Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 80 of 126)

Façam as pazes com o irracional!

Ontem, tive uma conversa que me deixou impaciente, um pouquinho desconcertado e com medo de estar a tornar-me um estilita. Meu interlocutor anunciou ter crenças espiritistas e pôs-se a falar nas tais crenças, que não são novidades para mim. Até aí, tudo está muito bem, que me interesso profundamente por todos os assuntos de religiosidades.

O problema é basicamente o de sempre: o proselitismo. Desta vez, acrescido de uma irritante cegueira e perda afirmativa da grandeza, da poesia que as promessas mais extraordinárias trazem consigo.

Tudo quanto é religiosidade por aqui confunde-se bastante com os intervalos comerciais d´alguma emissão televisiva. Não se conversa sobre o assunto, parte-se para cima do interlocutor, a tentar convencê-lo de toda uma série de axiomas improváveis, que invariavelmente trarão benefícios palpáveis ao aceitante. Ora, isso é economia religiosa!

Muito contraditoriamente, os manejadores e propagandeadores de axiomas pretendem estar a lidar com as coisas mais lógicas do mundo, pretendem-se fortes em cientificidade e moralismo, afinal todo ele axiomático! Todavia, o axioma é um campo para que moralismos, lógicas e ciências não foram chamados; eles simplesmente não precisam disso.

No caso específico, meu interlocutor bombardeava-me com moralismo pitagórico elementar, ou seja espiritismo, como se fosse a maior descoberta, a mais racional proposição que uma pessoa pudesse fazer. Meia dúzia de conclusões silogísticas feitas a partir de premissas absolutamente arbitrárias. Essas premissas, claro, eram as vontades do Deus, descobertas sabe-se lá como.

Que se suponha conhecer os desígnios d´algum Deus – de um todo-poderoso – não é problema, embora seja uma evidente profanação. Que se ponham os descobridores a jactar-se da posse dessa informação, a extrair conclusões ajudados por Aristóteles, vulgarmente, e a tentar impor isso aos outros já fica bastante cansativo e agressivo.

Toda essa gente reduz os Deuses a si próprios, humanizando-os sem compreenderem que o estão a fazer. Melhor fariam se seguissem os belos exemplos do paganismo helênico e pusessem seus Deuses entre si, em contato próximo com as pessoas,  com as águas e as terras, com vontades, raivas, invejas, vinganças, assim mesmo, indisfarçadamente.

Mas, não. Seus Deuses, de quem conhecem as mais íntimas vontades, são únicos, absolutos, imortais, ubiquos, plenipotentes, eternos, tudo isso que uma mente mais calma percebe ser totalmente incompatível com o conhecimento dos mesmos.

Já renunciaram à mais difícil tarefa de tentar aproximar-se de seus Deuses por meio de mitologias belas e repletas de simbolismos que, no fundo, são um imenso reconhecimento da natureza impenetrável da divindade. Já não constroem para seus Deuses histórias cheias de idas e vindas, de mitos de criação, de fertilidade, de alternância da fartura e da falta. Já não se acredita a sério nem mesmo no Príncipe do Mundo!

Os mascates das religiosidades trazem seus bauzinhos de vulgaridades que chamam de leis divinas, mas que Deuses se ocupariam dessa trivial atividade legislativa? Que Deuses seriam assim tão humanos e simplórios? Que Deuses tão vulgares seriam esses que produzem axiomas para serem bases de silogismos tão formalmente certos?

Pois o meu interlocutor, com a maior naturalidade e auto-confiança do mundo, dizia-me que o pacote que me tentava vender não era uma religiosidade, era uma coisa científica e filosófica! Meu Deus, uma coisa científica? Sim, uma coisa científica, certa, lógica, moral, retributiva por meio de sucessivas depurações.

Eu procuro não agredir as pessoas voluntariamente, desde que perceba que elas não agem deliberadamente para agredir-me. Esse é um esforço que me parece bem tentar sempre. Digo isso para explicar porque não perguntei ao meu interlocutor porque ele tinha feito do seu Deus um objeto de investigação e não um Deus.

E também contive-me para não perguntar-lhe porque têm tanta vergonha de chamar uma religiosidade pelo nome correto, ou seja, porque precisam chamá-la de ciência, melhora algo? Estão assim tão presos àquela anacrônica mitologia científico-positivista do século XIX?

E, como, embora não seja religioso, tenha lido um pouco as escrituras judáicas e cristãs, tentei ser simpático e desviar um pouco a conversa dessa ciência anti-científica. Sem resultados, todavia. Meu interlocutor acusou esses trechos de mitos infantis! Sim, mas ele e sua ciência moral estão totalmente amparados nesses mitos. Ele propriamente é que não poderia postular a inutilidade e puerilidade dessas passagens simbólicas.

Essa gente quer apreender a mortalidade ou a imortalidade com lógica! Quer transforma-las em teorias simples de custo-e-benefício, em justificações morais! Supremos e desesperados loucos. Vaidosos fautores de leis divinas e morais do dia-a-dia. Essa gente acredita mesmo é no Código de Processo Civil e fala em Deus.

Delírios judiciários.

Os poderes do Estado são diversos e não se limitam à antiga e histórica tricotomia proposta por Montesquieu. Essa abordagem, na verdade, supõe um Estado democrático, contratual e constitucional. E, na origem, supunha situações bastante específicas e particulares, historicamente e geograficamente definidas.

A suposição deve quase tudo à teoria da representação, em que se atribui a soberania ao povo, que a exerce por meio de representantes. Essa entidade imaterial chamada Estado nada mais seria portanto que a organização da vontade popular em uma entidade detentora do monopólio da violência e da feitura de regras válidas para todos. Eis o poder do Estado: fazer regras gerais.

Para fazer regras gerais e impo-las coercitivamente o Estado dispõe de tantos poderes quantos forem necessários e previstos no seu pacto fundamental, o que atende pelo nome de constituição. E, para que esses poderes funcionem, o Estado dispõe de tantos órgãos quantos a constituição preveja.

As pessoas que atuam nestes órgãos são todas servidoras públicas, em sentido amplo. Àquelas que detém a capacidade de inovação na geração de regras – o que somente possuem com legitimação popular – costuma-se chamar mais especificamente agentes políticos.

No Brasil, são agentes políticos todos os governantes e parlamentares eleitos popularmente e os ministros integrantes do tribunal constitucional, que retiram sua legitimidade política-institucional da nomeação pelo presidente da república – Chefe de Estado – e da aprovação pelo Senado da República.

Agente político é o sujeito que se encontra investido por vontade popular – ou por essa vontade derivada naquela de algum representante – em algum cargo que lhe confere atuação na formação de regras gerais, impostas a todos os cidadãos. O político que qualifica o agente significa estar em posição de escolher entre várias opções, de escolher como representante da soberania popular.

Magistrados – que não os ministro do tribunal constitucional – não são agentes políticos, senão servidores públicos. Têm um dever específico de cuidar pela aplicação das leis em conflitos específicos entre pessoas, naturais e coletivas. São servidores cuja tarefa é resolver conflitos e cuja margem de atuação é a verificação da adequação de uma posição ao molde legal.

A prová-lo está a circunstância de que ao magistrado não é permitido deixar de aplicar a lei, exceto se a considerar inconstitucional, declarando precisamente porque a lei contraria a constituição. Fora disso, embora os desvios sejam comuns, não está na sua vontade aplicar ou não uma lei, por critérios que não sejam os de constitucionalidade. Não há na sua atuação, portanto, qualquer conteúdo político. Ou, melhor dizendo, não deveria haver.

Pretensões de importância desmedida e descasada do que se encontra na constituição abundam no sistema judiciário brasileiro, que confunde legitimidade política com atribuição legal de órgão constitucionalmente previsto. Privilégios outorgados àlgumas classes de servidores, como aos magistrados, servem para aumentar a presunção e a deformação institucional.

Garantias dadas aos magistrados, apenas porque se julgaram necessárias para um melhor desempenho da função, são confundidas com privilégios de cunho social e remuneratório e entram na lista das causas da deformação judicial reinante. Garantias que são invocadas como direitos divinos, como algo que não podia ser diferentemente estabelecido, embora seja evidente que tudo quanto é jurídico podia ser diversamente estatuído, bastando que o parlamento assim o queira, ou as baionetas, por exemplo.

O poder judicial brasileiro é cariíssimo e a este enorme preço não corresponde um serviço proporcionalmente bom. Ao aumento do seu custo, verificado de vinte e poucos anos para cá, não correspondeu aumento de sua utilidade pública, porque a ampliação das possibilidades de pedir-se algo judicialmente decorreu do aumento do catálogo dos direitos, não de um melhor funcionamento real do órgão.

Não tem a suficiente fiscalização social de seus custos e de suas utilidades e por isso fecha-se na conformação de uma burocracia kafquiana, com ares de congregação de semi-deuses a quem não se podem pedir contas. É verdade que tenta mostrar-se como um órgão republicano, ou seja, aberto à verificação do público pagante. Todavia, essas iniciativas são basicamente diversionismo, na medida em que os supostos controles são meramente internos.

Quando se fala em controles, reagem virulentamente, incitando a confusão. Sim, porque não se propuseram quaisquer controles da atividade funcional do órgão, apenas da sua estruturação administrativa e orçamental que, evidentemente, nada tem com o desempenho da função de julgar. Nisso, na função principal, não se quer meter a mão, embora seja conveniente que se metam os olhos, até porque as coisas públicas devem ter publicidade.

Se alguém goza de liberdade para desempenhar sua função de aplicar leis, pouco importa que esteja impresso, no seu contracheque, como entidade pagadora, o poder judiciário ou o ministério do planejamento. Afinal, o tesouro nacional é um só! Aqui surge uma das maiores empulhações institucionais que se conhecem no Brasil: a autonomia administrativa de alguns órgãos constitucionais.

Essa autonomia foi elevada, acriticamente, a mito, a garantia fundamental para a função, o que não é. Convém lembrar que em muitos países europeus, por exemplo, a autonomia da função judicial está consagrada e resulta bem, sem que haja uma estrutura administrativa própria. Os juízes, enfim, são servidores do Estado e as instalações, os funcionários, os contratos, são geridos por um qualquer ministério do Estado, geralmente o da justiça, que paga as contas e pronto.

Não causa qualquer espanto isso, ademais bastante trivial. Espanto deveria causar um órgão constitucional quase totalmente autônomo dentro do Estado, como se uma e outra função fossem compartimentos estanques e separados, a não precisarem de adequação ao interesse público maior. Nisso resultou a propalada autonomia orçamental dos órgãos constitucionais, ou seja, na sua quase total liberdade de gastar o que lhe aprouver dos dinheiros públicos sem dar satisfações aos pagadores.

Todo agente público, seja ele servidor, seja ele agente político, deve satisfações do que faz no desempenho das funções públicas. Tanto é assim que as decisões deles submetem-se ao princípio da publicidade, ou seja, devem dar-se a conhecer amplamente. Isso é verdade para atuações relacionadas à função específica dos órgãos, assim como para aquelas meramente de gestão interna. Por isso mesmo é que se publicam sentenças judiciais e se deviam publicar amplamente todos os outros atos de gestão.

Aos agentes políticos eleitos podem-se dirigir inúmeras críticas, mas algo é certo: dão sua cara às tapas quase que diariamente, na imprensa. Expõe-se por suas decisões ao julgamento público, embora fosse desejável que essa exposição passasse por uma divulgação mais ampla e menos seletiva.

Dos servidores públicos dos órgãos do sistema judicial já não se pode dizer o mesmo. Além da vasta maioria da população não ter a mínima idéia do que são, do que devem ser e de quanto custam, contam com uma forte cumplicidade corporativa e mediática. Dão ao luxo de se porem na posição de impassíveis de críticas ou de publicidade e violam assim o princípio republicano.

Lê-se, aqui e ali, discretamente, que o presidente do tribunal constitucional reclama um aumento salarial para os funcionários dos órgãos judiciais de 56%. É uma aberração obscena um homem postular isso com total naturalidade e, ademais, postula-la com o desejo de que seja coisa não discutida, quer dizer, que seja destinada a aprovação porque reputam devido e pronto.

Seria necessária uma reunião de hóspedes de manicômio para que se declarassem os funcionários do judiciário mal pagos, no Brasil. E seria necessária a mesma reunião de selenitas para reputar que as atuais remunerações não estão em flagrante desproporção com a utilidade do serviço e com as demais remunerações que o setor público paga. Nada obstante, querem um aumento de 56% e provavelmente ficarão com raiva e ameaçarão com chantagens quem no governo e no parlamento se atrever a propor uma discussão pública ampla do assunto.

A grandeza de Lula e a fábrica de remédios em Moçambique.

A postura diplomática brasileira sob os governos do Presidente Lula desagradou profundamente aos grupos liderados por Fernando Henrique Cardoso que, é conveniente lembrar, é co-autor da teoria da dependência.

Em tempos fernandinos, a diplomacia brasileira era agressiva e votava desprezo aos vizinhos sul-americanos e africanos. Era dócil e toda voltada para os Estados Unidos da América e para a Europa. Voltada para os mais ricos de forma subserviente que, em algumas situações, beirou o ridículo e a indignidade.

É conhecido o episódio em que o Ministro das Relações Exteriores, há dez anos, o vaidoso Celso Lafer – vaidoso em terras brasileiras – tirou os sapatos em um aeroporto norte-americano para ser submetido a inspeções de segurança! Desde então, as normas de segurança continuam as mesmas, todavia o atual Ministro Celso Amorim nunca submeteu-se a um procedimento que não se aplica a diplomatas, nas várias oportunidades em que foi aos EUA.

A imprensa cuidou de atacar as iniciativas brasileiras com países africanos e sul-americanos como coisas inúteis, coisas de pobre para pobre. Essa imprensa deve achar exemplar a subserviência e o tirar de sapatos de um diplomata brasileiro nos EUA. Essa imprensa e aquele governo que houve há mais de oito anos devem achar corretos a submissão a uns e a arrogância com outros.

Assumidas essas premissas, eles têm realmente motivos para ficarem com raiva de Lula. Sob o Presidente inculto, o Brasil adotou as clássicas regras de diplomacia entre países soberanos e voltou sua atenção, tanto aos vizinhos próximos do continente, quanto aos separados por um oceano, na África. Notadamente aos africanos de língua portuguesa.

Lula chega a Maputo hoje, levando a Presidente Eleita Dilma Roussef. Ministrará uma aula magna na Universidade Pedagógica de Moçambique, que é integrante da Universidade Aberta do Brasil. Visitará as instalações de uma fábrica de medicamentos antirretrovirais que se está construindo com fundos e treinamento técnico brasileiros. A fábrica – de alta tecnologia – implica investimentos totais de U$ 31 miliões, dos quais U$ 13 miliões foram enviados em equipamentos desde o Brasil.

A Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, estatal – desenvolve em Moçambique um projeto ambicioso, o ProSavana. Trata-se de desenvolver a capacidade agrícola da savana moçambicana, programa que pode, se for exitoso, servir de modelo para muitos países africanos.

Moçambique é hoje o país que mais recebe cooperação técnica do Brasil, sendo certo que isso pode avançar muito mais nesse cenário de crescimento econômico e de integração.

São posturas que devem dar alergias naqueles senhores que tiravam os sapatos para visitarem o chefe.

O triunfo do homem massa: aridez e esterilidade.

Cansa. Cansa imensamente o mar de superficialidade afirmativa em que se vive. Por todos os lados está o homem massa – é necessário, sempre, dizer que não se trata do homem pobre – a espalhar as vulgaridades que traz na cabeça, os ditos que reputa graciosos, os disparates que reputa expressões de espontaneidade brilhante.

O tipo que vive a espalhar os títulos acadêmicos, sub-acadêmicos, pseudo-acadêmicos ou nada acadêmicos que obteve. Que propõe a irresponsabilidade e que corre para colher algum fruto que ela eventualmente dê e para afastar-se dos resultados desastrosos que provavelmente dará.

O tipo que tem inúmeros direitos adquiridos e quase nenhum dever, nem consigo mesmo. Não tem deveres de cordialidade, de contenção, de nobreza, de esforço, de decoro, de detenção de alguma cultura que vá além da resenha feita por outro igual a ele. Não tem obrigações com outros, com a vida em comum, com o Estado, com a honestidade intelectual.

Acha-se muito seguro de si mesmo e plenamente suficiente com as poucas e descoordenadas informações que ajuntou no cérebro. Fala de qualquer coisa, cita fulano e beltrano que não leu, pratica o oportunismo superficial porque acredita nele com devota sinceridade. Somente nisso não é dissimulado, pois acredita que todos são iguais, rebaixados ao mesmo nível de sub-homem.

O homem massa acredita em uma deformação da igualdade material. Essa crença é uma acusação de tudo quanto não for igual a ele, porque é intolerante com aquilo que o supera, que é menos mesquinho e estúpido que ele. Não percebe realmente essa diferença e apreende-a como se fosse alguma tentativa de mistificação.

Mede as pessoas por sua curtíssima régua e, por isso mesmo, diante do excepcional fica inicialmente perdido, não o compreende, não percebe algo que deva ser medido por outras réguas, e finda por julgar que está diante de alguma representação como é a dele. Retira do excepcional o que tem de superior para poder contê-lo na sua perspectiva vulgar. É, por isso, um destruidor, um assassino de nobrezas, um caçador de estetas.

Quem achar que isso é lamento de um leitor contumaz de José Ortega y Gasset, um leitor que tenta desconfiar de si mesmo todo o tempo, que tenta perguntar mais que responder, está certo. É isso mesmo, infelizmente.

Quando a vítima pensa que não existem algozes. Ou, identificação tola do discriminado com o discriminador.

Recentemente, voltou à evidência a discriminação que alguns brasileiros, notadamente paulistas e gaúchos, nutrem por nortistas e nordestinos, em geral. O que existia sem precisar de fermento, intensificou-se a partir de estímulos fornecidos pela recente campanha presidencial derrotada do candidato José Serra.

Os casos paulista e gaúcho são diferentes em pontos que merecem ser destacados. Existe no Rio Grande do Sul um separatismo relativamente forte e sincero. Acham-se outra coisa, embora pareça-me que não percebem que essa outra coisa e esse afã separatista os faria parte da Argentina, inevitavelmente. É algo mais sério, por um lado, e mais ridículo, por outro.

No caso de São Paulo, há uma discriminação que viceja nas classes médias contra nordestinos, algo mais ligado à superficialidade e à incultura que a qualquer outro fator, porque São Paulo não tem grande história e tradição, como o Rio Grande do Sul. Não se trata propriamente de um separatismo fundado em tradições, trata-se de uma tolice oportunista, porque querem manter o restante do país a trabalhar para eles.

Tanto antes das eleições, como depois do pleito, a exposição pública da discriminação fortaleceu-se pelo acirramento que um partido reputou estratégico. Passadas as eleições, seguidores do grupo derrotado assumiram a discriminação regional como forma de explicar a derrota.

A partir dessa visão claudicante da realidade, propuseram que as partes mais pobres do país escolheram a presidente Dilma e as partes mais ricas teriam escolhido o derrotado Serra. É falso esse corte interpretativo. A vitória de Serra nas regiões de São Paulo e do Sul foi muito mais discreta do que seus seguidores querem acreditar. Por outro lado, a vitória de Dilma nas regiões mais pobres foi realmente avassaladora.

A discriminação de nordestinos e nortistas em São Paulo é historicamente recente. Realmente, há cento e cinquenta, duzentos, trezentos, quatrocentos anos, acontecia algo diferente. Não havia propriamente uma discriminação em sentido inverso, havia absoluto desprezo por qualquer coisa que não fosse do Rio de Janeiro, de Recife ou de São Salvador da Bahia.

Paulistas ou bandeirantes, por muito tempo, eram quase sinônimos para bandidos sem limites, salteadores indisciplinados, caçadores, matadores e escravizadores de índios. Gente que deu muito trabalho à coroa e aos agentes públicos e cidadãos que gostavam de alguma ordem e de alguma vigência das leis.

É muito interessante procurar saber o que os jesuítas – com grandes pendores para cronistas – pensavam dessa gente selvagem, escória social da colónia, cuja presença era a certeza de confusões, roubos, estupros, morticínios e aprisionamento de índios. Os governadores e capitães-mores das províncias ricas não os queriam por perto e quando os contratavam como mercenários cuidavam de fazê-los voltarem o mais rápido possível para suas terras de origem, hoje o centro telúrico do mundo.

Se houve algo que se aproximou de uma nobreza – uma nobreza de espada, como dizem os franceses – na colónia, foi a aristocracia rural pernambucana, carioca e bahiana que conjugou interesses e expulsou os holandeses do nordeste do Brasil e seguiu adiante na empresa, em Angola. Essa gente carregou e seus dispersos remanescentes ainda carregam um profundo orgulho e sentimento de superioridade, decorrentes da grande e improvável vitória militar obtida.

Essa mesma gente passou a ter um profundo sentimento de injustiça com relação à coroa, que minimizou seus valores bélicos e deu-lhes apenas metade dos privilégios na administração do vice-reinado, impondo-lhes a convivência com uma pequena nobreza de robe, de origem na fidalguia urbana portuguesa. Esse sentimento está na origem de sua decadência e de sua propensão revolucionária no século XIX: 1817, Confederação do Equador, Praieira, todas em Pernambuco.

Mas, de paulistas ninguém cuidava, nem se ocupava de ter com eles algum preconceito. São Paulo é uma zona de terras férteis, cujo cultivo principiou-se a partir do Vale do Paraíba, ainda no Rio de Janeiro. Enriquece propriamente a partir do século XX, por causa do café. O Brasil era café e os dinheiros dessa cultura riquíssima puseram o país a seu reboque e levaram a industrialização também para São Paulo.

Pensando-se com toda a calma, a discriminação nutrida por alguns paulistas contra nordestinos é algo profundamente tolo. As migrações internas para São Paulo supriram a mão-de-obra que lá não havia, quando era mais necessária nos grandes impulsos da industrialização e da construção civil.

Não contaminaram com deselegância algum ambiente repleto de pessoas sofisticadas e cosmopolitas, porque São Paulo não era minimamente sofisticada ou cosmopolita, embora fosse rica. Não significaram supressão de trabalho porque foram exatamente suprir a falta de trabalhadores.

Hoje, é alarmante o nível de agressividade que certos grupos têm relativamente aos nordestinos, em São Paulo. Não é coisa desprezível e certamente é indicador de profunda ignorância e aviltamento, porque cultiva-se preponderantemente no meio de grupos de classe média, incultos e incapazes de grandes conquistas e, ademais, muito receptivos àlgumas formas de fascismo.

Eis que, depois das eleições, vieram à tona trocas de mensagens em redes sociais na internet, de conteúdo marcadamente preconceituoso. O episódio mais exemplar foi uma mensagem de uma jovem que incitava as pessoas a fazerem um bem a São Paulo, matando um nordestino afogado.

Essas condutas, sob a perspectiva estritamente legal, caracteriza dois crimes: racismo ou preconceito e incitação à pratica delituosa. Podem acarretar inclusive prisão em regime fechado de cumprimento. À vista do crime cometido, o Presidente da Seccional de Pernambuco da Ordem dos Advogados do Brasil encaminhou ao Ministério Público representação pedindo a persecução criminal da jovem paulista incitadora de assassinatos de nordestinos.

Foi uma medida auspiciosa do Presidente da Ordem porque, além de serem crimes mesmo, convém tentar estancar a fermentação dessas manifestações que logo tendem à exacerbação e à disseminação do ódio sem razões muito tangíveis, ou seja, de postura proto-fascista.

A enorme maioria das pessoas razoáveis repudiou as manifestações racistas e preconceituosas, até mesmo as pessoas que as estimularam como modo de ação eleitoral, durante a campanha. Realmente, não convém terem seus nomes vinculados a coisa tão vil, embora tenham reputado conveniente estimular a vilania quando acharam interessante.

Curiosas mesmo são algumas reações de um e outro sujeito da mesma origem daqueles que a jovem paulista queria assassinados. É algo como a solidariedade da vítima com o algoz, mas é mais profundo. Tem um quê de subserviência, de tentativa de identificação com o algoz e de diferenciação com os semelhantes e, claro, de profundo oportunismo e vontade de obter destaque pelo escândalo.

Um e outro sujeito de alma subalterna e vontade de protagonismo pelo escândalo apressou-se a minimizar os crimes cometidos pela jovem paulista por meio de redes sociais. Como se fosse coisa desprezível. Sucede que isso só pode ser desprezível pela ótica do criminoso, então o fulano que minimiza o fato identifica-se à conduta delitiva, na verdade.

Procede a partir de um julgamento equivocado, segundo o qual a questão seria mais social e econômica que cultural. Ou seja, aceita que o preconceito dá-se entre mais ricos e mais pobres e põe-se ao lado dos mais ricos. Está ao lado do preconceituoso, como a dizer que ele mesmo exerce tal preconceito relativamente aos seus conterrâneos mais pobres.

Não percebe que a questão de fundo é muito mais cultural que propriamento social e econômica. Não percebe que pode estar um dia em São Paulo, com toda a indumentária de novo-rico, relógio rolex no pulso, modos afetados, tentativa de modificar o sotaque, mas que será reconhecido, ele mesmo o solidário com o algoz, como um nordestino. Bastará que abra a boca e diga qualquer bobagem.

E provavelmente seguirá sem perceber que ele é o que fala, identifica-se pela forma com que fala, que não perderá seu sotaque nem mesmo se tentar transmudar-se em uma caricatura absoluta. Mas tentará, porque sua alma é uma caricatura, porque seus valores são um adorno da sua ambição, porque seus elementos de identificação são algo que ele quer suprimir.

Não compreendeu que o preconceito regional é um movimento pequeno-burguês exercido por pessoas exatamente iguais a ele, ou seja, sem identidade, oportunistas, superficiais, ambiciosas de servir ao chefe que tenha o rolex maior no pulso, esse o grande critério de hierarquia. Não compreendeu que sendo iguais na pusilanimidade- senão não se identificariam – são ainda desiguais no critério fundador do preconceito: ele, a vítima subserviente, não fala como o algoz, embora tente.

Olhe aqui Mr. Buster, de Vinicius de Moraes.

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da
Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas “estações” do
ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

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