-se uma espécie de conflito pelo predomínio, a partir da reação dos evangélicos fundamentalistas, que devem ter visto naquela agradável confusão de vários tipos de gente alguma arte do diabo, que eles vêm o príncipe do mundo por toda parte.

Esses fanáticos barulhentos criaram um evento próprio deles, na maior área pública da cidade e o chamaram Consciência Cristã, para deixar bem claro que não tinha nada de nova, ampla ou aberta, era só cristã, exclusiva e pronto.

Essa consciência cristã reune-se aqui pertinho de casa e faz um barulho dos infernos, como todas as reuniões dessa gente. Não sei, mas o medo dos demônios deve fazê-los gritarem como se no inferno estivessem.

Todavia, o grupo mais interessante desses todos é o dos judeus que se dizem Amigos da Torá. Prova que no Brasil são possíveis todos os fundamentalismo, mas nenhuma ortodoxia. No início, tratava-se de uma tentativa de harmonização dogmática que atendia pelo nome Beit Teshuvá.

Era um grupo de autodenominado judaísmo messiânico, que buscava por em um mesmo saco judaísmo e cristianismo. Essa incoerência flagrante ficava clara na impossibilidade de achar que o messias veio e achar que ele ainda vem, ao mesmo tempo! E também em achar possível algum judaísmo que aceite o filho de Deus consubstancial a Ele, suprema heresia.

Devem ter percebido que lidavam com elementos impossíveis de se misturarem conceitualmente e partiram para dizer-se judeus, assim mais pura e simplesmente. E agora são os Amigos da Torá, que divulgam o seu quinto encontro Judaico por meio do panfleto acima.

O papelzinho tem muito pouco de judaico, pois o meio próprio de fazer proselitismo deles não é esse. Tem, sim, ares de propaganda de auto-ajuda, o que se percebe no subtítulo Judaísmo: mais que uma religião, um estilo prático e ético de vida!

Parece coisa de feira de curiosidades e tem sessões de Cine – kasher. Ora, diz-se kasher a comida própria, ou seja, conforme às prescrições da Lei. Não se sabia da existência de um cinema kasher, quer dizer, adequado àlguma lei judaica, mas tudo bem…

Não há propriamente absurdo em haver judeus que se redescubram, aqui em Campina Grande. Com efeito, poderia haver um e outro indivíduo com ancestralidade distante naqueles poucos sefarditas que ficaram no nordeste do Brasil depois da expulsão dos holandeses.

Todavia, as tradições desses sefarditas de origens predominantemente ibéricas foram diluindo-se até quase perderem-se totalmente. Diferentemente, os asquenazitas chegados mais recentemente, notadamente nos princípios e meio do século XX, têm sua identidade bastante marcada e não precisam redescobrir-se judeus.

Então, a coisa toda é bastante inverossímil, embora seja possível, claro. Mais provável que a redescoberta de origens judaicas remotas é o anseio de ser judeu, que se percebe, por exemplo, em certos grupos reformados, como alguns batistas. Há certa fantasia de pureza original e exclusividade no judaísmo e isso seduz um e outro nesse caldeirão de superficialidades que é o país.

Deviam, agora, deixar-se seduzir pela mania das genealogias, uma das formas mais interessantes de loucura que acomete as pessoas. E traçar linhas extensas desde Campina Grande até às muralhas de Jerusalém!

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