Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Categoria: Sugestão de leitura (Page 1 of 3)

Uma conversa com Machado. Por Alcides Moreira da Gama.

Um texto de Alcides Moreira da Gama

O amigo e mestre Andrei solicitou-me escrever algo sobre Machado de Assis. Nos tratamos mutuamente assim: mestre. Mas o discípulo sou eu. É um desafio e tanto. E, sinceramente, não sei se sou capaz. Mas, mesmo cônscio disso, vá lá, aceitei o desafio.

O que dizer sobre Machado? O Brasil, apesar de tudo, é um país em que, de quando em quando, surgem agradáveis surpresas. Muitos cidadãos desprovidos de condições mínimas para galgar uma vida digna conseguem vencer barreiras dificílimas para chegarem a um patamar social razoável.

Apenas para citar dois exemplos: todos conhecem a história de Lula, criança saída dos confins do agreste pernambucano, torneiro mecânico, semialfabetizado, como pejorativamente dizem, chegou a ser Presidente da República, deixando o cargo com uma popularidade excepcional; meu pai, sem a mínima condição social quando criança, sendo em algumas ocasiões rejeitado em ambientes públicos por conta de sua paupérrima indumentária, estudava em bancos de praça, pois não havia energia em casa, chegou a passar em vários concursos públicos, alguns na primeira colocação, logrando êxito também no vestibular para Letras, tendo abandonado o curso.

Por que cito esses exemplos? Machado foi desses sujeitos. Mulato, nascido em sociedade ainda escravagista, gago, epilético, fez o que fez. Verdadeiras obras primas da literatura brasileira, elegantemente bem escritas. Ele, agora do outro lado, assim com Brás Cubas, deve rir-se de nós, por tentar querer desvendar sua vida depois de morto.

Permita-me, Machado, indagar-lhe o porquê de tanta ironia nas suas obras. Parece-me que ninguém escapa de suas tintas. Percebo que é homem letrado e muito bem informado dos fatos políticos de sua época, mas não consigo captar se você – permita-me tratar-lhe assim – é republicano ou monarquista, se defende a abolição ou não.

É conhecedor das Escrituras, mas não se mostra se é ateu ou não. Talvez você me responda que são apenas obras de arte e que não retratam realmente a sua vida particular. Mas, eu na minha insignificância, insisto em dizer que os autores das obras de arte sempre querem transmitir algo. E você continuará rindo, afirmando que quis dizer sim algo. Na verdade, muitas coisas.

O nosso problema, Machado, é que nós, que não somos gênio, queremos adentrar na mente de um, ainda mais quando ele está morto. Queremos chegar aos seus pensamentos, suas ideias, por meio de suas obras. E aí alguns chegaram a várias conclusões sobre sua vida particular. E você responderia que se é particular não era para ser descoberta. Mais uma ironia de sua parte.

Por que não teve filhos, Machado? Você responderia que sua vida com Carolina foi a melhor vivida. Os críticos literários chegaram-lhe a diagnosticar infertilidade, e você continuará rindo de nós, indagando-nos se isso faria diferença. Afinal, revista de fuxico é do tempo de vocês e não da minha época.

Mas, Machado, falando nisso, se você estivesse entre nós hoje, o que faria? Você responderia que não faria nada, pois suas obras foram completas e continuam atuais.

Machado, isso não seria uma ponta de orgulho de sua parte, assim como ocorreu com Lalau? E você responderia que o orgulho de Lalau sou eu quem o afirma. De mais a mais, aqui do outro lado não existe orgulho. Aprendi isso com Brás Cubas.

A propósito, diria-me ele, curioso leitor Alcides, lembro-lhe a dedicatória de Brás: “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.

Machado, a curiosidade que você nos aguça em Dom Casmurro é imensa. Bentinho foi traído ou não por Capitu? Responder-me-ia: todos os homens têm medo de serem traídos, mais que as mulheres. Mas não lhe responderei a pergunta, leia mais o livro.

E, por fim, arremato: Machado, por que tenho a sensação de pessimismo em suas obras? Porque na sociedade em que vivemos tudo parece tão belo e perfeito. E ele, como resposta, mostrar-me-ia trecho do último capítulo de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

 

Machado de Assis, a crítica e o fetiche biográfico.

Autor e obra são coisas diversas e, exceto por quem gosta mais de fuxicos que de arte, o segundo é importante e o primeiro quase o não é. Talvez a contundência dessa afirmação deva-se ao paroxismo a que chegou o interesse por descobrir detalhes biográficos dos autores, numa atividade de investigação obstinada e fetichista em busca provavelmente de nada.

A biografia do autor é algo fundamental como referência histórica e isso vale até para artes que se pretendem abstratas.

Machado de Assis é tido como o maior escritor brasileiro e, particularmente, concordo com a opinião. Assim, é frequente a busca de um Machado que se revelaria fugazmente nas suas obras, numa espécie de jogo ambíguo do fino esteta que, dizem, era muito reservado com relação a detalhes de sua vida. Parte da crítica abandonou a crítica e passou a buscar a reconstrução de uma personagem a partir de várias.

Buscar conhecer as circunstâncias sociais e históricas de um autor é interessante, porque, afinal, sociologia e história são interessantes. Fazê-lo como investigação de causas e efeitos é, por seu turno, exercício de ficção ruim em segundo grau.

O fetiche está em crer que a obra é um jogo de chaves semi-ocultas para o próprio autor, mesmo que ela obra esteja lá, bela, imensa, válida por ela mesma e totalmente distante de ser um místerio de chaves subjetivas. Se as obras fossem sempre essas hagiologias de si mesmo, enigmas que conduzem ao psicológico do autor, seriam religiões iniciáticas e não peças de arte.

Por outro lado, é claro que as circunstâncias do autor descobrem-se nas obras, porque ele não é atemporal e porque o conhecimento imediato não é imediato, posto que ainda mediado por linguagem. O autor fala da única forma que pode, ou seja, a partir do que lhe fizeram seu tempo, sua classe social, sua educação, seu lugar.

Há pouco li um livrinho de Machado interessantíssimo: Casa Velha. A obra não foi publicada em forma de livro em vida de Machado. Ela surgiu em fascículos semanais ou quinzenais que saiam em períodicos, como se deu com outras obras dele. Todavia, somente foi editada em livro na década de 1940, trinta e tantos anos depois da morte de Machado.

Inicialmente, a crítica fez o que mais gosta: debruçar-se sobre uma lateralidade. A controvérsia era se Casa Velha era romanca pequeno ou conto grande. Pouco importa o rótulo, Casa Velha é obra valiosíssima e não tem qualquer coisa de autobiográfica, que foi a seguinte suposição da crítica.

Tem nada de autobiográfico, mas tem precisamente o que só poderia perceber quem viveu situação muito próxima aquela que se desenha no livrinho. A figura dos agregados a famílias ricas e muito ricas, não é suficientemente compreendida senão por quem a viveu.

O agregado é o ponto de contato entre a inflexibilidade social e a solidariedade no pequeno grupo. Ele entra num sistema de solidariedade e de intimidade familiar sem que as fronteiras invioláveis do pertencimento de classe sejam banidas. Talvez seja o elemento a explicar não ter havido desagregação social maior numa sociedade profundamente desigual e quase estamental, como era o Brasil no século XIX.

É pouco menos que óbvio que o primor do desenho de Casa Velha advenha de Machado ter ele mesmo sido de uma família agregada a uma grande casa senhorial no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. Não há artificialidades na casa senhorial – a Casa Velha – e nas relações que há nesse subsistema social.

O livro diz – é audacioso e até temerário dizê-lo, mas o livro diz mesmo – que a violação das fronteiras de classe por nascimento é o delito mais grave e portanto o que mais esforços deve implicar para ser evitado. E di-lo deliciosamente ao mesmo tempo em que expõe laços de solidariedade e intimidade  cultivados com imensa força.

O paradoxo é fascinante. A agregada é afilhada da senhora, é acarinhada por ela, é por ela educada, é a quase-filha, é dotada pela senhora, mas resta-lhe uma única inviolável fronteira. Ela não se pode casar com o filho da senhora.

 Ela é da Casa, mas não é da classe. Para evitar a união, a senhora é capaz de lançar mão do maior tabu social e sexual existente: o incesto. A mentira, a sugestão do incesto, a desonra que haveria por trás dessa suposição se verdadeira, tudo isso vale para fechar a última fronteira. Fica clara a hierarquia de valores instalados na cabeça da senhora, de todas as senhoras e senhores.

A imperatriz da Casa Velha é capaz de inventar que a agregada é filha de uma aventura extraconjugal de seu falecido marido – ex-ministro do Império – com toda a vergonha para si e agressão à memória do extinto que isso implica, para estancar um namoro que na verdade não violaria regras contra o incesto, violaria regras de imutabilidade social.

Machado percebeu muito bem a escala de valores dominantes e que o valor supremo permite uso e recurso às maiores mentiras e ao maior dos tabus, neste caso o incesto não ocorrido, mas sugerido como meio de separação.

O autor fala de situações que ele conheceu e compreendeu os mecanismos subjacentes à dinâmica social do tempo. Não se cuida de narrativa do que se passou com ele próprio, nem de fornecimento de chaves dissimuladas para a compreensão de algum enigma que tenha sido a vida dele autor. Essas duas última inclinações da crítica decorrem de impulso irrefreável para a superficialidade, para o culto do subjetivismo do autor e para o fetiche biográfico.

O Memorial de Aires, última obra machadiana, publicada no ano mesmo de sua morte, rende ainda mais ensejos à visão de enigmas e chaves autobiográficas. Aqui, creio que Machado fez de caso pensado, sabedor ele desse fetichismo e superficialidade que fazem a crítica e parte dos leitores tomarem a obra como objeto de curiosidade relativamente ao autor.

O Memorial – talvez mais que em outras – é culto à beleza da língua como raro ocorreu na literatura brasileira. O esteta inteligentíssimo dá-se a formas narrativas pouco habituais, relativamente livres e escreve numa concisão de coluna dórica. Essas bobagens de realista ou parnasiano, ou mistura dos dois, são prisões que conduzem o crítico e o leitor a nada, tratando-se desta obra. As memórias são do diplomata Aires, não do escritor Machado.

Aqui, a crítica vê as suas sempre presentes chaves autobiográficas no casal sem filhos e em que a esposa é cultuada. Machado e Carolina não tiveram filhos e a admiração séria dele por ela é conhecida e foi reforçada pelo soneto A Carolina, composto logo após a morte dela.

É claro que ele pode compor um casal harmônico no companheirismo e cumplicidade profundos e sem filhos porque deve ter vivido conjugalmente assim e sem filhos. Mas, daí a fazer desse casal o que ele compunha com Carolina vai imensa distância. Machado era, segundo todos dizem, profundamente reservado e até distante no que se referia à sua vida pessoal. Seria estranho que quisesse, assim impudica e superficialmente, expor no derradeiro livro ela e ele, postos a nu, a claro, às vistas de todos.

Por outro lado, nada leva necessariamente a crer que Machado e Carolina tivessem a ausência de filhos como alguma ferida, como dá-se com as personagens Aguiar do Memorial. Novamente, pode haver aqui a inteligente piada e talvez a pista falsa deixada para os intérpretes que funcionam a partir das categorias sentimentais pré-ordenadas. Sagacidade e ironia para fazê-lo ele tinha a sobrar.

De qualquer forma que seja, essas duas obras são as que revelam mais precisamente o que Machado viveu, quais as circunstâncias sociais em que viveu. Todavia, isto vai longe de serem as pistas para a percepção do que foi um personagem a ser biografado em termos psicológicos, ele que tão psicólogo social não faria o que sabia impossível e, ademais, redutor.

É profudamente redutor supor que Machado não soubesse da enormidade de sua obra em termos artísticos e quisesse, assim, propor os enigmas que conduziriam à sua hagiografia de falsas sutilezas por professores críticos profissionais. Também é bastante improvável que os mesmos críticos tenham percebido isto, presos que são ao que são.

Retratos de Campina Grande – Um século em imagens urbanas. Livro de Jônatas Araújo Lacerda Júnior.

retratos de CG

Primeiramente, esta postagem é agradecimento a Jônatas Lacerda Júnior pela imensa gentileza de oferecer-me um exemplar da obra Retratos de Campina Grande – Um século em imagens urbanas.

Sempre fico desconcertado quando me oferecem algo e acho que não agradeço o suficiente. Ofertas como a deste livro são delicadas. Esta delicadeza sobressai em tempos de grande rudeza, pouca sensibilidade e de achar que somos credores e merecedores de tudo.

O livro – e recordo-me de Jônatas a falar da feitura dele há cinco anos – resulta de dez anos de trabalho exaustivo de coleta de informações e fotografias que reconstroem a evolução urbanística e arquitetônica de Campina Grande nos últimos cem anos. A edição é primorosa, assim como o acabamento final da obra.

Este assunto que moveu Jônatas sempre interessou-me, desde que vivo em Campina Grande. A cidade é jovem, feita por forasteiros – principalmente pernambucanos – teve duas décadas e pouco mais de imensa aceleração econômica. Essa pujança de entreposto comercial de algodão e outras mercadorias deixou marcas no traçado urbano e na arquitetura.

Temos pequenas jóias de arte nova, de art-déco e de arquitetura moderna. Temos exemplos de grandes intervenções urbanas, como a Avenida Floriano Peixoto, nos anos de 1930 e 1940, o Parque Evaldo Cruz, duas décadas depois. E temos, também, pouco cultivo desse pouco patrimônio, mas significativo, ante a sua rápida constituição.

Sempre que tenho um interlocutor sensível a tais assuntos, ou seja, alguém não novo-rico que só pensa em dinheiro e no imediato, abordo a perda gradual do patrimônio arquitetônico campinense e a pouca preocupação que isso desperta na maioria.

Por isso, uma obra como essa é algo alentador. Esta mantido no livro um panorama da história da cidade, na perspectiva da evolução urbana e arquitetônica. Se cem ou duzentas pessoas lerem este livro e se interessarem por ele, já terá sido algo.

A Privataria Tucana, livro de Amaury Ribeiro Júnior.

Acabo de ler A Privataria Tucana: é demolidor e não encontro adjetivo melhor que esse, por mais lugar-comum que seja.

O livro é um sucesso editorial, para nossos padrões, porque em menos de um mês venderam-se 120.000 exemplares. Nada obstante, a chamada grande imprensa permanece no profundo silêncio com que recebe qualquer coisa inconveniente para os que ela defende.

Se fôssemos um país de leitores de livros, arriscar-me-ia a dizer que José Serra e grande parte dos tucanos  acabaram-se politicamente. Todavia, nem somos muito leitores, nem cultivamos a história, coisas que, afinal, relacionam-se intimamente. Além disso, a comunicação televisiva é dominante e, nas TVs, os tucanos mandam em quase tudo. Os jornais escritos, em sua imensa maioria, são panfletos partidários.

O livro deixa claro que as privatizações levadas a cabo no programa de desestatização dos governos de Fernando Henrique Cardoso foram, na verdade, doações de patrimônio público, que houve uma festa de saída e retorno ao país de dinheiros ilegais, que o estado patrocinou aquela maravilha chamada assunção de riscos empresariais.

O mais importante é colocar face a face a realidade que o livro desnuda e o discurso que esteve por trás da sanha privatista. Dizia-se que haveria aumento de investimentos, que haveria aumento na competição, melhora na prestação dos serviços e diminuição da dívida pública.

Quanto à diminuição da dívida pública, pode-se dizer sem receios que não ocorreu e a promessa foi simples mentira. Ela, na verdade, aumentou bastante. Sim, porque antes de privatizar empresas e serviços estatais, este mesmo Estado endividou-se profundamente para vender empresas com investimentos já feitos!

São casos de banditismo, bem documentados pelo autor. Não quero ater-me aos esquemas de branqueamento de capitais, praticados pelos envolvidos próximos a José Serra, o que o livro afirma e prova. Queria lembrar, como já dito acima, o divórcio radical entre o realizado e as promessas.

O BANERJ – Banco do Estado do Rio de Janeiro – foi vendido por 330 milhões de reais ao Banco Itaú. Acontece que o governo do Estado do Rio de Janeiro demitiu, antes da venda, metade dos 12000 funcionários do banco e assumiu as despesas com as indenizações e com o fundo previdenciário dos funcionários do banco. Para fazê-lo, ou seja, para vender por 330 milhões um banco bem enxuto e sem despesas, o Estado do Rio de Janeiro contraiu um empréstimo de 3 bilhões de reais!

A Vale do Rio Doce, segunda maior mineradora do planeta, foi avaliada sem se considerarem as suas jazidas! Foi vendida por 3,2 bilhões de reias e, hoje, seu valor em bolsa de valores é duzentas vezes maior…

No caso da telefonia, ou seja, do sistema Telebrás, a infâmia e o saque não foram menores. Antes das privatizações, o Estado Brasileiro promoveu aumentos das tarifas que chegaram a 500% em alguns casos, para evitar que os novos donos privados tivessem que enfrentar a antipatia dos consumidores. Ou seja, a antipatia dos consumidores voltava-se para o Estado.

Todos os negócios foram realizados com polpudos empréstimos do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Aceitaram-se as chamadas moedas podres, títulos públicos absolutamente desacreditados, negociados no mercado por frações ínfimas de seus valores de face. Foram aceitos nos leilões pelos seus valores de emissão!

Em resumo, nas privatizações o Estado Brasileiro gastou para entregar a meia dúzia de oportunistas empresas de serviços monopolísticos ou quase – como na energia e nas telecomunicações – e para entregar a segunda maior mineradora do mundo e a maior siderúrgica da américa do sul a controladores que não gastaram nem 05% dos preços de compra. Um conjunto de crimes de lesa pátria, enfim.

Ariano Suassuna: nós, povos castanhos do mundo sabemos, ao contrário, que o único verdadeiro objetivo do Trabalho é a Preguiça que ele proporciona depois, e na qual podemos nos entregar à alegria do único trabalho verdadeiramente digno, o trabalho criador, livre e gratuito.

É notável como alguns prefácios ou notas introdutórias podem ter a mesma qualidade que as obras que eles anunciam. Não se trata de serem o mesmo gênero, é claro, mas de serem memoráveis, de merecerem lembrança tanto quanto a obra.

O que me faz dizer isso é a introdução à Farsa da Boa Preguiça. Ela e a peça de teatro são de Ariano Suassuna. A peça teatral faz-me ter os cuidados que tenho com a poesia, porque é preciso ve-la e não apenas le-la. Por isso, a introdução deixa-me mais à vontade, ela que é um texto contado e corrido, simplesmente.

Ariano, em estilo direto e clariíssimo, diz de onde veio a obra, quais as condicionantes dele, quais as objeções que recebeu, como respondeu às objeções, porque escreveu a peça, o que quis dizer nela.

Desses ditos, impressionaram-me dois: a exposição das condicionantes do autor e a apresentação das objeções que recebeu e das refutações a elas. Ele não pára a descrever sua vida, mas fala dela e conta uma e outra estória. Ele não faz pesar sobre os objetantes a lógica que conhece muito bem.

Não omite o alcance das contrariedades à sua peça. Tampouco as detalha. Exemplifica com uma frase de alguém que tentou, na época da estréia em 1960, atingir a obra com a frase de efeito. Alguém disse que o português era a língua viva mais morta que havia.

Era uma forma de chamar de anacrônico o autor de iberismo declarado. Uma forma superficial, de superficialidade que se devia perceber bem naquele tempo e que se percebe evidentemente hoje.

O gôsto de alguma coisa, desde modos, falares e obras artísticas, passa pela identificação, que é um canal de percepção da realidade e da criação. É mais fácil gostar ou desgostar de alguma coisa que se perceba, que se possa apreender conforme modelos que já tenhamos. Assim, por exemplo, qualquer original em português será mais autêntico para o leitor lusófono que alguma tradução ou obra em outra língua, por mais que este leitor seja fluente na outra língua.

A identidade, estabelecida primeiramente pela língua, é o que certos universalismos e cosmopolitismos sempre quiseram negar, com insistência invulgar. A negativa, todavia, não passa de tentativa de imposição de outra identidade particular, alçada por mágica à condição de denominador comum.

Por isso falei em Max Weber; pelo fetichismo que nele se encontra da unidade em torno aos valores anglo-saxões e protestantes. Weber conseguiu obrigar gerações a aceitarem uma particularidade como se fosse o modelo ideal do universal triunfante. E o que nele era uma idéia – idéia voltada a convencer e criar poder, portanto – nos imitadores de outras latitudes tornou-se caricatura, porque nunca se despiram inteiramente de suas ibericidades.

Ariano diz que tem preconceitos com os povos nórdicos e que se identifica com ibéricos, andinos, árabes, judeus, gregos… É óbvio que um cavalheiro inteligente tem preconceitos, assim como é óbvio que os afirmando não está a dizer que mataria por eles.

Pois diz Ariano que nós, povos castanhos do mundo sabemos, ao contrário, que o único verdadeiro objetivo do Trabalho é a Preguiça que ele proporciona depois, e na qual podemos nos entregar à alegria do único trabalho verdadeiramente digno, o trabalho criador, livre e gratuito.

Ariano, de certa forma, é a antítese do pedantismo e, talvez, síntese de uma elegância aristocrática que está na ausência de travestimento. Uma coisa que é possível quando o sujeito percebe-se, não como puro, mas originado de algo muito bem definido.

Contos de humor de Anton Tchekhov.

O livrinho traz contos de humor de Anton Tchekhov e achei-o no supermercado, bem baratinho. Contos deliciosos, bastante curtos, de quando o autor era novo. O qualificativo de humor é cabível, mas implica a percepção de que humor é mais que o grotesco ou o burlesco.

O tal humor tchekhoviano insinua-se por outros caracteres, entre eles uma boa dose de moralidade.

Basicamente, os contos giram em torno à hipocrisia, à cupidez, à ambição e ao mal entendido de vontades diversas que não se entenderam a princípio e subitamente descobrem-se.

Assim, a moça pobre que não suportava a pobreza e vivia imersa em tristeza e, premida pelas circunstâncias, que a tinham feito de alma delicada e sujeita a luxos, casa-se com um velho rico general.

A jovem confessa a um escritor reputado fino psicólogo e conhecedor das personagens sociais que se casara na esperança do velhote morrer logo e deixá-la livre e com posses para buscar sua felicidade, esse objetivo sublime, tardiamente romântico.

Mas, ó desgraça, a jovem – rica e livre pela viuvez – não atingira a liberdade e a tristeza mantinha-se fiel companheira. O interlocutor da psicologia finíssima pergunta-lhe, ávido, qual era o problema, qual o obstáculo que se interpunha à sua felicidade.

Ela responde-lhe: outro velho rico.

Esse chama-se Personalidade Enigmática e faz lembrar – a mim, pelo menos – o maior contista que foi Maupassant.

Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís.

Antes do Vale Abraão, tive só um contato com Agustina Bessa-Luís, por meio das Conversações com Dmitri e outros fantasmas, que me ofereceu Miguel. O livrinho, o primeiro que li, deu-me a impressão de uma autora profundamente aristocrática. Sim, há formas aristocráticas de escrever. Não necessariamente melhores que outras, nem, tampouco, relacionadas apenas ao pertencimento social que o qualificativo sugere imediatamente.

Não é, como sabem todos que pensaram, uma questão de dinheiro. É moda justificar-se e não o vou fazer. Não é frequente explicar-se e isso tentarei, porque fui assaltado por uma paciência meio rara e porque não quero induzir más percepções, assim logo de início. Não se trata de antiguidade daquele dinheiro referido no primeiro período, embora, sim, trata-se de antiguidade.

De antiguidade percebida como a possibilidade de afastar ou aproximar a lente do quadro. E de ter passeado a lente por todos os quadrantes, tantas vezes, que todos eles tornam-se familiares e trivial o deter-se em um detalhe, como o afastar-se deles todos e olhar o quadro de longe.

Li, em alguma revista, que Freud teria escrito o seguinte: Eu me surpreendo ao constatar que minhas observações dos pacientes podem ser lidas como romances. De minha parte, surpreendo-me um pouco ao constatar que Freud tenha sido tão sagaz, irônico e provocador, com uma observação destas, somente para dizer o óbvio. Um homem inteligente e cônscio dela tinha que dizer que a vida imita a arte de uma maneira aparentemente inocente, até porque o óbvio é o mais difícil de dizer.

E ele estava certo, uma coletânea de relatos clínicos pode ser lida como um romance, mas o inverso não é verdadeiro. A vida imita a arte…

Agustina é fina psicóloga, tanto das mulheres, quanto dos homens. De certa forma, o Vale Abraão é uma colecção de casos clínicos que duram uma vida e ligam-se a outras vidas já terminadas, muito intimamente. E ligam-se a vidas vindoiras, o que é psicologicamente uma expectativa de poder e, historicamente, quase um não conceito.

O livro tem as insinuações dos grandes autores, que só resultam bem neles. Insinuações claras, de Ema, de Carlos, de Bovarinha. Um amante dos jogos de palavras sai-se mal, se prender-se ao fácil de dizer que é, sem parecer. Nem parece, nem é. Aliás, parece-se com Flaubert – não no texto – parece-se com a conhecida frase Madame Bovary sou eu. Ema não é Bovary, ela é uma mulher que não foi adúltera dos finais do século XIX; ela foi uma mulher que seria toda se fosse homem, no último quarto do século XX.

 Minha primeira sedução, como sempre, é a historicidade; é descobri-la como inevitável. Ela muda de cores, conforme seja urbana ou rural, proprietária ou trabalhadora, refém de modas rápidas ou lentas, detentora de culturas formais ou não.

O tempo cronológico, neste romance, foi apontado uma vez: ele começa nos antecedentes dos Cravos. O tempo que os sucede é louco, teria que trazer novos impostores, que fazer suas justiças, que mudar os insignificantes por outros insignificantes. Há quem o perceba, ao tempo, e há quem seja levado por ele. A maioria vive o contínuo, que é o real, mas outros servem-lhe o prato da inadequação, porque ele é mais lento ou mais rápido conforme circunstâncias muito específicas.

Bastaria dizer que não há Bovary a matar-se com arsénico, para uma simples diferença. E a ação ocorre precisamente em uma ruptura que, de certa forma, pode ser vista como uma transição acelerada para uma cultura mais urbana. Talvez fosse mais preciso dizer uma penetração rápida de um espaço rural por uma cultura neo-urbana.

Ema morre acidentalmente e isso não é pouco. A época dela não a mataria, porque era de louca permissividade. Não alguma permissividade que aceite a diferença, mas que tem mais que fazer, o que significa buscar ganhar dinheiro e ostentá-lo da maneira mais vulgar possível. Ou seja, nem os estabilizados, social e economicamente, nem os ascendentes tinham tempo para o escândalo. Os primeiros, nunca o estimaram, os segundos só se ocupam dele quando totalmente inertes.

Não há piores épocas para quem quer viver plenamente, sem saber a que isso corresponda exatamente, que as de acelerações e rupturas. Sim, porque embora tudo fique como está, no fundo, tudo muda, aparentemente.

Paiva não se afasta de Ema. E não o faz porque sabe que a aprisiona e a ama. É diferente de não o fazer porque teme o escândalo. Não haveria mais escândalo na ruptura que na manutenção da ligação repleta de verdades meio-sabidas. Ema, por seu lado, não se separa de Carlos; e não é porque receie perda financeira ou escândalo. É porque está presa, sempre esteve…

O sonho do celta, de Mario Vargas Llosa.

É tolice dizer que não há escritores sobre que o comentador tem receio de falar. É complicado falar-se do muito bem-feito, porque quase tudo que se fale fica abaixo do falado e pode soar demasiado óbvio, ainda. Claro que se trata aqui de uma sugestão de leitura, apenas, mas ainda assim Mario Vargas Llosa recomenda cautela e contenção.

O primeiro que li foi A cidade e os cachorros, um livro muito bem escrito, que me levou ao prazer imenso da releitura, mais de dez anos depois da primeira. As releituras são especialíssimas, porque poucos livros merecem-nas e outros, que as merecem, ensejam o temor do reencontro, pois trarão percepções diversas das primeiras, que se lhes somam, como novas camadas de tinta.

Li Pantaleão e as visitadoras, um retrato sem retoques da realidade a impor-se de par com a hipocrisia, como é na vida. E sem ares de acusação, sem um milímetro de inverossimilhança. Irônico, mordaz, uma daquelas obras em que não se poria nem mais uma vírgula, nem se retiraria um só artigo.

Em seguida, um monumento literário: A guerra do fim do mundo. Canudos, aquele episódio de religiosidade popular mística, esfomeada, milenarista, acontecido nos sertões brasileiros, na segunda metade do século XIX, reprimido brutalmente pelo governo central até a total aniquilação, é romanceado por Llosa com erudição e precisão formal extraordinários. Ele percebeu completamente o que contava, sem meter-se na história, para que certamente ajudou o não ser brasileiro.

Eis que Olívia me presenteia com o livro mais recente de Llosa: O sonho do celta. Mais um livro a compor a obra literária do escritor que quase não varia o bom nível. As obras dele permitem dizer, como elogio, que se parece bastante consigo mesmo. Vargas Llosa cuida, sempre, das únicas coisas importantes que há: o tempo e as pessoas metidas nele. O estilo é fácil, não há acrobacias formais, a língua é direta, sem ser seca.

O celta do título é Roger Casement, irlandês nascido no Ulster e no aparente protestantismo. Servidor da coroa britânica, como diplomata, teve duas atuações destacadas no relato das brutalidades que se cometiam na extração de borracha, primeiro no Congo, depois no Putumayo. Seus relatórios sobre essas situações tornaram-no famoso, alçaram-no à nobreza. Claro, seus relatórios ajudaram os interesses da coroa, que investia na borracha, no sudeste asiático!

A personagem de Casement é repleta de ambiguidades, o que a torna interessantíssima. Claro a personagem humana é feita por boas doses de ambiguidades, sempre, mas há casos de contrastes mais vincados e de grandes divórcios dentro da mesma pessoa. Casement acredita-se protestante, mas é, ou melhor se diz, torna-se católico. Torna-se pouco a pouco, sem saber que sua mãe o batizara às escondidas, quando muito pequeno, pois o pai era protestante e não podia sabê-lo.

Serve à coroa britânica, que faz dele Sir Roger, e torna-se, aos poucos, um ferrenho independentista irlandês. Essa viragem segue uma trajetória de conversão, leva-o de uma visão e trabalho burocráticos para a ação religiosa, fanática e revolucionária. Tenta, é verdade, guardar alguma coerência e desliga-se do serviço consular, alegando motivos de saúde, o que era sumamente verdadeiro.

Integra febrilmente os movimentos nacionais irlandeses; viaja aos EUA para entrevistar-se com irlandeses radicados lá e coletar ajuda para a causa. Julga que a oportunidade apresentada pela primeira grande guerra não pode ser desperdiçada. Procura os alemães, forte na premissa de que os inimigos dos nossos inimigos são nossos amigos. Não ignora as consequências possíveis desse ato que, para os britânicos, não seria qualquer coisa além de alta traição.

Sensatamente, defende que o Levante de 1916, na semana santa, somente teria êxito se ocorresse ao mesmo tempo que um ataque da Alemanha à inglaterra, porque isso enfraqueceria as forças britânicas. Do ponto de vista estritamente lógico e estratégico, estava coberto de razão. Insta os alemães a fazerem o ataque, até ser levado a perceber, pelas evasivas, primeiro, e direta e secamente, depois, que a Irlanda, para a Alemanha em guerra, significava nada.

Na aventura da tentativa de desembarque de vinte mil fuzis alemães na irlanda, é capturado, preso, julgado e sentenciado à morte na forca, por traição. Lamente profundamente que tenham insistido no Levante, que resultou um massacre dos irlandeses e lamenta ainda mais não ter tido a ocasião de estar lá e morrer em combate. Pede clemência ao conselho de ministro e aguarda o desfecho na prisão.

Estrevista-se regularmente com o Capelão da prisão, o padre Carrey, que sabe de seu batismo e afirma que seu retorno não é mais que o descobrimento de um pertencimento de sempre.  Casement é afinal enforcado – esse método que sempre me pareceu a janela aberta à observação da vileza dos ingleses – por um carrasco que escreve memórias, já velho, antes de suicidar-se. Este carrasco anota que nunca vira homem ir para a morte com tanta dignidade.

Casement, de certa forma, além das ambiguidades, é um poço de ingenuidade. Daquela ingenuidade feita de razão que ainda não se tornou poesia ou mística. Nos finais, ele percebe que seus colegas irlandeses de movimento tinham uma visão de martírio, que sabiam, afinal, que não se lutava para ganhar, porque não era possível. Místicos fervorosos, eles eram talvez mais racionais que o racional a flertar com o místico.

Ingenuidade também na incapacidade de perceber que era monitorado pela inteligência inglesa e que era difamado escandalosamente nos media. Casement era homossexual. É ocioso dizer, por evidente, que essa homossexualidade vinha carregada de culpa e de sombras, em uma figura religiosa, inicialmente protestante e depois católico. E que a revelação dos seus diários íntimos causou imenso escândalo.

O caso dos diários – os black diaries – é controverso ainda hoje. O governo britânico manteve-os sigilosos até há pouco e há quem defenda sua inautenticidade e outros o contrário. A inautenticidade é bastante plausível, pois falsificar diários seria o mínimo a esperar-se da inteligência britância. Eles relatam encontros carnais, furtivos e mediante pagamentos, relatados de forma crua e direta, como que por alguém que se comprazesse com a própria eroticidade de um relato escandaloso.

Vargas Llosa lida genialmente com o material dos diários, que analisou. Em um pequeno posfácio, muito útil e curto, explica que acredita na autenticidade dos diários, mas que acha-lhes mais uma coleção de aventuras fantasiadas que propriamente vividas. Mais o relato ficcional do que gostava de ter feito, que do realizado, um jogo de autoerotismo escrito de si para si.

O livro estrutura-se em três partes: Congo; Putumayo e Irlanda. A narrativa vai e vem no tempo, mas sem qualquer confusão, sem as sombras que resultam das idas e vindas de alguns escritores. Não há um mar de psicologismo em que vagueiem à deriva datas variadas e desconexas. Há uma narrativa bem explicada, em que vários períodos da vida de Casement são contados, exatamente no ritmo necessário à compreensão da evolução da ação.

Fica evidente que os pretos foram explorados selvagemmente pelos belgas e outros europeus de Leopoldo II; que os índios da amazonia peruana foram brutalmente torturados e dizimados pela Peruvian Amazonian Company, de Júlio Arana e seus sócios ingleses; que nada obstante, nem os pretos, nem os índios eram santos, eram explorados, torturados, escravizados e exterminados.

Fica evidente que Casement dedicou-se integralmente à confecção desses relatórios e ficou escandalizado com as brutalidade que viu por vinte e tantos anos. Que essa visão direta da colonização, do domínio, levou-o a perceber a Irlanda em posição de colonizada pela inglaterra, algo de que somente se escaparia com resistência tenaz, antes que os esforços ingleses de matar todos os trações culturais próprios da Irlanda tivesse sucesso. E fica evidente que ele tornou-se um fanático e viveu coerentemente com isso e aceitou o resultado disso.

O livro – e aqui sinto-me a dizer uma platitude – não faz a história romanceada da vida e tempo de um herói, nem de um santo, nem de um desviado, nem de um bandido. Isso é para irlandeses e ingleses, conforme seus lados e partes fazerem.

Vinte e um anos depois do Levante massacrado pelos ingleses, a Irlanda tornou-se independente. O martírio teria sido precisamente o que previram os seus líderes, uma ferida sempre aberta, a sangrar nos órfão e viúvas e a reforçar a identidade irlandesa, o que permitiu que não arrefecesse a vontade de independência. Casement teve seus restos transladados para a Irlanda, décadas depois da execução, depois de passar longos anos em sepultura sem lápide, na prisão. Claro, para a Inglaterra foi um traidor e foi mesmo.

Sugiro a todos os apreciadores de literatura a leitura desse livro. E de quantos Vargas Llosa lhes chegarem às mãos.

 

Lampião corpo fechado. Um livro de Ivonaldo Guedes.

Três livros seguidos de Foucault – o último ainda não terminado – afastaram-me dos prazeres da ficção e da narrativa não ensaística. Eis que uma conversa com Bebé e Cacá fez-me conhecer a obra do título. Depois que eles falaram do livro, fiquei realmente interessado, porque tudo indicava ser bastante interessante, e é. Comprei o livro e o li em dois dias, que a prosa de Ivonaldo Guedes é agradável e bem fluente e o assunto bem escolhido.

Apressei-me a classificar o livro como romance histórico, embora melhor dissesse romance sobre uma hipótese histórica. A hipótese, nesse caso, é tão plausível quanto a história oficial, o que abriu um campo vasto para a ficção, aproveitado com talento pelo autor. Ele fez arte, propriamente, porque recriou o que pode ou poderia ter sido.

O autor não é pretensioso, mas é audacioso e obtém bom resultado da sua audácia. Ele é personagem do livro! Não é muito fácil o autor inserir-se no livro, porque as plausibilidades históricas de várias versões não funcionam para a historicidade efetiva do autor. Enfim, é complicado fazer ficção consigo próprio, exceto se não for ficção…

O caso é que Lampião foi o cangaceiro mais famoso dentre vários deles, atuantes em um período de aproximadamente cento e trinta anos, nos sertões do nordeste brasileiro. Virgulino Ferreira da Silva atuou na última etapa do cangaço e, talvez por isso mesmo, tenha chamado tanta atenção.

O cangaço é coisa que daria ensejo a páginas e páginas escritas, mas aqui não é o lugar e essas páginas já existem. Basicamente, foi um tipo de banditismo circunscrito a certa área geográfica. Dizer banditismo, por um lado, é bastante limitador, porque as formas de reação ao cangaço eram-lhe semelhantes em quase tudo.

A base cultural encontra-se nos códigos de honra de raízes ibéricas. As bases históricas, em um Brasil ainda predominantemente rural que via o empobrecimento de alguns grupos acontecer dentro da mesma classe social. Quer dizer, a certos declínios econômicos imediatos não correspondiam necessariamente os mesmos declínios sociais. A tudo isso, junta-se a existência do Estado como mero símbolo e agente repressor a serviço de muito poucos.

É interessante tentar dissociar um pouco o econômico do social, ao menos em um corte temporal pequeno, para ver o descompasso das duas escalas a gerar conflitos. No Brasil de finais do século XIX, a sociedade ainda era culturalmente rural, com pequenas exceções.

A exclusão de alguns indivíduos de uma classe social leva mais tempo que a exclusão destes indivíduos de uma classe econômica. E a noção de pertencimento à mesma e única situação persiste nas pessoas forçadas à mobilidade social. No ambiente rural a exclusão social é rápida, por decesso econômico, mas a percepção e aceitação delas é mais demorada, porque a base cultural é muito homogénea.

Imagine-se que dois fazendeiros são vizinhos confrontantes e que um deles vê seus negócios minguarem bastante, seus bois e plantações morrerem. Se o vizinho mantiver-se próspero, vai comprar as terras do falido e submetê-lo e à sua família e aos seus agregados à vassalagem. Uns vão pôr outros – de origens sociais semelhantes – em posições de senhores e vassalos.

Tais posições não se aceitam facilmente quando os novos vassalos comungam do mesmo código de honra e valores. Um fazendeiro rico não viola a filha de um ex-fazendeiro reduzido a rendeiro pobre como violava a filha de um escravo. Não cobra uma dívida de um homem que um dia foi da mesma classe, econômica e socialmente, da mesma forma que a cobraria de um antigo rendeiro seu. Não com as mesmas consequências.

Isso, além de mais inúmeros fatores, está na base do cangaço nos sertões do Nordeste. Além do mais evidente, outra coisa chama a atenção. Os grupos de cangaceiros eram hierarquizados e basicamente eram-no a partir de velhos esquemas de origens sociais. Claro, havia espaço para o que hoje se chama ascensão por meritos, aferidos segundo a valentia e a fidelidade aos códigos de honra lavada com sangue.

E os mesmos modos de agir encontravam-se no cangaço e nas forças públicas que o combatiam, o que prova ser possível matar e roubar, dentro ou fora da lei. E prova, mais que isso, que matar e roubar obedeciam a leis muito próprias e não escritas.

O livro gira em volta da possibilidade de Lampião, o modelo de valentia e honorabilidade que foi execrado pela república crescentemente urbana, não ter sido abatido pela forças volantes do tenente João Bezerra, na Grota do Angico, em 1938. E, sutilmente, evidencia que pode ter sido abatido – ou pode ter fugido – por um cerco que não teve as características de coragem e tenacidade exaltadas nas versões oficias.

No livro, o Capitão Virgulino Ferreira – de patente oficial das Forças Patrióticas – escapou ao cerco do Angico, em Sergipe, e foi para o sertão da Bahia viver uma vida de fazendeiro rico, ele que tinha escondido tesouros em botijas enterradas. Teria seguido sua vida de criador de gados, confortavelmente, com outra identidade.

Um dia, precisamente o 20 de julho de 1934, ele sonhou um sonho que tinha um roçado todo morto, tudo morto pela seca, e um homem de preto, que não falava. Era o Padre Cícero que, por um lado, avisava-o de sua morte e, por outro, comunicava-lhe mais morte. Era o sinal que devia retirar-se daquela vida e dado pelo santo de quem ele era devoto. Em vários 20 de julho ele sonhou sinais importantes, comunicou-se com o Padre Cícero.

Ele teria sido vítima de uma rede de traições e covardias, ao contrário da versão consagrada do combate na Grota do Riacho Angico, e teria escapado vivo. Isso é muitíssimo plausível, pelo menos no que diz respeito à valentia e honorabilidade das forças volantes. Essas inclinações humanas são das mais constantes fontes de confusão que há.

Valentia e honra, assim absolutas, são irrealidades. Elas acontecem dinamicamente, não estrategicamente. Assim, tanto cangaceiros, como volantes, nunca se derem ao combate inutilmente, em franca desvantagem. Nunca deixaram de buscar escapar e fugir, quando isso era o óbvio, para evitar o extermínio puro e simples.

No livro, há uma deliciosa suposição – que imagino muito próxima ao que pode ter sido a realidade – de que o tenente João Bezerra, famoso vencedor do grupo de Lampião, era um frouxo, como se diz. O líder da força volante vencedora vendia armas a Lampião e conhecia seus coiteiros. Seria, basicamente, um oficial corrupto e hipócrita, a fazer um papel teatral. Teria sido levado pelas circunstâncias, mais que por vontade do combate.

A hipótese, inteligentemente levantada pelo autor, é de recurso a meios vis, indignos da valentia propagandeada pelos vitoriosos e repercutida em todas as versões de história oficial. A volante teria servido-se de uma rede de coiteiros com inclinação à delação e à traição e envenenado vários dos cangaceiros acampados no Angico.

Lampião usava seus coiteiros como atravessadores na compra daquilo que não podia obter simplesmente indo à feira e aos armazéns. E comprava carnes, leite, feijão, farinha e bebidas, basicamente. Então, um dos coiteiros foi cooptado por um suboficial da força volante e levou para o bando do Capitão Virgulino Ferreira umas garrafas de Cinzano com veneno.

Assim, na ocasião do ataque, muitos já morriam envenenados, inclusiva a esposa de Lampião, Maria Bonita. E o Capitão acabou por fugir, percebendo que não havia como resistir àquele ataque. Fugiu, foi para a Bahia, viveu de criar gados, até que em 1944, em um 20 de julho, sonhou com Antonio Silvino.

Antonio Silvino foi o nome adotado por Manoel Baptista de Morais, o cangaceiro mais conhecido, depois de Lampião. Silvino foi preso em 1914 e passou 23 anos preso no Recife, até ser indultado, em 1937. Depois de solto, Silvino veio viver em Campina Grande, na casa de uma prima. Ele morreu em 30 de julho de 1944.

Pois bem, Lampião resolveu visitar Silvino, que nunca conhecera pessoalmente. Teve ocasião ainda de conversar uma vez com ele. Na segunda vez que foi à casa simples em que Antonio Silvino vivia, encontrou já o velório do ex-cangaceiro. Lampião teria se agradado da cidade, então pujante por conta da riqueza que resultara do comércio do algodão, e decidira-se a vir morar no Planalto da Borborema.

Estabeleceu-se em Campina Grande, viveu discreta e ricamente, sob outro nome, sempre. Reuniu um grupo, que compôs uma irmandade protetora de ex-cangaceiros e de filhos e parentes de ex-cangaceiros, vítimas reais de um estigma social que se estabeleceu fortemente. Passados muitos anos, desse grupo restaram Lampião, com 97 anos, um integrante de seu bando e um soldado que fez parte da força volante do tenente João Bezerra e esteve no cerco – farsa, no livro – de Angico.

Eles pedem ao autor, personagem do livro, que escute a revelação, tome-a a termo e guarde segredo até à morte do Capitão Virgulino. Um sonho no dia 20 de julho tinha levado Lampião ao autor do livro, que encerra a obra a contar o enterro de Lampião, em Campina Grande, em 21 de julho de 1997, em sepultura simples ao lado da de Antonio Silvino, no cemitério do Monte Santo.

Esse é o livro, que vale a pena ser lido, realmente. De minha parte, espero uma sobra de tempo para ir ao Monte Santo, um dia desses, buscar a sepultura de Antonio Silvino – e não sei se esta sepultado com esse nome ou com o real – e ver quem está enterrado ao lado…

Aproveito para fazer uma sugestão a Ivonaldo Guedes, caso veja essa sugestão de leitura do seu livro, e é que leia Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão, de Lira Neto. Imagino que gostaria do livro.

Reparo sobre o Lobo Antunes.

Assim que terminei O manual dos inquisidores, achei de iniciar a leitura de outro Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

E vieram-me vivas na memória as advertências do Miguel. É uma leitura difícil, esta, realmente. Difícil como não me pareceu O manual dos inquisidores, porque neste a base histórica é muito evidente e a dissolução cronológica do discurso é pouca.

O livro que comecei ontem tem uma narrativa verdadeiramente fragmentada, com idas e vindas desconcertantes, sem um ponto de referência narrativa claro.

É um tanto estranho, porque não se trata de escrever no formato em que se falam os diálogos. Nem se trata de escrever como pensam as personagens. É dissolução maior que isso.

« Older posts