Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 82 of 126)

Gasolina à vista é mais barata, evidentemente. O ministério público parece não compreende-lo, todavia.

País relativamente jovem, profundamente tolo e claudicante com alguns conceitos que podem ter viés moral, este nosso Brasil. Temos uma relação conflituosa com os juros, esse cúmulo de realidade que chegou a ser anatematizado pela moral cristã como signo de usura de judeus.

Pois abordamos o assunto como a uma coisa proibida, imoral, embora nada achemos do Estado paga-los os mais altos do mundo a nós próprios, que provavelmente já o havíamos roubado do próprio Estado.

Juros são o preço do dinheiro à prazo, pagos por quem o tome emprestado a outro, por um certo tempo. Um preço, enfim, pelo que não se tem, nada mais que isso.

Quem compra à vista não os paga, porque a troca entre dinheiro e mercadoria ou serviço foi imediata, ninguém privou-se de capital por tempo nenhum. Quem compra à prazo paga-os, porque alguém que não o comprador forneceu o dinheiro para o negócio. É claríssimo, portanto.

Quando o voluntarismo de algum agente estatal entra nesse jogo, movido por incompreensão ou qualquer outra razão, as coisas tendem a organizar-se de forma a que este preço continue, sob qualquer disfarce, provavelmente sob o aumento do preço do produto ou serviço.

O ministério público do estado da Paraíba entendeu de mover uma cruzada contra os postos de gasolina, porque estes praticam dois preços: um, mais baixo, para vendas à vista e outro, mais alto, para vendas a prazo. Os doutos operosos querem um mesmo preço para negócios à vista e à prazo!

O resultado dessa atuação de grande visibilidade mediática é previsível: os compradores à vista vão pagar juros, como se comprassem à prazo! Claro, porque ninguém vai vender à prazo sem cobrar juros, que isso nunca aconteceu.

Então, a cruzada jurídica contra os dois preços resultará em um aumento do custo das negociações à vista, ficando os preços igualados pelo maior. Terão prestado um enorme serviço às instituições financeiras, esses ilustrados senhores ministeriais.

Lombo de porco com gengibre e mel.

Dia feriado, resolvo-me a ir ao mercado logo cedo. Tenho essa mania, que só encontra obstáculo nas filas imensas que há em todos os mercados, em quase todas as horas. São filas de quem vai a pedir favores, não de quem vai às compras. Um profundo desrespeito com os consumidores, esses seres complacentes e resignados a esperarem muito para comprarem caro.

Essa gente dos mercados deve estar a ganhar rios de dinheiro. A economia avança imensamente, toda a gente das classes mais baixas põe-se a comprar o que sempre quis e não podia. As grandes redes, francesa e norte-americana, praticam a quase escravidão com seus funcionários e contratam poucos.

Ou seja, investem pouco, drenam o sangue dos funcionários e vendem caro. Sim, vendem quase tudo mais caro que na Europa, até os produtos produzidos aqui mesmo. Servem-se da falácia dos custos tributários e da verdade dos custos logísticos para justificarem os preços altos.

A falácia tributária é claríssima, pois pagam-se mais impostos na Europa, além de maiores salários e encargos previdenciários. A questão logística realmente é um fator encarecedor de tudo no Brasil.

Bem, o fato é que cheguei ao mercado às dez horas e já havia uma imensa fila! Quase desisto de comprar as bobagens que buscava; uns sabonetes, desinfetante, água e o que seduzisse a vista. Resignei-me, todavia, a enfrentar a estúpida fila, devida à bestial economia na contratação de funcionários para as caixas.

Pus-me a perambular no mercado e, pelas tantas, detive-me em frente a um bonito lombo de porco. Pensei imediato: esse vai comigo para casa. Vai só, desacompanhado de qualquer tempero, quando chegar penso na forma de cozinha-lo com o que houver.

Havia gengibre em pó, pimenta-do-reino, alho, vinagre, azeite, um pouquinho de mel e laranjas! Cortei o lombo ao comprido, em três partes, que dispus em uma assadeira pequena. Furei os pedaços com uma faca de cozinha, para os temperos penetrarem a carne rapidamente, que não haveria muito tempo para apurarem.

Joguei por cima da carne muito gengibre em pó e pimenta-do-reino, virando os pedaços para que os dois lados fossem impregnados. No vidrinho em que havia um resto de mel despejei o sumo de uma laranja, um pouco de vinagre e um pouco de azeite. Esse caldo doce-azedo foi vertido em cima da carne.

Cortei quatro dentes de alho em fatias, ao comprido, e deitei-as sobre a carne, sem ordem. Deixei tudo a descansar assim por meia hora e levei então ao forno baixo por quarenta minutos. Não podia dar um mau resultado e não deu. Comi com pão integral a carne que ficou suculenta e bem molhadinha, sabendo discretamente a mel e gengibre.

Depois disso? Um cochilo na rede e a certeza de que algumas vezes os deuses conspiram a nosso favor. Algumas, porque nem sempre estão assim bem dispostos.

O discurso da Presidente.

Dilma Roussef fala após ser eleita Presidente
Dilma Roussef fala após ser eleita Presidente

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui.

Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida.

Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões.

O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família.

É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.

Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte.

A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro.

Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável.

Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos.

Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público.

Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo.

Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.

As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.

Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.

O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.

Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas.

Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde.
Me comprometi também com a melhoria da segurança pública.

Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos.

Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade.

É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa.

Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.

Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho.

Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento.

Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.

Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós.

Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta.

Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado.

Saberei consolidar e avançar sua obra.

Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo.

Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união.

União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.

Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.

Muito obrigada,

Dilma Roussef Presidente do Brasil.

Dilma Roussef, Presidente da República

Dilma Roussef, Presidente da República

Dilma Roussef foi eleita Presidente da República Federativa do Brasil. Será combatida pelos média e rejeitada por alguns poucos setores das classes médias, de tendências fascistas e anti-liberais.

Não será antagonizada por uma verdadeira direita liberal, que isso falta ao Brasil. O antagonismo que a espera é resultante basicamente de ódio, preconceito, mesquinharia, ignorância e entreguismo.

A Presidente é verdadeiramente a pessoa adequada para levar adiante a realização de um país condizente com suas potencialidades, que são imensas.

Um Brasil proporcional às suas possibilidades é um país que rompa com o esclavagismo, ou seja, um país em que as riquezas naturais e os resultados do trabalho revertam para os seus detentores, sejam os trabalhadores, sejam os velhos, sejam os banqueiros.

Isso foi o que o Presidente Lula inaugurou: um pouco de liberalismo social-democrata. Esse pouco foi suficiente para despertar a ira de alguns oportunistas que se queriam liberais e meritocráticos sem, todavia, o serem. Isso foi o que pôs o país na rota do crescimento econômico.

Foi o que agora aprova-se nas urnas, o fim da segregação absoluta.

Juízes privilegiados pouco importam-se com justiça ou com o país.

Portugal viu-se obrigado a adotar medidas de austeridade para estancar o aumento do défice público e, futuramente, reduzi-lo. É claro que poucos falam dos endividamentos privados, certamente mais perigosos que o público, mas isso não significa que o problema dos dispêndios públicos seja desprezível.

Foram necessárias medidas de redução de despesas e de aumento de receitas. O imposto sobre valor agregado e o imposto sobre as rendas aumentaram. No caso do primeiro, mantiveram-se alíquotas especiais para os bens essenciais, como forma de reduzir a injustiça fiscal que esse tributo traz em si.

No caso do imposto sobre as rendas, aumentaram-se alíquotas nas faixas mais elevadas e reduziram-se as deduções, também nos escalões mais altos. Isso é uma questão básica de justiça social e de chamamento dos mais privilegiados a pagarem conforme suas possibilidades maiores.

Eis que os magistrados foram aquinhoados com uma subida do imposto sobre rendas e tiveram redução de benefícios como o auxílio para residência. Os juízes portugueses estão entre os mais bem remunerados e menos produtivos da União Europeia, convém salientar.

Se as medidas ficais atingissem indistintamente todos os escalões de rendas, seriam uma tremenda injustiça, em um país que conta com 20% da população na pobreza, segundo critérios europeus.

Ora, suas excelências reagiram, fortes no corporativismo e no ridículo de manifestações de entidade sindical de titulares de órgãos de soberania! Julgam-se inatingíveis, eficientes, e sem dívida de solidariedade com o restante do país. Julgam-se obreiros dos êxitos e escusados de serem parte em qualquer esforço nacional.

Suas excelências ganham muito bem, recebem um auxílio para morada completamente destituído de razões plausíveis e têm sessenta dias de férias, formalmente, porque na verdade são mais.

Deste outro lado do Atlântico não é muito diferente. Na verdade, parece-me pior, pois aqui, em geral, são mais arrogantes ainda, mais bem remunerados e menos produtivos. Julgam-se seres apartados da realidade social que os envolve e deles não se podem esperar quaisquer sacrifícios em nome de algo maior que a sua própria corporação.

Em tempos de crescimento econômico vigoroso, essas coisas podem até continuar, pois a pujança reduz a preocupação com os outros. Mas, esse mesmo crescimento e sua possível estabilização, levarão a que se pense nessa e noutras corporações com mais cuidado. Levará a que se ajustem seus imensos custos e se verifiquem suas reais utilidades.

Algum dia, no Brasil, será necessário verificar se precisamos deste nível de litigiosidade, se não será o caso mesmo de uma grande  e deliberada encenação para justificar o movimento da máquina jurídica, de forma auto-referente. Se não há, enfim, um enorme défice e uma burla institucional somente para dar espaço à corporação jurídica.

A fontezinha do Largo da Senhora-a-Branca.

Estamos em uma residencial simpática no Largo da Senhora-a-Branca. Essa parece-me a zona mais aprazível de Braga, tem uns jardinzinhos, uma igreja, casas assobradadas.

É um sítio bonito, em oposição ao vulgar de onde moramos, há um ano e tanto. Quase todos os dias passávamos por aqui, rumo ao centro. Eventualmente, parávamos na pastelaria que há ao lado da residencial, para um café, uma sande, um doce.

Puseram-nos em um quarto com janelas para o largo, no segundo piso, bem em frente à fontezinha redonda. Ela não tem qualquer coisa de especial, nem de propriamente antigo, mas é bonitinha.

Um balde redondo em baixo, de seus dois metros de diâmetro, por um de altura. Uma coluna central encimada por uma espécie de prato raso, de onde a água sai e verte pelas bordas. Tudo em pedra e tudo muito comum.

Mas, pedra e água dificilmente resultam em feiúra. A moleza e a dureza estão bem uma para a outra, fluída uma, estática a outra, transparente uma, escura a outra.

Há dois ou três dias, surpreendi-me ao perceber que a fontezinha estava seca e a água parara de cair. Estranhei. Estranhei supersticiosamente mesmo.

No dia seguinte ao do secamento, lá estavam dois homens a trabalharem na fontezinha, a limparem, rejuntarem as emendas das pedras. Relaxei, pois era nada mais que uma manutenção de rotina.

Mais um dia e ainda trabalhavam. Hoje, pela manhã, um homem ainda lá trabalhava, mas parecia que o serviço estava quase terminado. Comecei a recear que amanhã não esteja pronta.

Sábado é o último dia para vê-la cheia e a verter água novamente e eu a preocupar-me com isso! Nunca a vi assim vazia e parada.

Até parece um mau agouro, como pássaros a voarem no sentido inverso ou coisas deste tipo, que anunciam um funcionamento incorreto dos destinos.

Bem, para mim é um incômodo difuso, meio tolo, meio supersticioso. Muito pior deve estar sendo para os pombos que lá bebiam água.

De Saramago para quem o quiser ler.

Eu sugiro aos entreguistas brasileiros, até porque está em linguagem bastante direta e assim não lhes doem os miolos, como acontece quando deparam-se com alguma sutileza maior ou com poesia.

“A mim parece-me bem. Privatize-se Machu Picchu. (…) privatize-se a Capela Sistina, privatize-se o Partenon (…) privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei (…). E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. (…) E já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.”

(José Saramago, in “Cadernos de Lanzarote – Diário III”, págs. 147/8)

Petrobrás e pré-sal:é isto que está em jogo.

Há muitas formas de ver a história política brasileira, quase todas a partir de certas díades clássicas. Uma delas parece-me a mais esclarecedora e pouco importa-me que os corretores tenham conseguido torná-la assunto proibido: nacionalistas e entreguistas.

Tanto esta é a mais importante que é precisamente aquela contra que mais se laborou. Um verdadeiro bombardeio mediático operou-se para tornar essa díade impensável, para dar-lhe ares de anacronismo, para fazer de quem a aborde um atrasado, um anti-moderno.

Os líderes entreguistas têm razões bastantes para sê-lo: são bem pagos. As pessoas comuns não têm qualquer uma, são mantidas na estupidez e até levadas a repeti-la, embora seja contra elas próprias. São a platéia de um espetáculo que desconhecem.

Há uma camada intermédia que recebe uma e outra migalha em pecúnia e também altas doses de imbecilização. Esses vão dormir tranquilos com alguma tolice modernosa e ambiental e entregam até as mães, se vier um dinheirinho e uma conversinha up to date.

A riqueza do Brasil em óleo é maior que o imaginado pelos leitores de alguma revista Veja da vida. E as possibilidades do mundo deixar de depender de óleo são muito menores que o imaginado pelos leitores da publicação mencionada. Só se deixará de depender dele quando ele acabar.

Essa riqueza é natural, ou seja, não é produto de qualquer trabalho humano. Ninguém pode reinvidica-la com suporte em qualquer tese, embora possa fazê-lo com bombas, é claro. Ela é do país inteiro e, portanto, deve servir a todos os seus cidadãos.

O país tem plena capacidade de explora-la em benefício seu, muito embora isso desagrade aos entreguistas. Tem-na técnica e financeiramente, bastando lembrar que a Petrobrás é a quarta maior companhia do mundo e detém conhecimentos da exploração em alto mar reconhecidos mundialmente.

Os entreguistas apostam na estupidez e no escamoteamento da informação. Dizem que não se exploram riquezas petrolíferas assim como o atual governo quer fazer. É mentira, pura e simplesmente, bastando para percebê-lo apontar o exemplo norueguês da exploração de óleo.

Essa será uma de suas últimas tentativas: oferecer-se aos interesses alheios aos brasileiros, de corpo e alma, como a mais alta aposta. É aposta elevada, porque muitos dos jogadores de fora já aceitam como normal que um país tão rico e tão vasto renda um pouco menos que uma tradicional colonia totalmente esmagada.

Quando já aceitam ganhar menos um pouquinho, surgem corretores do país a dizer-lhes que, caso cheguem ao poder, uma nova rodada de exploração colonial se abrirá e que o maior negócio do mundo será possível. Prometeram vender o pré-sal, claro.

O problema é que até o inquilino da Casa Branca desconfia da possibilidade de um negócio tal a estas alturas do jogo. Ele acha deveras desejável, mas tem dificuldades para crer que seja possível superar as possibilidades de compressão social e de assalto aos outros, nomeadamente quando os outros andam já meio crescidinhos.

Mas, os entreguistas insistem, até com certas doses de fé, que é necessário crer! E indignam-se que os selvagens não queiram aceitar seu mantra entreguista, que não reconheçam seu destino inferior de seres inaptos a cuidarem de si.

Têm medo de não cumprir o contrato, afinal nem celebrado assim tão convictamente pelos contratantes de fora. Têm receio de não poder entregar a seus patrões o que prometeram e ficarem sem patrões! Não se governam senão para servir e, portanto, não podem ficar sem patrões anglófonos, francófonos, germanófonos.

A imprensa brasileira precisa jogar limpo.

Alguns estados brasileiros criam ou estudam a criação de conselhos de acompanhamento dos média. Trata-se de saber se andam dentro da legalidade, pois afinal há leis para este setor.

Obviamente, a imprensa repete o velho e falso discurso de que se pretende atentar contra a liberdade de expressão. Na verdade, a imprensa quer manter a situação de vale-tudo atual.

Hoje, há tanta liberdade de expressão e de imprensa no Brasil como em pouquíssimos países do mundo. A imprensa serve-se disso para vender conteúdos de baixíssimo nível intelectual, para despolitizar as pessoas, para fazer campanha aberta por seus escolhidos e para atacar impiedosamente os inimigos.

A imprensa em geral tem mau caráter, é vil e dissimulada. Devia afirmar às claras o que quer: a completa falta de limites e a total desregulação do setor.

Seria menos infamante que seguir esse rumo de hipocrisia e desfaçatez, dizendo-se isenta e amante das regras, o que não é.

Devia parar de representar, pois as funções teatrais chegam a um fim. A peça acaba-se, os atores despem-se de suas personagens e deixam de atuar.

Não há qualquer ameaça à liberdade de imprensa, nem se está a urdir qualquer uma. Pretende-se fazer valer as normas que estão aí há muitos anos e são desprezadas absolutamente.

A grande imprensa não quer a eficácia dessas normas contra que não se manifesta simplesmente porque elas não são aplicadas.

Por que não deixam de mentir e não dizem claramente que gostariam do fim das regras?

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