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A impostura na acusação da queda de nível dos representantes.

Tem ocorrido, sim, uma queda no nível de escolaridade formal dos representantes do povo, na Câmara, e dos estados federados, no Senado da República. Houve, sim, um recuo do que se chama comumente voto de opinião. Por um lado, é bom que haja isso, como é bom que afinal um abcesso rompa-se e derrame o pus que traz dentro.

É uma ilusão julgar que os parlamentos foram, em uma época remota e idílica, reuniões de representantes excelentes. Neles, nos parlamentos, sempre houve massas e excelentes, independentemente de seus pertencimentos sociais, econômicos e de seus níveis de cultura formal.

O que é certo e perceptível é a desconcentração da representação. As mesmas massas e excelentes vão tornando-se mais representativas do todo dos cidadãos e não apenas de uma minoria seleta apenas sob o prisma de seu nível de predação. Por isso, sempre se fez necessário retardar ao máximo, no Brasil, qualquer avanço da democracia representativa.

É impostura das classes dominantes acusar um recuo no nível educacional dos representantes, porque ele decorre de um projeto cuidadoso de deseducação engendrado pelos que hoje reclamam. Quando perceberam que educação básica e média era a parte mais barata, retiraram o Estado dessa parte e puseram seus filhos em escolas privadas, que podiam pagar. Além disso, drenaram recursos públicos para essas escolas por meio de subvenções fiscais.

No mesmo movimento, perceberam que a parte cara da educação era a de nível superior. Então, tornaram-na pública e destinada aos que cumpriram a básica e média nos estabelecimentos privados. Ou seja, uma total inversão de propósitos públicos, que pôs o Estado em função dos interesses de uma minoria. Agora, reclama-se dos resultados?

É algo semelhante a retirar o acesso aos tratamentos de saúde e depois reclamar da quantidade de doentes, como se fosse situação auto-engendrada, sem causalidades identificáveis ou, pior, resultante da própria vontade dos doentes de adoecerem! Assim transita nossa impostura: quando não nos surpreendemos com as consequências de nossas próprias ações, acusamos os outros de serem responsáveis.

Ou seja, ou mentimos, ou adotamos a tese da culpa da vítima. Somos uma classe dominante profundamente deformada e massificada, uma decadência que não tem quaisquer traços de uma aristocracia. Podemos acusar o povo de ignorante e incapaz de escolher, podemos reclamar de sua incultura e de suas escolhas? Fizemo-lo deseducado para que mantivessemos nossas posições e agora  o acusamos de ser ignorante?

Aqui cabe uma verdade sobre o teatro brasileiro. No fundo, quase ninguém das camadas dominantes acredita em democracia, por razões óbvias. Democracia, se houver, em um país com esses níveis de pobreza e concentração, vai acarretar prejuízos para nós mesmos. Então, uma imensa maioria está a repetir uma tolice em que não acredita.

Então, é perceptível – embora possa causar estranheza – que os militares foram melhores que os dois monstros partidários que criaram, a ARENA e o MDB, de resto muito parecidos. Melhores porque, bem ou mal, pensavam o país, enquanto esses arremedos partidários pensavam em si dizendo que pensavam no todo.

A partir dos anos de 1970, a grande verdade é que os militares foram instrumentalizados por esses partidos, ou seja, por cinco por cento da população brasileira. Claro que um e outro ser humano deformado, vestido em fardas, divertia-se a torturar, sequestrar e matar e nisso não era instrumentalizado por ninguém, apenas dava vazão à sua barbárie sob os olhares complacentes de quem estava pensando só em dinheiro.

Eles, os militares, aprofundaram o projeto de deseducação popular, instrumentalizados pelos cinco por cento dominantes. Mas eles, pelo menos, não se viam na patética obrigação de falar em democracia e coisas do gênero, nem de ficar a reclamar dos resultados, de resto bastante previsíveis.

Os que estão reclamando de eleições de um Tiririca ou mesmo do Romário, são os responsáveis por isso e falta-lhes perceber que, no fundo, não são melhores que eles, que são massa do mesmo jeito, um patético arremedo de aristocracia que se compraz em cultivar-se em colunas sociais de província.

Romário Deputado e a inteligência do porteiro do prédio.

Sai para entregar uns papéis a Olívia, que passava rapidamente para apanha-los, e, quando retornava, o porteiro do prédio estava sentado em uns degraus com cara de cansado. Ele andou gripado e, para piorar as coisas, faz um calor dos infernos aqui.

Perguntei-lhe: que é que há, Josa, estás melhor da gripe? se quiseres algum remédio é só dizer. Estou, seu Andrei, quase bom. Com um calor de matar, desses, a gente demora a melhorar, Josa. É verdade, ele disse.

Mas, ele não queria falar de gripe, nem de calor. Costumamos falar de futebol, geralmente quando a preguiça abandona-me momentaneamente e resolvo lavar meu carro. Aí, Josa afasta-se de seu posto e vem jogar conversa fora. A mim, agrada-me, porque é um sujeito simples e diretamente honesto. E aqui eu falo de conversa, não de discurso professoral para uma pessoa mais pobre e menos instruída formalmente, como se oferecesse grãos de sabedoria a um faminto intelectual.

Arrodeamos quaisquer assuntos, com as introduções de hábito – calor, gripe e outras bobagens – e então ele me disse: você viu o que tão dizendo de Romário? Vi, é preconceito de um bando de filhos-da-puta que não são melhores que ele, disse.

O caso é que Romário, aquele futebolista extraordinário, elegeu-se Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, com 146.000 votos, concorrendo pelo PSB – Partido Socialista Brasileiro. Preencheu todos os requisitos de elegibilidade, candidatou-se e obteve os votos, pronto!

Romário, além de jogador de futebol fora do comum, ficou conhecido por falar o que pensa e por ter aversão a treinos. Uma aversão que nunca se confundiu com indisciplina, mas uma rejeição de certos rituais a que ele não precisava submeter-se. E não precisava mesmo, que sempre foi assim e sempre foi espetacular.

Tinha pleno conhecimento de suas capacidades futebolísticas, ele que ganhou um mundial para a seleção brasileira quase sozinho. Naquele mar de mediocridade futebolística de 1994, ele era a diferença. Tinha a clara percepção de que, se não ia ter os maiores méritos reconhecidos, não precisava participar da encenação que atribuia esses méritos aos coadjuvantes, entre eles a dupla de teinadores.

Não é possível arrancar de Romário algum dito ou declaração que corresponda precisamente ao que o postulante quer e espera. Se lhe perguntam alguma coisa, vem em resposta o que ele quer dizer, independentemente de acerto prévio e ser o dito inteligente, profundo ou tolo, mas será dele.

Nunca foi jogador violento, nunca foi dado à farra, no que ela tem dos componente álcool e entorpencentes. Mas, não servia precisamente ao modelo esperado pelo espetáculo mediático. Esse modelo implica uma previsibilidade quase total nas tolices que serão ditas, dentro de um rol pre-estabelecido.

Romário pode responder às perguntas tolas com outras tolices, ou com respostas inteligentes, que não estão nas expectativas do perguntador. Eis um problema sério. Então, é preciso dizer que ele é indisciplinado, irresponsável e outras qualificações negativas mais.

Agora, a eleição de Romário para a Câmara dos Deputados  é tomada como exemplo da queda da qualidade dos representantes do povo. Ora, essa representação não caiu da forma que querem dizer. Ela sempre foi de baixo nível, porque os eleitores não têm educação suficiente e porque são bombardeados com o lixo que os média oferecem diariamente.

Ela não caiu até porque sempre foi de baixo nível, desde quando era apontada exclusivamente pelos que compõem o grupo que se pretende dos mais qualificados. Os mais qualificados da sociedade brasileira compõem um grupo que harmoniza bem ignorância e má-fé, ou seja, é das aristocracias mais insuficientemente dotadas que existem, desde que se considere o interesse público e não apenas o do grupo predador que se quer chamar de aristocracia.

O parlamento brasileiro tem componentes que podem cobrir todo o rol do código penal e Romário é o problema? Isso, precisamente  o que alguns querem negar, insistentemente, é preconceito de classe.

De classe, porque Romário, especificamente, é rico, mas nasceu pobre. É indócil, não aceitou o papel que lhe reservavam, com aquele ar magnânimo de quem dá uma oportunidade ao pobre que ascendeu de brilhar, desde que seja tutelado pelos condutores da realidade, os aptos a fazerem-no.

Mas, volto à curta conversa que tive com o porteiro. Ele esperava alguma opinião e eu não tenho grandes coisas a dizer a respeito. Não ia fazer um discurso sobre a representação política e o sistema democrático e estava claro que ele percebia não haver qualquer problema em Romário ser eleito Deputado Federal.

Josa, eu acho que Romário é melhor que muito deputado que tá aí. Tem ladrão, assassino, tem o escambau. Esse pessoal da televisão tem preconceito com ele. O camarada quer disputar a eleição, vai e ganha e é representante, pronto!  Eu tava pensando a mesma coisa, seu Andrei, ele disse.