Um texto de Andrei Barros Correia.
Um velho brasileiro digno acreditou que o país podia ser outro. Evidentemente, essa crença ocorreu na época própria e depois foi se esfumaçando até deixar de ser qualquer coisa, mesmo amargura. Não se desintegrou a ponto de tornar-se nada, mas aproximou-se de ser um faca só lâmina. Retraída busca de objetividade, de compreensão. Já morreram, o velho, a crença, a objetividade e a lâmina.
Um dia, vivia o país a decadência pronunciada, mas sob as nuvens do ufanismo da moda, quer dizer, da redenção liberal que então se anunciava, o velho teve ocasião de encontrar um professor inglês. O que o lente britânico fazia em uma grande e pobre cidade tropical, não sei, mas posso imaginar. São os descendentes dos pintores, botânicos, gravuristas e naturalistas europeus, que sempre vieram a esta terra exótica, de verde muito verde, azul muito azul.
A botânica e a natureza que seduziam nos XVIII e XIX, no século XX tinha-se tornado em ciência social e economia. Realmente, deve-se convir que somos um laboratório de extravagancias muito interessante a quem observe com olhos e ouvidos não viciados por ter nascido dentro do experimento.
Inconveniente desses exploradores, digo, na verdade, estudiosos altruístas, é que rápido sentem-se muito à vontade, estão muito desenvoltos. Comportam-se como donos, embora o sejam apenas parcialmente. Há liturgias e não basta deixar-se roubar pelo taxista ou pagar o jantar dos serviçais da nobreza da província para obter aceitação total e inconteste para tanta ciência social candidamente oferecida.
O caso é que a conversa avançou, cordialmente, e, pelas tantas, avançou bastante. Vocês representam um modelo de domínio anacrônico, fechado e muito violento. Sim, é verdade, concordou o velho brasileiro, que isso é mesmo verdade. Todavia, do diagnóstico, o professor inglês, com a desenvoltura própria, foi à prescrição. E o remédio era indiscutível, tinha foros de verdade, de bendição de um inglês benévolo com brasílicos cegos.
Em certa altura, já farto do que não atende por outro nome senão arrogância, o velho cortou subitamente a elocução professoral e propôs: Olhe, dominador por dominador, você está como o mais falando pro menos. Façamos o seguinte: vou pegar papel e caneta e você vai escrever de próprio punho, a língua pouco importa. Você vai dizer que a Irlanda é uma e única, católica ou protestante conforme a maioria decida e fora da soberania da sua rainha inglesa. Depois disso, a gente discute Brasil.
O professor compreendeu, o que é digno de nota porque não acontece sempre. E chegaram a jantar, cada um pagando sua conta e a falar de coisas interessantíssimas, principalmente de futebol.