Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 90 of 126)

Eles precisam de conflitos, sempre!

Dois imbecis queimam o Alcorão.

Dois imbecis queimam o Alcorão.

A novidade do século passado foi a guerra ter-se tornado algo desejável por um elemento novo, além das habituais vantagens da conquista territorial e do saque ao vencido.

Ela tornou-se interessante em si mesma, por conta dos contratos governamentais que se podem celebrar, justificados pela guerra. Claro que sempre se soube e falou das vantagens dos fornecedores dos exércitos, mas isso não chegava para ser a motivação da tensão bélica permamente. Era um efeito lateral vantajoso para os fornecedores.

Hoje chega ao rol das motivações, provavelmente a mais destacada. É preciso haver conflitos permanentes e para haver conflitos permanentes ainda são necessárias algumas aparentes justificações, por mais tolas que possam parecer. O lobo tem que acusar o cordeiro de sujar a água que ele bebe, ainda que o primeiro conheça a lei da gravidade.

Para vender coisa pouca, carabinas e balas, por exemplo, há o tráfico de drogas, o México, a Colômbia e outras desculpas pueris. Para as coisas mais pesadas, há o espírito de Cruzada.

Para saquear Constantinopla e ocupar a Palestina, os bandidos liderados pelos franceses precisaram de mais que a própria vontade.  As massas que cortariam cabeças e eventualmente teriam as próprias cortadas, não se convenceriam pelas vantagens que não aufeririam. Seriam convencidas pelo espírito de Cruzada.

Há quem sirva à propagação desse estado de espírito sinceramente, ganhando materialmente pouco, quase que somente por estreiteza mental e fanatismo religioso. São utilíssimos aos que vivem do negócio da conflagração permanente.

Dois pastores imbecis do Tennessee queimaram exemplares do Alcorão. Não é provável que sejam grandes acionistas da General Dynamics, da Boeing, da EADS, da Dassault, ou de qualquer outra grande corporação bélica. São dois imbecis que desempenham um grande papel.

O livro ditado pelo Profeta iletrado não convida a qualquer intolerância contra os monoteístas que ligam suas raízes ao preconceito originado no deserto palestino. O livro afirma que o Galileu crucificado em Jerusalém foi um Profeta, merecedor de todo respeito como tal. O livro é extremamente respeitoso com a mãe desse Profeta.

Quando os seguidores do Profeta de Medina querem expressar suas raivas políticas e religiosas, eles queimam as bandeiras norte-americana, francesa, inglesa ou israelense. Eles não põem fogo nos textos daqueles escritores mal-alfabetizados em grego, do século I, ou na Torá, ou no Pentateuco.

Eles sentir-se-ão agredidos com essa atitude estúpida de dois pastores do Tennessee? Obviamente, e esse é precisamente o resultado que os senhores das corporações e dos bancos que com elas vivem em simbiose gozarão imensamente.

Eisenhower adverte sobre o complexo industrial militar.

O Presidente Eisenhower parece ter-se dado conta das dimensões do monstro criado no pós segunda grande guerra mundial. O complexo industrial militar tornou, desde então, todo o discurso sobre democracia e liberdades palavras destituídas de qualquer contato com a realidade. Apenas, fórmulas a serem propagadas e repetidas acriticamente por quem não está a perceber onde e como opera o poder real.

Em tradução livre, a partir de 1:01 do vídeo, diz Eisenhower: essa conjunção de um imenso aparato militar e uma grande indústria de armas é nova na experiência norte-americana. Sua influência econômica, política e até espiritual é sentida em todas as cidades, todas as casas e em todos os escritórios do governo. Nós reconhecemos a imperiosa necessidade desse desenvolvimento, embora não deixemos de perceber suas graves implicações.

Em 1:38, a indicação do cuidado que deveria ser tomado, mas que foi impraticável, depois, como se sabe: no governo, devemos precaver-nos contra a aquisição de indesejável influência, seja voluntária ou não, pelo complexo industrial militar. O potencial para o desastroso avanço do poder mal colocado existe… Não devemos deixar o surgimento dessa combinação por em risco nossa liberdade ou nosso processo democrático.

Eisenhower foi clarividente e explícito, o que são coisas difíceis. Realmente, compreender um processo histórico passado já é bastante complicado. Compreender o momento do processo em que se vive, é mais difícil ainda. Ele esteve certo e a advertência não resultou…

Lucien Sarti atirava muito bem.

Quadro 312 do filme de Zapruder

Quadro 312 do filme de Zapruder

Quadro 313 do filme de Zapruder

Quadro 313 do filme de Zapruder

Frequentemente, as coisas mais improváveis são as mais fáceis de divulgar como verdades. Vale o conselho de Goebbels, ou seja, trata-se de repetir uma versão ao máximo e sentar em cima dos papéis. Acrescente-se à linha básica o afirmar-se que as evidências são tomadas para se construirem teorias da conspiração.

Os investigadores oficiais do assassinato de John Fitzgeral Kennedy concluiram – e convenceram a enorme maioria do público – que o Presidente foi alvejado por trás, no que seria um trabalho excepcional de um mal atirador, posicionado a enorme distância e manejando uma arma apenas razoável.

O corpo de John Kennedy foi primeiramente levado ao Dallas Parkland Hospital, mas ele já estava morto. Os médicos e enfermeiras que o atenderam na ocasião não corroboraram depois o que disseram à comissão Warren. Os depoimentos coincidem em um homem ferido por, ao menos, dois disparos, um no lado direito da cabeça e outro na garganta.

A comissão Warren afirmou que todos os ferimentos foram  obra de duas balas, uma delas a bala mágica – um projétil de 3 cm, revestido de cobre e com alma de chumbo, com 6,5 mm de diâmetro –  que teria atingido Kennedy em baixo do pescoço. Essa bala mágica, como merecidamente foi nomeada rapidamente, teria penetrado por trás e por baixo do pescoço de Kennedy, saído pela garganta, penetrado no ombro de Connally e, depois de tantos volteios, alojado-se no punho do governador.

Essa maravilha balística teria sua prova na própria bala, que se supõe encontrada no chão, singelamente, no Parkland Hospital. Esta prova irrefutável é uma bala quase intacta, apesar de todas as sucessivas camadas de ossos, tecidos humanos moles e tecidos de roupa que atravessou!

A teoria da única e mágica bala é de uma absurdidade tamanha que não merece maiores comentários. É interessante perceber que essa mesma absurdidade calhou muito bem à montagem das conclusões da comissão Warren. Ou seja, ao mesmo tempo em que o absurdo em si não é empecilho à crença em alguma mentira, ele também mostra a vantagem de desviar o foco das observações.

A comissão tinha o objetivo de concluir que um agente da inteligência da Marinha, especialista em radares, Lee Harvey Osvald, agira sozinho e por conta própria. Ele teria disparado três vezes em 5,7 segundos e conseguido atingir o Presidente em movimento, duas vezes, a uma distância de 58m, em um ângulo extremamente improvável.

Com uma rapidez que beirou a indignidade, tanto o corpo de Kennedy foi embarcado no avião oficial, quanto o vice-presidente Lyndon Baines Johnson foi empossado na presidência, dentro do próprio avião. O corpo foi submetido a uma autópsia oficial no hospital naval de Bethesda.

A comissão Warren realizou um grande trabalho de ajuste das variáveis e supostas provas disponíveis, no sentido de concluir pelo único atirador, situado no sexto pavimento do depósito de livros da escola do Texas. Na verdade, a teoria da bala única gera uma útil controvérsia que afasta a percepção do aspecto mais importante, que é a multipla origem dos disparos.

O filme de Zapruder contém inúmeros vestígios de manipulação, notadamente de retirada de quadros e posterior suavização dos buracos resultantes dessa retirada. Há um estudo cuidadoso da manipulação do filme de Zapruder aqui: www.assassinationscience.com/johncoetella/jfk

Isso porque tudo indica que houve muito mais que três disparos e que não se originaram do mesmo ponto e, além disso, que a limusine presidencial parou completamente e depois retomou a marcha, no meio dos disparos. A questão das conclusões da comissão e das muitas confusões com testemunhos e laudo de autópsia e a manipulação do filme de Zapruder era afastar a evidência dos multiplos atiradores e, consequentemente o complô.

O indivíduo que foi considerado o assassino era um antigo agente da inteligência da Marinha norte-americana, que trabalhava com radares. Criou-se o mito da deserção de Osvald, que foi para a Rússia. Realmente, ele esteve lá um tempo, mas há indícios de que desempenhou tarefas interessantes para o governo norte-americano.

Osvald teria teria ensinado os russos a detectarem corretamente, por meio de radares de pulsos doppler, os aviões espiões U2 que sobrevoavam a Rússia a tirar fotografias. Realmente, pouco depois que o avião U2 pilotado por Francis Powers foi abatido na Rússia, Osvald retornou aos EUA e foi levado para Dallas.

Há muito sentido nisso, se se toma em conta que os militaristas precisavam de um pretexto urgente para violar as convenções de Genebra e seguir seu rumo de aumento de despesas militares, a partir da crescente paranóia com a ameaça que seriam os russos. O militarismo quer qualquer coisa que não seja alguma paz.

Osvald destinou-se a ser o que chamam uma Patsy, ou seja, um bode expiatório levado a uma situação pré-concebida. Foi reiteradamente fotografado a brincar com armas e levado a discursos bobos de amor a Fidel Castro e a Cuba, o que não era minimamente difícil um agente fazer, desde que acreditasse estar desempenhando mais um papel.

Lucien Sarti era um corso envolvido em tráfico de heroína, em Marselha. Um bandido de bom currículo, pode-se dizer, e reconhecido como grande atirador. Especula-se que teria sido o graduado agente da CIA Cord Meyer a contratar o pessoal de Sarti para o assassínio de John Kennedy.

Sarti, muito oportunamente, foi assassinado pela polícia, na cidade do México, em 1972. O realizador de documentário Anthony Summers, autor do último episódio, em 2003, de The Man Who Killed Kennedy, obteve essa indicação de Christian David, um criminoso francês encarcerado, e foi corroborado por Micheli Nicoli. Significativamente, eles apontaram somente o nome de Sarti, que já estava morto.

É notável que o History Channel, produtor do documentário, tenha feito um desmentido, no ano de 2004, como forma de evitar processo movido por Gerald Ford, um ex-presidente e membro da comissão Warren. O episódio nono e último, intitulado The Guilty Men, apontava para a responsabilidade do Presidente Jonhson.

Um pouco depois do filme documentário do History Channel, o agente da CIA Howard Hunt, pouco antes de morrer, disse que o Presidente Lyndon Johnson ordenou o assassinato de Kennedy. Hunt foi o líder da operação que colocaria escutas no Hotel Watergate, onde se realizaria a convenção do partido democrata, em 1972.

Nesse ponto, convém afastar-se um pouco das estritas balizas cronológicas e da lógica investigativa ou jornalística para compreender porque Joe Kennedy Junior, John Kennedy, Robert Kennedy precisaram ser assassinados. Ou seja, para perceber em que eram ameaçadores e a quem.

A primeira inclinação – natural – é considerar que eles eram mafiosos demais. Todavia, no ambiente em que atuavam, no inner-circle norte-americano, o nível de mafiosidade dificilmente era muito diferente, de grupo para grupo antagônico. Daí, não parece razoável crer no excesso dos Kennedys como motivo de seu alto perigo, a justificar os assassinatos.

Convém lembrar que Joseph Kennedy era banqueiro riquíssimo já na década de 1920, então com menos de 30 anos de idade e que era irlandês e católico. Almejava a presidência e foi preciso empenho de Franklin Delano Roosevelt para afastá-lo legalmente da possibilidade de concorrer ao cargo.

Preparou então o filho mais velho para a missão. As circunstâncias conspiravam a favor, porque Joe Kennedy Junior, oficial da aviação norte-americana na segunda grande guerra, provavelmente retornaria para ser condecorado por bravura e seria improvável que perdesse para Truman. Morreu em circunstâncias estranhas, em um avião que explodiu sobre o canal da Mancha.

Passou-se a John, que enfim foi eleito. Em 04 de junho de 1963, o Presidente assinou o Decreto Presidencial n. 11110 (Executive Order), que praticamente retirava da Reserva Federal – uma entidade privada que não se confunde com os bancos centrais europeus – o poder de emprestar dinheiro a juros ao Governo Federal Norte-Americano.

Assim, Kennedy, com uma assinatura, punha fim a um dos maiores negócios do mundo, senão o maior, estabelecido em torno aos interesses de banqueiros que, na origem, eram principalmente britânicos. Claro que seria a mudança de um grupo por outro, mas não seria pouca coisa, pois o FED é a maior invenção da humanidade para por o mundo de joelhos, a partir da reserva de mercado para um grupo de banqueiros do maior tomador líquido de empréstimos que havia e há.

A isso adiciona-se uma e outra modificação na política fiscal para o setor de petróleo e uma discreta relutância em aprofundar a guerra no Vietnam. Estavam criadas as condições para haver três principais setores contra o Presidente: os bancos, as petrolíferas e a indústria armamentista. E esses setores sempre coordenaram bem seus interesses e conjugaram esforços quando necessário.

Sempre ficou mais evidente a participação dos setores petrolífero e bélico, mas creio que os banqueiros tiveram parte mais decisiva nesse entendimento que resultou na ordem de Jonhson para o assassinato. Na verdade, as indústrias vêm a reboque dos bancos, esse sim o maior dos negócios.

TV é concessão pública.

A constituição brasileira diz que a radio difusão de sons e de sons e imagens é um serviço público e que é prestado no regime de concessão. Ou seja, empresas de manipulação de massas, como a Rede Globo de TV, não são proprietárias senão de seus equipamentos, do ponto de vista jurídico-formal.

Esse serviço não deve ser visto sob a ótica da dicotomia entre estatal e particular e, sim entre público e privado, como adverte o professor Fábio Konder Comparato. Realmente, a abordagem errônea é proposta e estimulada pelos grupos que detém as concessões, para turvar a compreensão geral.

O serviço público é aquele que deve atender primordialmente aos interesses gerais da população e não é livre de quaisquer condicionantes a sua prestação. Suas balizas são finalísticas, portanto, e o encontro dos objetivos a serem atingidos passa pela captação da opinião dos destinatários sobre o que ele deve oferecer.

Decorre dessa natureza de serviço público que a programação de uma TV não é de livre escolha dela, como supõem quase todos. Não é porque não ocorre necessariamente uma correspondência entre os interesses do dono da estação de TV e os interesses públicos.

Os interesses dos donos das emissoras de TV giram, basicamente, em torno a dois objetivos: conquistar e fidelizar o máximo de espectadores e obter o máximo de lucro. O segundo objetivo depende do primeiro, que é o parâmetro para o custo dos espaços publicitários.

Além desses objetivos básicos, as TVs podem servir a interesses políticos, seja por fidelidade ideológica àlgum dos lados, seja por almejarem favores estatais. Nenhuma dessas três linhas de finalidades coaduna-se com o que se espera de um serviço público, que não se orienta a imbecilizar massivamente, vender qualquer coisa e apoiar partidos políticos.

Os concessionários de TV têm um enorme poder de manipulação por razões óbvias. Mantém a seu serviço especialistas em moralismo udenista que fornecem argumentos contra qualquer tentativa de dar-lhes algum caráter de serviço público.

Seu discurso – quase histérico – é que se pretendem impor restrições incabíveis à liberdade de expressão, sempre que se propõe alguma discussão sobre as finalidades das concessões. É um discurso estúpido, porque as restrições aplicáveis decorrem da própria natureza do serviço, conforme estabelecido na constituição.

Quaisquer direitos, na verdade, pressupõem restrições e não há deles absolutos. As restrições podem ser explícitas ou implícitas na própria conceituação de algum instituto. No caso das transmissões de TV, incidem as restrições clássicas da lei penal, notadamente as que sancionam delitos de calúnia, injúria e difamação.

Além dessas – que se aplicam a qualquer meio de comunicação – existem aquelas decorrentes da natureza pública do serviço, ou seja, de suas finalidades. Aqui, fica patente que a liberdade de escolha da programação oferecida pode sofrer as restrições que não se encontram, por exemplo, para jornais ou revistas, porque estes não são serviços públicos.

Não é finalidade pública incutir nas pessoas formas elementares de maniqueísmo político e reduzir o pensamento crítico a níveis baixíssimos. Não é finalidade pública fazer proselitismo político à guisa e sob pretexto de se fazer jornalismo. Não é finalidade pública estimular preconceitos de raça, classe social, região geográfica, gênero, idade e religião.

Essas ações, que não visam a finalidades públicas, são precisamente as desempenhadas pelas TVs, segundo suas próprias e únicas motivações. Atendem somente aos interesses mediatos dos proprietários das estações e não foram objeto de qualquer consulta pública.

Aqui, deve-se mencionar outro argumento falso usado pelas TVs em defesa da fixação irrestrita de suas programações. Falso e mal-intencionado é o argumento de que as opções públicas são feitas por aceitação da programação oferecida. No consumo da programação não há propriamente uma opção, apenas uma aceitação em mão-única.

A similaridade imensa das programações das TVs prova que a adesão dos espectadores não tem natureza de opção, porque as alternativas quase inexistem. Todas as programações tratam de oferecer pacotes fechados de informações simples e prontas, ou seja, na medida para retrair ao máximo o pensamento.

Deveria haver órgãos – conselhos, comitês ou qualquer nome que se queira dar – cuja composição representasse toda a sociedade, a partir de critérios sociais, econômicos, geográficos, de idade, para se estabelecerem padrões mínimos de finalidades públicas e seus reflexos nas programações televisivas.

A isso não se dá o nome de violações à liberdade de expressão, senão por pessoas mal-intencionadas ou profundamente ignorantes. O nome correto de uma atitude tal seria controle democrático finalístico de um serviço público. O mesmo, como já insisti, não se aplica a medias que não se sujeitam a concessões públicas. Nessas, pode-se dizer o que quiser, como quiser, desde que não se cometam os delitos contra a honra previstos em lei.

Outra saída seria retirar-se da constituição a norma que faz da radiodifusão um serviço público e, então, tornar plenamente legal o vale-tudo que já se pratica. Teria outro efeito desejável uma alteração legislativa dessas, porque deixando de serem concessões, o mercado estaria aberto a todos.

O que não é desejável é continuar-se uma ilegalidade flagrante, defendida por meio da habitual hipocrisia e dos argumentos rasteiros e levianos que as TVs fornecem em benefício próprio, por meio de uma concessão pública.

O objetivo do estabelecimento de controles finalísticos pode ser parcialmente atingido por outros meios. Seria o caso de ampliar-se bastante o acesso à internet no país, a preços baixos. Esse meio quase irrestrito de difusão de informações pode ensejar um aumento da análise crítica e uma diminuição da penetração das TVs.

Seria necessária uma real universalização, ao contrário da fortíssima concentração que se tem, hoje, no Brasil. Todavia, pode-se antever um efeito indesejável dessa provável queda de audiência das TVs por conta do aumento da internet: baixariam o nível  intelectual de suas programações ainda mais, na busca da manutenção.

No fundo, é inevitável voltar ao tema do controle social finalístico e apontar que todos os outros serviços públicos têm parâmetros de verificação de desempenho e têm restrições claras à atuação dos concessionários.

Por exemplo, todos sabem quais são os parâmetros para se avaliar a venda de energia elétrica. As concessionárias desse serviço são avaliadas a partir de índices de disponibilidade e de interrupções do fornecimento. Por outro lado, ainda nessa linha de exemplo, sabe-se que uma concessionária de energia elétrica não pode cessar o fornecimento a um hospital segundo sua vontade, pura e simplesmente.

Ou seja, é da natureza do instituto serviço público ter parâmetros de verificação da sua prestação e sofrer restrições e limitações claras, tudo isso precisamente por serem públicas as suas finalidades. Quem queira atuar sem tais restrições, deve fazê-lo por outros meios de comunicação, onde a liberdade de iniciativa é mais ampla, dadas as suas finalidades eminentemente privadas.

Aqui, lembro-me de algo em que o engenheiro Leonel Brizola sempre esteve certo. Ele dizia que era preciso cassar a concessão de TV da Rede Globo, porque está sempre atuou contra o país. Eu retificaria apenas para dar a esta corporação mediática a possibilidade de se adequar às regras, embora não creia que seja realmente possível.

A dignidade do Presidente Lula.

O Presidente no desfile comemorativo da independência.

O Presidente no desfile comemorativo da independência.

Eventualmente ainda surpreendo-me com a adequação de Lula ao exercício da Presidência da República. Claro que minha surpresa é apenas um sintoma da minha ignorância.

Há pouco mais de vinte anos, a emigração de brasileiros tornou-se bastante elevada, destacadamente para os EUA, para o Japão, e para a Europa – principalmente com destino a Portugal e Espanha. Buscavam-se condições econômicas melhores e a especificação vai aqui para distinguirem-se as saídas para estudo ou por outras motivações mais exóticas.

O país era – e ainda é – muito perverso com os mais pobres. Além da histórica precariedade relativamente a serviços básicos e a garantias fundamentais, as duas últimas décadas impusera desemprego e renda baixa.

Pois ontem, nas comemorações da independência, o Presidente Lula instou os brasileiros emigrantes a retornarem ao país. Seria impostura se o convite não fizesse algum sentido. Todavia, hoje faz, sim, algum sentido, pois a economia cresce a taxas elevadas e a oferta de empregos e a renda média crescem.

O Presidente desempenhou precisamente o que se espera de um Chefe de Estado que se dirige aos cidadãos. Disse Lula, em certo ponto do seu discurso:

Nesse momento de celebração, não posso deixar de registar um pensamento por aqueles que deixaram suas vidas ou têm vivenciado situações de penúria na busca de realizações pessoais noutros países. Estamos construindo um país de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras. O Brasil os espera de volta.

Minhas condicionantes pessoais não me farão negar a grandeza dessas palavras. Quero dizer que a fala presidencial não é sedutora para mim, cujos desejos de ir-me deste país não se devem a precariedades econômicas ou financeiras, mas a outras mais sutis.

Mas, é o cuidado que se espera de um Presidente com o número dos cidadãos que se viram obrigados a emigrarem por razões econômicas. Se essas condições melhoram, ele os convida de volta. Isso, definitivamente, não é alguma palhaçada, como supõe o antecessor de Lula.

A indignidade de Fernando Henrique Cardoso.

Fernando Henrique Cardoso em visita à Casa Branca.

Fernando Henrique Cardoso em visita à Casa Branca.

Hoje são passados sete dias de setembro. Nessa data comemora-se a independência do Brasil, ocorrida em 1822. É preciso dizer uma obviedade: se não fora a independência, não haveria país e não haveria presidentes dele, portanto.

Pois bem, Fernando Henrique Cardoso foi presidente do Brasil por oito anos seguidos. Recentemente, ele disse que o desfile e as comemorações do sete de setembro eram uma palhaçada. Admitindo-se que o ex-presidente seja sincero ao menos nisso, constata-se que ele presidiu a uma palhaçada em oito ocasiões separadas por um ano, cada.

Pode-se dizer que a independência do Brasil foi materialmente relativa, que é um processo longo e não uma ruptura em uma data específica, que foi comprada a Portugal com dinheiro tomado emprestado à Inglaterra, que foi tardia ou prematura, conforme se a compare com as de outros países. Enfim, pode-se dizer e conjecturar várias coisas.

O fato é que comemora-se e há os comuns desfiles cívicos e militares. E não parece que a maioria dos brasileiros ache a independência uma palhaçada, embora a população toda do país não acorra aos desfiles.

O fato é que um presidente que repute a comemoração da independência uma palhaçada pode ser um palhaço, não um presidente. Ora, a dignidade do cargo, durante e depois do seu exercício, recomendam algo semelhante à postura dos ex-presidentes norte-americanos.

Eles afastam-se a uma distância calculada dos assuntos de Estado e de governo e furtam-se à polêmica. Claro que eles mantém a influência política, mas não se envolvem no varejo político-ideológico, nem dão o cú à brincadeira a fazer declarações tolas e indignas, à guisa de estarem a serem sinceros.

Sincero consigo próprio e com as idéias que sempre foram as suas, Fernando Henrique foi todo o tempo, nomeadamente assumindo que o servilismo era inevitável e pondo-se como corretor de venda do país. Já desempenhou o papel de preposto-mor dos interesses estrangeiros no país, não precisa seguir adiante na tartufaria. Mas segue…

Presuntos cuzidos, no Makro, em Campina Grande, e outras divagações.

Quero deixar muito claro que não se trata de fazer troça ou de manifestar reprovação eloquente e acusadora de um erro ortográfico. Realmente, quanto a essas posturas, nunca me esqueci de um trecho magnífico de Eça de Queirós, a propósito das pessoas que se apressam a acusar imediato o erro ou pequeno desvio de linguagem dos outros. Apenas não lembro mais em que livro dele está!

Duas coisas, na verdade, despertaram-me a atenção. Primeiramente, uma evidente e engraçada desproporção entre o anúncio escrito e os produtos que estão na prateleira. As letras falam em presunto, onde quase só se vêm queijos.

Em segundo lugar, como é pouco importante o que está escrito. Essa seção nominada de presuntos cuzidos deve estar no mercado desde a sua inauguração. E o que importa é a identificação visual, ou seja, as pessoas vêm presuntos ou queijos e isso basta-lhes, não se detém a ler o nome da seção. Ou lêem e não percebem qualquer problema, é claro.

Algo semelhante acontece com os sinais de trânsito – também uma linguagem codificada em signos gráficos – a que poucos dão atenção e menos ainda prestam obediência. Não há um intuito deliberado de desobedecer-lhes as ordens e recomendações, há um desprezo, pura e simplesmente, como se ali não estivesse sinal algum.

É interessante – e aqui refiro-me ao Brasil mais propriamente – que a pouca importância dada ao escrito permeia todas as classes, inclusive aquelas que se supõem mais cultas. Nestas últimas, muitas pessoas lidam com a linguagem escrita como as senhoras dos países colonizados lidavam com os adereços que viam as colonizadoras utilizando. Uma caricatura, portanto.

Não consigo evitar falar desse aspecto particular, pois convivo com ele. No meio em que trabalho, a linguagem escrita é o meio principal e as pessoas nesse setor pretendem-se bem alfabetizadas. Prezam muitíssimo a correção ortográfica e não recuam diante da oportunidade de acusar sarcasticamente o erro de um outro. Todavia, a esse zelo ortográfico correspondem defeitos lógicos – sintáticos – imensos, falta de clareza, rebuscamento de farsa e uma fala de doer nos ouvidos. Os plurais – essa suprema inutilidade – foram sumariamente abolidos e essa sim é a grande reforma gramatical.

Ou seja, o sujeito não acha realmente o manejo correto da linguagem algo importante. Ele sabe, por outro lado, que deve aparentar dar-lhe importância e aí surge a caricatura, quer dizer, a imitação, que é uma embalagem vazia e exagerada de enfeites. Pois são precisamente embalagens vazias em caixas rebrilhantes o que se movimenta em tribunais e outras repartições públicas e nas corporações privadas.

O mesmo – a imitação de algo em que não se acredita verdadeiramente – dá-se em outras manifestações humanas. A mais interessante delas é a cortesia mal imitada, porque no fundo as pessoas não percebem qualquer utilidade nela e são profundamente descorteses. É notável que se chegou a ponto de propor uma identificação entre espontaneidade e maus modos, ou descortesia. E nessa identificação é que a maioria das pessoas realmente acredita.

Por tomarem como a mesma coisa a sinceridade, a espontaneidade, o estar-se à vontade, com o portar-se mal-educadamente, sem qualquer polidez, é que são incapazes de qualquer comportamento mais polido, que será apenas uma imitação de algo em que não se acredita.

A reserva, confundem-na com soberba ou arrogância. A discrição, com falta de espírito. Daí que quando o sujeito encontra-se em situação que ele acha recomendar alguma dessas posturas, assume-as falsamente, como uma criança mimada cala-se à força e sem saber porquê.

É uma carga de simulação muito grande para uma sociedade, essa que impõe uma dualidade quase platônica entre o real e o aparente. O real é a vida diária e o aparente é aquilo que se representa como sofisticação. Ora, assim vive-se preso a uma lógica de dominação muito perversa, pois implica na assunção de que o real é bruto e o aparente é só disfarce, portanto não é sofisticado nem útil.

Ora, se as maneiras e usos caricaturais não são aceitas e desejadas realmente, que sejam abolidas sem mais. Se é uma simulação escrever plurais e aventurar citações latinas, enquanto fala-se algo totalmente diferente, que sejam extirpadas as flexões de número e o latim de nada. Se os bons-modos são um esforço tremendo de simulação, que se coma com as mãos e se fale aos gritos. Se a questão é de espontaneidade, que sejamos espontâneos!

Maputo e os limites da propaganda.

Por que esses bárbaros acham tudo ruim?

Por que esses bárbaros acham tudo ruim?

Um indicativo seguro de algum assunto importante, ou mesmo de alguma verdade, é a insistência com que se lhe negam atualidade e realidade. De vinte anos para cá, o mantra direitista é que não há luta de classes, discurso repetido por pessoas que se pretendem inovadoras, que teriam percebido uma etapa da história que seria a própria negação dela.

Curiosamente, as mesmas pessoas que insistem na inexistência da luta de classes concebem a vida em sociedade como uma competição e abstraem despudoradamente que as condições iniciais dessa competição desconfiguram-na totalmente. Eles admitem uma competição individual e negam, ao mesmo tempo, que indivíduos com pontos em comum formam grupos. Consequentemente, a negação da luta de classes decorre de outra negação, que é essencialmente incoerente.

Claro que os níveis da propaganda variam, conforme o nível dos destinatários. O mais elementar é dizer que a luta de classes não existe porque não se materializa em conflitos visíveis e palpáveis. Ocorre que a realidade ocasionalmente infirma até a propaganda mais elementar.

Há dias que Maputo vive dias de conflitos mais e menos abertos, com saldo de vários mortos e feridos, depredações, fogueiras de pneus e outros combustíveis por toda parte. Significativamente, os conflitos são mais intensos nas zonas mais pobres da capital e de outras cidades do país. Os media usam a terminologia vandalismo, que faz supor agitações sem suporte racional, sem motivações e finalidades.

Não é disso que se trata, contudo. A revolta popular começou com os aumentos de 25% no preço do pão, o que não me parece falta de razão ou de motivação. A solução – qualquer que seja o sentido dessa expressão – foi mais violência, desta feita policial. Ou seja, fica estabelecido que as reclamações são atitudes bárbaras e sem sentido e põe-se a polícia para baixar o porrete nos insatisfeitos.

Segundo as informações do CIA World Factbook, Moçambique tem uma população à volta de 21 milhões, com idade média de 17,5 anos e expectativa média de vida de 41,18 anos! Ou seja, muita gente, muito jovem e destinada a viver pouco. A taxa de mortalidade infantil é de 105,8 mortes por mil nascidos com vida, a sétima pior do mundo.

O PIB per capita de Moçambique é de escandalosos U$ 900,00, já em critério de paridade do poder de compra. Esse indicador, para ter-se uma idéia comparativa, é onze vezes menor que o brasileiro, que ainda é muito baixo.Acresce que 70% da população encontra-se abaixo da linha de pobreza.

Ou seja, trata-se de um país extremamente pobre, extremamente desigual na apropriação das riquezas e com péssimas condições de vida. Nessas circunstâncias as pessoas deveriam estar satisfeitas, calmas e ordeiras?

De uns tempos para cá, a mesma atuação propagandística que divulga a inexistência da luta de classes, insiste também na ocorrência de um milagre econômico na África Subsaariana. Se algo extraordinário economicamente sucede nessas paragens é o aumento da exploração de recursos naturais, notadamente de petróleo e gás.

Essa exploração maximizada de recursos naturais não reverte em qualquer melhora na vida da maioria das pessoas, pois é apropriada pelas corporações que a praticam e alguns corretores delas nos países detentores dos recursos. Ou seja, na verdade, é uma espécie de saque mantenedor das mesmas estruturas concentradoras de rendas.

Ainda que se tratasse de um verdadeiro milagre econômico, com alguma alteração das estruturas produtivas internas, provavelmente seria realizado dentro da lógica concentradora e seus efeitos seriam sentidos pelos beneficiados de sempre, apenas em números absolutos maiores.

Isso é uma bomba de efeito retardado e pode-se tentar retardar mais e mais sua explosão, mas um dia acontece. As detonações preliminares podem ser contidas pelo sistema repressor do Estado, mas cada vez isso torna-se mais difícil e estimulante de maiores reações. Não é falso, absolutamente, que violência é algo que se auto-estimula.

O estranho é achar estranho que o sujeito imerso numa vida de pobreza, precariedades e horrores revolte-se contra a situação. Não é apenas arrogante intelectualmente, como é mesmo burro não perceber a insatisfação. Ela tem parâmetros exatamente nos que a chamam de estranha e bárbara. Ou seja, os dominadores são capazes de explosões muito maiores por motivos muito menores, eles mesmos são o exemplo da luta de classes, no sentido de cima para baixo!

A estratégia da negativa não é intelectualmente sofisticada, nem honesta. Mas, do ponto de vista da propaganda e da ideologia, é a única possível. Há que se convencer o dominado de que a situação dele é vontade divina – ou qualquer outro determinismo – imutável e, assim, é algo que não pode ser questionado racionalmente. Dessa forma, sendo tudo como deve ser, falar em luta de classes é anátema. O doutor Pangloss ficaria satisfeito com seu profundo êxito presente.

O problema vêm à tona quando a realidade desmente a propaganda e os propagandistas ficam, desta vez muito coerentemente, sem compreender o que acontece. E acham que o remédio é mais propaganda e mais pancada. Eles deixam de compreender porque acabam por agir como o traficante de heroína que vicia-se no produto que vende. A repetição da estupidez finda por fazer o repetidor acreditar nela.

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