A Poção de Panoramix

Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

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Espelho cristalino, por Alceu Valença.

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essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do capitão corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

mas eu tenho meu espelho cristalino
que uma baiana me mandou de maceió
ele tem uma luz que alumia
ao meio-dia clareia a luz do sol

que me dá o veneno da coragem
pra girar nesse imenso carrossel
flutuar e ser gás paralisante
e saber que a cidade é de papel
ter a luz do passado e do presente
viajar pelas veredas do céu
pra colher três estrelas cintilantes
e pregar nas abas do meu chapéu
vou clarear o negror do horizonte
é tão brilhante a pedra do meu anel

A Guerra do Paraguai. Um bom video.

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Um video – em quatro partes – bem claro sobre a Guerra do Paraguai. A última parte – deve-se dizer – é muito mal narrada em português, por um indivíduo que parece não saber ler.

Matamos, brasileiros, argentinos e uruguaios, 90% da população masculina do Paraguai. E roubamos partes do território paraguaio. E, depois, praticamente acabou-se o Paraguai. Basicamente, isso ocorreu por conta de insatisfações comerciais de Buenos Aires e do Rio de Janeiro com alguns êxitos na criação de gados e em uma pouca industrialização que ocorria no Paraguai.

Absolutamente ignorante de história e absolutamente descortês, hoje, uma rede de televisão brasileira acha razoável agredir os paraguaios a propósito de futebol. Uma rede de televisão que é detentora de uma concessão pública! Não terão bastado os assassinatos?

Oswaldo Guayasamín, pintor equatoriano.

Gosto desse retrato de Fidel por Guayasamín. Além de ser grande exemplo de arte pictórica, a figura retratada lembra-me bastante um parente querido já morto.

Guayasamín retratando-se.

El grito. Figuração da angústia.

Não sei o nome dessa tela, mas é da série La ternura. Creio que é Madre y hijo.

Enquanto teóricos discutiam os limites da pintura figurativa – como se não houvesse existido um Picasso – ela acontecia com força em Quito, por quem disse Mi pintura es para herir, para arañar y golpear en el corazón de la gente.

Fazer o dominado pensar que seu problema é o vizinho e não o dominador. Ou seja, incutir uma mentalidade de escravos.

Analisar como o domínio estabelece-se já é tarefa bastante difícil, pois envolve extensa atividade descritiva. Apontar um e outro aspecto por trás de seus mecanismos de manutenção parece-me mais fácil, até porque os fatores isolados fazem mais sentido relativamente à manutenção que ao estabelecimento. Há, também, a sedução de observar causas psico-sociais que passam despercebidas na maior parte do tempo.

Manter um domínio, antes de qualquer outra coisa, recomenda fazer o dominado crer que está em situação inevitável. A forma mais comum é caracterizar qualquer anseio e qualquer dignidade nacional subjacente ao anseio como frêmitos por uma ação inútil. Ou seja, deve-se incutir a apatia na defesa dos interesses próprios como atitude de inteligência de quem reconhece suas limitações. O sofisma aqui é facílimo de apontar, pois encontra-se na identificação – falsa – entre limitação e impossibilidade.

As variações da linha de ação mencionada acima são muitas. A mais eficaz é desdobrar a noção de apatia inteligente e fazer surgir a de possível ridículo caso tente-se o possível. Outro desdobramento – esse talvez mais infame que eficaz – é fazer crer que certas tentativas foram calculadas a partir de motivações absolutamente estranhas às declaradas.

Um exemplo auxilia a compreensão dessas linhas de ação. No início da década de 1980, a Argentina empreendeu uma guerra para retomar as Ilhas Malvinas dos ingleses, que as tomaram aos platinos. As diferenças de riqueza e de poderio militar sugeriam a inviabilidade da empreitada para os argentinos. Todavia, a provável inviabilidade não se confundia com a impossibilidade porque também era plausível que os ingleses não se empenhassem na guerra por um objetivo desprezível.

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Infelizmente, todos se esqueceram do passe para o gol de Robinho…

E começa a “Era Felipe Melo”, ouvi ou li, em alguma resenha esportiva durante essa Copa, dizendo que Felipe Melo era o Dunga de Dunga… Dunga teve sua “Era Dunga”, e depois mostrou a que veio, teve oportunidade para tanto. Não sei se Felipe Melo terá a mesma oportunidade, depois do erro crasso que cometeu no jogo contra a Holanda.

Dai a julgar que ele é culpado de alguma coisa isoladamente, acho demais, é como faz o reporter esportivo Paulo Vinicius Coelho, muito conhecido como PVC, da ESPN, que é muito bom, mas acredito ter sido infeliz em sua assertiva, em 11 de maio durante entrevista, ele disse que a Juventus, fez a pior campanha de sua história e jogou a carga nas costas do Felipe como se ele fosse culpado da má campanha sozinho, sem ter outros 10 jogadores ao lado. Da mesma forma vai ser feito com a Copa, meio sem querer vão sempre citar o seu fiasco. Como agora já fazem citando a reportagem e o seu respectivo vídeo:

Oras, sem culpado sem nada. Que foi uma estupidez do jogador “pisar” no outro foi, assim como foi bobagem de Ramires fazer uma falta no meio de campo ganhando um jogo por 3×0, dando assim a oportunidade de Melo voltar ao time… E convenhamos, a Holanda, assim como a Espanha, deu uma sorte dos infernos, porque não fez muito mais que aquilo o jogo todo, infelizmente para os brasileiros, “aquilo” foi suficiente. Infelizmente para Felipe Melo, o pessoal vai lembrar por um bom tempo o que ocorreu na Copa.

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Preconceito e arrogância alemãs.

É ótimo quando certas situções-limite são atingidas e os disfarces postos de lado. Quem se equilibrava com enormes dificuldades em uma fingida cordialidade, imposta convencionalmente, chega a um momento em que vê-se livre dela e diz o que pensa. O caso aqui é a discussão entre jogadores da equipe argentina e da alemã.

Os mais ricos farão triunfar sua versão, claro, mas isso não impede que algumas palavras sejam ditas, buscando-se o máximo de precisão. Os argentinos falam de futebol e falam deles próprios como grandes executores dessa arte. Enfim, eles adotam o discurso segundo o qual jogam melhor que os outros. Decorre desse pressuposto que eles acham os outros inferiores futebolisticamente.

Na verdade, muitos acham isso, os brasileiros inclusive, mas não o dizem com tanta veemência. Contém as afirmações na sua crença na superioridade técnica.

Os jogadores da equipe alemã, em contrapartida, acharam de dizer que os argentinos são desonestos, que visam a induzir os juízes a erros e que são mal-educados. Em um segundo momento a sinceridade transbordou e alargaram os comentários a todos os sul-americanos. Isso vai além de futebol, obviamente.

Para os argentinos deve ter sido duro serem postos no mesmo grande grupo de sul-americanos, que eles sempre julgaram-se algo à parte, na verdade. Mas, calha bem ao retorno à realidade perceber que na hora da verdade, para um alemão, pouco importa que alguém seja argentino, brasileiro, chileno, paraguaio ou qualquer outro sudaca. No fundo é um ser desonesto, ardiloso e mal-educado que visa a induzir os árbitros a cometerem erros.

Espero, embora evidentemente não possa adivinhar resultados, que a Argentina atue coerentemente com sua crença em ter o melhor futebol e massacre os germânicos no retângulo verde. E pouco importa-me que os tedescos sigam sua trajetória – longa – de preconceitos de superioridade, desde que vejam confirmada a sua inferioridade futebolística.

E espero que percam e continuem dizendo que os sul-americanos são um conjunto de desonestos, ou seja, que continuem não compreendendo de que se trata, enfim.

Futebol, barbárie, bombas e cornetas.

Futebol é esse jogo que está em evidência por conta do campeonato mundial realizado pela Fifa. Barbárie é algo mais complicado de definir-se. O termo sugere oposição a civilização e revela uma forma de caracterização de uma civilização dominante.

Os gregos da idade de ouro chamavam bárbaros a todos os não-gregos, exceto a alguns persas, a quem chamavam medos, apenas para provocá-los. Algum respeito devia haver nisso. Os romanos chamavam bárbaros àqueles que estavam além do Reno e do Danúbio, basicamente. Aos da bacia do Mediterrâneo chamavam pelos nomes, embora não os considerassem iguais.

Os chineses, esses que precisamos começar a perceber melhor, não chamavam aos outros especialmente; faziam a suprema forma de auto-elogio. Chamavam-se a si mesmos de Império do Meio e os outros são os outros.

A palavra, hoje, tem sentido que vai além de simples dominação. Uma das significações possíveis é educação para a vida em comum. Ou seja, adoção e crença em algumas regras que conduzem a convivência a um mínimo de conflitos por invasões das esferas privadas. Ou que, talvez, signifiquem que as esferas privadas não vão resolver seus conflitos por mais conflitos.

O fato é que espetáculos – não apenas o futebol, mas vários outros – levam as pessoas a manifestarem seu júbilo de forma bárbara, ou seja, de uma maneira que não leva em conta eventuais contrariedades ao formato da festa. Aqui, entra em cena outro aspecto interessante. Às vezes, a forma bárbara de júbilo é tão maioritária e as insatisfações tão poucas, que se trata de um verdadeiro triunfo democrático da barbárie. Os insatisfeitos que se mudem!

Coincidem o mundial de futebol e as festas de São João. Estas últimas caracterizam-se, entre outros costumes, por um farto uso de bombas, daquelas que se acedem os pavios, lançam-se adiante e ouvem-se as explosões. Esses artefatos não produzem qualquer beleza – pois não se trata dos fogos de artifício que desenham imagens caleidoscópicas no céu – e geram apenas barulho.

Muito barulho, na verdade, e muito risco. Nesse período, os hospitais recebem feridos por explosões de bombas às fartas. Não somente as crianças, habituais desfrutadores dessas maravilhas explosivas, mas adultos de infâncias tardias. O que já foi tradição e brincadeira comum, tornou-se em prazer tolo de bombas que devem dar inveja ao exército norte-americano.

Junta-se às explosões sucessivas de bombas o canto fanho e insuportável das cornetas. Como nós, brasileiros, temos uma irresistível propensão a sermos colonizados culturalmente, chamamos essas cornetas de vuvuzelas, embora sejam a mesma e única coisa, para que já havia nome.

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