A Poção de Panoramix

Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Douro. Lembrança de quem esteve lá apenas uma vez.

As vinha no Douro, em algum dia entre setembro e outubro de 2009.

Já falei disso em outra ocasião, mas não foi bastante, porque volta à memória. Não é que escreva para acalmá-la, mas para cultivá-la enquanto ela pede. Não é que o faça para apagá-la, tampouco, mas para obedecer-lhe.

Essa fotografia é um pouco como o cheiro do chá e dos biscoitos do episódio da busca do tempo perdido. Um pouco porque não evoca infância e camadas sucessivas de lembranças, que eu nunca estivera no Douro. Mas, ela é o estímulo visual que me põe a pensar no que vi, igual e diferente do que se vê no instantâneo. Ela – a fotografia – não me põe lá novamente, esse é o problema e o défice poético.

A imagem somente coloca-me nas minhas próprias recordações, o que é muito mais complicado que estar, não estar ou querer tornar a estar em algum sítio.  As recordações envolvem mais que o instantâneo, mesmo para quem é refém da forma plástica, como sou.  A beleza da paisagem é óbvia e devia ser suficiente, que era para mim inédita.

Acontece que acrescentamos ao visto o pensado. E – sem achar que seja ruim ou bom – vivo a meter o pensado em tudo, ajuntando aspectos vários ao que me fascina à primeira passada de olhos. Penso que assim construo as lembranças, aumentando-lhes o peso, somando ao que chega às retinas o que os miolos inventam de pensar.

Essa postura não é a sucumbência às idéias do patife do Platão, criador de dois mundos, porque não se trata de uma ideologia nem de acreditar que as coisa sejam duas e só duas. É apenas o meter minhas concretudes em cima das concretudes reais e fazer outra coisa.

Mas, basta de subjetividade.

Espírito de rapina, cumplicidade e preservação. A constituição brasileira afirma um princípio da moralidade pública, mas para quê?

Duas atitudes desviam a percepção geral do instinto de rapina, de cumplicidade e de preservação que animam os passos das classes médias e altas, notadamente no seu relacionamento com os poderes públicos.

A primeira é o moralismo que repete à exaustão que falta ética por todo lado. Essa ladainha já elegeu um presidente, no Brasil, Jânio Quadros. Ele, em campanha, não se propunha a qualquer coisa além de falar em limpeza moral e seu símbolo, significativamente, era uma vassoura! Grande homem, tentou um golpe até bem pensado, apenas estava no país errado. Foi presidente por sete meses.

De minha parte, tenho imensa desconfiança por quem faz todos os raciocínios girarem em torno à moral. Deve ser anacronismo meu, mas acho que isso é um tremendo plebeísmo imoral. Fica a parecer que é uma horda de pusilânimes querendo aumentar o preço do suborno a que visam.

Outra vertente do disfarce são as formas. A glorificação de leis, regulamentos, procedimentos, instrumentos de controle, instrumentos para controlar os instrumentos anteriores, prazos, padronização de documentos, formulários e coisas desse tipo. A elevação dos meios a fins, em suma, e o divórcio mais evidente entre o se declara visar e o que se pratica. Aqui, o mote é o desapreço pelas regras e a contínua necessidade de mais delas.

Na essência, tudo pode continuar no seu curso habitual, mas deve se submeter a um processo formal, seja ele judicial, seja administrativo. Ou seja, qualquer problemática é reduzida ao nominalismo e tudo é possível, a depender do nome porque as coisas atendam. Levada essa postura a extremos, chega-se ao dia em que alguém mais sério quer enterrar o cadáver do irmão e ocorre o rompimento.

O Brasil da simbiose público privada aprecia deveras glorificar a banalidade jurídica que atende por Constituição. Banalidade porque é algo comum e não merece, no fundo e ao final das contas, o respeito que seus trovadores afirmam ter por ela. Pois bem, esse texto propôs – ou determinou, como se queira entender – princípios que devem orientar a administração pública. E, coerente com as mentalidades de seus genitores, deixou os traços da ambiguidade que possibilita a permanência da rapina.

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Mahmud Ahmadinejad dá espetáculo de lógica e detenção de informações. Bin Laden está em Washington.

Mahmud Ahmadinejad, Presidente do Iran.

O Senhor Mahmud Ahmadinejad, presidente do Iran, esteve em Nova Iorque, para uma conferência da ONU. Concedeu à rede televisiva ABC uma entrevista, daquelas em que o entrevistador, embora esteja muito aquém intelectualmente do entrevistado, sente-se à vontade e da vazão às bobagens que traz na cabeça.

O repórter da ABC julgou pertinente indagar ao Presidente se Osama bin Laden estava no Iran. Ele respondeu que era uma suposição risível e emendou Fiquei sabendo que ele está em Washington. Se fosse piada, já teria sido absolutamente destruídor, mas era sério. Pode ter certeza que ele está em Washington, completou, impassível.

A seguir, veio a homenagem à clareza de raciocínio.

O governo americano invadiu o Afeganistão para prender Bin Laden. Eles provavelmente sabiam onde Bin Laden estava. Se não sabiam, por quê invadiram? Podemos conhecer as informações de inteligência?

Primeiro, eles deveriam tentar descobrir a localização dele e, então, invadir. Não conhecer a localização, invadir e tentar descobrir onde ele está, isto faz sentido?

Sincretismo pictórico da escola cusquenha.

La ultima cena, de Marcos Zapata.

Essa tela impressionante encontra-se na Catedral de Cusco, antiga capital do Império Inca. É um belo exemplar da escola cusquenha de pintura, que vicejou nos séculos XVII e XVIII. Um elemento destacado é a presença de aspectos culturais locais nas representações de cenas clássicas do cristianismo.

Na última ceia acima pode-se notar que o prato principal é um cuy, um porquinho do mato, muito apreciado no Perú. Estão presentes outros alimentos típicos da região, como o milho e as batatas. Ocupam os lugares dos tradicionais carneiro e pão de trigo, comuns às representações pictóricas de matriz européia.


Lembranças esparsas de Lima, de Cusco e de Machu Pichu.

Tínhamos acabado de chegar a Lima, Olívia, eu e Daniel, e pusemo-nos a caminhar, que é o melhor que se faz. Chegamos na Plaza San Martín e ficamos a olhar em volta e a reparar na beleza paisagística e arquitetônica dessa praça meio belle époque, meio neoclássica, tão bem desenhada e cuidada. Eis que surge uma equipe da TVSur, da Venezuela, em seis daqueles imensos jipes Hummer norte-americanos.

Um repórter e um câmera vêm até nós. Bom dia, são daqui? Não – dissemos – somos brasileiros. Podem gravar um testemunho para uma matéria sobre os caminhos da América Latina, que fazemos? O que não gostamos, nos persegue. Fiquei calado e todos ficaram. Olívia e Daniel, ajudem-me e corrijam-me, que a memória vai fraca.

Lembro que, pelas tantas, disse: meu castelhano não dá para isso. O repórter, que era argentino, disse: isso que falas é suficiente e emendou: o que acha da integração sul-americana? Gelei e pensei que ou gaguejava em um castelhano para lá de precário, ou emendava a dizer o que achava, e aí seria tomado por tolo, louco, ou idealista. Pouco importa.

Somos diferentes de vocês, de vocês que falam castelhano e lembram-se de San Martín encontrando-se com Bolívar aqui, em Lima. Não temos a cultura do Altiplano, nem a noção de vários países estarem ligados por uma língua e uma cultura indígena assemelhada. Para teres uma idéia, lembra de Ernesto Guevara. Ele saiu da Argentina e foi parar na Venezuela e não passou pelo Brasil. Isso não é bom, nem ruim, apenas a integração é possível, mas o Brasil é outra coisa.

O repórter ficou com cara de quem escuta um louco, mas parecia encantado. Acho que não era o que esperava. Lembro bem que minha intenção era realçar a beleza da relativa unidade cultural dos povos sul-americanos de fala castelhana e quéchua e aimará e  guarani e outras línguas mais. E deixar claro que os brasileiros somos diferentes, nem melhores, nem piores, mas diferentes.

Acho que foi daquelas entrevistas que o editor elimina.

O sítio mais cosmopolita em que já estive: Cusco. Uma coleção de belezas pré-incáicas, incáicas e coloniais castelhanas.

Mil e uma recomendações quanto ao soroche, o mal da altitude, o que não é excesso de cuidado em uma cidade a 3.500 metros do nível do mar. Sempre se diz: chegando a Cusco, repouso de uma hora, deitado, e muito mate coca. Caminhadas suaves, nada de bebidas com gás ou comidas gordurosas no primeiro dia, principalmente à noite. O soroche não é brincadeira.

Não é mesmo. Daniel troçava comigo. Estás perdido, Andrei, não fazes exercícios, bebes, fumas, vai botar os bofes pra fora. Chegamos, cumprimos as recomendações, tomamos chá de coca, deitamo-nos por uma hora e saímos a caminhar bem lentamente. À noite, achamos um restaurante simpatissíssimo. Sentamos na varandinha pequena – só cabíamos os três – e pusemo-nos a comer  truta grelhada e a beber Cuzqueñas. Lá pelas tantas, Daniel começa a ficar entre branco e verde, como uma folha de coca.

Era o maldito soroche. Chamamos o garçom, que diagnosticou o mal e prescreveu a receita. Entramos – porque na varanda fazia um frio danado – e ele trouxe um pratinho com folhas de coca. Amassou-as cuidadosamente e disse: põe entre os dentes e fica a pressionar, em pouco estás bom. Como em pouco não era tão pouco, Olívia e eu ainda pudemos tomar mais umas Cuzqueñas até que nosso estimado desportista ficasse bom.

Machu Pichu é objeto de desconfiança de muitos, do tanto de que se fala do sítio. Bobagem, é belíssimo mesmo. Saindo de Cusco, de trem, percorre-se um caminho que, descendo de 3.500 a 2.400 metros de altitude, permite ver a transição do altiplano – da serra dos Andes – até as elevações que antecedem a vasta planície amazônica. Uma fartura de montanhas e água e verde.

Ao pé da montanha está Machu Pichu Pueblo, ou Aguas Calientes, onde se situam as hospedarias. O rio faz a curva em Aguas Calientes, abraçando a vila toda e lembrando de sua existência com o permanente som das águas rápidas em leito de pedras.  Fomos lá para passar apenas dois dias e voltar no dia seguinte.

Falar de visita a Machu Pichu deve ser algo econômico, para não alinhar a coleção habitual de lugares-comuns. As vistas são bonitas a ponto de surpreender e surpresa é algo que raramente se tem. Voltamos a Aguas Calientes, muito cansados, e resolvemos retornar a Cusco mais cedo, no dia seguinte. Foi idéia da mente clara de Daniel e foi ótima idéia.

Fomos à estação do trem tentar marcar a viagem para mais cedo, mas não foi possível. Então, surgiu uma alternativa. Pegávamos o trem que saia mais cedo, para Ollantaytambo, e de lá apanhávamos um carro com o Edgar. Deu certo. O Edgar era uma figura fantástica de peruano índio do Altiplano. Saímos serpenteando pelas estradas do Vale Sagrado, rumo a Cusco.

Próximo a Cusco, antes de uma aldeiazinha, o Edgar aperta os olhos, vê mais longe, e entra à direita, na aldeia. Pára e diz: esperem um pouquinho. Sai, vai até a esquina, olha e volta. Liga o carro e sai precisamente na hora que a polícia estava ocupada com outros carros. É que não se pode fazer transporte de passageiros, explica. Pergunto: a ellos, les gusta mucho la plata. Oh, solo les gusta eso!

Tiramos uma fotografia com ele, mas aqui imperará o princípio da impessoalidade fotográfica.

Os dois gols mais bonitos de 1982.

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Brasil e União Soviética, em Sevilha, terminou 2 x 1. O gol da URSS foi uma falha imensa de Valdir Peres, o goleiro brasileiro.
Sócrates fez um gol esplêndido, depois de driblar dois e chutar a bola no único local onde Dassaiev – o maior goleiro de então – não a buscaria.

Aos 44 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro cruza a bola, rasteira, em direção ao ponto de entrada da grande área. Falcão, inteligentíssimo, abre as pernas e deixa passar a bola e Éder a toca apenas duas vezes. O primeiro toque, levíssimo e só para a levantar um pouquinho. O segundo, uma patada fenomenal, de esquerda, rumo direto às redes. Dassaiev está parado e fica assim até a bola retornar do fundo das balizas.

É interessante notar o comentarista queixando-se do esquema tático brasileiro, que devia ser mais ofensivo, poucos segundos antes do segundo gol, o de Éder. Não sei quem era o comentarista, mas queixar-se de falta de ofensividade daquela equipe! Esse camarada deve ter morrido de infarto nas partidas de 1990!

Brasil x Argentina, em 1982. A melhor equipe do mundo contra a equipe do melhor do mundo.

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Essa partida foi nos oitavos-de-final da copa do mundo de 1982. Terminou 3 x 1 para a equipe brasileira, em uma exibição de arte. É verdade que a falta sofrida por Maradona devia ter sido punida com tiro direto, mas… E Maradona já era o grande jogador que ganharia o mundial em 1986. Mas, a equipe brasileira de 1982 jogava o futebol mais bonito que já se viu. Ninguém se apresse a replicar: não digo o mais exitoso, digo o mais bonito.

Cálice, censurado.

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Ruim das ditaduras – além dos grandes absurdos – são os pequenos, pelo que têm de ridículo e de potencialmente mais violentos que os grandes. Pois bem, a última ditadura brasileira censurava música, como se as músicas censuradas a fossem por em risco, quando todo mundo queria ouvir alguma bobagem de Roberto Carlos.

Puseram esse trabalho a cargo de meia dúzia de semi-analfabetos, civis e militares. Essa gente censurou até Sófocles, provavelmente por alguma ordem superior, que não tinham a mais tênue idéia do que era a Trilogia Tebana. E censuraram Chico Buarque e, precisamente a canção Cálice. O vídeo acima mostra Cálice interpretada em versão de censura.

Tenho para mim que Golbery percebia a tolice que era isso, pois sabia que haviam ganhado. Mas, tinham que deixar os subalternos experimentarem o poder proibir, ainda que fosse proibição tola. Pior é que fizeram e deixaram os subalternos irem além de proibir canções.

Enquanto isso, nos porões…

Enquanto o presidente ganha um prêmio, que além de importante pra ele (principalmente em época de campanha), também é importante para o país, a revista semanal de maior circulação aqui em pindorama trata do assunto com a seriedade que ele merece…

Sobre isso já se falou muito bem no Acerto de Contas, aqui (O míope ideológico) e aqui (Para o cérebro binário do míope,candidato adversário é um ser enviado pelo capeta para destruir o Brasil).

A dita revista se tornou o livro sagrado de um dos lados dessa galera há tempos…

Veja
Veja, a imparcial.
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