Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 125 of 126)

A armadilha da auto-referência. O exemplo dos cartórios no Brasil.

Auto-referência é a atitude consistente em mascarar uma finalidade pessoal ou corporativa, que deveria ser pública. Quer dizer, fazer por si e pelo grupo o que deveria ser feito pelo conjunto todo da sociedade, de forma velada. Ela sempre se apresenta como um tremendo elemento de confusão e de deslocamento de qualquer discussão do centro do problema.

Atualmente, por exemplo, discutem-se os cartórios no Brasil. Chovem lugares-comuns: estruturas arcaicas, feudos dominados por meia dúzia de privilegiados e por aí vai. Isso tudo é verdade, mas é curiosíssimo notar que a discussão, no momento seguinte, é capturada pela lógica auto-referente e encaminha-se no sentido por ela desejado.

Ao invés de se discutir a utilidade dos cartórios, que são estruturas redundantes, partiu-se para discutir a forma de obter-se a titularidade de um deles. Inseriu-se um elemento de moralismo redentor e desviou-se o foco do centro da questão. Ora, se um cartório bem podia não existir, que importa que o titular seja nomeado ou aprovado em um concurso público?

Importa é saber se deve haver cartórios, se eles são necessários. Depois disso, discute-se a forma de obtenção deles. Para a vastíssima maioria da população, o dono de um cartório é um privilegiado, pouco importando a forma de obtenção do privilégio. E a qualidade dos serviços tampouco dependerá disso. A discussão nesses termos só interessa ao grupo auto-referente dos potenciais detentores de cartórios.

Tome-se um exemplo. As prefeituras tem cadastros da propriedade imóvel, a partir de que lançam o imposto predial urbano. Resulta que a detenção dos mesmos registros por cartórios é redundante. Ora, se a coisa for vista com clareza, fica claro que as prefeituras podiam muito bem registras as transferências de propriedade e que os cartórios na verdade existem a bem deles próprios!

O problema não é o hardware. É, sim, o carro sem combustível.

Caro Severiano, quando vires essa postagem, toma como um convite para saíres da preguiça e voltares a escrever. E não leves a mal esse chamamento meio público, mas nesses assuntos tu tens muito mais talento e conhecimento que eu.

Voltei-me a essa matéria porque estamos na iminência de ter os serviços da GVT em Campina Grande. Trata-se de uma empresa de telecomunicações, recentemente adquirida pela Vivendi, francesa, que tem ofertado prestações de conexão de internet muito boas, se comparadas ao que se tem atualmente.

Essa questão das conexões, muito ruins, traz à mente a absurda desproporção entre a oferta de hardware e de conectividade. Embora computadores e outros petrechos tecnológicos sejam caros, no Brasil, esse não é propriamente um grande problema. São caros, mas não são impossíveis. Além disso, para a maioria das coisas a que serve de ferramenta um computador, para o usuário comum, o que existe vai bem.

O gargalo são as conexões, realmente muito ruins. Há que se insistir nisso. Eu, por exemplo, uso uma conexão 3g em casa, dessas de celular, da operadora Claro, do multimilionário mexicano. No preciso momento em que escrevo essas linhas, a conexão nada tem de 3g. Está lentíssima, operando em sinal 2g e caindo sempre. Lenta e instável, portanto.

A parte que me cabe, nessa estória, está sendo cumprida, quer dizer, as contas são pagas. E não só eu, mas todos cumprem sua parte, até porque se não pagar o serviço é suspenso. Quem não age corretamente são as empresas e o governo regulador. As empresas vendem e não entregam, sob o olhar complacente do regulador.

E veem-se muitos preocupadíssimos em ter computadores de última geração, telefones com mil e um recursos, o mais recente lançamento da Apple, o Blackberry mais poderoso e por aí vai. Acabam por ser um Jaguar sem gasolina no tanque, ou uma Ferrari em piso esburacado!

Exclusão é método que gera reação em cadeia. São Paulo é uma inviabilidade coletiva.

Exclusão, aqui, está em sentido mais amplo que o meramente econônimo. Quer dizer um modelo que, tão entranhado, vive-se como se nada mais houvesse alternativamente. E conduz ao suicídio coletivo, antecedido por níveis de desagregação social crescentes.

O fulano médio que se encontre em um engarrafamento de 150 Km, em São Paulo, por exemplo, sonha com um helicóptero. Inserido em um mar de absurdidade, de tempo perdido, de energia despendida, de potência que não se realiza, de destruição da paciência, de destruição da saúde mental e física, sonha com um helicóptero.

Sonha e não no terá, nunca. O fulano é incapaz de sair de quanto a propaganda inseriu-lhe na mente, de perceber que as maravilhas da mobilidade social são menos reais do que lhe fazem crer. Eventualmente, lembrará que a frota de helicópteros de São Paulo cresceu vertiginosamente. Não lembrará, é certo, que o crescimento foi vertiginoso, mas muito menos que o das pessoas e dos carros.

Não lembrará que a maravilhosa São Paulo, autoproclamada cosmopolita e oferecedora dos melhores serviços, dispõe de uma rede de metro cuja extensão é de um terço da que tem a cidade do México, outro bom paradigma de caos urbano. Não lembrará que a verdadeira riqueza é locomover-se de carro se isso for um desejo. Ou seja, riqueza é poder ir caminhando, se assim o quiser o fulano, ou de bicicleta, ou de metro, ou de ônibus, ou ficar em casa!

Não lembrará que os habitantes dos bairros pobres e das favelas – talvez o fulano médio nem se lembre que isso existe – estão insatisfeitos com suas vidas. E que, deseducados há gerações, reagirão como sabem, ou seja, selvaticamente. E essa reação pasmará o fulano, que acreditava na passividade daquela gente sem nome, que é pobre e desassistida porque quer, enfim. O fulano acredita nisso, sinceramente. Por isso mesmo, coerente consigo próprio, acredita que pode ter o helicóptero.

Entrou tão fundo na sua alma a propaganda de que ele pode ser o que quiser, desde que siga os manuais de prosperidade, que ele destroi-se em culpa. E, bem instalado na lógica da exclusão hierarquizada, quer a destruição de quem está abaixo dele e ousa reclamar, quando o certo era ler o manual e resignar-se.

Forte na sua colecção de idéias feitas, o fulano rejeitará qualquer coisa que vise a melhorar a vida em comum. Como um viciado, busca a solução em mais veneno e quer que todos tomem os mesmos venenos. O fulano não perceberá que menos exclusão, que a real prestação de educação pública, que a real prestação de assistência médica gratuita, que a real prestação de serviços de transportes públicos não são, aqui, uma questão de partido político ou coloração ideológica. São uma questão de inteligência ou burrice.

Retrato do Brasil. O que é saúde pública para pobres.

A fotografia acima quer dizer que durante um mês, o de janeiro, não se realizarão exames médicos na rede pública de saúde, em Campina Grande, Paraíba.

Suponhamos, para alerta de quantos julgarem isso banal, a seguinte situação. Alguém tem um câncer diagnosticado. Precisa urgentemente de exames para a determinação dos parâmetros do tratamento. Sabe-se que nessas doenças o tempo é um fator essencial. Ou seja, este paciente perderia preciosos dias de tratamento por conta dessa incúria.

Isso é, sem eufemismos suavizantes, um retrato de como funcionam serviços públicos cujos usuários são as camadas mais pobres da população brasileira. Um serviço essencial é interrompido como se fosse a coisa mais trivial do mundo, que não acarretasse problema algum. E, realmente, é revelador de certa mentalidade dominante. Quer dizer, para os mais pobres os serviços públicos são prestados como se fossem um favor, não uma obrigação constitucionalmente prevista.

Convém lembrar que a Constituição brasileira prescreve a universalidade da saúde pública e a continuidade dos serviços e que, portanto, tal conduta é frontalmente contrária à lei mais importante desse país. Convém lembrar também que os recursos financeiros para os serviços de saúde – administrados pelos Estados Federados e pelos Municípios – são eminentemente repasses federais. Ou seja, o governo central repassa os dinheiros e os outros entes sentem-se à vontade para condutas deste tipo.

Às vezes é interessante recorrer à exageração para propor alguma comparação. Suponhamos, por exemplo, que a companhia de fornecimento de energia elétrica informasse ao secretário de saúde que interromperia o fornecimento por um mês, para sua residência. Ora, seria o escândalo público, repercutido diariamente nos meios de comunicação institucionais.

A ignorância afirmativa. Ortega y Gasset profetizando.

O que é característico deste momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito à vulgaridade e impõe-no onde quer que seja. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. A massa arrasa tudo o que é diferente, egrégio, individual, qualificado e selecto. Quem não for como toda a a gente, quem não pensar como toda a gente, corre o risco de ser eliminado.

Esse trecho, retirei-o da Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset, a mente mais clara do século XX. O momento de que ele fala é o final dos anos vinte do século passado, mas tem se tornado todos os momentos. Uma advertência sempre necessária para evitarem-se mal entendidos é que massa  não é um conceito econômico – como o próprio esclarece no livro – ou seja, não é sinônimo de pobres.

Essa força uniformizante pelos padrões mais baixos, intelectuais e de comportamento, é a mais intensa de quantas agem na sociedade. A uniformização acrítica está para as massas como a muralha estava para um burgo europeu medieval. Ela está para as massas como a claudicante noção de merecimento está para as classes médias brasileiras. Ou seja, é um elemento de conservação.

E Ortega foi muito agudo na observação do que é a diferença específica. Ela não se encontra na vulgaridade, que sempre houve em altas proporções. Encontra-se na sua afirmação como regra, na sua proclamação como um direito, na sua elevação a padrão cuja infração acarreta eliminação. A superficialidade do técnico detentor de um cabedal de conhecimentos e que se aventura a opinar em tudo não é o novo. O sapateiro que pretendeu imiscuir-se na fazedura da escultura toda é exemplo antigo.

Mais novo é ser isso a regra e estar à vontade a superficialidade para impor-se de rosto descoberto, declarando-se o normal, o que todos acham, o padrão fora de que nada pode haver. Todos têm idéias de tudo e não desconfiam minimamente que essas idéias podem ser uma tremenda coleção de bobagens, irrelevências. Ao contrário, a vulgaridade comporta-se com uma segurança enorme, está muito à vontade, certa de sua predominância social, mas incapaz de compreender que predomínio e exclusividade são coisas diferentes.

Encontramo-nos, pois, com a mesma diferença que existe eternamente entre o estúpido e o perspicaz. Este surpreende-se a si mesmo sempre a dois dedos de ser estúpido; por isso faz um esforço para escapar à estupidez iminente, e a inteligência consiste nesse esforço. O estúpido, pelo contrário, não suspeita de si mesmo: julga-se discretíssimo, e dai a invejável tranquilidade com que o néscio se alicerça e instala na sua própria necedade.

Não desconfiar de si próprio, instalar-se dentro de si, com o acervo de lugares-comuns possuídos, enfim, ser-se hermético. Eis uma inclinação pessoal que dá inércia ao comportamento social da afirmação da vulgaridade do todos  pensam assim. Elas se retroalimentam.

Ainda lembro de um episódio acontecido comigo numa conversa com um colega de trabalho, há vários anos. Pelas tantas, meu interlocutor saiu-se com essa: Olha, Andrei, só tu pensas assim. E abriu um sorriso irônico, triunfante e malicioso, como de quem põe o outro em xeque.

Impressionante era o fulano usar a variante do todo mundo pensa assim – pela excludente, eu era o infrator, porque era o único a não pensar como todo o mundo – como argumento. Isso é uma assertiva, mas não é um argumento, falando-se propriamente. Quer dizer, a própria situação em que o fulano está imerso tornou-se argumento de autoridade! E argumento triunfante, devastador, o último e mais forte, que já não admite réplica. Mas, insisto, isso não é um argumento, é no máximo uma proposição a ser verificada. Na ocasião, eu calei-me, e hoje faria o mesmo.

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto.

O maior poeta em língua portuguesa que já li. Advirto que li poucos e que a poesia para mim é difícil. O poeta e a poesia são coisas diferentes, embora evidentemente relacionadas. A obra tem uma dramaticidade objetiva, ou seja, não retirada de alguma dramaticidade subjetiva do autor, projetada na criação. Neste poeta, isso fica muito claro.

João Cabral de Mello é formalmente perfeito e não é só forma. Segue um trecho de uma das partes do grande poema Morte e Vida Severina. Pelas tantas, o retirante do poema depara-se com o enterro de um trabalhador do eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério. Ponho apenas um trecho, pois como já dito, o poema é grande.

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.

é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe

neste latifúndio.

Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas à terra dada
não se abre a boca.

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