A Poção de Panoramix

Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Compro, logo existo.

A proposição cartesiana, a estabelecer relação causal entre pensar e existir, sempre me pareceu alguma ironia, porque não me permito achar Descartes tolo. Acresce que ela é perfeitamente inversível, pois existo, logo penso, faz também sentido, à partida e sob perspectiva lógica formal.

Descartes era muito antropocêntrico, como seu século, e assim toda sua ontologia. Soa meio infantil, mas é inegavelmente uma proposição direta e servível. Ele não cogitava do fim da história, isto é certo…

Fato é que experimento mais uma das boas visitas à terra dos que se lançaram ao mar, há quinhentos anos, e se entregaram ao decadentismo mais lento e constante já visto. Não uso desta oportunidade para falar das minhas impressões, que não mudaram substancialmente.

Não venho com este texto para comentar alguma beleza, alguma sutileza percebida, alguma coisa interessante ou original. Isto aqui tem a ver com deselegância, brutalidade, novo-riquismo. Tem a ver, portanto, com a classe média alta e alta brasileiras. Elas são piores fora do Brasil que nele, o que inicialmente soa contraditório.

Fora, estão mais à vontade e não conseguem evitar o destaque, por contraste ao que circunda. Não é uma questão de ser percebido por características étnicas ou pelos trajos. Essas coisas estão já bastante baralhadas e, relativamente aos trajos, a classe dominante viajante brasileira é vanguarda, ou seja, aquilo que está a um átomo de ser ridículo.

A questão é: os brasileiros, no exterior, compram tudo quanto vêm pela frente. Precisamente os estratos sociais que nutrem mais ódio contra o governo atual, que lhes melhorou sensivelmente as condições econômicas, são os que mais viajam e mais compram. É superlativo o consumismo desta gente e totalmente diversificado.

É de tal maneira brutal, que constrange até alguns que vendem e ganham a vida com isto, posto que a ausência de gosto e necessidade de afirmar a posse de dinheiro sobrepõe-se a tudo. Há setores em que o comprar e vender envolve um jogo de regras conhecidas, em que se fingem curiosidades e se afirmam refinamentos, além de se discutirem preços. Conversam vendedor e comprador em certos ramos do comércio, a valorizarem a transação.

Com a invasão brasileira isto não acontece. A compra é um ato isolado, a ser repetido à exaustão. Tanto faz que sejam souvenires comuns, daqueles que se vendem nas áreas mais turísticas, quanto sejam roupas, relógios caros e ruins com marcas de roupas, cosméticos, bebidas, eletrônicos, computadores, qualquer coisa, enfim.

A preparação que antecede a ida de um grupo alto médio classista brasileiro ao aeroporto, depois de suas jornadas aquisitivas, é coisa a ser observada ao menos uma vez, que mais de uma tende a intoxicar ou deprimir. Em frente ao hotel está o ônibus que conduzira os humanos ao aeroporto; em frente ao veículo, um guia atarefado, a pedir ordem, a lembrar que o avião não espera…

Descem as malas e isto é o que importa; é a imagem que gostaria, se o talento fosse suficiente, de pintar com palavras: a descida e acumulo das malas no saguão do hotel e, depois, na fila de cheque do aeroporto.

Há velhotas a conduzirem malas de 40 Kg, algo prodigioso que me faz pensar no descompasso entre os limites mentais e os físicos. O consumo, a posse do que foi avidamente consumido, estende muito os limites físicos e permite que estas malas tão grandes quanto um pigmeu sejam empurradas, roladas e afinal cheguem aos seus destinos.

Claro que ainda há destes viajantes mais ligados ao século XIX e que necessitam de serviçais para carregar suas bagagens dignas de mudanças definitivas. Terrível é não gratificarem os serviçais, coitados deles que pensavam ter saído da escravidão até depararem hordas de brasileiros neo ricos ainda a supurarem as feridas narcísicas.

Alguém que perca seu tempo a ler este retrato do feio poderá obstar que as personagens aqui comentadas são mais universais que se supõe. Ao que direi previamente que há elementos a provar a originalidade.

A franquia de bagagem por peça, nos voos saídos do Brasil e com retorno a ele, se comprados os bilhetes no Brasil, é a maior do mundo: duas peças de até 32 Kg! Esta massa, se se compuser de roupas e outras coisas de higiene pessoal, é suficiente para uma pessoa comum viajar seis meses ou mais. Não se entregue ninguém à tolice de achar 64 Kg de roupas pouquinha coisa.

A acomodação destas dúzias de volumes pesadíssimos no veículo que conduzira o homo qui emit leva mais tempo que o habitual, quando se trata de conduzir outras variações do que Lineu chamou generosamente homo sapiens. A chegada à aerogare, contudo, é o momento triunfal!

Uma simpática funcionária da companhia aérea perguntava-me se as coisas estão assim tão caras no Brasil. Compreendi perfeitamente. Respondi-lhe que sim, estão mais caras que lá, mas nada que justifique um furor aquisitivo tão desenfreado e tão difuso. E nada que justifique o pagamento por excesso de bagagem, algo frequente a despeito da enorme franquia para o homo qui emit.

Cobrar do alto médio classista brasileiro a taxa por ter excedido o imenso limite de peso para as bagagens é um martírio para o coitado do funcionário da companhia aérea. Acontece que muito candidamente o pequeno-burguês brasileiro não tem em mente que seus limites são superiores aos de todos os demais cidadãos do mundo. Eles creem-se aquinhoados muito naturalmente por algo que não poderia ser diversamente.

Aqui outro ponto interessantíssimo: a classe dominante – ou, melhor dizendo, os servos intermédios da classe verdadeiramente dominante –  não percebe as suas diferenças relativamente a grupos de outros países, que se encontrem mais ou menos nas mesmas condições sociais e econômicas nas suas origens.

Acha-se igual ou melhor, o que revela incapacidade brutal de ver-se, de ver os outros, de perceber diferenças e semelhanças. A gente brasileira que viaja para fora é, insofismavelmente, pertencente aos estratos mais altos da sociedade. Não há bilhetes de menos de 1000 euros, exceto se o destino for a Argentina. Isto não é pouco dinheiro e há que se lembrar dos outros milhares que serão gastos com bugingangas.

Pois esta gente é totalmente autorreferente, ignorante, consumista e desprovida de gosto. E acha-se mal posicionada na escala social brasileira; e acha-se merecedora de mais dinheiro; e lamenta não poder ter mais escravos domésticos; e diz gostar de ir à Europa…. Para quê, afinal?

O espelho de Narciso e o suicídio involuntário.

A pequena-burguesia brasileira foi levada a crer que é importante, ou seja, que é o centro das atenções, o ponto em torno a que tudo gira, que suas opiniões são importantes e principalmente que ela tem algo relevante a dizer sobre tudo, como sói acontecer com Caetano Veloso. Essa obra de ilusionismo deve-se à imprensa mainstream, naturalmente.

Esse tipo de fantasia ajuda bastante a imprensa, na sua cruzada incessante contra qualquer governo que desconcentre, ainda que pouco, a apropriação de riquezas no Brasil. Além de imbecilizar as classes sociais suas clientes, a imprensa consegue aumentar a já enorme auto-referência. O narcisismo exacerbado, por seu turno, retroalimente a imbecilização.

As classes médias altas acham que ganham pouco dinheiro e querem que o dispêndio com programas sociais para os mais pobres seja-lhe dirigido. Por isso, com raivinha da atual presidenta da República, marcham em ordem unida com as outras duas candidaturas viáveis: a de Marina Silva, financiada pelo banco Itaú, e a de Aécio Neves, da direita de longa data e não aventureira.

Acontece que nenhum dos dois, nem a do Itaú, nem o queridinho da imprensa, suprimirá, caso eleito, dinheiro de programas sociais para entregá-lo às classes médias altas. Esse dinheiro, a parte do que for suprimido, será destinado ao grande capital, nomeadamente por meio do pagamento de juros remuneratórios de títulos públicos.

 Mas isso, que não é tão difícil de perceber para quem pensa sem se colocar como centro do mundo e sem recorrer a veículos de imprensa, não ocorre à maioria da pequena-burguesia e principalmente àqueles que são funcionários públicos. Mais extraordinária é a ausência de memória desta gente, que apagou os registros de como foi tratada no exemplo anterior mais próximo à candidata do Itaú e no exemplo eloquente que foi o governo do patrono do queridinho da imprensa.

Nada obstante, o ódio a que foi conduzida larga parcela da pequena-burguesia pela imprensa brasileira cegou-lhe totalmente a vista e obstou-lhe qualquer rasgo de sensatez, ainda que eventual e rápido. Se é verdade que o exemplo ensina, também é que se lhe esquece rapidamente…

Assim, pensando com o fígado e alguns poucos neurônios, muitos votarão contra si mesmos e contra o maior número, porque acham-se injustiçados por não receberem o que se acham merecedores, como centro do mundo que são.

Bacalhau meio à Brás.

Há muitas formas de dividir o mundo segundo gostos e preferências, todas elas igualmente tolas. Eu divido o mundo entre quem prefere salsa e coentro; nunca encontrei critério melhor.

Eis que resolvo fazer um bacalhau à Brás, ou quase isso. É um prato simples, do ponto de vista de quem lê receita e come o acepipe, a olhar, inevitavelmente, para a mistura que é.  De fato, é simples, mas requer cuidados com tempos de cocção.

Comummente, faz-se um refogado de cebolas cortadas às meias-luas e alhos picados, para depois deitar o bacalhau em lascas. Decidi mudar um bocadinho. Pus o bacalhau demolhado para cozer em água quente, mas não fervente. Trata-se de encher uma panela grande de água, com um pouco de sal, pimenta moída e uma folha de louro e aquecer até perto da fervura.

Perto de ferver, desliga-se o fogo e põe-se o bacalhau para cozer na água quente por alguns minutos. Cinco bastam e deixa-se lá até a água esfriar.

Entretanto, cortei duas cebolas pequenas em meias-luas bem fininhas, cinco dentes de alho piquei, um molho pequenino de cebolinhas fatiei e um pedacinho de cenoura ralei. A cenoura não é parte do que me habituei a comer em Portugal, mas achei que saberia bem.

O bacalhau deve ser retirado da água e partido em lascas ou mesmo desfiado e reservado. Nesta altura, batem-se com um garfo três ovos e um pouquinho de leite. Um pouquinho, para preciosistas, deve ser à volta de 100 ml.

Tudo pronto, vai-se ao refogado. Pouco azeite e cebolas, alhos, cebolinhas e cenoura ralada na caçarola grande e tapada. Espera-se dourar um pouco e mete-se o bacalhau, mexendo sempre e sempre. Passados um ou dois minutos, despeja-se um bocado de batatas palha, dessas que só se conseguem em supermercados, industrializadas.

Um minuto ou menos e põem-se os ovos e leite batidos e mexe-se sem parar. A hora de parar é antes de cozerem os ovos, ou seja, na hora em que o bacalhau está ligado e húmido.

Esta iguaria foi acompanhada de um rosé muito fresco e o resultado foi esplêndido.

Embrutecidos e atemporais.

Faz imensa falta ao Brasil uma direita bem alfabetizada, detentora de alguma cultura formal, liberal, capaz de juízos estéticos, capaz de ser delicada. Isso, ou o pouco disso que havia, extingue-se a pouco e pouco. A delicadeza, esta entrou no rol das coisas fora de moda, anacrônicas, aptas a causarem vergonha, associada à tibieza de caráter e à incapacidade de ação.

O espaço que poderia ser ocupado por tal direita bem alfabetizada não ficou vazio, evidentemente, que a sociedade não tende ao vácuo. Foi ocupado por uma gente embrutecida e que parece viver o presente constante, ou seja, são profundamente anti-históricos. Incultos, indelicados, incapazes de passar por um simples cotejo de contradições, essa gente ocupou todo o espectro ideologicamente direitista.

Em grande maioria vivem na dependência do Estado, seja direta ou indiretamente, mas não sentem vergonha de reproduzir um discurso anti estatista raso, que lhes é ofertado por uma imprensa tão ou mais envilecida que seu público. Chegou-se a tal nível de impermeabilidade intelectual que nada adiante expor este pequeno-burguês embrutecido às suas contradições gritantes: ou ele não compreende, muito simplesmente, ou torna-se irracionalmente reativo, dando mais uma volta ao parafuso da incoerência.

Mas, o inconveniente desta malta não se resume às opiniões políticas rasas e filonazis. Seu embrutecimento significa a perda de qualquer sensibilidade estética, a par com a idéia de que ele é o tipo único e invariável. Assim pensando, o embrutecido age como se o mundo todo fosse igual a ele.

Tenho a infelicidade de conviver obrigatoriamente com um número de pequenos-burgueses brasileiros, cotidianamente. O silêncio pauta minha conduta, por medida de segurança e higiene mental. Abro-me para coisas de pouco risco, tais como futebol, carros, piadas de salão, pois falar a sério é a antesala da guerra.

Acontece que certos espécimes são proativos e vivem a tolice afirmativa. Nem percebem o silêncio, nem o apreciam, nem apreciam algo falado a sério se não for a confirmação linha por linha das vulgaridades que apreende nas revistas e TVs. Esse tipo é cansativo e perigoso e mais frequente que seria de imaginar.

Outro dia desses, o pequeno-burguês proativo e incontido típico quis mostrar-me umas fotografias no telefone. Tão logo fez menção de passar-me seu telefone, para que eu recebesse o presente das imagens, compreendi o que viria: cenas de algum acidente, corpos mutilados, rios de sangue, carnes cortadas, ossos partidos. Não poderia ser diferente e não era.

Caso é que há poucos dias ocorrera uma tragédia. Um rapaz com problemas mentais matara as duas irmãs degolando-as e, depois, matara-se. Os pais perderam três filhos na mesma ocasião e desta forma realmente trágica. Não é algo agradável nem de supor, quanto mais de revirar-se no assunto, como se se pudesse descobrir novas nuances.

Pois as tais fotos eram precisamente da cena das três mortes… Afastei o telefone com a mão, não me contive. Afastei-o e afastei-me, não consegui disfarçar a repugnância. Sai sem falar nada, simplesmente sai de perto.

Não aprecio essas imagens, não tenho inclinações mórbidas, mesmo não vendo nada demais em quem as tem. O caso é que esse tipo de imagens não me desperta um juízo estético, nem me ensina coisa alguma. Ou seja, não me diverte, nem me educa. Nem é exemplo de coisa alguma, como os moralistas gostam de dizer para disfarçar suas inclinações mórbidas.

Neste nível de embrutecimento encontra-se grande parte da gente e acham que este é o estado normal das coisas, não cogitam de algum gosto diverso, não cogitam que são bárbaros, superficiais, tendentes ao julgamento sumário, à abominação da arte, ao retrocesso civilizacional.

A China não lê o Levítico.

Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis. Mayer Amschel Rothschild.

Minorias tributárias da cultura greco-judaica precisam socorrer-se da naturalização da história, ou seja, do moralismo, para justificar seu domínio e os prejuízos imensos que decorrem para os restantes 99%. Toda estratégia de domínio baseada em prescrições axiomáticas faz lembrar o terceiro livro do Pentateuco, esteio deste crime que é a naturalização do histórico.

Por isto, não basta a vastíssima maioria das pessoas no dito mundo ocidental estar sob jugo de meia dúzia, são obrigados a escutarem e acreditarem na naturalidade desta situação. Claro que somente acreditam porque a indústria cultural suprimiu das massas o acesso a qualquer exemplo histórico que pudesse mostrar-lhe a contradita. Basta uma ocorrência diferente do que se prescreve como natural para se perceber a inexistência de natureza…

O plano das grandes casas bancárias para o ocidente é o colapso. A China não é conceitualmente o obstáculo a isso, é, antes e diferentemente, a única hipótese de salvação para quem perceber o plano e quiser escapar de suas consequências.

O problema da usura não reside na imoralidade dos juros, que isso é questão de preço. Reside no emprestar o que não existe, criar e suprimir dinheiro, fazer e desfazer inflação. Não foi por vontade de fazer efeito que Mayer Rothschil disse o que vai em epígrafe a este texto; ele afirmou sem pejos onde está o poder.

Essa gente capturou a criação de dinheiro no mundo depois da derrota do Corso, quando apropriaram-se do Banco da Inglaterra por dívidas. Daí até 1944, as coisas mudaram pouco e, em verdade, pode-se dizer que de 44 em diante a mudança foi até sutil, porque consistiu na troca da libra inglesa pelo dólar norte-americano.

1971 vê uma mudança bem mais intensa, com o abandono do ouro e a vinculação do dólar norte-americano ao petróleo. Havia uma cláusula implícita no acordo celebrado entre Nixon e os príncipes sauditas, que veio a ser descumprida. Cabia ao governo norte-americano conter a fúria desestabilizadora da cúpula do sionismo. Não foram capazes disto porque aqueles a serem contidos minimamente infiltraram-se no governo norte-americano.

Bastaram duas tentativas de trocar óleo por euros ou ouro para as bombas caírem impiedosas entre Tigre e Eufrates e na Tripolitânia. Podia ser o fim do petrodólar, o que foi adiado com as intervenções bélicas, que não cuidaram nem de preservar estruturas produtivas. Era mais importante destruir e cessar a migração do dólar, mesmo que a produção fosse interrompida e os preços elevados.

Não tiveram condições, todavia, de impedir o Irã de sair do petrodólar, nem tiveram estupidez suficiente para iniciar o ataque militar à Pérsia. Claro que isto não está descartado, porque tudo que depende de níveis maiores de estupidez pode estar na iminência de acontecer. Acontece, porém, que há reais alternativas ao petrodólar, e mais estáveis.

Um yuan ou rublo, ou a combinação dos dois, lastreado em ouro é algo sempre cogitado. Não me parece que seja o caminho mais provável, mas deve haver algum suporte em ouro, mesmo. Não é à toa que a China vem comprando o que estiver à disposição no mundo e vem refundindo suas barras no padrão de um quilograma.

Essas coisas são de conhecimento de quem as procurar saber e, assim, é óbvio que, tanto os governos, quanto as casas bancárias estão perfeitamente a par do que se passa, do que se passará e de quem sofrerá as consequências. Tempos muito turbulentos esperam os povos norte-americano e europeu, porque são o centro emanador do plano e não mostram sinais de quererem evitar o caos.

As periferias destes centros ocidentais sofrerão ainda mais com a desarticulação do petrodólar, exceto se tiverem condições internas de aliarem-se a grupos sólidos econômica e militarmente, que não estejam interessados no caos. Os BRICS são o exemplo evidente, assim como é evidente porque querem desestabilizar a Rússia e o Brasil.

A tentativa de desestabilizar a Rússia é escancarada e tola. A provocação bélica, todos sabem, é apenas provocação. A escalada das sanções econômicas derrubará a Europa antes que caia a Rússia, porque a dependência daquela em relação a esta é grande, e não apenas em energia. O mercado russo é fundamental para as exportações européias, desde alimentos a automóveis.

Sob quaisquer perspectivas lógicas, a investida europeia contra a Rússia é incompreensível ou compreensível como uma grande, imensa, tolice. Claro que é uma imensa tolice para os interesses de 99% das pessoas, mas não necessariamente para o 01%. Depois de uma lobotomia, alguém pode acreditar nas preocupações com a Ucrânia, mas antes disso é difícil.

400 milhões de pessoas não fogem de um lugar para outro, em poucos instantes. Mas, 10 famílias e centenas de bilhões de euros fogem muito facilmente, porque a mobilidade capitais, este veneno, adotou-se por quase toda parte. Assim, pouco importam os destinos individuais de milhões de pessoas; na verdade, isso nunca foi importante.

Em tempos mais auspiciosos, esta situação poderia servir para testar os limites da democracia formal e convidá-la a funcionar e cumprir seus intuitos declarados. Todavia, não há porque esperar isto, tal é a anestesia dos povos europeus, alimentados por memória da abundância, perda da memória da pobreza, abundância residual atual, espetáculo, dívidas e falta de educação formal clássica. Não haverá reação e voltar as costas à Rússia piorará as coisas.

A articulação dos países dos BRICs, notadamente com a constituição de fundos que não incluam promissórias norte-americanas, será essencial para a estabilidade não apenas dos integrantes deste grupo, mas alternativa real ao colapso do petrodólar. Felizmente, a China não se guia pelo Levítico, nem tem casas bancárias tradicionais. Faz e fará qualquer negócio, com a vantagem de não querer  conquistar os corações e mentes dos 99% com discurso moralista e espetáculo vulgar.

Mesmo que se tente o retorno ao dólar baseado em ouro, será tardio e insuficiente. Não há ouro para isso e não convém uma moeda de transação cara, mesmo que para a função de reserva de valor isso seja interessante. Se este processo estivesse a cargo de gente comum – no sentido de não serem banqueiros ocidentais – seria conduzido para um pouso mais ou menos suave, com a manutenção parcial do petrodólar.

Mas, é conduzido da pior forma possível, uma vez que a cúpula bancária ocidental ganha com o caos.

Nova política é direitismo messiânico.

Tudo que recorre aos adjetivos novo e moderno, como qualificação positiva, leva-me à desconfiança. Identificar o novo ao melhor é uma maneira de raciocinar na fraude, porque não há relação de necessidade entre o novo e o melhor. Isto é somente a indução discursiva para massas.

O novo é algo constante, porque o presente inexiste, na medida que é sempre superado. A novidade pode ser o mesmo, pode ser diferente, pode ser melhor ou pior, a depender de para quem se o considere. Ou seja, dizer novo como sinônimo de melhor é apenas desonestidade intelectual de propaganda, com base na sinonímia fraudulenta.

Hoje, no Brasil, uma postulação à Presidência da República ampara-se neste discurso: a de Marina Silva. Houve dois casos relativamente semelhantes, coisa que muitos estão apontando com propriedade: os de Jânio Quadros e Fernando Collor. Ambos tinham o discurso centrado na novidade de cunho moralizante e na proposta de supressão das mediações institucionais.

O caso atual, assim como os dois paradigmáticos antecedentes, filia-se à ideologia direitista, ou seja, creem na igualdade natural como igualdade social e de oportunidades, no mérito e na naturalidade das desigualdades e professam um aberto entreguismo. Propõem um modelo que aprofundará as desigualdades sabe-se lá até onde, porque não há limites para isso.

Interessante no direitismo messiânico é que ele leva ao paroxismo a incoerência ou, melhor dizendo, ele serve-se dum discurso que disfarça muito bem as intenções. Ele propõe a supressão dos canais de intermediação institucional, notadamente as que se fazem pelas corporações estatais. Propõe a ligação direta, como se se buscasse a chefia do Estado e do Governo para purgar a sociedade destas instâncias públicas.

Daí que é permeado de ligações com as famosas organizações não-governamentais – repletas de boas intenções – e impregnado de convites à sustentabilidade e ao socialmente responsável, embora estas coisas sejam impossíveis de se definirem.

A velha direita não pode propor ao sujeito comum sua desgraça, claramente. Estar impedida de fazer esta proposta impede-a de leva-la a cabo integralmente, também. Há um comprometimento vasto com os canais institucionais, não se oferece a supressão dos intermediários, nem a demonização irrestrita do Estado e de seus funcionários. Na verdade, a proposta da velha direita fala diretamente às porções altas da classe média, porque lhes oferece boas oportunidades de ampliação da predação direta do Estado, na forma de cargos, basicamente.

A nova direita messiânica tem um desenho quase anarquista. Uma figura ungida será posta no comando e todo o resto será desmantelado, esta é a idéia por trás de tudo. É interessantíssimo que este despudor seduza o pessoal habituado à velha apropriação do Estado ao nível de empregos, ou seja, é notável que a classe média deixe-se seduzir pela idéia messiânica de Marina Silva.

 

A ocultação da ideologia por meio da objetividade fraudulenta. Narrativa da direita.

Os números, todos sabem, dizem o que quisermos que eles digam. A direita, por outro lado, sente enorme dificuldade de abrir-se na sua coloração ideológica própria, numa espécie de vergonha mal-disfarçada. Precisa então construir uma narrativa que pareça ideologicamente neutral, ou seja, que remeta apenas a aspectos gerenciais, supostamente objetivos, de uma realidade que é naturalmente imutável.

Precisa, mais que tudo, ocultar e negar a existência de classes com interesses diversos e conflitantes, tanto relativamente à divisão e apropriação das riquezas, quanto culturalmente. Precisa, vistas as coisas por outro lado, construir e servir-se de um discurso de naturalizada objetividade e negar as experiências bem sucedidas de alteração das desigualdades.

Resulta que a pequena burguesia urbana, profundamente descontente com a melhora dos que estão abaixo de si e alimentada pela imprensa mainstream, reproduz um discurso de objetividade fraudulenta, que parece tratar de um mundo onde inexistem opções guiadas por ideologias.

Quem escuta essa narrativa fria e aparentemente sem juízos valorativos percebe que ela foi purgada de qualquer elemento de escolha, como se opções não houvesse e tudo se limitasse a aspectos gerenciais. Eis o grande fetiche da narrativa direitista: tudo é questão de gestão.

De carta forma, a base deste discurso é já meio antiga, pois cuida-se do triunfalismo que emergiu no final da década de 1980, quando alguns aspirantes a profetas anunciaram o fim da história. O fim da história seria o resultado de um consenso nunca havido, em que o liberalismo absoluto ter-se-ia afirmado como verdade revelada.

A desonestidade dessa gente saltava aos olhos já naquela época, porque nem mesmo o tal liberalismo tem a realidade que nos papéis é fácil aparentar. Realmente, os profetas liberais nunca abdicaram de apropriar-se do Estado para que seu liberalismo funcionasse na medida correta de apropriação, o que significa dizer sempre em maior medida.

Discutem-se números, indicadores, resultados de balanços de empresas estatais, variações da bolsa de valores, estatísticas, tudo quanto possa parecer sintoma de uma coisa natural a funcionar melhor ou pior conforme a administração que tenha. Isso, todavia, além de mesquinho é fraudulento.

Mesquinho porque é micro demais e nega o planejamento e possibilidade de alterar-se a realidade social. Fraudulento porque os números, a depender do ângulo porque se os vejam, dizem qualquer coisa. No fundo, trata-se de investir contra os movimentos de desconcentração de rendas com um discurso que não pareça ideológico.

Tudo que for aparentemente sem valor ideológico, que for terceira via, que for apolítico, que for gerencial é discurso de direita. Isso fica evidente porque o núcleo do discurso direitista é a instalação de um modelo que só resulta em aprofundamento das desigualdades e não sou eu que o digo de forma inovadora, é a história que o prova fartamente.

É compreensível a dificuldade que se põe para um discurso sinceramente direitista, porque a enorme maioria das pessoas não se sentirá atraída por uma proposta de empobrecimento, nem mesmo se ela vier cuidadosamente embalada em palavras complicadas. Daí a necessidade de se recorrer à objetividade fraudulenta e acusar os promotores da redistribuição de gestores ruins.

Interessante é perceber como a pequena burguesia que repete o recebido da imprensa sem pensar incorre em contradições a cada dois ou três meses. Fosse eu da imprensa e fosse mais refinadamente pérfido, teria muito prazer em divertir-me assim com as classes médias, levando-as a dizerem as maiores asneiras e a desdizer-se mês depois com outra asneira ainda maior.

Se se anuncia uma redução de um preço administrado, de um serviço prestado por alguma empresa concessionária de serviço público, correm todos a dizerem que isso é ruim porque a empresa perderá dinheiro e prejudicará seus acionistas! O sujeito vai pagar menos, mas reclamará disso porque foi ensinado que isso é ruim, embora seja… bom.

Pois bem, se este mesmo preço sofre uma elevação alguns meses depois, isso é ruim, o que é mesmo óbvio. Mas, isso é ruim como uma enviesada confirmação da profecia anterior de que baixar o preço também era ruim. A imprensa joga o jogo do ganha-ganha e leva seus alunos a repetirem felizes e lépidos as contradições mais atrozes.

Essa crítica mediática que sempre desagua no ruim, mesmo que duas coisas estejam nos extremos de uma escala – e pensemos no preço da gasolina, por exemplo – revela que se trata puramente de ideologia. Não há objetividade em ser contra a redução do preço da gasolina e contra o posterior aumento pelas mesmas razões. É ilógico para qualquer pessoa que pense com sua própria cabeça.

Detenho-me neste particular dos preços administrados e concernentes a empresas públicas porque o principal objetivo da direita brasileira é vender duas jóias cujo capital ainda é maioritariamente público: a Petrobrás e o Banco do Brasil.

Para vendê-los, caso a direita tenha êxito nas presidenciais de outubro, será  necessário algum discurso, porque não haverá condições, nem coragem de simplesmente vender porque é melhor entrega-las que receber os dividendos que repassam ao Estado como detentor da maior parte do capital social. É preciso dizer que estas empresas são um mau negócio para o Estado, mesmo que isso não faça qualquer sentido, principalmente quando se pensa na Petrobrás.

 Semelhante acontece com programas e órgãos voltados à segurança social e a ações redistributivas. É moda falar das contas da seguridade social como se se tratasse de uma sociedade anônima exploradora de atividade econômica, ou seja, como algo que persegue lucro. Aqui a fraude é enorme, porque os objetivos e a natureza dos órgãos e programas são totalmente esquecidos na construção da narrativa.

Esta narrativa aquela velha estória do Estado mínimo, que é recontada com tênues variações em todas as latitudes e em todos os tempos. Esse Estado só deve ser mínimo para as maiorias, porque ninguém da classe média para cima sobreviveria nos mesmos padrões sem parasitar o Estado de alguma maneira, seja por isenções fiscais, seja por salários, seja por empréstimos a juros baixos e mil outras formas criativas.

O Messias, ou veio, ou ainda virá, ou não virá. As proposições são reciprocamente excludentes…

Não pretendo avançar até conclusões, apenas indicar algo interessante e sugerir possibilidades. Fato é que reformados pentecostais e neo-pentecostais tornam-se, mais e mais, filo-judaicos.

Há poucos dias, aconteceu algo notável, em São Paulo: o conhecido pastor Edir Macedo, dirigente de uma igreja neo-pentecostal, inaugurou um imenso templo que se pretende réplica do abatido de Salomão, em Jerusalém. Na cerimônia, o pastor caracterizou-se como rabino e usou quipá! É curiosa a referência, porque se é rabino, não é pastor, e vice-versa.

A reforma, nas suas vertentes pentecostal e neo-pentecostal, é profundamente anti-pauliana e contraditória. O judeu grego que teve visões a caminho de Damasco triunfou sobre a facção de Tiago, irmão de Jesus, e permitiu que houvesse o cristianismo autônomo, ou seja, não como mais uma seita do judaísmo. A sabedoria de Paulo foi muito helênica mesmo, porque a solução é perfeita do ponto de vista lógico formal.

A nova aliança celebrou-se sem limitações quanto a uma parte e sem requisitos prévios para ingresso. Não era necessário ser antes judeu para ser cristão, eis o que permitiu a difusão do novo preconceito monoteísta que se iniciava. E isso fazia todo sentido, porque Jesus foi considerado Messias e, portanto, a ser isto verdade, o encerramento do judaísmo.

A proposta foi audaciosa e bem desenhada, deve-se reconhecer. Nesta perspectiva, os textos do velho testamento foram mantidos como uma genealogia e nada mais. Do surgimento do Messias e da celebração da nova e ampla aliança, salta-se por sobre um imenso vácuo atemporal até a parúsia, a volta que iniciará a comunhão plena dos relativos com o absoluto.

Isso é absolutamente incompatível com o judaísmo, que espera o Messias e opera um esquema lógico aparentemente mais simples. Aqui, não há aliança ampla; há uma aliança com um restrito povo. Isso é fundamental, porque ortodoxamente Edir Macedo pode andar diariamente de quipá e não se tornará judeu em momento algum.

Dessa aliança única e específica decorrem efeitos tão interessantes quanto terríveis. Tendo os profetas calado-se nos últimos 2000 anos, um colegiado de rabinos assumiu seu lugar e elaborou uma codificação sempre mutável nos aspectos marginais. Isso, o Islã viria a adotar, seiscentos anos depois, de maneira algo similar. Assim, por esta codificação rabínica, que é coerente com a tese da escolha divina do seu povo, coisas estão plenamente autorizadas, tais como matar qualquer outra gente.

A posições são absolutamente inconciliáveis, o que não quer dizer que se deva matar por isso, mas logicamente são coisas excludentes. Não se é cristão e judeu ao mesmo tempo, enfim. Mas, as denominações pentecostais e neo-pentecostais pretendem essa solução de compromisso impossível, o que revela muito de sua falta de densidade intelectual, lógica e teológica.

Há quem veja esse filo-judaísmo como decorrente de interesses pecuniários, apenas. Dia desses, um jornalista escreveu um pequeno texto de inteligência ligeira a defender isto. Para ele, a explicação estaria no comércio intenso de turismo religioso para Israel. Essa hipótese parece-me muito restritiva, porque o dinheiro move muitas coisas, mas não todas. E, principalmente, porque o dinheiro das excursões de fiéis a Israel não é muita coisa.

Talvez haja muito de vontade de afastar-se radicalmente do catolicismo de Roma, mesmo que a preço de cair no vazio lógico e na incoerência flagrante. Realmente, isso de incoerência é próprio das religiões, mas apenas na sua parte axiomática. Esses sistemas tem causas iniciais ou móveis que se podem considerar absurdas, mas daí em diante costumam funcionar coerentemente.

O filo-judaísmo pentecostal e neo-pentecostal é abrir mão de qualquer sentido, pelo que já se disse acima: ou o Messias veio ou está por vir. Não resta, na perspectiva dessas religiões, terceiro possível, nem harmonia das proposições, pois são excludentes.

Para mim, isso tem algo de tentativa de aliança com o mais restrito e forte, além de alinhamento ideológico com a elite do conservadorismo mundial. Grande parte do poder financeiro e bélico do mundo está em mãos da elite judaica. Daí que convém adular esse pessoal e querer parecer-se com eles, mesmo que os emulados intimamente riam-se dessas patetices de quem nunca será o que não nasceu.

Interessante é que isso é por-se em condição subalterna, render homenagem a imitar aquilo que se não é, nem será. Além de ser potencialmente o caminho da dissolução, porque não há perspectivas para novas seitas judáicas…

Um forasteiro, um domingo qualquer e a redenção de pecados.

Um texto de Ubiratan Câmara.

POA

Amanheceu o domingo, mas não parecia, estava cinza, frio e chuvoso lá fora.
Quando esperanças não mais havia, os céus se abriram e um novo dia parecia acontecer.

Romper a inercia da comodidade era preciso, e na mesma medida se tornou imperativo aproveitar o dia, pois as dádivas do tempo e da disposição física não merecem ser despendidas sob amarras de lençóis solitários ou tolices virtuais… Era hora, portanto, de andar pela cidade.

Porto Alegre, cidade dos outros, que apática e caótica me recebeu, se tornou minha, ensolarada e prazerosa acolhida.

Destino não poderia ser outro senão um espaço público, onde meus descuidados passos fossem indiferentes e a fotográfica permanecesse alheia à cobiça de terceiros. O Parque Farroupilha, mais conhecido como Redenção, se apresentou como uma opção, enfim.

No Parque, nos dias de domingo em que o bom tempo permite, estranhos se reúnem para negociação dos mais variados artefatos. São antiguidades, artesanato, obras de arte, porcelanas, livros, vinis, quadros, mosaicos, cacarecos de pouca ou nenhuma utilidade também repletam as calçadas. Ao escambo dominical deram o nome de brique da Redenção.

Andar calma e despretensiosamente, sem receios de qualquer natureza, é algo que me apetece em desmedida e que sinto falta no calor excessivo do nordeste, onde sou refém de um automóvel, na imensa parte do tempo.

Além das sutilezas que são comercializadas, não passam desapercebidas as pessoas que dominam algum tipo de habilidade e, com isso,  deixam um chapéu emborcado para receber contribuições dos mais surpreendidos.

O primeiro a se apresentar foi um argentino, que me lembrou Segovia, ao dedilhar com destreza, em seu violão cansado, Asturias. Ofereceu, em seguida, Piazzola, Gardel, Paco de Lucia e, até mesmo, para o deslumbre das maduras mulheres que ali passavam,  Roberto Carlos.

Nao ficou por aí. Eis que solta o violonista de rua, desta vez para delírio meu, o tema de Zorba. O meu tímido e improvável ímpeto de sozinho começar a dançar hedonisticamente como o Grego, foi levado a cabo por alguns germânicos que descansavam abaixo do Monumento ao Expedicionário.

Talvez estivessem eles despreocupados com o jogo da Alemanha, que aconteceria com a Argélia no Beira Rio. Ou, quem sabe, já estivessem comemorando a profecia da conquista do mundial.

Ciclistas, cadeirantes,  bebês e muitos cachorros testemunharam a dança. As testas franzidas e os sorrisos incontidos, como os meus, distinguiam aqueles que não tinham a menor noção de que se celebrava, daqueles que sabiam, respectivamente.

O argentino precisou descansar.

Próximo dali, se ouvia ainda uma uruguaia cantando o hino francês, acompanhada com um tambor. Em seguida, ofertou gracias a la vida. Piaff e Mercedes foram lembradas, como diferente não poderia ser.

Alguns passos adiante, compatriotas tocavam, cantavam e dançavam alegremente O Barquinho. Cantaram ainda mais bossa, em harmonia, com um tom de samba. Imagino que Vinicius sorriu e dançou junto, esteja onde estiver.

Se não bastasse, pequenos peruanos, sob os olhos cuidadosos de uma mãe, tocavam el condor passa e outros tons andinos; confrontando com a gaita e o violão elétrico de um rapaz que tocavam blues, convidativo para um bourbon, se não fosse ainda manhã.

Opções de gastronomia – até mesmo tapioca, acarajé, quentão e cachorros quentes com duas, três,  quatro ou mais salsichas –  se encontravam com facilidade. Até uma boa confeitaria estava ao alcance, apesar do nome, no mínimo, curioso: Maomé Doces Bárbaros.

E assim foi passando o dia… suave e despreocupado, na Redenção.

Dele me despedi com a impressão de que minhas transgressões estavam redimidas, ou, ao menos, esquecidas em momento, tamanha a leveza do domingo…

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