Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 98 of 126)

Espelho cristalino, por Alceu Valença.

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essa rua sem céu, sem horizontes
foi um rio de águas cristalinas
serra verde molhada de neblina
olho d’agua sangrava numa fonte
meu anel cravejado de brilhantes
são os olhos do capitão corisco
e é a luz que incendeia meu ofício
nessa selva de aço e de antenas
beija-flor estou chorando suas penas derretidas na insensatez do asfalto

mas eu tenho meu espelho cristalino
que uma baiana me mandou de maceió
ele tem uma luz que alumia
ao meio-dia clareia a luz do sol

que me dá o veneno da coragem
pra girar nesse imenso carrossel
flutuar e ser gás paralisante
e saber que a cidade é de papel
ter a luz do passado e do presente
viajar pelas veredas do céu
pra colher três estrelas cintilantes
e pregar nas abas do meu chapéu
vou clarear o negror do horizonte
é tão brilhante a pedra do meu anel

A Guerra do Paraguai. Um bom video.

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Um video – em quatro partes – bem claro sobre a Guerra do Paraguai. A última parte – deve-se dizer – é muito mal narrada em português, por um indivíduo que parece não saber ler.

Matamos, brasileiros, argentinos e uruguaios, 90% da população masculina do Paraguai. E roubamos partes do território paraguaio. E, depois, praticamente acabou-se o Paraguai. Basicamente, isso ocorreu por conta de insatisfações comerciais de Buenos Aires e do Rio de Janeiro com alguns êxitos na criação de gados e em uma pouca industrialização que ocorria no Paraguai.

Absolutamente ignorante de história e absolutamente descortês, hoje, uma rede de televisão brasileira acha razoável agredir os paraguaios a propósito de futebol. Uma rede de televisão que é detentora de uma concessão pública! Não terão bastado os assassinatos?

Oswaldo Guayasamín, pintor equatoriano.

Gosto desse retrato de Fidel por Guayasamín. Além de ser grande exemplo de arte pictórica, a figura retratada lembra-me bastante um parente querido já morto.

Guayasamín retratando-se.

El grito. Figuração da angústia.

Não sei o nome dessa tela, mas é da série La ternura. Creio que é Madre y hijo.

Enquanto teóricos discutiam os limites da pintura figurativa – como se não houvesse existido um Picasso – ela acontecia com força em Quito, por quem disse Mi pintura es para herir, para arañar y golpear en el corazón de la gente.

Fazer o dominado pensar que seu problema é o vizinho e não o dominador. Ou seja, incutir uma mentalidade de escravos.

Analisar como o domínio estabelece-se já é tarefa bastante difícil, pois envolve extensa atividade descritiva. Apontar um e outro aspecto por trás de seus mecanismos de manutenção parece-me mais fácil, até porque os fatores isolados fazem mais sentido relativamente à manutenção que ao estabelecimento. Há, também, a sedução de observar causas psico-sociais que passam despercebidas na maior parte do tempo.

Manter um domínio, antes de qualquer outra coisa, recomenda fazer o dominado crer que está em situação inevitável. A forma mais comum é caracterizar qualquer anseio e qualquer dignidade nacional subjacente ao anseio como frêmitos por uma ação inútil. Ou seja, deve-se incutir a apatia na defesa dos interesses próprios como atitude de inteligência de quem reconhece suas limitações. O sofisma aqui é facílimo de apontar, pois encontra-se na identificação – falsa – entre limitação e impossibilidade.

As variações da linha de ação mencionada acima são muitas. A mais eficaz é desdobrar a noção de apatia inteligente e fazer surgir a de possível ridículo caso tente-se o possível. Outro desdobramento – esse talvez mais infame que eficaz – é fazer crer que certas tentativas foram calculadas a partir de motivações absolutamente estranhas às declaradas.

Um exemplo auxilia a compreensão dessas linhas de ação. No início da década de 1980, a Argentina empreendeu uma guerra para retomar as Ilhas Malvinas dos ingleses, que as tomaram aos platinos. As diferenças de riqueza e de poderio militar sugeriam a inviabilidade da empreitada para os argentinos. Todavia, a provável inviabilidade não se confundia com a impossibilidade porque também era plausível que os ingleses não se empenhassem na guerra por um objetivo desprezível.

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Preconceito e arrogância alemãs.

É ótimo quando certas situções-limite são atingidas e os disfarces postos de lado. Quem se equilibrava com enormes dificuldades em uma fingida cordialidade, imposta convencionalmente, chega a um momento em que vê-se livre dela e diz o que pensa. O caso aqui é a discussão entre jogadores da equipe argentina e da alemã.

Os mais ricos farão triunfar sua versão, claro, mas isso não impede que algumas palavras sejam ditas, buscando-se o máximo de precisão. Os argentinos falam de futebol e falam deles próprios como grandes executores dessa arte. Enfim, eles adotam o discurso segundo o qual jogam melhor que os outros. Decorre desse pressuposto que eles acham os outros inferiores futebolisticamente.

Na verdade, muitos acham isso, os brasileiros inclusive, mas não o dizem com tanta veemência. Contém as afirmações na sua crença na superioridade técnica.

Os jogadores da equipe alemã, em contrapartida, acharam de dizer que os argentinos são desonestos, que visam a induzir os juízes a erros e que são mal-educados. Em um segundo momento a sinceridade transbordou e alargaram os comentários a todos os sul-americanos. Isso vai além de futebol, obviamente.

Para os argentinos deve ter sido duro serem postos no mesmo grande grupo de sul-americanos, que eles sempre julgaram-se algo à parte, na verdade. Mas, calha bem ao retorno à realidade perceber que na hora da verdade, para um alemão, pouco importa que alguém seja argentino, brasileiro, chileno, paraguaio ou qualquer outro sudaca. No fundo é um ser desonesto, ardiloso e mal-educado que visa a induzir os árbitros a cometerem erros.

Espero, embora evidentemente não possa adivinhar resultados, que a Argentina atue coerentemente com sua crença em ter o melhor futebol e massacre os germânicos no retângulo verde. E pouco importa-me que os tedescos sigam sua trajetória – longa – de preconceitos de superioridade, desde que vejam confirmada a sua inferioridade futebolística.

E espero que percam e continuem dizendo que os sul-americanos são um conjunto de desonestos, ou seja, que continuem não compreendendo de que se trata, enfim.

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