Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

O amor das aparências.

Tenho o gosto de andar pelos mercados. Não se trata de andar a comprar tudo que vejo, antes pelo contrário talvez. Trata-se de olhar aquela grande diversidade, que já me agrada bastante. Claro que esse diletantismo olhador acaba levando-me a comprar uma e outra coisa, mas não gera qualquer furor aquisitivo.

Eis que inauguram um novo mercado aqui, em Campina Grande, um deles muito grande, de uma rede francesa. Além de bem organizado, tem uma diversidade grande de produtos, o que me permite ficar a olhar desde produtos de jardinagem até queijos.

E permite ver outras coisas, também, porque é um lugar de grande aglomeração de pessoas. Neste caso, reforcei a percepção de que as aparências são adoradas, na selva real que se descobre por trás delas.

Um mercado novo, recém-inaugurado, está todinho organizado. No estacionamento, há faixas para passagem de pedestres, há vagas especiais para deficientes físicos e para idosos, marcadas bem claramente. Há caixas preferenciais para idosos, deficientes e mulheres grávidas há, enfim, tudo isso que dá aparência de educação.

Acontece que nada disso serve, ou serve muito pouco. Acabado de chegar ao templo do consumo, vejo um jovem sorridente pondo seu carro na vaga dos idosos. A tal vaga distingue-se de todas as outras, porque é inteiramente pintada em azul, com o nome idoso em letras brancas imensas. Mais adiante, já quase a entrar no mercado, quando passava na faixa de pedestres, quase sou atropelado por um automobilista apressado dentro de um estacionamento!

Duas coisas são possíveis, para explicar isso: a primeira é o desprezo voluntário e consciente das convenções e regras, como a dizer que são nada; a segunda é a ignorância do real sentido daquelas coisas pintadas no chão ou escritas em tabuletas.

O primeiro caso é menos grave, porque menos passível de correção. É questão de má-educação voluntária e não é reprimida. O segundo aponta o vasto espaço aberto para a melhora das nossas gentes. Precisam saber de quê se trata e, provavelmente, quando souberem as respeitarão.

Todavia, se não há disposição para reprimir os abusos voluntários de quem se pretende conhecedor das normas, nem há para educar quem não conhece as normas e as suas razões, melhor é abolir as aparências e evitar-se o ridículo de uma selva pintada em cores vivas e claras.

2 Comments

  1. Severiano Miranda

    É triste isso, a desfaçatez está em todas as classes, e é passada de pai pra filho sem o menor problema… =(
    Acho tanto mais grave que nas classes mais altas, ditas mais tudo, mais educadas, mais endinheiradas e etc. O problema seja pior, pois sendo menor parte da população e tendo mais educação formal, percentualmente são mais descarados e mal educados que o resto.
    Já presenciei casos de pais que estacionam nessas vagas de idosos, com seus filhos menores, e os filhos saem a perguntar: “-Pai, essa vaga não é de velhinhos?”, e o pai a responder: “-É filho, mas como vamos aqui rapidinho resolver algo, não tem problema.”.
    De resto dizem que no mercado em questão vendem cerveja Itaipava, que sempre me foi bem recomendada por todos! É experimentar pra ver… =)

  2. Andrei Barros Correia

    Precisamente daqueles que se deveria exigir mais, mais se vêm abusos voluntários.

    São os que sabem ou querem ser considerados sabedores das regras que as descumprem com a maior desfaçatez.

    Esse grupo reproduz os modos que se identificam ao poder social. Ou seja, reproduz os comportamentos que descumprem as regras porque isso significa poder.

    As maiorias simplesmente não entendem as regras ou para quê servem. Têm delas uma apreensão somente visual, como se se tratasse de decoração.

    Essas maiorias, se passam a compreender as regras, cumprem-nas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *