Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 94 of 126)

A burrice e a produção de efeitos indesejáveis.

A burrice é a força mais intensa e mais perigosa de quantas agem sobre as pessoas. Convém não confundir burrice com má-fé, que embora sejam coisas muito distintas, geralmente são tomadas na conta da mesma e única motivação de alguma ações.

Ela também não se confunde com a assunção consciente de riscos, situação em que o efeito indesejável era razoavelmente previsível, mas houve a tomada dos riscos. Aqui, há manifestação de vontade a saber que consequências ruins podem ocorrer.

A burrice aparenta-se um tanto ao desleixo, à falta de cuidado, à despreocupação com o que pode resultar. Enfim, a despreocupação com resultados e a burrice interpenetram-se, como se fossem reciprocamente causa e efeito uma de outra, sucessivamente.

O caso é que a obra de reforma feita na casa onde fica o órgão em que trabalho resultou na colocação de um tipo de revestimento cerâmico na calçada em frente que é quase como azulejos. Estes, como todos sabem, são muito lisos e quase não apresentam atritos. Molhados, são a superfície ideal para escorregões.

Ia eu saindo do trabalho, na última sexta-feira, e chovia. Desci as escadas e cheguei à calçada, caminhando para o carro. Na esquina, escorreguei e levei um tombo imenso. Um dos pés subiu e o outro ficou mais firme no chão. Cai de lado já sentindo dores fortíssimas e um estalo que me fez pensar na ruptura de todos os ligamentos do pé ao tornozelo.

Consegui levantar-me agarrando-me às grades, com uma dor de fazer gritar. Quando ergui-me, tentei pisar o pé que doia – para saber se o desgraçado havia quebrado. Mal botei o pé no chão e quase caio mais uma vez. Arrastei-me para o carro, entrei e sentei, esperando passar o pior da dor. Demorou.

Consegui dirigir até em casa, com uma torção no tornozelo. Ainda agora estão o pé e o tornozelo bastante inchados e doloridos, mas deve passar logo.

Se fosse uma velha ou um velho – ou pessoa de qualquer outra idade que caísse de pior jeito – podia dar-se muito mal. E isso porque algum ou vários estúpidos puseram no chão um piso que é quase de azulejos. Podiam tê-lo feito de cimento – que era até mais barato – ou de pedras ou de qualquer outra coisa.

Claro que os fulanos autores dessa obra não estavam premeditando quedas em dias de chuva. Eles simplesmente não pensaram em coisa alguma, não consideraram as possibilidades, agiram a partir de critérios de moda, ou a partir de critério nenhum. Também não se pode dizer que assumiram riscos, que não devem ter pensado em risco algum.

Assim se produzem os piores males, porque essa motivação percebe-se desde a colocação de azulejos no chão ao vôo de um avião com defeitos. Não se trata de opção consciente por algo que traz alguma recompensa mas pode trazer algum prejuízo. Trata-se de fazer por fazer, sem consideração alguma.

Os amigos de Hitler, um texto de Eduardo Galeano

Esse texto é um fragmento do livro Espejos: uns historia casi universal, do uruguaio Eduardo Galeano. Vale à pena a leitura. Transcrevo em castelhano, porque talvez seja melhor que uma tradução livre e precária feita por mim.

Los amigos de Adolf Hitler tienen mala memoria, pero la aventura nazi no hubiera sido posible sin la ayuda que de ellos recibió.
Como sus colegas MussoliniFranco, Hitler contó con el temprano beneplácito de la Iglesia Católica.
Hugo Boss
vistió su ejército.
Bertelsmann
publicó las obras que instruyeron a sus oficiales.
Sus aviones volaban gracias al combustible de la Standard Oil [hoy Exxon y Chevron] sus soldados viajaban en camiones y jeeps marca Ford.
Henry Ford
, autor de esos vehículos y del libro El judío internacional, fue su musa inspiradora. Hitler se lo agradeció condecorándolo.
También condecoró al presidente de la IBM, la empresa que hizo posible la identificación de los judíos.
La Rockefeller Foundation financió investigaciones raciales y racistas de la medicina nazi.
Joe Kennedy
, padre del presidente, era embajador de los Estados Unidos en Londres, pero más parecía embajador de Alemania. Y Prescott Bush, padre y abuelo de presidentes, fue colaborador de Fritz Thyssen, quien puso su fortuna al servicio de Hitler.
El Deutsche Bank financió la construcción del campo de concentración de Auschwitz.
El consorcio IGFarben, el gigante de la industria química alemana, que después pasó a llamarse BayerBasf oHoechst, usaba como conejillos de Indias a los prisioneros de los campos, y además los usaba de mano de obra. Estos obreros esclavos producían de todo, incluyendo el gas que iba a matarlos.
Los prisioneros trabajaban también para otras empresas, como KruppThyssenSiemensVartaBoschDaimler BenzVolkswagenBMW, que eran la base económica de los delirios nazis.
Los bancos suizos ganaron dinerales comprando a Hitler el oro de sus víctimas: sus alhajas y sus dientes. El oro entraba en Suiza con asombrosa facilidad, mientras la frontera estaba cerrada a cal y canto para los fugitivos de carne y hueso.
Coca-Cola
inventó la Fanta para el mercado alemán en plena guerra. En ese período, también Unilever,WestinghouseGeneral Electric multiplicaron allí sus inversiones y sus ganancias. Cuando la guerra terminó, la empresa ITT recibió una millonaria indemnización porque los bombardeos aliados habían dañado sus fábricas en Alemania.

Das oportunidades perdidas na péssima constituição de 1988.

A constituição brasileira de 1988 é uma lei mal feita, porque feita para superação nenhuma. Na verdade, ela trouxe duas novidades básicas em relação às duas anteriores, a de 1969 e a de 1967: primeiramente, um extenso catálogo de direitos fundamentais, fartamente enumerados; e, em segundo lugar, a democracia representativa eletiva para todos os cargos executivos e parlamentares.

Não foi pouco, do ponto de vista formal. Formal porque os direitos fundamentais seguem francamente desprezados, embora enunciados solenemente, e a democracia eletiva é pouca coisa em termos de efetividade participativa, principalmente considerando-se o défice de educação formal e de democratização do acesso a informações.

Ela perdeu a oportunidade de fazer o que os momentos de ruptura geralmente propiciam, talvez revelando-se assim seu verdadeiro caráter de continuísmo mal disfarçado. Deixou de dar nova conformação ao estabelecimento, manutenção e queda dos governos. Em palavras poucas e comuns – e evidentemente restritivas – deixou de separar o Estado do Governo de forma clara e garantidora da estabilidade política.

Não vou seguir tentando evitar o lugar-comum: deixou de estabelecer o parlamentarismo. E, por isso mesmo, permitiu que a discussão da adoção desse sistema viesse à tona casuisticamente, de tempos em tempos, conforme imediatismos que o próprio sistema poderia restringir.

O parlamentarismo, de certa forma, é o golpe de estado institucionalizado em uma forma menos drástica de golpe de governo. Institucionalizado, ele funciona de maneira menos drástica que sem balizas formais, permite a alternância de governos sem implicar a ruptura constitucional, sem implicar a desestruturação do Estado, sem reclamar conspirações que se socorrem de interpretações jurídicas mágicas.

Quando a chefia do Estado e a do Governo vestem o mesmo personagem, a dignidade do Estado entra em jogo de varejo sempre que se ataca o Governo, muito embora as instituições sejam diferentes. Ao mesmo tempo, uma só figura humana tenta desempenhar dois papéis de difícil conciliação. Ao tempo em que tenta encarnar a estabilidade e posição de superior magistratura do chefe de Estado, tenta também – na verdade, é obrigado – desempenhar o ativo, fluído e instável papel de governante, submetidos a todas as vicissitudes da dinâmica política.

Caso não se vivam crises políticas, a coisa até funciona nessa confusão de papéis. Todavia, nas crises políticas que põem em questão a legitimidade do governo, seu apoio parlamentar ou seu apoio popular, o risco transborda para atingir o que a princípio não estava em causa, ou seja, as instituições do Estado.

No Brasil, vêm e vão discussões sobre o parlamentarismo, todas ao sabor de interesses imediatos – geralmente golpistas – que são precisamente o que o sistema preveniria, pelo menos nas formas mais traumáticas. Poucos tratam do assunto a sério e muitos mudam ou omitem opiniões segundo o momento.

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso é um caso exemplar. Antes de suas duas e sucessivas presidências, era defensor aberto da adoção do parlamentarismo. Durante seus governos demonstrou um apego enorme ao presidencialismo, tão grande que fez o Congresso aprovar a possibilidade de sua reeleição – muitos dizem que à custa de subornos – e manipulou as taxas cambiais para, criando artificial sensação de riqueza, ganhar a segunda eleição. Depois, algum dilúvio, como sempre.

Presentemente, o mesmo Fernando Henrique, tomando o cuidado de não o fazer em períodos eleitorais, para evitar demasiado caráter casuístico, volta ao assunto, com alguma frequência. Os câmbios de opinião levam a crer que ele move-se pela vontade de restringir os poderes do titular do cargo que não seja ele mesmo.

Embora atualmente não haja crises políticas, notadamente porque a economia vai muito bem, há frequentes insinuações de golpismos sob vestimentas jurídicas. E nada impede que o golpismo mais franco ou a situação de perda profunda de legitimidade de um governo volte a repetir-se. Por isso, conviria que se discutisse a mudança na forma de composição e queda dos governos, separando-os da chefia do Estado.

É muito mais simples dissolver-se um parlamento, convocar eleições a buscar as vontades populares e compor novo governo que fazer algo semelhante ao tumultuado e pouco compreendido processo que culminou no afastamento do ex-Presidente Fernando Collor de Mello. Processo em que nada mais havia que uma insatisfação com o governo – que se revelou pouco confiável para muitos interesses – gerou uma tremenda confusão institucional a atingir o Estado, na medida em que o seu chefe e maior autoridade entrou na cena.

Os governos vivem de ter, manter e perder prestígio político. As presidências não podem viver ao sabor das mesmas forças, porque encarnam coisa muito maior e menos contingente. Outra saída era um Imperador, mas os bourbons nacionais parece que entraram em franca degeneração…

Um exército que atira no seu povo, para atender aos interesses de uma empresa estrangeira: Ciénaga.

Jorge Eliecer Gaitán

A companhia United Fruit plantava bananas para exportação, na região colombiana de Magdalena e mantinha os trabalhadores das plantações em condições próximas à escravidão. Esses trabalhadores mantinham vínculos por meio de contratadores, ou seja, por arrendadores de trabalho. O número é estimado entre 10.000 e 30.000 e tal imprecisão deve-se, tanto à precariedade dos registos, quanto à precariedade decorrente das relações de contratação por pessoas interpostas.

Em novembro de 1928, um sindicato lançou petição de reinvidicações, notadamente de respeito às normas de segurança do trabalho, de habitações com adequadas condições higiênicas e aumentos de 50% nas remunerações. Basicamente, tratava-se de pedir o cumprimento de quanto já se encontrava nas leis trabalhistas colombianas de então.

A United Fruit Company negou-se a atender qualquer das reivindicações e mesmo a iniciar qualquer negociação. Iniciou-se a greve dos trabalhadores e o General Carlos Cortés Vargas foi enviado à região, supostamente para intermediar alguma solução negociada entre os grevistas e a UFC.

Não houve grandes recuos da UFC, que insistia na manutenção das condições extremamente precárias dos trabalhadores das plantações bananeiras. As greves continuaram e evoluíram para o bloqueio dos embarques de bananas nos trens, em Ciénaga. O governo colombiano editou o Decreto Legislativo nº 1, que declarava o estado de sítio na região, por perturbação da ordem pública, e fazia do General Vargas chefe civil e militar da mesma região.

Cortés Vargas, pleno de poderes excepcionais, determinou a proibição de qualquer reunião de mais de três pessoas e prometeu atirar na multidão, caso desobedecido. Na madrugada do dia 06 de dezembro de 1928, Vargas ordenou a formação da tropa e leu as ordens para a multidão dispersar-se, em cinco minutos. Passados esses escassos minutos, deu-lhes mais um mísero minuto e cumpriu a promessa.

Então, o exército colombiano fuzilou trabalhadores colombianos desarmados, matando-os às centenas, para atender aos interesses de uma companhia estrangeira!  O próprio embaixador norte-americano, Jefferson Caffery, em informe para o Departamento de Estado, asseverava a ocorrência de mais de 1000 mortes.

O político Jorge Eliecer Gaitán denunciou a chacina no congresso colombiano, acusou os militares de ação premeditada em estado e embriaguez e mencionou trens carregados de cadáveres que seriam jogados ao mar. É óbvio que Gaitán tinha interesses políticos em fazer as denúncias. Ao menos eram interesses contrários àqueles de quem mandou o exército disparar contra seu próprio povo, colocando-se a serviço dos interesses de uma empresa de fora.

A UFC – United Fruit Company era apenas a face mais visível da duradoura vassalagem que a Colômbia presta aos Estados Unidos da América. O aspecto talvez mais simbólico do enorme poder que tinham, a ponto de fazer um governo ir aos píncaros de mandar o exército massacrar uma população porque esta contrapunha-se à empresa e pedia o cumprimento das normas laborais.

As UFCs, que são muitas e não somente bananeiras, caracterizam-se não apenas pela exploração profunda, como pela desfaçatez sem limites. Agora mesmo, acesso o sítio de internet da companhia – http://www.unitedfruit.org/gaitan.htm – e leio um texto em que desfaçatez, a hipocrisia e a indignidade transparecem em todas as palavras.

O site da companhia em benefício de quem mataram-se mais de mil colombianos trata do assunto, a propósito de uma brevíssima biografia de Gaitán, como se ela nunca tivesse estado na Colômbia. Parece até que não sabem nem mesmo o que é uma banana. Parece que o General Vargas era um desconhecido deles. Faltou apenas apresentar condolências aos descendentes dos que morreram por vontade da própria UFC e por execução do governo colombiano.

A violência e a quase total subserviência aos Estados Unidos da América caracterizam a vida, a economia e a política colombianas. A trajetória de Gaitán é emblemática desse modus político colombiano.

Jorge Gaitán poderia ser classificado como um liberal com preocupações sociais, pois nada que se aproximasse minimamente de um esquerdismo merecedor do nome havia então.  Político de origens médias, advogado, extremamente popular, seguiu o cursus honorum. Foi deputado, senador, prefeito de Bogotá, ministro de mais de um governo.

Candidatou-se à presidência pelo partido liberal e, por sua popularidade nas classes médias baixas, tinha enormes chances de vitória. Foi assassinado quando saia de seu escritório, episódio que desencadeou uma onde de violência sem precedentes em Bogotá, conhecida como o Bogotazo.

A multidão rumou para o Palacio de La Carrera, residência presidêncial. Tanques de guerra dispararam e mataram aproximadamente 300 pessoas. A confusão generalizou-se por Bogotá e espalhou-se pelo país. O governo fez concessões ao partido liberal e evitou uma guerra civil aberta. Ela, todavia, seguiu subterrânea.

O negócio da cocaína viria reanimar a violência na Colômbia. Traficantes enriqueceram vertiginosamente e cooptaram porções da classe política. Convivem – em harmoniosa hipocrisia – a produção e venda de cocaína com o vigoroso discurso contra essa atividade. Na verdade, a origem das duas coisas é a mesma.

Não há, nem na Colômbia, nem nos EUA, qualquer instância dirigente preocupada com o comércio de cocaína, senão como uma desculpa para mais violência e uma forma de turvar a percepção de coisas mais sérias. Os dirigentes políticos têm relações íntimas com o tráfico de cocaína.

Um primo do Presidente da Colômbia Álvaro Uribe, o ex-senador Mário Uribe, é processado por associação com o tráfico. O pai do Presidente, era ligado a Pablo Escobar, aquele que se tornou o protótipo de traficante demonizado mediaticamente. Um general do exército colombiano foi preso na Europa traficando cocaína. As conexões são muito evidentes para serem desprezadas.

O caminho da militarização precisa de desculpas e cortinas-de-fumaça para seguir seu rumo. Por isso, as acusações exaustivamente repetidas de envolvimento das Farc com o tráfico de cocaína são pueris, quando se sabe que quase tudo e todos estão nesse negócio. Na verdade são dois grupos que atuam no mesmo ramo acusando-se mutuamente e abrindo caminho para a continuação da violência.

Juntamente com as Farcs e com os inúmeros grupos mercenários, o exército regular colombiano desempenha um infame papel. O governo instituiu premiações em dinheiro e em promoções na carreira militar para a captura e eliminação de guerrilheiros das Farcs. Resultou em uma das atitudes mais infamantes que um exército pode ter – digna daquela de 1928.

Sabe-se que militares colombianos vêm assassinando camponeses que nada têm com as Farc e reportando as ações como de combate a essa banda guerrilheira, para receber as recompensas! É o caso conhecido como os falsos positivos. Ou seja, matança de civis com motivos fraudados para ganhar dinheiro.

Não é tarefa simples desmontar essa conflituosidade com tão fortes raízes históricas. E a insistência no disfarce, o desvio de atenção com acusações a países vizinhos, nada disso ajuda positivamente.

Hitler na Argentina?

Adolfo Hitler

As periferias sempre dão notícias com atraso. Por isso, leio do Diário de Pernambuco uma matéria sobre três livros do escritor jornalista argentino Abel Basti sobre uma fuga de Adolfo Hitler para o sul da Argentina. Eu sabia que um escritor norte-americano, ou inglês, não sei bem, já desenvolvera a idéia antes.

Desse argentino nunca ouvira falar mas, pesquisando um pouco, constatei que o primeiro de três livros foi publicado em 2006 e que o autor já vai no terceiro volume sobre essa fuga tão interessante e potencialmente lucrativa, tanto para o autor, quanto para o turismo em Bariloche.

Pois é, segundo Basti, Bariloche, antes de ser o paraíso dos deslumbrados brasileiros, acolheu gente mais importante. Ele sustenta que Hitler se teria instalado naquela estância em meio às montanhas e chega a apontar casas que teriam sido residência do austríaco célebre.

Diferentemente do inglês, ou norte-americano, Basti afirma que o Führer saiu de Berlim para um lugarejo na Áustria e, de lá para a Espanha, por via aérea. Então, teriam ele e alguns próximos, embarcado em dois submarinos com destino ao sul da Argentina.

A estória dos submarinos alemães na Argentina é conhecidíssima. A hospitalidade argentina para os alemães, também. A fuga do próprio Hitler, todavia, parece-me um pouco improvável.

O jornalista, inteligentemente, recorre a um pedido de comparação de ADN entre os pedaços de mandíbula e de crânio mantidos na Rússia com restos de uma irmã de Hitler, enterrados na Alemanha. Ele usou um grande argumento para tirar a prova, talvez por saber que os russos não se disporão a essa empreitada.

A melhor parte dos argumentos de Basti, que se podem ler no seu sítio de internet, são políticos. Havia fortíssimas simpatias norte-americanas e inglesas pelo Führer, o que não é segredo algum. Inclusive, os partidários do nazismo alemão tinham livre trânsito em Washington, antes e durante a segunda grande guerra, e faziam lóbi abertamente.

Essas simpatias da extrema direita norte-americana, contudo, não permitem concluir, por si sós, que se tenham empenhado em tornar viável a fuga do Führer, quando pouca diferença faria sua morte. Tanto o nazismo, como o extremismo de direita viveram e vivem bem sem a figura emblemática.

Vou procurar ler algum desses livros e, caso não seja muito chato ou muito superficial, permitindo-me ir até ao fim sem ter a impressão de perder tempo, exponho alguma impressão.


Para a minha avó. O acordo ortográfico é uma merda.

Falei com meu pai ao telefone e ele disse-me: tua avó está mais surda que tu, vai ser uma conversa complicada. Mostrei a ela aquela crônica sobre o acordo ortográfico e ela riu. Ela disse ele chamou o acordo ortográfico de merda… e riu.

A conversa foi porque ontem minha avó paterna completou 90 anos. Não pude ir a Recife vê-la e meu pai telefonou-me e contou-me da reação dela a esta crônica. A idade avançada faz mais mal que bem, mas algum bem faz. Ela, uma senhora velha, pode relevar o  nome feio e achar graça no texto.  A idade permite desprezar nomes feios.

O texto é o seguinte:

Impressões luso brasileiras. O acordo ortográfico é uma merda.

Antes que seja acusado de alguma coisa pela palavra mais vulgar do título, quero defender-me com dois argumentos. O primeiro é de bagatela, pois há muito mais vulgaridade escrita por aí, tanto nas formas, como nos conteúdos. O segundo é a autoria da assertiva. Foi Millôr Fernandes quem disse isso, em resposta a um jornalista do Diário de Notícias. Portanto, invoco a proteção devida aos que citam de fonte certa. Não fui eu, mas concordo.

Pretendia escrever sobre outras coisas, mais precisamente a respeito de viagens por estradinhas secundárias, estreitas, daquelas que passam em aldeias e vilas, que serpenteiam nas encostas dos montes, que não têm viadutos enormes. Estradas boas, mas cheias de curvas, que reclamam atenção redobrada e velocidades baixas. Em troca, recompensam com vistas magníficas do interior desta região minhota.

As auto-estradas com pagamentos são mais rápidas, talvez mais seguras, seguramente muito mais caras, e menos propícias a equívocos no trajeto. Se há pouco tempo e há dinheiro, são a melhor escolha. Todavia, se o tempo não é problema, é melhor seguir pelas estradas secundárias. A impressão é de estar-se mais em contacto com o mundo real, passando rente às casas, aos riachos, às matas.

Para todos os destinos há estradas públicas e para quase todos há auto-estradas pagas. Bastante diferente das idéias de concessão que vicejam no Brasil, em que os defensores das estradas pagas nunca se preocuparam em que essas fossem uma alternativa. Já me cansei de ouvir os propagadores das maravilhas da via paga defenderem a concessão de estradas existentes. Curiosa visão essa. Por que raios não concedem a construção de algo novo?

Mas, embora fosse falar destas viagens, acontece que tenho o hábito de comprar jornais, todos os sábados e domingos. E esse hábito é menos danoso aqui que no Brasil, pois os jornais são menos ruins. Os jornalistas são menos atrevidos nas suposições, editorial é editorial, reportagem é reportagem, crítica de cinema ou de livro é isso mesmo e por aí vai. E dei-me com uma matéria de página inteira sobre Millôr, com meia dúzia de perguntinhas, respondidas com o habitual bom-humor.

Sobre o acordo, a resposta foi a frase que titula esta crônica, seguida de outra: A Academia é uma excrescência de velhos tempos. O entrevistador tinha perguntado se o acordo ia colar e se tinha sido uma imposição da Academia de Letras. Parece que Millôr acha mesmo que foi invenção da academia e que acha os dois, a invenção e o inventor, a mesma coisa, que não precisa mais ser repetida.

O autor entrevistado tem já seus oitenta e seis anos e não precisa ficar aos volteios em explicações de obviedades, ou pedindo desculpas ao responder a perguntas de respostas previsíveis. Na verdade, nunca foi dado a isso, nem quando era mais novo, e o assunto é uma grande bobagem, no final das contas, seja-se a favor ou seja-se contra. Talvez Millôr tenha dado uma grande resposta pelo que deixou de falar, pois não disse se ia colar, ou não.

A mim, parece-me que governo português algum, de direita, centro ou esquerda, vai perder tempo e popularidade a tentar impor uma mudança que as pessoas não querem, que não muda coisa alguma nas suas vidas e que não as impede de ler livros em potuguês brasileiro ou africano. E que essa estória toda tende a ser simplesmete um desassunto, à medida que o tempo passa e as coisas mantém-se como sempre. Visto por outro lado, pelo lado brasileiro, fica mais claro ainda que se trata de preciosismo de acadêmico a serviço de editoras.

Nós devíamos fazer um acordo nacional para afalbetizar as pessoas, em português pré ou pós acordo, para além de ensiná-las a desenhar seus nomes. E não sucumbir a argumentos de que essa alfabetização seria mais fácil com uma ortografia purgada de meia dúzia de acentos, hífenes e consoantes. O difícil da estória é a sintaxe e essa muda muito lentamente e independentemente da ortografia.

Mas, é realmente curioso colher as opiniões de escritores sobre isso. Há pouco tempo, esteve aqui em Braga Mia Couto, o fabuloso autor moçambicano. Lançava o livro Jesusalém da maneira como lhe apraz, ou seja, em contato próximo com as pessoas. Chegou à livraria Centésima Págima e conversou com os presentes nos belos jardins. Estava cheio de gente e todos faziam-lhe perguntas, à vontade.

Lá pelas tantas, a pergunta inevitável sobre o tal acordo. A platéia certamente era maioritariamente contra, porque predominavam os portugueses. O autor fez cara de cansado, mas respondeu, e respondeu genialmente. Parou, tomou um pouco de ar e fez um discurso, daqueles pré fabricados, contra o acordo. Quando terminou o discursozinho, a platéia aplaudiu entusiasmada. Ele esperou terminarem os aplusos e entoou um discursozinho, daqueles pré fabricados, a favor do acordo, quase do mesmo tamanho e com os argumentos inversos.

A platéia deu uma incomum demonstração de inteligência, aplaudindo o segundo discurso também. Deve ter percebido a piada e o enfado do escritor em ter que responder a uma bobagem daquelas. Um escritor escreve, com acordo ou sem acordo. A economia de dinheiro das editoras é outro assunto.


A campanha de Juscelino Kubitschek.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FDXUWyXsJu4&rel=0&color1=0xb1b1b1&color2=0xd0d0d0&hl=en_US&feature=player_embedded&fs=1]

O homem que seria eleito em 1965 novamente presidente, se os militares não tivessem imposto ao Brasil 21 anos de exemplos de violências, de desprezo pelas leis e por eleições. Se a nossa democracia sempre fora meramente formal, depois do golpe militar de 1964 deixou de ser qualquer coisa.

Inclusive, a popularidade imensa de Kubitschek, que deixara o governo em 1960, depois de inaugurar Brasília, devia ser lembrada por quantos crêem que haveria um golpe de estado dos partidários de João Goulart e classificam o golpe militar – esse que realmente houve – de contragolpe.

Ora, João Goulart ia cumprir o mandato que herdara por conta do fracassado golpe de Jânio e provavelmente entregaria a presidência a um triunfante Kubitschek.

Realmente, quando se afirma algo, convém indagar-se de suas possibilidades. Na ocasião, havia dois campos políticos conflitantes e dispostos à disputa eleitoral. Um era capitaneado por Carlos Lacerda, prócer do direitismo mais profundo e anti-nacional. Outro era capitaneado por Juscelino Kubitschek, prócer de um direitismo nacionalista.

No âmbito político-partidário pouco ou nada havia fora dessa polarização. Os eleitores brasileiros dividiam-se entre essas duas vertentes e não empenhavam apoio, senão residualmente, a outras inclinações políticas.

Então, se Goulart alinhava-se a uma dessas vertentes, não tinha porque tramar golpe algum. Por outro lado, se perfilhava o entendimento politicamente residual, não tinha como dar golpe algum, porque isso é fadado ao fracasso sem apoio popular ou militar.

Ou seja, a suposição de que Goulart pretendia um golpe de estado – suposição que subjaz à tese de que o golpe de 1964 foi um contragolpe – implica supô-lo, a ele Goulart, burro.

O adjetivo no lugar do advérbio.

Por trás dessa insignificância que é a troca de um adverbio por um adjetivo, pode haver sutilezas psicológicas a serem desveladas. O caso é que essas substituições são relativamente frequentes e apanhei-me a pensar nelas, pois habitualmente detenho-me em imensas bobagens.

A frase, a mais comum e modelar dessa troca de quantas tenho ouvido, é a seguinte: Fulano dirige ruim. Evidentemente está errada, do ponto de vista gramatical, porque ruim não qualifica a ação de dirigir. Mal qualifica a ação de dirigir, assim como outras tantas. Ruim pode qualificar o agente, não a ação.

Minha primeira desconfiança quanto à origem do erro foi que os falantes tomam as categorias advérbio e adjetivo por uma coisa só. Isso implicaria, primeiramente, que a troca ocorresse apenas entre os menos letrados, o que não é o caso. Realmente, a permuta das categorias é extremamente democrática e permeia muitas classes sociais.

Uma possível explicação para essa amplitude social do erro gramatical poderia estar nas diferenças entre a lingua escrita e a falada. Mas, outra circunstância vem alertar para outros motivos: o uso de um pelo outro vê-se, tanto falado, como escrito. Ou seja, não se trata de uma falta de vigilância devida ao à vontade da língua falada.

Se a causa maior estivesse na consideração de identidade das categorias, ou seja, na consideração de adjetivos e advérbios como a mesma e única coisa, seria perceptível que os falantes tomassem, por exemplo, mal e ruim como sinônimos. E isso, todavia, não acontece. Quer dizer que, no fundo, o falante não as reputa iguais e indistintas, mas faz uma escolha que deixa ver uma ponta de sua constituição psicológica.

Ao dizer fulano dirige ruim o falante não está verdadeiramente ocupado em qualificar a forma como fulano dirige. Está, verdadeiramente e coerentemente com o uso do adjetivo, qualificando o próprio fulano, não a ação. É a subjetividade que não se consegue esconder, nem aprisionar pelas normas gramaticais.

No comum dos casos, não se fala genericamente, objetivamente. Fala-se de alguém, transbordam julgamentos pessoais sobre alguém, mais que sobre as ações que esse alguém pratique. Somos muito terra-a-terra, no dia-a-dia; muito contra e favor de alguém e profundamente indiferentes às ações e àlguma enunciação teórica.

A alma da intriga e da fofoca, da cosmologia de botequim, da sociabilidade de casa de pensão é a nossa real substância.

« Older posts Newer posts »