Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 86 of 126)

Romário Deputado e a inteligência do porteiro do prédio.

Sai para entregar uns papéis a Olívia, que passava rapidamente para apanha-los, e, quando retornava, o porteiro do prédio estava sentado em uns degraus com cara de cansado. Ele andou gripado e, para piorar as coisas, faz um calor dos infernos aqui.

Perguntei-lhe: que é que há, Josa, estás melhor da gripe? se quiseres algum remédio é só dizer. Estou, seu Andrei, quase bom. Com um calor de matar, desses, a gente demora a melhorar, Josa. É verdade, ele disse.

Mas, ele não queria falar de gripe, nem de calor. Costumamos falar de futebol, geralmente quando a preguiça abandona-me momentaneamente e resolvo lavar meu carro. Aí, Josa afasta-se de seu posto e vem jogar conversa fora. A mim, agrada-me, porque é um sujeito simples e diretamente honesto. E aqui eu falo de conversa, não de discurso professoral para uma pessoa mais pobre e menos instruída formalmente, como se oferecesse grãos de sabedoria a um faminto intelectual.

Arrodeamos quaisquer assuntos, com as introduções de hábito – calor, gripe e outras bobagens – e então ele me disse: você viu o que tão dizendo de Romário? Vi, é preconceito de um bando de filhos-da-puta que não são melhores que ele, disse.

O caso é que Romário, aquele futebolista extraordinário, elegeu-se Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, com 146.000 votos, concorrendo pelo PSB – Partido Socialista Brasileiro. Preencheu todos os requisitos de elegibilidade, candidatou-se e obteve os votos, pronto!

Romário, além de jogador de futebol fora do comum, ficou conhecido por falar o que pensa e por ter aversão a treinos. Uma aversão que nunca se confundiu com indisciplina, mas uma rejeição de certos rituais a que ele não precisava submeter-se. E não precisava mesmo, que sempre foi assim e sempre foi espetacular.

Tinha pleno conhecimento de suas capacidades futebolísticas, ele que ganhou um mundial para a seleção brasileira quase sozinho. Naquele mar de mediocridade futebolística de 1994, ele era a diferença. Tinha a clara percepção de que, se não ia ter os maiores méritos reconhecidos, não precisava participar da encenação que atribuia esses méritos aos coadjuvantes, entre eles a dupla de teinadores.

Não é possível arrancar de Romário algum dito ou declaração que corresponda precisamente ao que o postulante quer e espera. Se lhe perguntam alguma coisa, vem em resposta o que ele quer dizer, independentemente de acerto prévio e ser o dito inteligente, profundo ou tolo, mas será dele.

Nunca foi jogador violento, nunca foi dado à farra, no que ela tem dos componente álcool e entorpencentes. Mas, não servia precisamente ao modelo esperado pelo espetáculo mediático. Esse modelo implica uma previsibilidade quase total nas tolices que serão ditas, dentro de um rol pre-estabelecido.

Romário pode responder às perguntas tolas com outras tolices, ou com respostas inteligentes, que não estão nas expectativas do perguntador. Eis um problema sério. Então, é preciso dizer que ele é indisciplinado, irresponsável e outras qualificações negativas mais.

Agora, a eleição de Romário para a Câmara dos Deputados  é tomada como exemplo da queda da qualidade dos representantes do povo. Ora, essa representação não caiu da forma que querem dizer. Ela sempre foi de baixo nível, porque os eleitores não têm educação suficiente e porque são bombardeados com o lixo que os média oferecem diariamente.

Ela não caiu até porque sempre foi de baixo nível, desde quando era apontada exclusivamente pelos que compõem o grupo que se pretende dos mais qualificados. Os mais qualificados da sociedade brasileira compõem um grupo que harmoniza bem ignorância e má-fé, ou seja, é das aristocracias mais insuficientemente dotadas que existem, desde que se considere o interesse público e não apenas o do grupo predador que se quer chamar de aristocracia.

O parlamento brasileiro tem componentes que podem cobrir todo o rol do código penal e Romário é o problema? Isso, precisamente  o que alguns querem negar, insistentemente, é preconceito de classe.

De classe, porque Romário, especificamente, é rico, mas nasceu pobre. É indócil, não aceitou o papel que lhe reservavam, com aquele ar magnânimo de quem dá uma oportunidade ao pobre que ascendeu de brilhar, desde que seja tutelado pelos condutores da realidade, os aptos a fazerem-no.

Mas, volto à curta conversa que tive com o porteiro. Ele esperava alguma opinião e eu não tenho grandes coisas a dizer a respeito. Não ia fazer um discurso sobre a representação política e o sistema democrático e estava claro que ele percebia não haver qualquer problema em Romário ser eleito Deputado Federal.

Josa, eu acho que Romário é melhor que muito deputado que tá aí. Tem ladrão, assassino, tem o escambau. Esse pessoal da televisão tem preconceito com ele. O camarada quer disputar a eleição, vai e ganha e é representante, pronto!  Eu tava pensando a mesma coisa, seu Andrei, ele disse.

Precisamos do Grande Juliano. Ou, não precisamos de ativismo religioso na política.

Minha única fonte é eruditíssima e bem escrevente: Gore Vidal. Inclusive, aproveito a oportunidade para sugerir a quantos gostem de boa literatura esse magnífico romance histórico: Juliano.

O Imperador cresceu em meio a padres e monges ortodoxos e teve grande ocasião de observar-lhes as intrigas e, inclusive os constantes assassinatos a que se entregavam mutuamente as correntes divergentes do cristianismo triunfante. Foi educado no cristianismo que, a partir de Constatino, não viu mais restrições para conquistar as almas das pessoas e os postos da burocracia imperial.

Juliano voltou-se ao paganismo, até de forma mística, ele que era um iniciado nos mistérios greco-egípcios. Tentou defender o paganismo da extinção e das perseguições violentas dos cristão, que, quando não tornavam templos em igrejas, simplesmente punham-nos abaixo.

Pelos cristão – a quem chamava galileus – nutria algo como um desprezo estóico, mas não tomou atitudes contra eles, não os perseguiu. Parece que sentia repugnância por perseguições e dogmatismos mesquinhos. Trabalhou na reconstrução de vários templos, alguns deles jóias arquitetônicas então em ruínas.

Cercou-se de filósofos e místicos o que foi até motivo de chacota, com relação a místicos como Máximo. Não laborou para impor o paganismo, nem para destruir o cristianismo, apenas para que fosse possível a alguém cultivar suas crenças e não apenas uma só crença autorizada.

Ou seja, Juliano não instilou a religião na administração do Estado, embora não escondesse a sua própria. Nesse sentido, foi um exemplo de magnanimidade e laicismo raríssimo, notadamente em contraste à intolerância cristã que se percebia por toda parte e em todas as inúmeras intrigas que permeavam a igreja e a burocracia.

Claro que isso daria errado e que esse filósofo, estóico, místico e grande soldado iria perecer. O preconceito, a mesquinhez e o dogmatismo reunem as melhores condições para triunfar, quase sempre. Juliano foi assassinado em combate, ao que tudo indica lancetado no abdome por um soldado galileu ressentido, de suas próprias legiões.

Recentemente, a grande jogada eleitoral que foi a candidatura de Marina Silva, a partir de uma plataforma vazia, de suposto ecologismo, revelou um aspecto perturbador, subjacente à enorme votação que ela teve. Marina é cristã reformada neo-pentecostal. E ela obteve, evidentemente, uma expressiva votação de motivação religiosa, na esteira daquela lógica que se explica muito bem pelo lugar-comum crente vota em crente.

É claro que nas condições temporais, espaciais, sociais, econômicas, políticas e institucionais que temos, isso é uma tremenda estupidez. Porque a fanatização religiosa não cumpre nenhum grande papel histórico, não é elemento catalisador de forças para uma cruzada contra infiéis que estejam a ameaçar-nos do outro lado de alguma fronteira.

Na verdade, é a perda da ocasião de aumentar-se o nível de politização da sociedade, o que é desejável porque política é opção pública. Sendo o Estado laico, não é de mínima importância que um candidato seja crente ou descrente e é a consagração da falta de critérios votar-se porque alguém segue ou afirma seguir as mesmas regras que supostamente devem dirigir as relações humanas com alguma divindade.

Importante é que se discuta para onde irão os dinheiros públicos, o que fará o poder público, o que ele permitirá, incentivará ou proibirá. Quanto ele se endividará e para quê. Como ele assegurará a subsistência das pessoas na velhice. Como ele cumprirá suas obrigações constitucionais de prover saúde e educação.

Ora, a inserção da identidade religiosa no debate político é um risco que estão a assumir para lograr efeitos imediatos. Uma estratégia de despolitização e imbecilização perigosíssima a longo prazo.

O estelionato verde deu resultados. Eleições presidenciais no segundo turno.

A candidata Marina Silva fez por José Serra precisamente o que os estrategistas dele pensaram: evitou a vitória de Dilma Roussef no primeiro turno das eleições. Inteligentemente, os meios de comunicação a serviço de José Serra investiram na candidatura eco-farsante, que atingiu quase 20% dos votos válidos e possibilitou que Serra, com votação à volta de 32%, fosse à segunda volta.

Dilma deve vencer, afinal, ainda que os votos de Marina dividam-se ao meio. Não creio, todavia, que a divisão seja nessa proporção. Uma parcela dos eleitores de Marina apoiou-a por vergonha de serem claramente udenistas e votarem em Serra. Agora, essa vergonha está ultrapassada.

Uma parcela maior será mais dificilmente cooptada pelas hostes udenistas, mesmo que Marina declare apoio formal a Serra, o que é provável ocorrer. Ela não ignora o papel que desempenhou e as gratidões que deve ter. Mas, é um pouco complicado para os eleitores dela compreenderem uma postura frontalmente contrária ao lado em que esteve até há bem pouco.

Marina terá que apostar tudo em Serra, porque, do contrário, esvai-se sua densidade eleitoral rapidamente, posto que construída com mais que seu discurso vazio, baseado em uma aparente sofisticação que consiste em quase nada. Na verdade, esse forte desempenho deve-se mais ao forte apoio mediático e isso perde-se tão rápido como se conquista, quando é instrumental.

Não parece que os eleitores de Marina que se podem dizer convictos tenham saudades do modelo fernandino que Serra representa. Daí, esses votos assemelham-se mais aos de Dilma que aos de Serra. Claro que a obtenção de mais vinte dias para bombardeio mediático incessante vão dar esperanças ao neo-udenismo.

Mas, convém observar o quadro total das eleições. Os maiores representantes do modelo neo-udenista foram extirpados nessas eleições, o que é bastante significativo.

O ex-senador mais agressivamente contrário a Lula – um indivíduo que nunca recuou do arrogante e do descortês – está sem mandato, porque o povo do Ceará não o quis reeleger.

Um dos mais agressivos e certamente o mais patético dos ex-senadores contrários ao Presidente – um indivíduo que chegou a dizer que daria uma surra no Lula – não deve eleger-se, porque os amazonenses não o quiseram mais.

O arenista mais longevo do país, um ex-senador e ex-vice-presidente da república – discreto e não merecedor de acusações de agressividade ou descortesia – foi rejeitado pelo povo pernambucano de forma muito eloquente.

Um ex-senador, herdeiro do homem mais truculento dos últimos 40 anos de história política do Brasil, foi rejeitado maciçamente na Bahia.

O líder maior do único partido com ligação histórica direta com a última ditadura militar – partido que tem a vantagem de ser declaradamente direitista – e que se supunha crítico mordaz do governo de Lula, foi rejeitado pelo eleitorado do Rio de Janeiro.

O farsante pseudo-intelectual verde que disputou a eleição para o governo do Rio de Janeiro amargou uma derrota por diferença maior que quarenta por cento dos votos daquele Estado.

Esse quadro permite ver que a segunda volta é uma eleição mais nacional do que o segregacionista José Serra gostaria que fosse. O novo líder das oposições no país será o razoável Senador Aécio Neves, um homem – aqui o lugar comum é inevitável – que tem as virtudes mineiras. Ele sabe que o Brasil não é São Paulo apenas.

Os apoios de José Serra para o segundo turno serão os de sempre. Uma ou duas revistas semanais, três jornais e algumas TVs, o que é muito. Mas, os votos são das pessoas.

Hoy es cumpleaños del gran enamorado.

Ele é profundamente cordial, no sentido mais próprio e etimológico do termo. Cordial é aquilo próprio do coração.

Apaixonadamente emotivo, o grande enamorado não tem meias-medidas na estima e na falta de estima. Tem-nas completas, transbordantes e efusivas.

Não te entristeças pela distância, que breve estás de volta.

Parabéns!

Carolina, de Chico Buarque.

Profecia poética.

Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu…
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

A classe média brasileira. O tempo passou na janela e só Carolina não viu.

Esse grupo social, particularmente a classe média alta, é um poço de aviltamento, superficialidade, arrogância, crença de que o mundo foi criado para agradar-lhe os gostos, ausência de responsabilidade, e uma profunda auto-confiança que somente uma profunda ignorância pode permitir.

Não percebe que existe em articulação com outros grupos sociais e comporta-se como se os outros grupos existissem em função dela. Na verdade, parece crer que todas as coisas foram dispostas tomando-a por centro de gravidade e referência. Que tudo existe contra ou a favor de seus interesses, que tudo deve ser-lhe perguntado.

Criado o mundo para acolher-lhe e agradar-lhe, é de esperar-se que não acredite em instabilidade, em possibilidade de mudança. É de seu feitio não compreender que os equilíbrios são muito mais tênues do que parecem, que resultam de jogos de forças muito intensas e dispersas e que tudo pode ruir facilmente.

É incapaz de gratidão, pois sua atitude mental é fundada em uma deformação que chamam mérito, embora com ela não se ganhem guerras, não se projetem aviões, nem se descubram penicilinas. É incapaz de respeito e de magnanimidade, porque mede tudo com sua régua pequena, que não é medida na escala do excelente.

Arremeda modos e costumes que reputa distintos, embora de elegância não tenha a mínima noção. Desconhece a proporção e a espontaneidade, que vai substituindo por uma representação que, de tão acostumada, torna-se sua profunda realidade. Uma realidade feita de imitações.

Tem uma biblioteca que não lê, porque é chique tê-las e, ler ou não, é um detalhe. Tem um e outro intelectual de frases feitas de estimação, porque é chique cultivar a excentricidade vazia. Tem um acervo de fotografias em Paris e Londres, embora a loja sem impostos do aeroporto tenha sido o seu local preferido.

Não tem memória e reputa desnecessário tê-la. Essa é sua pior característica, embora não seja a mais irritante ou mais evidente. Essa aversão pela memória torna-a vil a ponto de deixar-se subornar e sinceramente esquecer-se disso. E não entrega o que vendeu porque simplesmente acha que não fez negócio algum.

Nesse sentido, é incorruptível, não porque honorável, mas porque supõe que os subornos foram presentinhos merecidos. De tão impermeável e segura de ser merecedora de tudo, gratuitamente, dá-se ao espetáculo de ser comprada escancaradamente e não perceber, nem a piada, nem o aviltamento.

Quando mostra-se surpresa por alguma coisa, não é porque surgiu algo novo e imprevisto. É porque surgiu algo longamente gestado, bem em baixo de seus olhos, mas que ela não viu, porque sua janela é um espelho. Ela é Carolina da música de Chico Buarque, para quem o tempo passou na janela e só ela não viu. E depois guarda mais que dor, guarda rancor.

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