Reparem no adesivo no vidro traseiro.
O trânsito é palco da maior reunião simultânea de absurdos e infrações que há. Acredito que isso deva-se basicamente a dois fatores: primeiro, à existência de carros demais; segundo, ao profundo egoísmo dos condutores. Na raiz desse egoísmo profundo e dissimulado poderíamos apontar várias outras causas, mas então partiríamos para a regressão infinita.
O fato é que nos dizemos cordiais, simpáticos, solidários, ordeiros, mas somos bastante egoístas, na verdade. O condutor brasileiro típico age como se o mundo estivesse em função dele, como se as regras mais triviais pudessem ser flexibilizadas segundo sua conveniência imediata, como se seus interesses fossem o suficiente para reclamar a complacência dos restantes.
Sendo assim a mentalidade dominante, quase todos sentem-se muito à vontade para estacionar carros em locais proibidos, para ocupar vagas destinadas a deficientes físicos, para ocupar duas vagas por ter preguiça de estacionar o automóvel corretamente, para desrespeitar as faixas de pedestres, para violar os limites de velocidades, para parar em local inadequado, quando alguém vai descer ou subir, impondo que todos esperem e toda uma coleção de infrações.
Muito curiosamente, a maioria das infrações é cometida por veículos com adesivos de teor religioso, que são uma verdadeira praga de gafanhotos. Os adesivos mais comuns são Esse carro pertence a Jesus; Foi presente de Deus; Jesus, é dele que você precisa e o campeão de todos Deus é fiel.
Essa última frase, estampada em adesivos automotivos, Deus é fiel, mereceria um estudo acadêmico profundo, uma vez que é destituída de qualquer significado. Ora, Deus é fiel a quê, a quem e como? As pessoas parecem acreditar em uma espécie de intransitividade desse adjetivo, em um valor absoluto desse complemento, que ele não tem.
Se alguém diz que Deus é amarelo, tudo bem. Se diz que Deus é brasileiro, tudo bem, que embora cômico tem sentido. Mas, fiel e só, não diz coisa alguma! Acho que poderiam ir mais além e dizer Deus é fiel a mim, o que seria herético, mas teria sentido. Porém, essa estória de coerência discursiva é bobagem e, no fundo, quem nada diz é porque nada quer dizer.
Significativo é que os proclamadores de insignificâncias religiosas sejam precisamente os maiores violadores das normas de trânsito. Talvez queiram dizer que respondem a normas mais elevadas e, por isso mesmo, têm o direito de desprezar as mais triviais e humanas. Todavia, continua sendo curiosa postura essa, porque a figura tão proclamada em frases sem sentido teria ele mesmo afirmado que não visava a revogar a lei!
Marechal Henrique Teixeira Lott