Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 107 of 126)

Mahmud Ahmadinejad dá espetáculo de lógica e detenção de informações. Bin Laden está em Washington.

Mahmud Ahmadinejad, Presidente do Iran.

O Senhor Mahmud Ahmadinejad, presidente do Iran, esteve em Nova Iorque, para uma conferência da ONU. Concedeu à rede televisiva ABC uma entrevista, daquelas em que o entrevistador, embora esteja muito aquém intelectualmente do entrevistado, sente-se à vontade e da vazão às bobagens que traz na cabeça.

O repórter da ABC julgou pertinente indagar ao Presidente se Osama bin Laden estava no Iran. Ele respondeu que era uma suposição risível e emendou Fiquei sabendo que ele está em Washington. Se fosse piada, já teria sido absolutamente destruídor, mas era sério. Pode ter certeza que ele está em Washington, completou, impassível.

A seguir, veio a homenagem à clareza de raciocínio.

O governo americano invadiu o Afeganistão para prender Bin Laden. Eles provavelmente sabiam onde Bin Laden estava. Se não sabiam, por quê invadiram? Podemos conhecer as informações de inteligência?

Primeiro, eles deveriam tentar descobrir a localização dele e, então, invadir. Não conhecer a localização, invadir e tentar descobrir onde ele está, isto faz sentido?

Sincretismo pictórico da escola cusquenha.

La ultima cena, de Marcos Zapata.

Essa tela impressionante encontra-se na Catedral de Cusco, antiga capital do Império Inca. É um belo exemplar da escola cusquenha de pintura, que vicejou nos séculos XVII e XVIII. Um elemento destacado é a presença de aspectos culturais locais nas representações de cenas clássicas do cristianismo.

Na última ceia acima pode-se notar que o prato principal é um cuy, um porquinho do mato, muito apreciado no Perú. Estão presentes outros alimentos típicos da região, como o milho e as batatas. Ocupam os lugares dos tradicionais carneiro e pão de trigo, comuns às representações pictóricas de matriz européia.


Lembranças esparsas de Lima, de Cusco e de Machu Pichu.

Tínhamos acabado de chegar a Lima, Olívia, eu e Daniel, e pusemo-nos a caminhar, que é o melhor que se faz. Chegamos na Plaza San Martín e ficamos a olhar em volta e a reparar na beleza paisagística e arquitetônica dessa praça meio belle époque, meio neoclássica, tão bem desenhada e cuidada. Eis que surge uma equipe da TVSur, da Venezuela, em seis daqueles imensos jipes Hummer norte-americanos.

Um repórter e um câmera vêm até nós. Bom dia, são daqui? Não – dissemos – somos brasileiros. Podem gravar um testemunho para uma matéria sobre os caminhos da América Latina, que fazemos? O que não gostamos, nos persegue. Fiquei calado e todos ficaram. Olívia e Daniel, ajudem-me e corrijam-me, que a memória vai fraca.

Lembro que, pelas tantas, disse: meu castelhano não dá para isso. O repórter, que era argentino, disse: isso que falas é suficiente e emendou: o que acha da integração sul-americana? Gelei e pensei que ou gaguejava em um castelhano para lá de precário, ou emendava a dizer o que achava, e aí seria tomado por tolo, louco, ou idealista. Pouco importa.

Somos diferentes de vocês, de vocês que falam castelhano e lembram-se de San Martín encontrando-se com Bolívar aqui, em Lima. Não temos a cultura do Altiplano, nem a noção de vários países estarem ligados por uma língua e uma cultura indígena assemelhada. Para teres uma idéia, lembra de Ernesto Guevara. Ele saiu da Argentina e foi parar na Venezuela e não passou pelo Brasil. Isso não é bom, nem ruim, apenas a integração é possível, mas o Brasil é outra coisa.

O repórter ficou com cara de quem escuta um louco, mas parecia encantado. Acho que não era o que esperava. Lembro bem que minha intenção era realçar a beleza da relativa unidade cultural dos povos sul-americanos de fala castelhana e quéchua e aimará e  guarani e outras línguas mais. E deixar claro que os brasileiros somos diferentes, nem melhores, nem piores, mas diferentes.

Acho que foi daquelas entrevistas que o editor elimina.

O sítio mais cosmopolita em que já estive: Cusco. Uma coleção de belezas pré-incáicas, incáicas e coloniais castelhanas.

Mil e uma recomendações quanto ao soroche, o mal da altitude, o que não é excesso de cuidado em uma cidade a 3.500 metros do nível do mar. Sempre se diz: chegando a Cusco, repouso de uma hora, deitado, e muito mate coca. Caminhadas suaves, nada de bebidas com gás ou comidas gordurosas no primeiro dia, principalmente à noite. O soroche não é brincadeira.

Não é mesmo. Daniel troçava comigo. Estás perdido, Andrei, não fazes exercícios, bebes, fumas, vai botar os bofes pra fora. Chegamos, cumprimos as recomendações, tomamos chá de coca, deitamo-nos por uma hora e saímos a caminhar bem lentamente. À noite, achamos um restaurante simpatissíssimo. Sentamos na varandinha pequena – só cabíamos os três – e pusemo-nos a comer  truta grelhada e a beber Cuzqueñas. Lá pelas tantas, Daniel começa a ficar entre branco e verde, como uma folha de coca.

Era o maldito soroche. Chamamos o garçom, que diagnosticou o mal e prescreveu a receita. Entramos – porque na varanda fazia um frio danado – e ele trouxe um pratinho com folhas de coca. Amassou-as cuidadosamente e disse: põe entre os dentes e fica a pressionar, em pouco estás bom. Como em pouco não era tão pouco, Olívia e eu ainda pudemos tomar mais umas Cuzqueñas até que nosso estimado desportista ficasse bom.

Machu Pichu é objeto de desconfiança de muitos, do tanto de que se fala do sítio. Bobagem, é belíssimo mesmo. Saindo de Cusco, de trem, percorre-se um caminho que, descendo de 3.500 a 2.400 metros de altitude, permite ver a transição do altiplano – da serra dos Andes – até as elevações que antecedem a vasta planície amazônica. Uma fartura de montanhas e água e verde.

Ao pé da montanha está Machu Pichu Pueblo, ou Aguas Calientes, onde se situam as hospedarias. O rio faz a curva em Aguas Calientes, abraçando a vila toda e lembrando de sua existência com o permanente som das águas rápidas em leito de pedras.  Fomos lá para passar apenas dois dias e voltar no dia seguinte.

Falar de visita a Machu Pichu deve ser algo econômico, para não alinhar a coleção habitual de lugares-comuns. As vistas são bonitas a ponto de surpreender e surpresa é algo que raramente se tem. Voltamos a Aguas Calientes, muito cansados, e resolvemos retornar a Cusco mais cedo, no dia seguinte. Foi idéia da mente clara de Daniel e foi ótima idéia.

Fomos à estação do trem tentar marcar a viagem para mais cedo, mas não foi possível. Então, surgiu uma alternativa. Pegávamos o trem que saia mais cedo, para Ollantaytambo, e de lá apanhávamos um carro com o Edgar. Deu certo. O Edgar era uma figura fantástica de peruano índio do Altiplano. Saímos serpenteando pelas estradas do Vale Sagrado, rumo a Cusco.

Próximo a Cusco, antes de uma aldeiazinha, o Edgar aperta os olhos, vê mais longe, e entra à direita, na aldeia. Pára e diz: esperem um pouquinho. Sai, vai até a esquina, olha e volta. Liga o carro e sai precisamente na hora que a polícia estava ocupada com outros carros. É que não se pode fazer transporte de passageiros, explica. Pergunto: a ellos, les gusta mucho la plata. Oh, solo les gusta eso!

Tiramos uma fotografia com ele, mas aqui imperará o princípio da impessoalidade fotográfica.

Os dois gols mais bonitos de 1982.

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Brasil e União Soviética, em Sevilha, terminou 2 x 1. O gol da URSS foi uma falha imensa de Valdir Peres, o goleiro brasileiro.
Sócrates fez um gol esplêndido, depois de driblar dois e chutar a bola no único local onde Dassaiev – o maior goleiro de então – não a buscaria.

Aos 44 minutos do segundo tempo, Paulo Isidoro cruza a bola, rasteira, em direção ao ponto de entrada da grande área. Falcão, inteligentíssimo, abre as pernas e deixa passar a bola e Éder a toca apenas duas vezes. O primeiro toque, levíssimo e só para a levantar um pouquinho. O segundo, uma patada fenomenal, de esquerda, rumo direto às redes. Dassaiev está parado e fica assim até a bola retornar do fundo das balizas.

É interessante notar o comentarista queixando-se do esquema tático brasileiro, que devia ser mais ofensivo, poucos segundos antes do segundo gol, o de Éder. Não sei quem era o comentarista, mas queixar-se de falta de ofensividade daquela equipe! Esse camarada deve ter morrido de infarto nas partidas de 1990!

Brasil x Argentina, em 1982. A melhor equipe do mundo contra a equipe do melhor do mundo.

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Essa partida foi nos oitavos-de-final da copa do mundo de 1982. Terminou 3 x 1 para a equipe brasileira, em uma exibição de arte. É verdade que a falta sofrida por Maradona devia ter sido punida com tiro direto, mas… E Maradona já era o grande jogador que ganharia o mundial em 1986. Mas, a equipe brasileira de 1982 jogava o futebol mais bonito que já se viu. Ninguém se apresse a replicar: não digo o mais exitoso, digo o mais bonito.

Cálice, censurado.

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Ruim das ditaduras – além dos grandes absurdos – são os pequenos, pelo que têm de ridículo e de potencialmente mais violentos que os grandes. Pois bem, a última ditadura brasileira censurava música, como se as músicas censuradas a fossem por em risco, quando todo mundo queria ouvir alguma bobagem de Roberto Carlos.

Puseram esse trabalho a cargo de meia dúzia de semi-analfabetos, civis e militares. Essa gente censurou até Sófocles, provavelmente por alguma ordem superior, que não tinham a mais tênue idéia do que era a Trilogia Tebana. E censuraram Chico Buarque e, precisamente a canção Cálice. O vídeo acima mostra Cálice interpretada em versão de censura.

Tenho para mim que Golbery percebia a tolice que era isso, pois sabia que haviam ganhado. Mas, tinham que deixar os subalternos experimentarem o poder proibir, ainda que fosse proibição tola. Pior é que fizeram e deixaram os subalternos irem além de proibir canções.

Comporta-te direitinho e te emprestarei mais um dinheirinho. A Grécia é só o começo.

Banqueiro exercitando-se com pesos.

A senhora Merkel e o senhor Sarkozy não quiseram pagar a conta da Grécia integralmente. Provavelmente, não quererão pagar as da Espanha, Portugal e Irlanda, tampouco. Convocaram um convescote bancário, o FMI incluso, e ofereceram empréstimo de cerca de 30 biliões de euros à Grécia, em troca do que se chama aperto fiscal e de taxas de juros elevadas. E disseram: gregos, não sejam irresponsáveis, paguem suas contas!

Pois bem. As continhas em aberto dos gregos fizeram-se para comprar muitos e bons produtos, alemães e franceses inclusive. No início da convivência festiva euro-rica, dizia-se: gregos, não sejam acanhados, estas maravilhas de BMWs, celulares de última geração, carrinhas Peugeot todo-terreno, espumantes de denominação controlada estão aí para vosso deleite, comprem-nos. Esses cartões de crédito maravilhosos e as suaves prestações bancárias estão aí para oferecer-vos o ingresso na modernidade, usem-nos sem moderação.

Os bancos são assim: a antítese da coerência. No momento de impor mais uma rodada de empobrecimento e concentração de riquezas, servem-se do discurso segundo o qual as populações são compostas de seres incapazes, que devem ser tutelados e extorquidos por estados que estão a serviço deles.

Todavia, nos momentos que antecedem à grande extorsão – praticada por meio da agência bancária chamada estado nacional – seu discurso é de oferta e estímulo à compra de dinheiro à prazo. Nunca se viu um banco – do mesmo que depois diz que o comprador é irresponsável – a advertir sobre os riscos do produto que ele vende.

Curiosamente, as casas bancárias ganham nos dois momentos: no da venda indiscriminada e pulverizada e no da venda concentrada do socorro ao seu maior preposto, o Estado. O segundo momento é o mais engenhoso. Passado um certo ponto, os senhores banqueiros reunem-se e chegam à conclusão de que um país chegou ao seu limite. Tornada pública a conclusão, inicia-se o aumento dos débitos e dos juros das promissórias.

Nesse ponto, não é mais possível negociar no varejo. Chama-se o Estado e propõe-se: tu vais representar o todo, que esse é teu papel. E retirarás de todos para pagar-nos. Como duvidamos da tua seriedade, compraremos tuas notas promissórias por preços baixíssimos, para as revendermos a ti próprio, pelo valor de face, é claro. Assim, se tu resolveres não pagar, já teremos recebido de qualquer forma.

No âmbito do discurso público, político e econômico, a coisa atende pelo nome de aperto fiscal. Significa reduzir dispêndios estatais com inutilidades como saúde pública, transportes, pensões e reformas, salários, rendimentos de inserção social. Apenas não é recomendável reduzir os dispêndios com as polícias, que serão bastante necessárias para convencer os pagadores a não matarem os credores ou seus prepostos.

Numa festa em que todos gozaram, por que apenas uma parte paga a conta?

Arrogância e ignorância doutoral de Coimbra.

Morada da Verdade, sobre o Mondego.

Algum tempo atrás, a atriz de telenovelas brasileira Maitê Proença andou a falar bobagens sobre Portugal, notadamente fazendo piadas tolas e desprezando patrimônio artístico e cultural. Muito embora o espetáculo de mau gosto tenha sido registrado em vídeo e reproduzido nas televisões, a protagonista saiu-se com desculpas meramente formais, querendo minimizar o que disse. Aumentou a ofensa, na verdade, porque manteve o que disse e considerou que as reações eram excesso de zelo.

Há algum tempo, também circula por aí, notadamente na internet, por meio de um correio eletrônico muito reproduzido, o que seria a resposta de uma Doutora conimbricense às ofensas da Maitê Proença. E a resposta doutoral é quase tão tola quanto as ofensas! Em resumo, a carta Doutoral gira em torno ao argumento da vasta ignorância formal dos brasileiros. Se ficasse por aí, submeter-se-ia apenas à previsível objeção de haver vastos níveis de ignorância de ambos os lados do Atlântico. Mas, a Doutora quis extrair mais conclusões.

Para deixar claro que os brasileiros são um conjunto de néscios, ela aponta que dessa burrice generalizada resultou a eleição de um Presidente inculto. A Doutora é fraca em lógica formal, porque não percebeu que duas consequências distintas advieram da mesma causa aparente, o que implica que, ou a causa está errada, ou as consequências estão.

Um pouquinho de Atenas para Coimbra, portanto: se a mesma massa de ignorantes elegeu o pluri-doutorado Fernando Henrique Cardoso e o não-licenciado Lula, conclui-se que a ignorância das massas está na origem de dois resultados diversos, portanto não é causa.

Deixadas as questões formais de lado, temos as materiais. O não-licenciado Lula impôs redução de desigualdades sociais – tímidas, mas efetivas – um crescimento econômico enorme e um reconhecimento universal idem. Curiosamente, foi escolhido pela revista Time como um dos maiores líderes mundiais e não é doutor por Coimbra! Impressionante!

O produto doutoral de Coimbra mais conhecido do século passado foi a luz de economia política que alumiou Portugal desde 1926 até a queda da cadeira. Outros raios brilhantes sucederam-no e deixaram inclusive manuais de direito constitucional. Curiosamente, flores brilharam mais que essas velas de sebo.

Supremo Tribunal Federal opta pela infâmia e considera lei de anistia aplicável à tortura praticada por agentes públicos.

Isso foi anistiado pelo STF.

No regime ditatorial que houve no Brasil, de 1964 a 1985, agentes do poder público sequestraram, mataram e torturaram cidadãos. Essas condutas eram ilegais até em face das leis então vigentes e foram praticadas em substituição a qualquer rito de investigação, processamento e julgamento aplicáveis.

Em 1979, o regime político ditatorial fez passar no Congresso Nacional a lei nº 6.683/79, chamada lei de anistia. Interessa transcrever o artigo 1º e os parágrafos 1º e 2º dessa norma:

Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares (vetado).

§ 1º – Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política.

§ 2º – Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal.

O sistema constitucional brasileiro desconhece a inconstitucionalidade de normas produzidas antes da constituição vigente. É uma questão de coerência lógica. Todavia, existe outra maneira de aferição de compatibilidade de uma norma pre-constitucional com a constituição superveniente. Então, as normas anteriores à constituição, ou são recepcionadas pela nova ordem, ou não são.

Para julgar a recepção – conferindo os mesmos efeitos práticos de uma ação declaratória de inconstitucionalidade – existe a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF. Por meio dela, pode-se obter uma declaração do supremo tribunal federal sobre a compatibilidade de uma norma anterior com a constituição superveniente.

A OAB, por meio do excepcional trabalho de Fábio Konder Comparato, propôs uma ADPF para que o stf se pronunciasse sobre a compatibilidade, a recepção, em termos jurídicos,  da lei de anistia com a atual constituição. Compatibilidade muito improvável, pois a Constituição veda a tortura e a considera crime imprescritível.

O supremo tribunal federal julgou a lei compatível com a atual Constituição, em atitude infamante e indigna de juízes que se supõem conhecedores da lei, da filosofia do direito e que, ademais, são os maiores magistrados do país. Foi preciso julgar contra a técnica e com amparo nas inúmeras variantes do discurso que, no fundo, nega a história e estimula a violação das regras. O stf agiu em desconformidade a qualquer coisa que se assemelhe a um poder judicial, porque alinhou-se à noção de que regras são desprezíveis.

A lei controvertida anistia os crimes políticos e aqueles conexos a eles. Aqui, deve-se ir ao ponto central, que é a conexão entre crimes. São conexos os crimes que têm a mesma motivação, que são praticados pelas mesmas pessoas e que são praticados nas mesmas circunstâncias temporais e geográficas, sendo as provas de uns dependentes das de outros.

Os crimes praticados pelos agentes do estado não são conexos àqueles praticados por quem resistiu ao regime ditatorial. Ora, crime político é aquele cuja motivação é atingir um regime político e não pode ser conexo aos crimes praticados com a motivação de defender esse mesmo regime. A diferença de motivação é de uma obviedade que leva a pensar que os defensores da conexão não agem por estupidez – que seria muita – mas pela histórica leniência conciliativa brasileira.

Os motivos de quem age contra ou a a favor de uma ordem política são tão diferentes quanto vinho e água. Uma interpretação correta leva à conclusão de que inexiste conexão entre tais delitos e que, consequentemente, a lei foi escrita por juristas incapazes que, embora querendo anistiar tudo, fizeram um texto que anistia apenas quem devia ser anistiado. Mas, nestas plagas, a pressa e a insuficiência intelectual são premiadas depois. As mesmas inclinações chancelam as intenções iniciais, a despeito do erro formal e material.

A mensagem – agora originada do maior tribunal do país – é que a história é desprezível, o direito é desprezível, tudo se resolve com algum dinheiro e quem quiser fazer de novo sinta-se à vontade, que somos um povo cordial que tudo resolve. Enquanto isso, locais que têm tribunais respeitáveis, como a Argentina e o Uruguai, proclamam a invalidade de leis desse tipo – de auto-anistia – e punem quem sequestrou, matou e torturou cidadãos em nome do Estado.

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