Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 102 of 126)

Carros com adesivos religiosos. Deus é fiel. Sim, mas a quê ou a quem?

Reparem no adesivo no vidro traseiro.

O trânsito é palco da maior reunião simultânea de absurdos e infrações que há. Acredito que isso deva-se basicamente a dois fatores: primeiro, à existência de carros demais; segundo, ao profundo egoísmo dos condutores. Na raiz desse egoísmo profundo e dissimulado poderíamos apontar várias outras causas, mas então partiríamos para a regressão infinita.

O fato é que nos dizemos cordiais, simpáticos, solidários, ordeiros, mas somos bastante egoístas, na verdade. O condutor brasileiro típico age como se o mundo estivesse em função dele, como se as regras mais triviais pudessem ser flexibilizadas segundo sua conveniência imediata, como se seus interesses fossem o suficiente para reclamar a complacência dos restantes.

Sendo assim a mentalidade dominante, quase todos sentem-se muito à vontade para estacionar carros em locais proibidos, para ocupar vagas destinadas a deficientes físicos, para ocupar duas vagas por ter preguiça de estacionar o automóvel corretamente, para desrespeitar as faixas de pedestres, para violar os limites de velocidades, para parar em local inadequado, quando alguém vai descer ou subir, impondo que todos esperem e toda uma coleção de infrações.

Muito curiosamente, a maioria das infrações é cometida por veículos com adesivos de teor religioso, que são uma verdadeira praga de gafanhotos. Os adesivos mais comuns são Esse carro pertence a Jesus; Foi presente de Deus; Jesus, é dele que você precisa e o campeão de todos Deus é fiel.

Essa última frase, estampada em adesivos automotivos, Deus é fiel, mereceria um estudo acadêmico profundo, uma vez que é destituída de qualquer significado. Ora, Deus é fiel a quê, a quem e como? As pessoas parecem acreditar em uma espécie de intransitividade desse adjetivo, em um valor absoluto desse complemento, que ele não tem.

Se alguém diz que Deus é amarelo, tudo bem. Se diz que Deus é brasileiro, tudo bem, que embora cômico tem sentido. Mas, fiel e só, não diz coisa alguma! Acho que poderiam ir mais além e dizer Deus é fiel a mim, o que seria herético, mas teria sentido. Porém, essa estória de coerência discursiva é bobagem e, no fundo, quem nada diz é porque nada quer dizer.

Significativo é que os proclamadores de insignificâncias religiosas sejam precisamente os maiores violadores das normas de trânsito. Talvez queiram dizer que respondem a normas mais elevadas e, por isso mesmo, têm o direito de desprezar as mais triviais e humanas. Todavia, continua sendo curiosa postura essa, porque a figura tão proclamada em frases sem sentido teria ele mesmo afirmado que não visava a revogar a lei!

Olhe aqui Mr. Buster.

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster ? o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

Olha aqui Mr. Buster, de Vinícius de Moraes. Essa é espetacular.

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Mandou-me o vídeo o meu estimado Ubiratan. É uma curta poesia de Vinicius, a propósito da incompreensão de um certo Mr. Buster. Esse camarada não entendia como Vinícius, então cônsul brasileiro em Los Angeles, queria voltar para o Brasil. Os norte-americanos são assim, arrogantes a ponto de serem cegos, totalmente cegos. Aí o mundo muda e eles ficam com raiva porque não perceberam, nem foram avisados. E se fossem não compreenderiam…

É de escutar-se com atenção.

Presidente, nomeie o Marechal Lott para Ministro da Guerra!

Marechal Henrique Teixeira Lott

Não havia povo nessa estória, havia, basicamente, nacionalistas e entreguistas. Ou, caso prefiram-se outros termos, getulistas e anti-getulistas, ou democratas e anti-democratas. E havia, como sempre haverá, muita ambiguidade terminológica. Todos sabem que Getúlio Vargas fora ditador por oito anos, por exemplo.

Mas, toda ambiguidade terminológica é insuficiente para negar uma coisa: havia dois lados e um deles era constantemente incapaz de triunfar por meio de eleições, embora discursasse a favor da democracia, enfaticamente. Os defensores enfáticos da democracia eram os cultivadores do golpe de estado. Incoerente, hipócrita? Claro, mas isso é da política.

Escrúpulos de contenção verbal ou vontade de parecer isento não me levarão a evitar dar opinião. O caso é que o lado dos democratas golpistas era fanático, mesquinho e irresponsável. E seu fanatismo era vazio, não se prendendo claramente a qualquer objeto, o que fica evidente nas altas doses de hipocrisia.

Digo fanáticos vazios porque não era possível apontar que se ligassem sinceramente a qualquer coisa que não fosse a tomada do poder. Não se podia dizer dessa gente que sua mania fossem as leis, nem que fossem as eleições, nem que fosse o capital externo, nem que fosse o capital interno. Era, conforme a circunstância, o que calhasse imediatamente ao propósito de chegar ao poder. Obsessivos e pusilânimes, enfim. A figura orteguiana do homem-massa e do mocinho satisfeito servia perfeitamente a Carlos Lacerda, por exemplo, pouco importando quantos livros tenha lido e sua competência com o idioma português.

Depois que Getúlio Vargas suicidou-se, em 1954, depois de sofrer uma das campanhas mais tenazes de pressão e difamação da história brasileira, assumiu a presidência o senhor Café Filho, conforme dispunha a constituição, porque ele era o Vice-Presidente.  O homem não era tolo e escolheu o Marechal Henrique Teixeira Lott para ministro da guerra. Sabia que, de outra forma, tomaria um golpe imediato.

Café Filho adoeceu ou foi adoecido – isso nunca ficou suficientemente esclarecido – e foi substituído por Carlos Luz. Ambos, nessa altura, já tinham sucumbido e sido cooptados para a empreitada golpista. A manobra consistia em negar a posse de Juscelino Kubitschek, a partir de um argumento não apenas tolo, como ilegal. Lacerda, o primeiro dos golpistas, afirmava que Kubitschek não fora eleito com maioria absoluta dos votos, em 1955.

Acontece que a constituição não exigia a maioria absoluta! A eleição de Juscelino era perfeitamente legal, mas para certos propósitos quaisquer argumentos servem. O grupo de Lacerda buscou setores do exército simpáticos à aventura golpista e a estratégia resultou positiva, em termos de obtenção de apoios.

Um coronel do exército fez um discurso inflamado, no Clube Militar, contra a posse de Juscelino, em uma reunião com a presença do ministro da guerra, o Mal. Lott. O ministro buscou punir a evidente insubordinação e indevida abordagem de assuntos políticos institucionais. Mas, o coronel estava sob a jurisdição da Escola Superior de Guerra e não do Ministério da Guerra.

Lott foi ao Presidente Carlos Luz tratar do assunto. Luz deixou o ministro esperando três horas antes de recebê-lo e negar-se a aplicar a punição. Dupla infâmia que é percebida por Lott como sinal do avanço evidente do golpe e de desprestígio seu. Resolve demitir-se, mas é demovido da idéia por dois generais, no dia 10 de novembro de 1955.

No dia seguinte, Lott dá ordens de cercar o Palácio Presidencial do Catete, quartéis da polícia e instalações da companhia telefônica do Rio de Janeiro. Nessa altura, Lacerda percebe que a brincadeira havia terminado e foge, com alguns asseclas, para o Cruzador Tamandaré, da Marinha de Guerra do Brasil.

O Mal. Lott não recua e manda bombardear o navio com salvas de artilharia. O cruzador ruma para Santos, pois acreditava-se que o Governador de São Paulo, Jânio Quadros, daria apoio ao movimento golpista. Sucede que Jânio era golpista, mas em outros níveis e não era tolo. Não deu apoio qualquer e declarou-se a favor da legalidade, que era exatamente a postura de Henrique Lott.

Então, o ministro consegue afastar Carlos Luz da presidência e neutralizar o supostamente doente Café Filho. O Senado da República vota o estado de sítio e afinal Juscelino é empossado no cargo de Presidente, em 31 de janeiro de 1956. Lott havia dado um perfeito contra-golpe para tornar possível o cumprimento da constituição e a posse do vitorioso nas eleições.

O mecanismo de continuação da iniquidade.

O Brasil, contrariamente ao que se diz com ares de verdade absoluta, não se distingue pelos níveis de corrupção com dinheiros públicos e privados. Claro que isso acontece em patamares elevados, mas não tão diferentes do que sucede no restante do mundo. Ele distingue-se pela eficácia e sofisticação dos mecanismos psico-sociais de tolerância e supressão de riscos com a iniquidade.

Para ir direto ao ponto, adianto o que é a postura mental característica desse mecanismo: a noção de que qualquer insatisfação deve-se apenas ao insatisfeito não estar usufruindo da iniquidade. Não digo que essa linha seja uma simulação, porque ela realmente preside à maioria dos pensamentos; digo que ela é a base da tolerância e que antecedente a ela é a noção de que tudo está à venda.

A partir daí, viceja a interpretação de que qualquer acusação de iniquidade decorre do acusador estar a oferecer seu preço, ou seja, de que a acusação deve-se apenas à não contemplação do acusador pela mesma iniquidade. Rejeita-se, portanto, a possibilidade de contrariedade sincera, nivelando-se todos como potenciais subornáveis e aproveitadores das oportunidades de locupletar-se do ilícito.

Essa forma de pensar – sofisticada como mecanismo conservador – é defendida como atitude objetiva, calcada em uma suposta realidade absoluta e imutável. A tese tem enormes potencialidades e auto alimenta-se porque ela tem ares de justificadora de conflitos.

Na verdade, a maioria das pessoas que vive a acusar práticas ilícitas e a distribuir seu moralismo de ocasião está querendo fazer parte dos mesmos ilícitos e imoralidades que acusa. Basta verificar as práticas de políticos, antes e depois de eleitos, de funcionários públicos e de grupos econômicos antes e depois de aquinhoados com alguma vantagem estatal.

Todavia, embora aparentemente residual, existe a insatisfação de quem acha que o ilícito não devia  ser tolerado, simplesmente porque é ilícito, e não porque queira tomar parte nele. Aí começa a tragédia resultante do triunfo avassalador de uma forma de pensar. Quem se insurgir contra alguma patifaria sem querer beneficiar-se dela será compreendido como um postulante de alguma parte do saque. Será compreendido como um chantagista, enfim, que acusa para vender seu silêncio.

Imagine-se, como exemplo, que duas pessoas conversem sobre um roubo, consumado ou por consumar-se. Os dois interlocutores principiam o diálogo com uma e outra palavra a evidenciar que são contra o roubo. Um deles mantém-se mais retraído, não crendo ser conveniente derramar-se em impropérios e invectivas morais contra o ato. O outro assume a postura mais radical, acrescentando-lhe algum sarcasmo e ironia.

Em pouco, esse excesso de moralismo e o sarcasmo de um dos interlocutores acaba por transparecer seu pensamento, pois é bastante difícil ser-se totalmente insincero. Aqui e acolá, em uma e outra frase , percebe-se que o problema não é o roubo, mas quem tem oportunidade de pratica-lo. No fundo, esse interlocutor inveja a posição do ladrão e acha apenas que no vale-tudo que concebe como a vida, a questão é estar ele próprio nessa posição.

Ora, caso o outro interlocutor repudie roubos por achá-los indesejáveis, e não por querer ser o beneficiário da ocasião, verá essa manifestação de cumplicidade como uma verdadeira indignidade. Como a confidência que só se faz a quem se reputa das mesmas idéias. E aí está uma coisa verdadeiramente terrível nessa atitude mental: ela pressupõe que todos têm, no fundo, a mesma idéia e que ser-se contra uma iniquidade é somente questão de poder ou não pratica-la.

Não há qualquer problema em medir tudo com a própria régua – embora seja estupidamente limitador – mas achar que ela é a única começa a ser o triunfo do mecanismo conservador da tolerância com a iniquidade.

Copa do Mundo e festa de São João.

Ainda bem que essas duas festas acontecem simultaneamente. Sim, porque em Campina Grande a festa de São João é uma farra que se estende por um mês inteiro e o mundial também durará quase todo junho.

A vantagem de duas manias se sobreporem é clara: elas minimizam uma à outra. Gosto de futebol e de São João, mas não consigo portar-me como se fossem as coisas mais desejáveis e maravilhosas que podem existir a monopolizar todos os interesses, todo o tempo  e todas as conversas.

O torneio mundial, devo confessar, chega a ser um tormento, porque gosto bastante de futebol, de ver gols e jogo bonito. O problema não é propriamente o futebol de funcionário público que quase todas as equipes jogam. É ter que sofrer as habituais pressões para adotar o ufanismo nacionalista que se abate sobre tudo, nessas épocas.

Uma partida que me interesse, por exemplo, não vou assistí-la em bares ou restaurantes, rodeado de pessoas enlouquecidas que não estão percebendo coisa alguma do jogo e estão disparando ao vento os comentários mais bobos, repetidos do que o comentarista televisivo está dizendo. Nem me sinto obrigado a ter um jogo de futebol como pretexto para ir tomar cerveja em algum bar.

Alguma partida que me interesse, vou vê-la em casa, se possível, pois é inviável ver um jogo em um bar repleto de adeptos apaixonados, prontos a endeusarem ou demonizarem os jogadores ao sabor da espuma da cerveja ou das cretinices que os narradores e comentadores da televisão ofereçam.

O problema é que a enorme maioria das pessoas não compreende, nem aceita, reservas como essas minhas. Ainda tento facilitar a vida dos interlocutores, dizendo-lhes que podem ficar com uma de duas alternativas, ou seja, podem me considerar chato ou louco, conforme lhes pareça melhor. Ou as duas coisas juntas, desde que não me encham a paciência com essa estória de reunir-se para assistir a jogos do mundial.

Só me reúno para assistir a jogos que não me interessam, porque a essência da reunião não é ver o jogo, é embriagar-se de emoções superficiais e de julgamentos sumários.

O golpe militar de 1964 por seus garantidores. Uma reveladora conversa entre Lyndon Johnson e George Ball.

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Os norte-americanos têm algumas coisas realmente apreciáveis em termos de objetividade. As conversas telefônicas da Casa Branca são gravadas, embora seu conteúdo possa permanecer secreto por muito tempo. Depois que a coisa reputa-se sem perigos, eles revelam as gravações.

No vídeo acima, o Presidente Johnson fala com o Subsecretário de Estado George Ball sobre a situação do golpe que se dava no Brasil, contra o Presidente legítimo João Goulart, e as garantias que os EUA ofereciam. Por exemplo, um porta-aviões por perto, outras naves menores. Alguns navios petroleiros, para que ninguém ficasse sem gasolina e munição.

Isso que os norte-americanos não escondem mais, muitos ainda negam no Brasil.Orgulho de golpista é complicado.

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