Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 99 of 126)

Futebol, barbárie, bombas e cornetas.

Futebol é esse jogo que está em evidência por conta do campeonato mundial realizado pela Fifa. Barbárie é algo mais complicado de definir-se. O termo sugere oposição a civilização e revela uma forma de caracterização de uma civilização dominante.

Os gregos da idade de ouro chamavam bárbaros a todos os não-gregos, exceto a alguns persas, a quem chamavam medos, apenas para provocá-los. Algum respeito devia haver nisso. Os romanos chamavam bárbaros àqueles que estavam além do Reno e do Danúbio, basicamente. Aos da bacia do Mediterrâneo chamavam pelos nomes, embora não os considerassem iguais.

Os chineses, esses que precisamos começar a perceber melhor, não chamavam aos outros especialmente; faziam a suprema forma de auto-elogio. Chamavam-se a si mesmos de Império do Meio e os outros são os outros.

A palavra, hoje, tem sentido que vai além de simples dominação. Uma das significações possíveis é educação para a vida em comum. Ou seja, adoção e crença em algumas regras que conduzem a convivência a um mínimo de conflitos por invasões das esferas privadas. Ou que, talvez, signifiquem que as esferas privadas não vão resolver seus conflitos por mais conflitos.

O fato é que espetáculos – não apenas o futebol, mas vários outros – levam as pessoas a manifestarem seu júbilo de forma bárbara, ou seja, de uma maneira que não leva em conta eventuais contrariedades ao formato da festa. Aqui, entra em cena outro aspecto interessante. Às vezes, a forma bárbara de júbilo é tão maioritária e as insatisfações tão poucas, que se trata de um verdadeiro triunfo democrático da barbárie. Os insatisfeitos que se mudem!

Coincidem o mundial de futebol e as festas de São João. Estas últimas caracterizam-se, entre outros costumes, por um farto uso de bombas, daquelas que se acedem os pavios, lançam-se adiante e ouvem-se as explosões. Esses artefatos não produzem qualquer beleza – pois não se trata dos fogos de artifício que desenham imagens caleidoscópicas no céu – e geram apenas barulho.

Muito barulho, na verdade, e muito risco. Nesse período, os hospitais recebem feridos por explosões de bombas às fartas. Não somente as crianças, habituais desfrutadores dessas maravilhas explosivas, mas adultos de infâncias tardias. O que já foi tradição e brincadeira comum, tornou-se em prazer tolo de bombas que devem dar inveja ao exército norte-americano.

Junta-se às explosões sucessivas de bombas o canto fanho e insuportável das cornetas. Como nós, brasileiros, temos uma irresistível propensão a sermos colonizados culturalmente, chamamos essas cornetas de vuvuzelas, embora sejam a mesma e única coisa, para que já havia nome.

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Brasil 3 x 0 Chile.

A equipe brasileira faz 3 x0 no Chile e avança para topar-se com a Holanda. Os jogadores talentosos fizeram a diferença, porque a equipe brasileira é competente, mas no mesmo nível de outras também eficientes. Talento, para explicar a fartura no uso da palavra, é o que explica o chute a gol de Robinho.

O Chile foi o que vinha sendo, rápido, insinuante e ingênuo. Não se pode dizer que foi adversário fraco, mas foi superestimado.

Vou achar muito interessante se o Brasil ganhar o mundial e a imprensa brasileira, notadamente a Globo, for pedir entrevista ao treinador Dunga, impiedosamente atacado apenas por não ser subserviente aos caprichos arrogantes da Globo.

Ele teria, então, uma bela ocasião de evidenciar o que é ser treinador, por um lado, e o que é viver a farsa do patriotismo ufanista de ocasião, por outro.

Ele, o Dunga, formou uma equipe, no mínimo, no mesmo nível das outras que se consideram fortes candidatas ao título. Poderia ter levado jogadores mais habilidosos? Poderia, claro. Poderia jogar um futebol bonito? Poderia, evidentemente.

Mas, não foi por falta de talento ou por feiúra futebolística que foi demonizado, porque a Globo não está dando a menor importância a isso. Foi por ter separado trabalho de treinador e festa mediática.

No fundo, o melhor que faria Dunga, caso vencesse o mundial, era dar nenhuma entrevista e ir confraternizar-se com os seus. Afinal, o que se fez se viu.

Una musica brutal, de Gotan Project.

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Tango, a dança mais bonita que há?

Os espanhóis perderam a ocasião de transformar uma bela dança de morte entre um homem e um touro em uma dança belíssima entre um homem e uma mulher. Quem observa o dançarino de tango percebe que ele é um derivado do toureiro.

Argentina 3 x 1 México. A diferença é o talento.

Carlos Tévez

Não tenho qualquer ilusão de que diminuirá a avalanche de lugares-comuns e dentre eles aquele da fragilidade da defesa argentina. Ora, dessas equipes que passaram da primeira fase nenhuma tem defesa propriamente frágil. Hoje, a defesa é uma obsessão de todas as equipes, que jogam de forma muito parecida por isso mesmo.

A defesa mais eficiente do mundo voltou para a península sem classificar-se! A Inglaterra, que não tem defesa ruim, tomou quatro dos alemães. A diferença, para quem quiser percebê-la, é dispor de algum talento do meio para frente, pois as defesas em muito se equivalem.

A diferença dos alemães são os médios Özil e Podolski, além de uma irritante capacidade de guardarem as posições corretas, é claro. E a diferença da Argentina é quase a equipe toda. Deve ser um jogo memorável.

Cogito disso aqui apenas por diletantismo, porque é impossibilidade óbvia. Mas, se fosse possível, trocaria todos os Gilbertos, Felipes Melos e Júlios Baptistas por um Verón.

Autobahn, por Kraftwerk.

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Uma banda alemã, por razões óbvias. Tudo está no lugar em que aparentemente devia. No futebol, a mesma coisa, eles estão precisamente nos lugares certos do campo. Quando a equipe é relativamente talentosa, individualmente, como atualmente é, acontece o que se viu no jogo de hoje. Acabam o adversário.

Hoy, es como si yo fuera uruguayo.

Suárez

Uruguay 2 x 1 Coréia do Sul. Agora, a Celeste vai aos quartos-de-final. É uma boa equipe, considerando-se a aridez futebolística reinante. Não há aquela correria toda e ingenuidade do Chile, nem o talento argentino, mas é bastante regular e conta com Forlan e Suárez em boa fase.

Sou um anacrônico cultivador de identidades e sou, por isso, parcial. Espero que os sudacas, nós, continuemos em frente.

A história não se reduz ao dinheiro.

Esse homem buscava apenas dinheiro?

Tudo em Roma tinha preço, por ocasião e em relação ao período que vai das guerras contra Jugurta até o fim da república, segundo Salústio. Esse comentário feito sobre os negócios políticos romanos da decadência republicana foi apropriado como mote interpretativo da vida, por quantos adotaram as variantes do utilitarismo como forma de interpretar as ações humanas.

Acho que a aceitação dessa premissa – generalizada – não corresponde propriamente àlgum anseio ou crença na venalidade humana absoluta. Talvez, revele um receio da falta do que se convencionou chamar explicações racionais para os atos humanos e os fatos históricos.

Esse receio tem raízes na necessidade de tudo abordar a partir das relações de causa e efeito e na superficial compreensão do que seriam causas aceitas como racionais. Buscando-se mais em retrospectiva, percebe-se também na sua origem uma deformada separação entre causas objetivas e subjetivas.

A separação a que me refiro pôs de banda tudo quanto fosse motivação de honra como integrante das causalidades subjetivas e, rejeitando-as como imprestáveis à compreensão, tornou-as em não-causas ou em causas objetivas disfarçadas.

Ou seja, tornou-se preciso considerar apenas o que seria objetivo como móveis válidos de ações individuais ou coletivas, ainda que o âmbito da objetividade  tivesse que ser reduzido para que a tese mantivesse alguma coerência. A tese é basicamente que toda ação é uma busca de uma recompensa objetivamente identificável.

Sucede que as ações podem ser compreendidas como permanentes buscas de recompensas ou reações determinadas, mas nem sempre elas são facilmente identificadas. Então, à vista dessa dificuldade, vai-se atrás de alguma das motivações facilmente catalogadas no index das compras-e-vendas. Outra postura seria possível, ou seja, seria possível investigar mais antes de resolver-se pelo reducionismo.

Se algum problema resulta dessa generalizada crença na explicação do mundo pela variação dos preços das pessoas é a ignorância do que pode estar efetivamente por trás de tantos movimentos humanos. Ora, nem sempre mata-se para roubar, nem sempre mata-se para divertir-se!

Não há, como móveis e explicadores das ações humanas somente o dinheiro, a diversão e o disfarce, para desgôsto da maioria das pessoas que se crêem bem-pensantes. Essas motivações estão muito presentes, claro, mas não sozinhas. Conviria que o homem atual – aquele ser seguro na sua epistemologia utilitarista de custos e benefícios – se lembrasse de que há pouco mais de cem anos havia duelos de vida e morte. Neles, como o nome indica evidentemente, buscava-se uma morte, não uma recompensa em pecúnia.

Os duelos de vida e morte para mim não são admiráveis nem reprováveis, eles simplesmente eram algo que acontecia. Ora, as pessoas que duelavam são as mesmas que não mais duelam, feitas nas mesmas proporções de carbono, nitrogênio e outras substâncias. Da mesma maneira que deixaram de duelar podem voltar a fazê-lo ou podem estar a fazê-lo sem que se compreenda.

Conviria também – e aqui advirto da minha não-admiração, porque a bipolaridade é tão arraigada que pode parecer o contrário – lembrar que ainda hoje algum ibérico dispõe-se a vestir-se em trajos apertados e desafiar um touro de 800 quilos. É perfeitamente possível que se compreenda isso como a vontade de receber a recompensa em dinheiro, mas é também profundamente estúpido e redutor. Há, e todo o mundo sabe-o, formas menos arriscadas de ganhar-se dinheiro!

Sobre o dinheiro e seu papel de motor das ações humanas, transcrevo adiante um precioso trecho de José Ortega y Gasset, extraído do ensaio Mandam as montras, publicado em 16 de maio de 1927, no El Sol:

A questão é sobremaneira complicada e não é coisa para se resolver em quatro palavras. Vá tudo isso que digo apenas com uma possibilidade de interpretação. O importante é evitar a concepção económica da história que anula toda a graça do problema fazendo da história inteira uma consequência monótona do dinheiro. Porque é demasiado evidente que o poder social deste foi em muitas épocas humanas bastante reduzido e outras energias alheias à economia enformaram a convivência humana. Se os Judeus possuem hoje o dinheiro e são os donos do Mundo, também o possuíam na Idade Média e eram a escória da Europa.

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