Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 118 of 126)

Copa do mundo, pra africano não ver…

Para comprar os ingressos da Copa do Mundo 2010, há uma série de protocolos a seguir, e algumas fases de venda, a primeira começou 20 de fevereiro de 2009, e a última termina em 11 de julho de 2010. Na primeira fase os torcedores se cadidataram às vagas e aguardavam um sorteio caso o número de compradores excedesse a oferta.

Porém, para adquirir o ingresso o torcedor deverá preencher um cadastro, para se cadastrar “basta” acessar o site oficial da Fifa. Os pagamentos são através de cartão de crédito, só quem pode comprar é o titular do cartão, nada de comprar o ingresso pro vizinho, e na retirada dos ingressos em postos autorizados o torcedor talvez tenha que apresentar o cartão além de outros meios de identificação.

O problema? O que dizem disso os africanos: “Vender ingressos pela internet é muito irreal” Kini Nsom Sylvanus, bibliotecário camaronês, e continua: “Checar meu e-mail já é algo muito difícil, imagine visitar um site da Fifa para conseguir um ingresso. Isso vai excluir muitas pessoas”, isso pra não falar no problema do cartão de crédito, que a Fifa tem o seu preferido.

É o famoso ganha, mas não leva… Parece até uma pessoa, que “ganha” qualquer ação movida contra o estado brasileiro, e entra na famosa fila dos precatórios… Ganha, mas não leva. São assim os africanos com essa Copa, primeira Copa do Mundo na África, excepcionalmente sem africanos.

Mais em BBC Brasil.

A Telebrás recriada.

A internet brasileira passeando no relvado.

O governo brasileiro tomou a decisão de recriar a Telebrás, uma empresa estatal de prestação de serviços de telecomunicações. Desta vez, será voltada ao oferecimento de banda larga de internet, universalizada. Ou seja, deve fazer o que as concessionárias não fizeram ou fizeram mal feito.

As empresas privadas de telecomunicações já desfiam seu rosário de críticas. Todo o acervo de bobagens pré-concebidas foi tirado do baú e alguns jornalistas convocados a fazerem o ataque. A acusação principal é de heresia estatizante, esse supremo movimento cismático.

Acontece que ainda há quem se disponha a dizer que se formaram nuvens de fumaça a fim confundir e desinformar. Bresser Pereira, um economista inteligente, escreveu um claro texto, publicado no Estado de São Paulo, dizendo, em palavras mais ou menos suaves, que as objeções não passavam de tolices.

A entrada de uma empresa estatal no mercado é apenas uma forma de regulação. E, sem regulação estatal, o mercado age, sim, mas age contra o consumidor. É o que se vê nesse setor, no Brasil. Temos, ao mesmo tempo, as telecomunicações entre as mais caras e ruins do mundo. E temos, aparentemente, um mercado competitivo.

A lógica do comércio de laranjas e couves não se aplica ao de serviços concedidos. Os concessionários sabem disso, evidentemente, mas insistem no discurso da competição. Ainda que ela exista, basta um argumento de realidade para afastar o sofisma, ou seja, ela existe – admitamos essa inverdade – mas resulta em nada!

Na verdade, o empresário pouco está preocupado com a qualidade e difusão do serviço que presta. Sua preocupação são os resultados financeiros e não há porque disfarçar isso. Quem deve estar preocupado com os serviços é o poder concedente, que esse é seu papel. Se não atua, omite-se em detrimento do público.

Enfim, a recriação da empresa estatal de telecomunicações é um dever do estado brasileiro, que precisa levar as empresas privadas a melhorarem seus serviços, agora sim, por causa da competição.

O Citroën DS da Rua de São Victor.

Quase todos os dias, passávamos pela Rua de São Victor, em Braga, a caminho do Centro. Um desses dias, reparei no DS da fotografia acima, em uma garagem. Tirei a foto com a câmera do telemóvel, coisa rara, que eu não tenho propriamente entusiasmo por fotos. Não me lembrava mais onde tinha metido a tal fotografia e, agora, minha mão enviou-ma por e-mail.

É um automóvel lindo. Elegante nas suas formas esguias e inovador na sua época. Ele foi produzido por vinte anos, entre 1955 e 1975. Inaugurou as fantásticas suspensões hidropneumáticas dos Citroën e a utilização de farois direcionais, entre outras inovações.

Remissão ou fim do mundo?

O Chile foi palco de outro terremoto devastador, digo outro por dois motivos, primeiro porque na década de 60 ocorreu lá, o mais forte terremoto registrado, de 9,5 pontos na escala ritcher. Segundo, porque esse ano houve já, um grande terremoto de dimensões catastróficas, no Haiti.

A notícia que correu o mundo ontem, foi provavelmente a notícia do terremoto do Chile, com vídeos no youtube e cobertura online dos quatro cantos do mundo, afinal tragédia alheia vende pacas, e eu fui um dos que comprou, talvez não bastante, mas o suficiente. Mas além dessa, houve outras, não tão quentes, mas reveladoras.

Duas dessas notícias eu li porque, por acaso, caiu em minhas mãos um Jornal do Comércio, a primeira é que fernando cardoso, num desses eventos criados para sua presença (provavelmente), fez, a meu ver, uma coisa inusitada, defendeu a descriminalização não só da maconha, como de outras drogas, pois “a política de guerra às drogas não está funcionando”. E ainda chamou reacionários aos que são contra a idéia, especificamente setores da ONU que são contra essa posição na américa latina. Está na página 11 do caderno Brasil do JC.

Não bastasse essa notícia, no mesmo caderno na página 16, diz que a Corte Constitucional Colombiana, rejeitou proposta feita por Uribe, aquele mesmo do futebol de cabeças, para realizar um consulta popular a respeito de um possível terceiro mandato. O impressionante na matéria, é que ele aceitou a decisão da Corte, e segundo está escrito, disse que era “preciso respeitar a norma legal”.

Quando soube da catástrofe no Haiti, torci para a natureza subir, leia-se, um furacãozinho nos Estados Unidos, ou algo parecido, quem sabe o segundo grande terremoto do ano ser lá??? Não deu certo, desceu, veio pro Chile, e depois dessas duas notícias fico pensando, será que o fim do mundo começou por aqui (como se já não tivéssemos problemas suficientes)? E se não, porque  será que esses dois estão buscando? Remissão? Redenção? (Enganação?)

Ai fico danado lembrando da letra dos “Strokes“, o fim, não tem final

Severiano Miranda

O que não conheço não existe!

Essa frase, a do título, exprime uma atitude mental bastante comum. As pessoas confundem a ignorância com a inexistência. Muito embora seja difícil atribuir essa postura somente às conveniências pessoais e sociais, é certo que a auto-justificação desempenha um grande papel nesse engano.

Vejamos o caso brasileiro. Este país tem as maiores desigualdades sócio-econômicas das Américas, medidas pelo índice de Gini. Significa que as distâncias entre os mais ricos e os mais pobres são imensas e, consequentemente, que há demasiados pobres, com tudo que vem a reboque da pobreza.

As pessoas, em geral, não se comprazem com a pobreza alheia, mas não querem vê-la, também. Elas querem estar à vontade para praticar uma indiferença sem culpas. Elas precisam não ver a pobreza, portanto, ou vê-la suficientemente disfarçada, menos escandalosa, menos acusadora. Vê-la, enfim, somente até o ponto de não dar insônia.

Então, criam-se fantasias visuais para diminuir esses contrastes tão agressivos e impudicos. Claro que não se devem reduzir os contrastes a ponto de todos parecerem mais ou menos iguais, senão as identidades sociais terminam por ficar muito tênues e os mais ricos não podem ser identificados. Esse seria o imenso erro e tiraria o emprego de muito colunista social. Há que se buscar o termo razoável, ou seja, algo como o sepulcro caiado, bem apresentável por fora e pútrido por dentro.

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Um calor assassino.

Esse texto não tem qualquer pretensão científica e não é uma afirmação do aquecimento global. Ele existe mesmo, com texto ou sem ele. Por não se chegar a um consenso sobre quem pagará a conta, adiamos a abordagem do problema. Enquanto isso, chuvas de mais e de menos, frios de mais e de menos, calores avassaladores vão nos destruindo a vida.

Quero enfatizar é o nível de desconforto que se vive, dia e noite, todo o ano, sem tréguas, aqui nestas plagas. É um calor quase tangível materialmente, como se fosse algo corpóreo, táctil. Provoca uma irritabilidade tremenda, uma indisposição para tudo, uma situação doentia. Não há exagero possível nas adjetivações, com tanto exagero nas temperaturas.

Alguém que viva nas grandes latitudes não compreende totalmente isso que digo. Nelas, há variações, e aos calores sucedem os frios, com etapas intermédias, dando ritmo às passagens do clima e à vida. As pessoas desenvolvem o fascínio do calor, porque ele afasta as dificuldades do frio. Mas, contam com a volta da estação fria e recebem-na satisfeitos, porque afasta a opressão do calor.

Isso aqui é a ante-sala da loucura e da inviabilidade da vida, como seria algum sítio em que fosse inverno todo o tempo. Essa é a comparação adequada, porque aponta o aspecto central. Ou seja, além de estar nitidamente mais quente, está quente o ano inteiro, sempre.

Ao contrário do frio, para o calor não há defesa. Andar nu ou semi-nu não é solução para o calor, é exibicionismo corporal, apenas isso. O mal-estar que se sente com uma camiseta de mangas curtas ou sem ela é o mesmo. Há uma diferença, na verdade, sem a camisa ainda se toma o sol, queimando fundo a pele.

Caminha-se um pouco e transpira-se a ponto de encharcar a camisa e sentir o colarinho pregado ao pescoço. Sai-se de um ambiente refrigerado e corre-se para o automóvel com ar refrigerado, para ir a qualquer canto que tenha também ar refrigerado. Se algum trabalho impõe os trajos completos, camisa, gravata e paletó, então é quase um martírio, além do ridículo, é claro.

Dilma Roussef, José Serra e o Google. Como pensa o brasileiro de classe média?

O que as pessoas pesquisam atualmente no Google sobre Dilma Rousseff e José Serra?

Vamos admitir que os resultados do Google são dados por relevância do termo pesquisado. Vamos admitir que o Google – embora nada o impedisse – não comercializa a relevância desse ou daquele termo, alterando seu algoritmo. Vamos admitir que o Google – uma empresa como qualquer outra, visando a dinheiro – não tem interesses políticos imediatos.

Depois de admitir essas premissas, passemos a outras, entretanto. Interesses pessoais revelam-se por perguntas, por pesquisas, enfim. Acesso a meios de pesquisa dependem da extração sócio-econômica do pesquisante. Propaganda mediática feita no formato subliminar de jornalismo influencia o que os destinatários buscam como informação não-jornalística.

Por fim, admitamos que palavras adjetivas vêm carregadas de valores e que não são axiologicamente inertes nem abstratas. Há delas que revelam uma aparente neutralidade, que é de valoração positiva, há delas que revelam qualificações negativas. Continue reading

Mordechai Vanunu, a bomba atômica israelense e o Nobel.

Mordechai Vanunu foi indicado para o prêmio Nobel da paz. Escreveu uma carta para a Academia de Estocolmo e disse que não o queria. Disse que não pretendia figurar numa lista de agraciados que inclui Shimon Peres, o artífice das bombas nucleares israelenses. É raro alguém rejeitar laúreas dessas, com argumentos tão incisivos, que deixam evidente o quanto há de aleatório e de hipócrita no famoso prêmio sueco.

Vanunu é filho de pai rabino e foi criado em ambiente ortodoxo. Afastou-se, contudo da ortodoxia. Trabalhou, em posição meio subalterna, no complexo nuclear de Dimona, no Sinai. Essa usina de tecnologia francesa foi o princípio do rapidíssimo desenvolvimento da tecnologia nuclear bélica de Israel. Enriquecendo e comprando clandestinamente urânio, chegaram às estimadas 200 ogivas nucleares.

Em certo momento, Vanunu foi para a Inglaterra e vendeu a um jornal uma estória interessante. Tratava-se de pormenores do programa nuclear israelense, desenvolvido em Dimona, onde ele trabalhara. Acontece que o dono do jornal era judeu e o Mossad não levou muito para encontra-lo, findando por sequestra-lo em Roma. Continue reading

Viagem ao fim da noite, de Céline.

É preciso falar pouco sobre esse livro, tão grande o livro. Ele é do tempo entre guerras, do século passado, é inegável. Do entre guerras e da prosperidade material, não vivida então, mas fartamente anunciada pelos triunfos da técnica. Os começos e os finais de épocas são complicados, neles não há certezas, há dissolução. O século XX começou em 1918, depois da imensa guerra européia, e essa obra não se entende sem a guerra.

A Viagem ao fim da noite tem uma nota fortíssima de intranscendência. Sim, porque a desesperança pode ser transcendente, pode ser até indiferente, mas pode ser intranscendente. Aqui, ela não anuncia qualquer possibilidade de purgação – não quer isso. Não é tragédia, pois os deuses não intervêm. A catarse não está em jogo, pode até existir, mas não é a questão.

Sugiro, para que se perceba por outros estímulos o que esse livro pode ser, que se escute a Valsa, de Ravel.  Além, é claro, do próprio livro, muito bom.

Zorba, o grego, dança!

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– … Se eu tiver vontade, você sabe, só se eu tiver vontade. Trabalhar para você está certo, quando quiser. Sou homem seu. Mas o santuri é diferente. É um animal selvagem e precisa de liberdade. Se eu tiver vontade, eu toco e chegarei mesmo a dançar. E dançarei o zeimbekiko, o hassapiko, o pendozali – mas, digo desde logo, só se eu tiver vontade. Bons entendimentos fazem bons amigos. Se você me forçar, acabou-se. Para essas coisas, é preciso que você saiba, sou um homem.

– Um homem? O que quer dizer com isso?

– Pois bem, livre!

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