Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 117 of 126)

A cidade não pára…

Exatamente 1 ano atrás, um dos únicos dias em que me perdi em Salamanca… Infelizmente não estava sozinho nesse dia!

Em compensação, foi o dia que ficou na lembrança de todos… Dos males o menor, fica a saudade…

=)

Perdidos em Salamanca

Perdidos em Salamanca

Comentário antecipado de Andrei: 1 hora depois da foto, a temperatura deve ter aumentado uns 5 ou 6 graus, e todos estavam muito satisfeitos comigo!
=)

Severiano Miranda.

Gracias a la vida, por Mercedes Sosa.

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Não há muito que falar da canção, que ela já diz e soa bastante. Pensava como era e é complicado qualquer pouca de mestiçagem, no mundo dominado por imaginário de pureza étnica. Mercedes Sosa, de nítidos traços indígenas era La Negra.

E reparava como ela pronunciava como os chilenos, peruanos e equatorianos. Quem já falou com argentinos de Buenos Aires compreenderá o que digo.

Quando os selvagens tomam a cidade. Uma vaquejada em Campina Grande.

Há uma vaquejada aqui em Campina Grande, neste final de semana. Organizadores e promotores dela ufanam-se de ser a maior do Brasil. Pouco me importa o tamanho do evento, pois o tamanho dos aborrecimentos gerados, esse é bem grande.

A derrubada do boi por dois cavaleiros é prática antiga e bem enraizada na cultura nordestina. Tem matrizes ibéricas e diferencia-se do que os norte-americanos – e muitos brasileiros deslumbrados – chamam rodeio. Conseguiu-se tornar essas corridas de derrubada do boi em grandes festas.

Por aqui, duas formas de má-educação já são bastante frequentes e notáveis: colocar músicas em alturas estupidamente altas e fazer todo tipo de absurdos no trânsito. Pois a ocorrência da vaquejada consegue piorar esse cenário já terrível.

Nesse preciso momento, um selvagem põe uma música horrível em volume ensurdecedor, em algum sítio nas ruas adjacentes à minha residência. Na verdade, pouco importa a qualidade da música, pois de 120 decibéis em diante qualquer som é insuportável. E, certamente, não é um caso único. Os mal educados possuidores de carros com aparelhos de som dignos de boate estão por todo os lados.

O trânsito também apresenta uma piora, pois o pior sempre é possível. E isso não se deve apenas ao nível alcoólico dos condutores, que sempre está elevado nos finais de semana. A coisa piora por conta do estado mental de descompressão, de falta de limites.

Escandaloso mesmo é que os praticantes desses absurdos não acreditam minimamente que estão fazendo algo desagradável para os outros. Esse é o sinal verdadeiro da barbárie, ou seja, achar que ela é o estado normal.

Pátria Basca e Liberdade.

O País Basco compreende terras em Espanha e na França, habitadas por um povo muito antigo e falante de uma língua sem parentescos latinos próximos. Essa gente orgulha-se de não ter sucumbido a Caio Júlio César, uma figura a que nenhum rei de Espanha, nem mesmo Felipe II, compara-se.

Foram inseridos na ficção política que se chama Espanha e são a nação mais rica dela. Foram e são alvos da insistência dominadora de Castela, que não recua do seu intuito de subjugar os bascos e pô-los a seu serviço. Como a tarefa não se resolve bem somente com discursos, Castela, pragmaticamente, sempre recorreu à força. Na Guerra Civil, o povo do planalto seco voltou a dar exemplos de seu pouco apreço por limites. Guernica é um exemplo bastante eloquente disso.

Os bascos não querem ser espanhóis e isso é tão evidente quanto o azul do céu de Madri. Não significa, todavia, que todos sejam partidários da luta armada mantida pela ETA, já que o consenso dá-se com relação aos fins, não aos meios. De fato, a maioria da população rejeita as violências dessa organização, ao mesmo tempo em que nutre um imenso desprezo por Castela e sua simbologia imperial.

O que me chama muitíssimo a atenção no caso basco é a indignação do dominador com a relutância do dominado em aceitá-lo. Ora, é preciso ser bastante arrogante para não compreender e aceitar que o outro não receba o dominador de braços abertos, como aos emissários dos deuses. E, os castelhanos têm a medida certa de presunção para assumir essa atitude mental. Enfim, é o urubu com raiva do boi que não quer morrer, mais uma vez.

Reclamam das violências – pouco falam das próprias – e da altivez basca. Difundem que a solução é uma pacificação de mão única, ou seja, sem mais palavras, a aceitação do domínio e a aniquilação da identidade própria. Claro que isso seria uma solução, se os bascos assim quisessem.

Outra solução era deixa-los cuidar de si, como querem. Mas, assim, Madri perderia receitas e teria seu orgulho imperial ferido.

O genocídio armênio e o Departamento de Estado.

Técnica otomana de eliminar armênios.

A partir de 1915, os turcos iniciaram um extermínio sistemático de populações armênias do Império Otomano. Estima-se que até 1923 à volta de um milhão e meio de armênios foram exterminados, como resultante de uma das linhas de ação dos Jovens Turcos. Há de se reconhecer: matar um milhão e meio de pessoas em oito anos é muito trabalhoso, embora japoneses e alemães já tenham mostrado mais eficiência nessa matéria.

No palco dos concertos internacionais, os governos turcos, desde então até hoje, negam o genocídio. Negam de maneira bastante eloquente, pois chega a ser crime, na atual Turquia, falar sobre isso. Fazer o que fizeram é brutal. Negar, afasta a hipótese de perguntar as razões. Imagino que, se um dia Constantinopla for retomada, eles, os turcos, vão se abster de ficar indagando as razões, por imperativo de coerência.

Consumado o fato, os turcos apostaram no sentido correto, por ser o mais provável historicamente. Apostaram no esquecimento que as negações e manobras para confundir quase sempre conseguem obter da comunidade internacional. Todavia, parece que o risco de se terem equivocado é bastante grande, pois os armênios, ainda que inicialmente dispersos, não se dispuseram a perder sua memória, nem a ficarem resignadamente calados.

Muito lóbi foi feito para se obter o mais importante reconhecimento do genocídio, o dos Estados Unidos da América. E resultou que o Congresso Norte-Americano está em vias de votar uma moção de reconhecimento da ocorrência do genocídio. Contudo, o Presidente Obama, por meio da Secretária de Estado Hillary Clinton, opõe-se ao reconhecimento daquilo que até as águas do Bósforo sabem.

Os Estados Unidos não querem desagradar o governo turco e, obviamente, põem acima de qualquer proclamação de uma verdade histórica seus interesses estratégicos imediatos. O Congresso, esse também pode ter dado andamento à inciativa somente para por o Presidente na difícil situação de ter que veta-la. Ou seja, o de sempre, um chantageando o outro. Naturalmente que deve haver um e outro preocupado seriamente com o reconhecimento, pois a população do mundo não é toda de conspiradores e chantagistas.

Não discuto as premências estratégicas dos Estados Unidos, que isso é assunto e interesse deles. Mas, creio que o Presidente Obama talvez pudesse tentar jogar visando mais ao futuro. Ao contrário do que sempre assume a diplomacia norte-americana, a história não é tão desimportante, nem tão fácil de esquecer. E pode estar em tempo deles tentarem, com alguma inteligência alem das bombas, diminuir os rancores que alimentam contra si.

Um dia, a vontade de retomar Constantinopla pode tornar-se a de tomar Washington, também.

Os reatores nucleares da Marinha brasileira.

O reator de Angra II.

O Brasil tem duas usinas de produção de energia a partir da fissão do urânio, ambas em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Também há uma terceira em construção, no mesmo sítio. Dessas usinas, uma tem tecnologia alemã e outra norte-americana. Resultam de acordos celebrados na década de 197o e significam a tentativa de domínio, ainda que bastante tardia, da tecnologia nuclear.

Paralelamente aos projetos das usinas de Angra – adquiridas no exterior – o Brasil partiu para o desenvolvimento de tecnologias próprias, por meio da Marinha, visando a deter o conhecimento de todo o ciclo nuclear, ou seja, das etapas que vão da extração do urânio das jazidas, passando pelo enriquecimento até obtenção do material físsil, até ao projeto e construção de reatores.

Ademais dessas etapas do ciclo, os projetos da Marinha visam ao desenvolvimento de reatores pequenos, a serem utilizados em submarinos nucleares. E, obviamente, também ao desenvolvimento dos cascos desses submersíveis de propulsão nuclear. É uma tarefa mais difícil que a construção das usinas de geração, como as de Angra, porque implica na drástica redução do reator.

O programa da Marinha sofreu muitos reveses, quase todos imputados aos contingenciamentos de recursos. Falar dessas limitações orçamentais como se fossem uma isolada causa, sem outras antecedentes, foi a forma consagrada de turvar o entendimento. Todas as dificuldades impostas à Marinha deveram-se à sucumbência a interesses externos ao Brasil. Com a sucessão de governos que fizeram bem o papel de corretores de venda do país, isso foi relativamente fácil.

A opinião pública desempenhou também sua parte nesse teatro. Sem saber bem porque, alimentada por constantes rações de informações fragmentadas e opinativas, pôs-se ao lado do repúdio pelo domínio da tecnologia nuclear, assombrada por fantasmas criados por quem detém essa tecnologia e não renuncia a ela de forma alguma. Enfim, o domínio consiste em convencer o dominado a não querer o que viabiliza o dominador.

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Timóteo 2 : 9 – 15.

“9.    Quanto às mulheres, que elas se apresentem em trajes decentes e se enfeitem com pudor e modéstia. Não usem tranças, nem objectos de ouro, pérolas ou vestuário luxuoso;
10.    mas enfeitem-se com boas obras, como convém a mulheres que dizem ser piedosas.
11.    Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda a submissão.
12.    Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Portanto, que ela permaneça em silêncio.
13.    Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.
14.    E não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou.
15.    Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade.”

Sem mais.

Severiano Miranda.

Zorba, Kazantzakis e a Páscoa.

Não temo nada. Não espero nada. Sou livre. Inscrição na lápide de Kazantzakis.

Afinal, reli Zorba, de Nikos Kazantzakis. Nesse caso, minha memória estava já meio puída e as lembranças não foram tão precisas. Foi próxima a uma primeira leitura, com todas as vantagens e desvantagens que dai decorrem. Uma terceira ocasião será quase a segunda, há tempo.

Não é possível aprisionar uma obra ou o seu autor nas circunstâncias temporais, geográficas e culturais que os rodeiam. Tampouco é possível vê-los de maneira puramente abstrata e desligados totalmente dessas circunstâncias. Ora, Kazantzakis era grego, cretense, pariu Zorba em 1943, em sua lingua repleta de coloquialidades cretenses. Fê-lo no período da segunda guerra, após a dura retomada de partes da Grécia dos turcos.

O autor viu-se excomungado pela Igreja Ortodoxa Grega em função de A última tentação de Cristo. A excomunhão é muito reveladora de seu âmbito de pensamento, dele e da Igreja Ortodoxa. Ela faz sentido inserida em um movimento que, iniciado em Nicéia, passa por Calcedônia e permeia a história da ortodoxia: a preocupação extrema e constante com as naturezas do Galileu. Assim, Kazantzakis não escapou à preocupação ortodoxa nesse seu A última tentação. Zorba tem ligações com essa fonte, até porque liberdade e contingência podem ser vistas a partir desse prisma.

O macedônio Zorba coloca a liberdade e a contingência fora da apreensão intelectual e não se lança como exemplo ou proposta de compreensão. Não é subversivo nem conformista, ele é ele e sua vida de cada instante, inserido nas identificações que estão à volta.

A personagem é um viajante, embora não propriamente um aventureiro clássico, e os seus destinos confirmam um forte elemento de identidade cultural entre os lugares visitados. Não se deve desprezar que os países onde esteve, a Rússia, a Macedônia, terra natal, Creta, a Sérvia, a Bulgária têm um ponto em comum, além do alfabeto: todos são ortodoxos. Mas ele não é minimamente religioso!

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O reino dos meios, ou a caixa vazia que nos encanta.

O Enterro do Conde de Orgaz, em imagem não-HDMI, não-blu-ray, não…

Se aqui fosse o local adequado, eu exporia minhas culpas por certas perversidade que cultivo em potência, fechadas na minha cabeça.  Portanto, nada de culpas, somente as idéias.

Por exemplo, se eu pudesse, andava com equipamentos para fazer provas cegas de vinhos. Então, sempre que estivesse entre médio-classistas faladores de vinho, eu poria os copos – todos iguais – na mesa, e as garrafas – todas iguais e sem rótulos. Encheria os copos até à metade, uns com o vinho seco mais ordinário que exista e outros com vinhos mais caros e até uns com os caríssimos.

Ofereceria, primeiro, os mais ordinários e me deliciaria com os provadores exultantes da sua capacidade de saber que era uma bebida de má qualidade. Estariam seduzidos, os provadores, e agora auto-confiantes de suas capacidades gustativas. Então, eu poria os médios e superiores e a coisa resultaria em pessoas com vontade de me assassinar como a um porco, sangrando-me no pescoço. Não daria tempo nem de rir, teria que sair correndo sem os copos.

Bebem-se rótulos e compram-se siglas, essa é a constatação. O negócio das siglas vem a propósito dos formatos de reprodução de imagens. Há televisões de plasma, de LCD, imagens Blu-Ray, HDMI, 3 D, mil maravilhas tecnológicas, enfim. Uma prova cega, aqui, não seria má idéia, também.

Os meios são glorificados por quem despreza em muito os conteúdos. Apreciando os meios, as pessoas tentam apropriar-se da imagem de cultivadoras dos conteúdos, e disfarçam sua incapacidade para a matéria exaltando os instrumentos que a podem modelar. Não digo que as técnicas sejam pouco interessantes, que elas são e há os especialistas. Digo que o consumidor, esse nada entende, senão superficialmente, tanto das técnicas quanto de suas potencialidades.

Já se imaginou se alguém pudesse conversar com Domenikos Theotocopoulos, o cretense que os castelhanos chamavam El Greco, miraculosamente ressuscitado, e se pusesse a falar com ele sobre as fibras das telas e os pigmentos das tintas? São assuntos interessantes esses, mas essa breve ressureição do Grego, gastaria ela o interlocutor a falar disso? Nem uma palavrinha sobre o Enterro do Conde de Orgaz?

Pois essa constante Páscoa de ressureições são as reuniões médio-classistas. Tente falar de um Antonioni sem algum preâmbulo da televisão HDMI.

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