Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 96 of 126)

Um heresiarca em cada esquina.

Por todos os lados encontram-se os templos das denominações cristãs neo-pentecostais. Além dos nomes inscritos nas fachadas, distinguem-nos uma certa arquitetura e, nos momentos de celebração, a grande quantidade de pessoas e o barulho de cânticos ou de exorcismos mais ou menos frequentes.

Filiam-se ao deus de Moisés tão diretamente quanto aqueles esfomeados do deserto, que o queriam seduzir e solicitar com ouro, em busca de mais ouro. A diferença é não trazerem veladas as caras para falar com ele. Mas, as heresias não estão em querer ouro, mas em solicitá-lo insistentemente como um advogado faz a um juiz.

Não estão tanto nos cânticos, mas em achar que podem agradar ou desagradar àlguma deidade, que por suposto não é homem. Em julgar possível avaliar seus gostos, como se tivessem compartido com ele das intimidades de sua infância. Em considerar razoável que a ele apeteça mais essa palavra que aquela, como se prefere peixe a carne.

Pedir e louvar, eis o binômio herético, que caracteriza os monoteísmos em seus ápices. Nesses momentos culminantes, uma religiosidade atinge o máximo de seu materialismo, o mínimo de sua ritualística formal, o máximo de sua celebração de um deus moldado à imagem de seus cultores.

São assim as religiosidades no auge de sua juventude. São diferentes elas nas infâncias e nas senectudes, momentos de profunda indefinição do cultuado e, portanto, de pouquíssimo materialismo.  Muito novas ou muito velhas, elas prendem-se primeiramente a um deus ainda não criado e, depois, a um deus já esquecido. No início é comunhão e no final liturgia.

No meio, quando é mais forte, é a lógica da disputa jurídica alçada a religiosidade. Ou seja, solicitação e adulação sem considerações maiores pelos códices e pressupostos que se dizem seguir. Nessa fase o deus é avidamente definido e estabelecem-se seus atributos, essa suprema insensatez, que abre as portas para a incoerência.

Os monoteísmos de raízes greco-judáicas enveredaram por essa trilha e acharam de arriscar-se a fazer do seu um deus todo-poderoso. Alguns teóricos mais bem-humorados acrescentaram ao total poder uma outra característica, que ressaltou a incoerência da figura que desenhavam; disseram que a vontade desse todo-poderoso era insondável. Essa última característica é bastante razoável, enquanto a primeira, essa é mais que inútil.

Ora, homenagear a um ser todo-poderoso é impossível e pedir a um ser insondável é tarefa para Sísifo, exceto se, no fundo, os postulantes e homenageadores não acreditem nos caracteres que descobriram no seu deus. Exceto se o creiam afinal uma criatura deles mesmos, sujeita às mesmas inclinações e caprichos.

Um ser plenamente inserido no comércio dos favores da vida humana perceberia muito bem que lhe adulassem e pedissem dinheiro e curas. Mas, um ser insondável perceberia alguma coisa disso?

Escravos dos bancos deviam perceber que a realidade desmente o discurso. Ou, cliente falido não compra!

Nesses tempos de crises financeiras divulga-se que todos devem prestar culto ao ajuste fiscal, à redução das despesas do Estado, à elevação das idades de reforma, à redução das ajudas sociais, à austeridade, de forma geral. Ninguém, por outro lado, deve ousar lembrar-se que os bancos foram salvos da falência com dinheiro de todos, tomado compulsoriamente, por meio de impostos, pelos Estados.

Principalmente, ninguém deve aproximar-se da compreensão de que os Estados estão a agir como prepostos dos bancos e, não dos povos  que elegeram os agentes políticos. Todavia, a coisa é acacianamente simples e por isso mesmo enseja uma campanha mediática robusta, para afastar qualquer tentativa de pensamento claro.

Convém-nos pensar em que consiste uma falência bancária. O maior problema – dirão todos – são os depósitos dos correntistas e isso é absolutamente verdadeiro. Então, a motivação principal de evitar-se uma falência bancária é proteger os dinheiros das pessoas que os entregaram ao banco.

O erro – ou o assalto – insere-se precisamente na forma de defender os tais depósitos. Ora, toda teoria de mercados indica que as intermediações encarecem as transações. Fica óbvio que se o interesse primordial são os correntistas, a melhor forma de salvamento é pagar-lhes diretamente. Pagar ao banco para que este possa pagar ao correntista é, sem juízos de valor, a pior maneira de salvamento.

Se os governos são levados a tomarem as medidas piores e mais caras, deve-se investigar o que os fez agir assim. Quem pensar em comissões passadas de bancos para governantes estará no bom caminho investigativo. Há um íntimo contubérnio entre banqueiros e políticos governantes, em detrimento das maiorias.

É interessante notar que as teses do pessoal das finanças – banqueiros privados, FMI, monsieur Strauss-Kahn – são desmentidas pela realidade. Eles dizem e repetem à exaustão que países com riscos de dívidas devem adotar ajustes rigorosíssimos para recobrarem a confiança de quem lhes empresta dinheiro.

Mas, fato curioso, a Irlanda seguiu à risca os conselhos de adotar uma rigorosa austeridade. Adiantou-se a mostrar bom comportamento frente aos bancos, cortou imensamente despesas sociais e, a despeito de tanta obediência, não viu os juros de seus títulos caírem!

A Islândia, por outro lado, reagiu de maneira diversa. Depois de ir à falência financeira, banqueiros foram presos, o governo novo de centro-esquerda deu calote nos bancos e o que aconteceu? Recupera-se melhor que a Irlanda, que seguiu à risca a cartilha financista.

Atualmente, na Europa, esse receituário de austeridade de gastos sociais tem sua entusiástica origem na Alemanha. Não sou economista, mas creio que a postura alemã precipitará a Europa em um abismo. Eles querem defender a moeda comum, o euro, que é o marco alemão com algumas pitadas de franco francês. Querem defendê-lo porque seus bancos emprestaram em valores denominados em euros e porque convém ter compradores de produtos alemães aptos a pagarem em euros.

Todavia, o garrote financeiro nos vizinhos mais pobres pode ser ruim para a Alemanha. Ora, embora a indústria alemã seja bastante pujante, não é mais competitiva que a do sudeste asiático. O grande mercado das exportações alemãs é a Europa e os produtos germânicos, por melhores que sejam, não têm condições de invadirem o restante do mundo. Os chineses têm!

Evidencia-se o paradoxo. De que servirá empobrecer o restante da Europa em benefício dos bancos alemães, se isso prejudicará a própria indústria alemã? Se este fosse um país naturalmente rico, ou seja, rico em petróleo ou em outros minérios, seria perfeitamente compreensível tal estratégia. Mas, não é o caso. Trata-se de uma riqueza de base industrial que, inclusive, antecede à bancária.

De quê servirá à Europa – e à Alemanha – ficar com o euro se faltarem euros na Grécia, na Espanha, em Portugal, para se comprarem os desejados BMW? Ou alguém acha possível inundar a Índia de BMWs de 50.000 euros? De minha parte, acho complicada uma expectativa dessas.

Embora seja anátema falar-se em saída do euro, está claro que essa possibilidade cresce dia-a-dia. Inclusive, a evidência de que tal saída tem sido cogitada encontra-se nas garantias enfáticas de que não acontecerá. Na fala recente de Cavaco Silva a assegurar que não há hipótese de Portugal voltar aos escudos vê-se o quanto essa mesma possibilidade aproxima-se. porque ninguém se põe a negar enfaticamente alguma coisa absolutamente impossível.

A riqueza muita vez conduz à perda da habilidade persuasiva. Isso parece ocorrer com a Alemanha, atualmente. A ela convém que permaneça o euro e, portanto, convém que se esforce para convencer os mais pobres a mantê-lo. Todavia, age como se isso fosse uma verdade absoluta e indiscutível, projetando para outros o que é válido para ela. Então, age com arrogância, reputando tolas quaisquer considerações quanto ao assunto que não sejam aquelas estritamente alinhadas às suas verdades.

Um e outro recuo foi obtido com sérias ameaças francesas de rompimento com a moeda única, porque a economia francesa é bastante grande, embora menor que a tedesca. Todavia, com parceiros europeus de economias menores agem imperialmente e consideram qualquer reclamação como birra de crianças mal acostumadas. Isso tem precedentes históricos demasiado conhecidos…

Fradique Mendes oferece um exemplo para ilustrar a tese.

Duas postagens sobre o mesmo assunto é chato. Mas, pior seria uma mesma postagem com uma enorme transcrição, ainda que seja de Eça de Queirós. Por isso, segue a parte final da carta a Madame S., em que Fradique oferece um exemplo a ilustrar o que vinha teorizando sobre o domínio de línguas estrangeiras.

Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos – que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei eram sons na Natureza bruta, pouco diferençáveis do coaxar das rãs, ou de um estalar de madeira. Pois, quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscou, desejava os seus ovos, esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! co-có-ri-qui! có-rócó-có! Nunca, em cidade ou região inteligente do universo, minha tia deixou de comer os seus ovos – e superiormente frescos!

Um conselho de Fradique Mendes.

O final do almoço, Pierre-Auguste Renoir

C. Fradique Mendes é das criações mais deliciosas de Eça de Queirós. Claro, é um caráter feito de superficialidade, dandismo, intelectualidade de mostrar em salão, ironia. Um flâneur de um mundo cujo centro estaria em Paris.

A obra consiste em um volume com a primeira parte chamada Memórias e Notas e a segunda chamada As cartas. Recolho um trecho da quarta carta, em que Fradique comunica a Madame S. algumas opiniões sobre o desejo desta senhora de ter seu filho perfeitamente instruído na língua castelhana.

Não pretenda alguém ver no trecho adiante sugestão ou conselho meu próprio e lembre-se, a propósito, da ligeireza e ironia que fazia a personagem de Fradique. Se há sugestão, é dele, do grande mundano português do século XIX, não minha, que me falta arte para tanto. Bem o queria, mas…

Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra; todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna com as suas influências afetivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caráter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo. Rue de Rivoli, Calle d´Alcalá, Regent Street, Wilhelm Strasse – que lhe importa? Todas são ruas, de pedra ou de macadame. Em todas a fala ambiente lhe oferece um elemento natural e congênere onde seu espírito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem atritos. E como pelo verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se pode fundir com todas – em todas sente e aceita uma pátria.

Ministério público eleitoral é golpista?

O Presidente Lula lançou o edital para contratação das obras do trem de alta velocidade entre o Rio de Janeiro e Campinas. Na ocasião apontou os responsáveis pelo seguimento adiante do projeto, entre eles Dilma Roussef, a candidata a presidente. Ela realmente é uma das responsáveis, pois era, há pouco, a ministra mais poderosa do governo.

O Presidente não disse vote em Dilma Roussef ou não vote em José Serra. Ele disse que ela trabalhou naquele projeto que estava a ser lançado. Isso não configura qualquer infração eleitoral e é deveras comum.

Por conta disso, uma zelosa e aparentemente muito parcial procuradora do ministério público eleitoral anunciou na imprensa que vai pedir punição para o Presidente e para a candidata Dilma Roussef. A parcialidade é tão evidente que a doutora anuncia seu furor persecutório a um dos lados nos jornais, antes mesmo de intentar qualquer ação judicial!

O agente político não pode servir-se do Estado para fazer sua campanha mas pode, sim, revelar a paternidade de uma e outra obra. Aliás, exatamente como faz o Governador de São Paulo, o que sucedeu a José Serra, que vive a inaugurar obras e lançar projetos e a dizer isso foi o Serra que fez.

Curiosamente, o ministério público eleitoral não vê nas condutas do atual governador de São Paulo qualquer infração – e não há mesmo – embora sejam essencialmente as mesmas que aponta como delituosas no Presidente da República.

Ora, uma das perguntas a serem feitas é: a população pobre deste país paga caríssimo por um ministério público de salários régios para ele ser parte das engrenagens de um golpe judicial contra a democracia?

Argentina aprova casamento homossexual.

O Senado da República Argentina aprovou a lei que institui o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Antes, o projeto fora aprovado na Câmara dos Deputados. Formalmente ainda depende da sanção da Presidente Crisitina Kirchner, mas ela já sinalizou fartamente que é a favor da lei.

Será o primeiro país sul-americano a alargar o âmbito jurídico das uniões conjugais, sem considerações de gênero. É verdade que as uniões civis entre homossexuais já se admitem no Uruguai e no Distrito Federal de Buenos Aires, mas sem todas as consequências jurídicas do casamento.

Quase toda a resistência ao projeto veio da Igreja Católica de Roma, no caso argentino. Realmente, o catolicismo resiste tenazmente à utilização do nome para uniões que não sejam entre pessoas de sexos biológicos diferentes, o que induz a pensar que toda a controvérsia é de natureza terminológica.

Todavia, essa abordagem escamoteia uma insuficiência de visão histórica. O cristianismo apropriou-se de algo precedentemente existente como instituto jurídico e deu-lhe características novas. Do ponto de vista estritamente jurídico nada induzia a considerar o casamento como um enlace perpetuamente limitado a considerações de gênero. Para constatá-lo, basta considerarmos as várias alterações que outros institutos de direito de família sofreram historicamente.

A história do direito civil conheceu a possibilidade de afastar descendentes biológicos da herança, a impossibilidade de todos os filhos exceto o primogênito herdarem, a impossibilidade do cônjuge herdar e outras mais limitações. Ou seja, não há estabilidade nesses institutos que conduzam ou justifiquem a imutabilidade do casamento nas leis civis.

Além disso, as pressões religiosas em um estado laico são iguais a quaisquer outras resultantes de movimentos sociais, como sindicatos e associações de classe. Nesse aspecto desponta uma pouco sutil arrogância católica, que age como se suas pressões fossem ontologicamente superiores a outras.

Aos defensores das soluções de compromisso, uma das quais seria consagrar as uniões homossexuais sob outro nome, convém lembrar que o princípio da igualdade serve-lhes também. E, para homenagem a esse princípio é fundamental que um instituto jurídico, o casamento, no caso, seja inspirado plenamente na noção fundamental de igualdade jurídica.

Haverá, como é fácil antever, dois casamentos. Um, o consórcio entre duas pessoas, formalizado dentro da lei civil e gerador de todos os efeitos previstos. Outro, o consórcio formalizado segundo as regras de uma instituição não-estatal, que não suscita efeitos legais, apenas sociais entre os seguidores dessa instituição.

Sobre identificações culturais.

Há certo tudo-ou-nada intelectual que confunde a linha das semelhanças com a identidade absoluta. Ora, a identidade só a temos entre nós e nós mesmos. A linha das identificações, percorre-se juntamente aos demais indivíduos e grupos deles.

O ponto de contato não é o signo de alguma igualdade absoluta, nem a recomendação de buscá-la. É o ponto de contato, a que se podem ajuntar outros e perceber maiores ou menores similitudes!

Quando fala-se em identificações culturais muitos percebem a escolha desse assunto como se fosse uma proposta ou um desejo. Não é. Trata-se de falar de algo que existe, como existe a vontade de comer ou a necessidade de dormir. Lembro-me, agora, de um episódio de há mais ou menos quinze anos, que vai sumariamente contado de memória.

A aviação naval norte-americana bombardeou a Sérvia, a partir de seus navios porta-aviões no Adriático. Depois da gloriosa missão, as naves atracaram no Pireu e os soldados desembarcaram como sempre o fazem. Ávidos das delícias do chão firme, de uma avidez aumentada pelo gozo dos recentes sucessos destrutivos.

Quem está fremitoso por gozos tende a não calcular bem a receptividade que terá por terceiros, que talvez cultivem outros gostos. Aconteceu que a soldadesca norte-americana pensasse que sua missão era indiscutivelmente bem-aventurada e que, portanto, seria celebrada pela receptiva população ateniense.

E aconteceu exatamente o contrário. Não somente os atenienses não os recebiam como a heróis de festa e descanso merecidos, como entraram em conflitos físicos com eles e lhes deram muitos sopapos. Se fossem gente mais atenta à história e à cultura, saberiam que não se matam sérvios e depois se confraterniza com gregos.

Sérvios e gregos são ortodoxos, estiveram sob o mesmo domínio otomano, lamentaram a queda do Patriarcado de Constantinopla, compartiram, enfim, muitas situações. Sérvios e gregos são diferentes e não querem tornar-se uns nos outros. Mas, têm pontos de contato e, embora um grego não seja, não se ache, nem se queira tornar em sérvio, tampouco fará festa com quem vem de matar sérvios.

Isso é identificação cultural e fica evidente – a repetição não é aqui inútil – que não é igualdade nem vontade dela. Imagino que se uma esquadra de qualquer nacionalidade, que acabasse de bombardear Madri, fosse comemorar o feito em Buenos Aires, passaria pelo mesmo que os norte-americanos em Atenas. E não significaria que os portenhos quisessem sem madrilhenos, apenas que há entre eles pontos de contato.

Imagino ainda que uma tropa que viesse de praticar a destruição e o morticínio em Londres não seria recebida com festa em Nova Iorque. E imagino que poucos imaginam os norte-americanos a quererem ser ingleses. É questão de identidades culturais.

Porque esse não é um texto de júbilo nem de instigação à felicidade, vou transbordar uma última imaginação, terrível. Imagino que se uma esquadra viesse de destruir Lisboa e aportasse em qualquer grande cidade brasileira, duas coisas ocorreriam, possivelmente. Ou a indiferença, ou a festa sem limites.

Somos sem raízes mais profundas e por isso não compreendemos quem as tem e as reconhece. Por isso acusamos qualquer busca de pontos de contato de ser vontade de tornar-se o outro. Achando ridículo que pontos de contato hajam, acreditamos nos que não há e, aí sim, transparecemos uma vontade servil de tornarmo-nos em outros que nunca seremos.

Corremos o risco, nós brasileiros, de sermos o povo mais perigoso do mundo, caso continuemos o rumo do enriquecimento que agora seguimos, de par com a profunda superficialidade de meninos mimados que professamos. Porque vamos ao sabor dos ventos, não reconhecemos ponto de contato algum e assim visamos a todos.

Vitória futebolística não é inutilidade social.

Muitos seres mais pragmáticos que o pragmatismo praguejam contra as celebrações decorrentes de vitórias futebolísticas. Dizem – para ficarmos no episódio evidente da Espanha – que os espanhóis não terão melhoradas suas condições de vida, que o desemprego não recuará e que a idade para reforma continuará a mesma, a despeito de terem vencido o mundial de futebol.

Outros trilham o caminho inverso da tolice e ficam a dizer que estudos científicos atestam que os países ganhadores de mundiais apresentam crescimento econômico entre 0,258% e 1,473% superior ao de países que não ganharam! Ou trilham pela vertente da auto-ajuda que se pretende neurociência e dizem que a vitória produz um estímulo psico-social benfazejo que impulsa o país adiante, porque melhora a auto-estima e coisa e tal.

Esses dois pólos de abordagem têm em comum a necessidade de instrumentalizar o futebol. Ora, para instrumentalizar o futebol como meio de ganhar rios de dinheiro tem-se a Fifa!

É circo a inebriar as massas? É, sim, e daí? A política, as religiões também o são, e muito mais nocivas.

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