A Poção de Panoramix

Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Mordechai Vanunu, a bomba atômica israelense e o Nobel.

Mordechai Vanunu foi indicado para o prêmio Nobel da paz. Escreveu uma carta para a Academia de Estocolmo e disse que não o queria. Disse que não pretendia figurar numa lista de agraciados que inclui Shimon Peres, o artífice das bombas nucleares israelenses. É raro alguém rejeitar laúreas dessas, com argumentos tão incisivos, que deixam evidente o quanto há de aleatório e de hipócrita no famoso prêmio sueco.

Vanunu é filho de pai rabino e foi criado em ambiente ortodoxo. Afastou-se, contudo da ortodoxia. Trabalhou, em posição meio subalterna, no complexo nuclear de Dimona, no Sinai. Essa usina de tecnologia francesa foi o princípio do rapidíssimo desenvolvimento da tecnologia nuclear bélica de Israel. Enriquecendo e comprando clandestinamente urânio, chegaram às estimadas 200 ogivas nucleares.

Em certo momento, Vanunu foi para a Inglaterra e vendeu a um jornal uma estória interessante. Tratava-se de pormenores do programa nuclear israelense, desenvolvido em Dimona, onde ele trabalhara. Acontece que o dono do jornal era judeu e o Mossad não levou muito para encontra-lo, findando por sequestra-lo em Roma. Continue reading

Viagem ao fim da noite, de Céline.

É preciso falar pouco sobre esse livro, tão grande o livro. Ele é do tempo entre guerras, do século passado, é inegável. Do entre guerras e da prosperidade material, não vivida então, mas fartamente anunciada pelos triunfos da técnica. Os começos e os finais de épocas são complicados, neles não há certezas, há dissolução. O século XX começou em 1918, depois da imensa guerra européia, e essa obra não se entende sem a guerra.

A Viagem ao fim da noite tem uma nota fortíssima de intranscendência. Sim, porque a desesperança pode ser transcendente, pode ser até indiferente, mas pode ser intranscendente. Aqui, ela não anuncia qualquer possibilidade de purgação – não quer isso. Não é tragédia, pois os deuses não intervêm. A catarse não está em jogo, pode até existir, mas não é a questão.

Sugiro, para que se perceba por outros estímulos o que esse livro pode ser, que se escute a Valsa, de Ravel.  Além, é claro, do próprio livro, muito bom.

Zorba, o grego, dança!

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– … Se eu tiver vontade, você sabe, só se eu tiver vontade. Trabalhar para você está certo, quando quiser. Sou homem seu. Mas o santuri é diferente. É um animal selvagem e precisa de liberdade. Se eu tiver vontade, eu toco e chegarei mesmo a dançar. E dançarei o zeimbekiko, o hassapiko, o pendozali – mas, digo desde logo, só se eu tiver vontade. Bons entendimentos fazem bons amigos. Se você me forçar, acabou-se. Para essas coisas, é preciso que você saiba, sou um homem.

– Um homem? O que quer dizer com isso?

– Pois bem, livre!

Fernando Pessoa e a liberdade.

Gosto muito dos livros em edições de bolso. Encontrei o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, neste formato, da editora Companhia de Bolso, na livraria Saraiva em Recife. Desde então, ando lendo-o. Hoje, deparei-me com este belíssimo texto, cuja lucidez não se encontra muito comumente:

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.”

Olívia Gomes

Um dos motivos porque acredito que Serra está fadado ao fracasso.

Abaixo vai trecho da entrevista que Fernando Cardoso deu a revista veja, onde diz claramente, “-O Serra é estati…”, acredito eu que o final fosse “…zante” (estatizante), ele fala isso como se fosse bom. E ainda diz que foi Serra que quis a privatização da Vale e da Light. Muito bem.

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Eu já disse isso, e repito, alguem precisa realmente dizer a ele que o pensamento está equivocado, se ele quer eleger Serra, tem que dizer o contrário.

Direto aos fatos: as telefônicas foram vendidas (entregues) a preço de banana, e pagas “na valsa” com o lucro, e o dinheiro emprestado pelo próprio governo. Beleza, agora Luiz Inácio diz que vai reerguer a Telebrás para difundir banda larga no país, principalmente onde as empresas privadas não tem interesse econômico. Não é segredo para ninguem que o serviço prestado pelas telefônicas nas áreas que deveria investir são péssimos (banda larga e telefonia celular), já que as linhas fixas foram praticamente herdadas do sistema antigo.

E quando Lula fala sobre a Telebrás, a Folha de São Paulo, veículo de comunicação sabidamente vendido, faz uma pesquisa sobre a aprovação popular da medida. A pesquisa folha, indica que dentre 10.391 pessoas (até o momento em que escrevo), 9.790 pessoas (94%) são a favor da reativação da Telebrás, e 601 pessoas são contra (4%), há algumas considerações em torno desse percentual a que se pode chegar, ninguém gostou das privatizações das telecomunicações (ou quase ninguem, afinal temos 601 pessoas contra a Telebrás), bom, caso o percentual de aprovação das privatizações seja maior, então fato é que, há muita gente insatisfeita com o trabalho de quem comprou as tele. As empresas não funcionam, prova disso é a telefônica ter sido proibida de vender speedy (seu plano de banda larga ADSL), o serviço prestado é de péssima qualidade.

Bom, notável que a coisa talvez vá  funcionar melhor quando o governo entrar no jogo. Mas é cômico ver o presidente da telefônica, Antônio Carlos Valente, cobrar incentivo à banda larga, a definição de políticas públicas, além de desoneração tributária para produtos e serviços. Oras, ele já não teve o suficiente recebendo a empresa de graça e nunca investindo de volta nem um tostão do lucro obtido na empresa? Em 2005 o lucro foi de $6.184 bilhões USD. Isso só em 2005, em 2009 ocorreu a proibição de venda do speedy, ou seja, ele simplismente não investe, ele quer dinheiro do governo para investir, é como se dissese, essa é a parte do meu patrão, se voce  governo brasileiro quer melhora no serviço, pague voce mesmo pela melhora. Que tipo de empresa é essa??? Hááá!!! Uma sem concorrência… Entendi.

Severiano Miranda.

Depois daquele beijo.

Do G1: Meninas se beijam em bloco no Rio e acabam na delegacia.

Engraçado notar como atitudes de um Sr. como este (de 50 anos, moralista padrão, que fez a denuncia), tem sentido contrário ao que desejaria ele, ou seja, acontecimentos como esse, vão, cada vez mais afirmar o direito defendido pelos outros foliões. Porque certamente chegará o dia em que, o Sr. em questão um pouco mais velho, vai acudir a polícia com o mesmo propósito, e a polícia dará de ombros, oras, por pura insignificância.

Pior de tudo é a situação cômica em que se mete a polícia a troco de nada, várias guarnições para prender 2 meninas??? Um policial atropelado com pé quebrado por causa de um beijo??? Rio… Pra não chorar.

E veja a imfâmia da declaração do Sr. 50, “Ele disse que viu duas moças se beijando e pensou que uma era menor de idade. Ele achou que nesse caso seria errado uma menor de idade beijando outra maior de idade…”, quer dizer que esse Sr. passa os carnavais a procurar e a fazer cumprir a lei de corrupção de menores?! Se fosse um beijo entre outro cinquentão e uma garotinha ele também denunciaria, ou identificando-se com seu semelhante, seria complacente? Seria ele só mais uma pessoa com olhar eivado de teias de aranha de qualquer natureza (religiosa?)…

O delegado Gustavo Valentini, usou de seus tantos anos de estudo, na universidade e posteriormente pro concurso, para concluir: “verificou que não houve nenhuma corrupção de menores”.

De todas a melhor declaração, e amis sensata, é mesmo a da garota mais velha (18 anos,  a mais nova tinha 17): “O meu beijo não tinha nada de agressivo, é um beijo como qualquer outro beijo de carnaval, uma coisa que acontece. Não precisava ter causado a confusão que causou”.

Impressionante a polícia se meter num caso assim, e os policiais ainda recebem diploma de curso supeiror ao acabar o curso de formação… A julgar pela qualidade de nosso sistema educacional, não vou falar nada, ainda bem que estão começando a exigir diploma de nível superior nos concursos pra soldado, assim nossa super preparada polícia passará a ter dois diplomas. Como diz a música, “polícia para quem precisa de, polícia…”.

PS: Ainda bem que o delegado, justamente, liberou a turma do beijo, caso os tivesse detido, ainda teria pago mico, pois a artigo de corrupção de menores no Código Penal teve a idade alterada no ano passado,  foi de 18, para 14 anos.

Severiano Miranda.

"Alguém segura o passado".

Assisti hoje na TV Câmara a reprise do programa Expressão Nacional exibido no último dia 02 de fevereiro. O programa consistiu num debate sobre a Comissão da Verdade e era composto pelos deputados João Almeida e Pedro Wilson, pelos cientistas políticos Glenda Mezzaroba e Otaciano Nogueira, e pelo general Rocha Paiva.

Foi um debate longo e consistente. O fato é que eu sou a favor da apuração de crimes cometidos em períodos ditatoriais em qualquer parte do mundo, pelo que sou completamente a favor da criação da comissão e acho um retrocesso a discussão em torno de um assunto como este. A ditadura e a lei da anistia são indefensáveis.

O fato é que após assitir o tal debate passei a admirar ainda mais a cientista política Glenda Mezzaroba, cujos escritos a propósito da lei da anistia eu já tinha lido, e a repudiar ainda mais a postura patife do citado general.

Dentre as estúpidas defesas do general consigo destacar duas que o levam ao mais elevado grau de estupidez. A primeira foi afirmar que em 1964 não houve golpe, mas sim um contragolpe civil-militar, em reposta a um golpe civil que estava sendo preparado. Esta pessoa realmente não tem qualquer respeito para com os familiares dos desaparecidos políticos, dos mortos e dos torturados. Não sei o que é mais patife, querer impedir a apuração da verdade ou sequer dignar-se a chamar a coisa pelo seu nome.

A segunda foi dizer que não consegue compreender o porquê de se endeusar terroristas e de satanizar os torturadores, quando afirma que a comissão deve apurar as torturas e desaparecimentos cometidos pelos dois lados da ditadura, o do Estado com seu aparato militar e o dos grupos civis.

“Alguém segura o passado”, disse o deputado Pedro Wilson. É mesmo inevitável perceber que o exército brasileiro quer segurar o passado na tentaiva de reduzí-lo a isto: passado. Apurar os crimes, declarar quem foram os torturadores, desenterrar corpos, e, finalmente, fornecer as certidões de óbito aos familiares de desaparecidos políticos é impedir que outros períodos ditatoriais ressurgam. Tem que se lembrar para prevenir. A memória tem esta função.

A postura dos militares brasileiros é mesmo vergonhosa.

Olívia Gomes

A menina de 9 anos que foi excomungada.

O então Arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso, excomungou uma menina de 9 anos. Hoje, D. José Cardoso encontra-se reformado, pois atingiu 75 anos. O ato de excomunhão motivou-se por aborto e atingiu não apenas a criança, mas o médico realizador do procedimento e familiares.

A excomungada foi estuprada pelo padastro e engravidou de gêmeos. A menina estava física e moralmente debilitada,  era filha de uma família paupérrima de Recife e teve o aborto realizado dentro da legalidade brasileira, pois tratou-se de caso de estupro e o procedimento médico visou a proteger a vida da gestante. É óbvio, até para um padre de visão curta, que uma criança de nove anos corre risco de vida em uma gravidez.

D. José formou-se na burocracia da Igreja Católica, tendo estado longamente em Roma, desempenhando serviços de funcionário do Vaticano. Ou seja, uma espécie de burocrata público de sotaina, ávido por regulamentos e documentos oficiais.

O ápice de sua carreira eclesiástica foi o Arcebispado de Olinda e Recife. Nunca foi uma figura muito estimada, mas isso não é propriamente um defeito. Poderia ser imputada essa falta de estima ao seu rigor de administrador formalista e à sua discrição. Mas, D. José destacou-se negativamente por mais outra característica: a estreiteza intelectual que, neste caso da excomunhão, ficou evidente.

Recentemente, o Cardeal Rino Fisichella, Reitor da Pontifícia Universidade Lataranenze de Roma, publicou, no Observatório Romano, uma carta contra a excomunhão da menina de 9 anos. O Cardeal Fisichella, convém apontar, é tido como um intelectual de pensamento refinado. Ele disse, em resumo, que a vida da menina era o valor maior em questão e, portanto, as práticas visando à sua conservação não eram delitos passíveis de excomunhão.

Para quem não se detiver para perceber como pensa uma corporação fechada, as palavras do Cardeal Fisichella parecerão óbvias e até banais. Claro, existe a legalidade e ela não se submete e normas religiosas em um Estado laico, como o Brasil. Todavia, não é pouca demonstração de bom senso o que disse o Cardeal.

Ele pôs em jogo os princípios, aquela parte não propriamente normativa que inspira todo o sistema legal, seja canônico, seja laico. Por desconhecerem os princípios a fundo e os mecanismos lógicos para maneja-los e por acreditar mais em papéis que em realidades, cometem-se erros estúpidos como o do Arcebispo.

Ou seja, o funcionário de estreitas capacidades e de afazeres burocráticos é capaz de aplicar erroneamente aquilo que deveria saber usar, até porque ufana-se de conhecer todos os regulamentos. Mas, desconhece o que pode ter inspirado os regulamentos em que gastou as retinas e apoiou o nariz a vida toda.

Desconhece, mesmo sendo um religioso medianamente graduado, que a doutrina acima do palavrório dos seus regulamentos não reconhece a manifestação de vontade dos incapazes. Que essa doutrina afirma o valor máximo da vida; que essa doutrina afirma a misericórdia divina com os inocentes.

Mais trágica ainda que a tolice canônica de D. José foi a reação de alguns prelados graduados em Roma. Redigiram uma carta contra o Cardeal Fisichella, dirigida ao Bispo de Roma, pedindo punição para o sensato. Essa carta foi sumariamente desprezada pela Cúria, em uma postura reveladora de que ainda há gente pensando no Vaticano.

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