Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 87 of 126)

A UDN tinge-se de verde, mas não é suficiente para provocar segundo turno.

Uma mistificação política antiga, porém de razoável eficácia prática, são os candidatos auto-anunciados de terceira via. Em eleições majoritárias, com dois turnos de votação, caso seja necessário o segundo, evidencia-se que não há o terceiro alternativo. Não apenas porque evidentemente só disputam dois, mas porque o terceiro alinhar-se-a a um desses dois. No fundo ele era menos terceiro que dizia.

Claro que não se trata de afirmar a impossibilidade de três candidaturas competitivas, que podem existir. Todavia, quando uma terceira via é sabidamente incapaz de êxito final, ele serve a uma das duas viáveis. Pode servir voluntária ou involuntariamente, mas é pouco razoável acreditar em movimentos eleitorais involuntários, vindos dos jogadores.

Uma característica marcante das candidaturas terceira via é parecerem opção intelectualmente mais sofisticada e, por isso mesmo, menos abrangentes e aptas a seduzirem menos pessoas. Isso dá conforto ao eleitor que acha a real marca por trás da terceira via muito truculenta ou estigmatizada. E um conforto duplo, porque ele sabe que não trai os objetivos reais, no fundo.

Uma comparação possível – e precária como todas as comparações – é com a prática relativamente comum de montadoras de automóveis terem marcas de prestígio, em que carros feitos sobre as mesmas plataformas da marca mais popular têm um destaque, maiores preços e menores vendas. Um automóvel Lexus é e não é um Toyota, ao mesmo tempo.

As eleições presidenciais brasileiras, do próximo dia 03 de outubro, têm uma candidadura muito festejada de terceira via. Trata-se de Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente do governo do Presidente Lula. Quando ainda ministra, ela era constantemente acossada e até ridicularizada pelos media dominantes, jornais e TVs e revistas semanais pseudo-informativas.

Após deixar o ministério e anunciar sua candidatura verde, passou a merecer uma abordagem mediática suave, quase ingênua. Criou-se a figura da candidata idealista, lutadora quixotesca pelo valor ecológico supremo. Passou a ser cortejada pelos mesmos media que a atacavam, convidada a entrevistas em que as opiniões propriamente políticas eram favoráveis à candidatura udenisto-ornitóloga e as opiniões programáticas eram quase o vazio.

O meio ambiente é parte de qualquer programa político governativo, seja em um sentido, seja em outro. Além de ser algo sumamente importante, os tempos não permitem deixar o assunto de lado. Contudo, não se sustenta uma postulação cuja única matéria tratada é o meio ambiente, como não se sustentaria uma que girasse exclusivamente em torno às comunicações, ou à educação, ou à justiça.

Uma parte não se confunde com o todo que integra e as pessoas percebem isso e os próprios candidatos também. A candidata sabe, que não é tola, que é preciso mais que um discurso ecológico para vencer eleições presidenciais. E sabe que não pode acusar o eleitorado de ser tolo por não se preocupar com a ecologia.

O eleitorado preocupa-se cada vez mais com a ecologia, embora de forma difusa e superficial, a partir das informações distorcidas que recebe dos meios de comunicação, que alternam desde a ecologia de plantação de alfaces até a de endeusamento de plantas geneticamente modificadas.

Resulta que a oferta de informações superficiais, cambiantes e, às vezes, claramente compradas por algum interesse leva o público a perceber que há uma questão, mas também a percebê-la como um detalhe imerso em muitas outras coisas mais imediatas. O discurso restringe-se e torna-se sedutor ao cidadão que, embora ignorando quantos litros de água descem numa descarga sanitária, acha sofisticado e up to date votar verde e só verde. Mas, o verde está no azul, no vermelho, no amarelo, basta um prisma para constatá-lo.

Hoje, a candidata Dilma Roussef tem 10% de vantagem sobre os outros somados, em três dos quatro grandes institutos de sondagens eleitorais. Em um deles, que parece ajustar seus resultados obedecendo a uma lógica astrológica, ela tem 04% de vantagem. Em qualquer deles, portanto, com ou sem astrologia, ela venceria as eleições na primeira volta.

Por isso a aposta neo-udenista – a variante que acresce os pássaros aos mamíferos – no crescimento da terceira via, porque seria a única forma de levar a decisão para a segunda volta, sem a terceira via na disputa, é claro. Assim, e em política não há o assado, está claro a quem interessa falar de crescimento da candidatura verde e tentar aumentar esse crescimento.

Curioso seria se desse certo e a embalagem verde acarretasse a segunda volta e passasse a ela. Não sei realmente como se comportaria a congregação neo-udenista. Imagino que se esforçariam para superar a estupefação e tomar o controle da surpresa eleitotoral, como donos dela que são.

Imagino, contudo, que seria pior que se conseguissem ir à segunda volta com seu próprio Toyota. Porque a decisão entre Dilma Roussef e Marina Silva permitiria apostar em resultado francamente favorável à primeira. Uma decisão entre Dilma e José Serra seria mais imprevisível e por margem mais apertada, porque a nitidez é mais vantajosa no jogo sem empate.

O segundo turno é muito remoto, mas convém lembrar que tipo de estratégia utilizou-se para tentar fazer com que ocorresse. E lembrar que a estória de terceira via não passa de estratégia eleitoral de um dos lados, considerando quem serviu a quem.

Rafael Correa e a tentativa de golpe no Equador.

Rafael Correa, Presidente do Equador.

Não julgue qualquer outro povo não-hispano ser fácil compreender uma quartelada sul-americana em algum país falante de castelhano, ainda que seja juntamente a outras línguas.

A quartelada da polícia equatoriana, visando a dar um golpe de estado e depor o Presidente legítimo Rafael Correa fornece quase todos dos mais significativos e raros elementos dessa espécie de manifestação.

As motivações declaradas, quando não são puramente falsas, são pueris. A polícia sublevada e amotinada declarou que a manifestação devia-se a salários. Seria uma boa anedota se não se tratasse de homens armados pelas ruas, se não fosse evidente a desproporção entre o que fizeram e o que se faz habitualmente em busca de salários e se esses mesmos salários não tivessem aumentado significativamente a partir do Governo de Correa.

Os líderes desses episódios, tanto do lado golpista, quanto do lado governamental, costumam ser de uma dramaticidade patética. A hubris do hispano-americano é algo tremendamente confusa e carrega potencialidades imensas. Quando deriva para o patético, fá-lo sem limites. Quando deriva para a coragem sem representações, é assombrosa.

Rafael Correa dirigiu-se ao regimento de polícia de Quito, para falar aos amotinados. Recomendo cuidado aos superficiais para não minimizarem as coisas, por tolice, ignorância, má-fé ou politiquice. O presidente foi ao encontro dos policiais, sem acompanhamento das forças armadas! Poucos têm coragem de representar em uma situação dessas. Poucos diriam matem-me, se lhes dá ganas.

Falou-lhes e foi repelido e agredido. Disse-lhes: Não darei nem um passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem deixar os cidadãos indefesos e se querem trair sua missão de polícias, traiam-nas. Senhores, se querem matar o Presidente, aqui está: matem-me se lhes dá gana, matem-me se têm valor, em vez de estarem na multidão, covardemente escondidos.

Foi levado a um hospital. Foi sitiado durante toda a noite pelos amotinados, que cercaram e tomaram o hospital. As forças armadas, leais ao Presidente, assaltaram o hospital e, depois de um tiroteio de meia hora, conseguiram retirá-lo do hospital em uma cadeira de rodas, que fora operado de um ferimento na perna, e levá-lo ao Carondelet, Palácio Presidencial.

Foi direto ao balcão falar às pessoas que se aglomeravam na praça em frente e agradecer-lhes e aos líderes internacionais que o apoiaram, destacadamente a todos os sul-americanos e aos Presidente de Governo Zapatero.

Anunciou que haverá uma profunda depuração na polícia e que não haverá perdão, nem esquecimento. O procurador geral do Ecuador anunciou que haverá uma investigação do que houve por trás dessa sublevação que, evidentemente, não se tratou de uma legítima reclamação salarial, senão de um claro exemplo de conspiração.

Aqui o link para a notícia no El Pais:  http://www.elpais.com/articulo/internacional/Correa/retoma/control/Ecuador/promete/depuracion/policia/elpepuint/20100930elpepuint_5/Tes

Perderão sem saber porquê. Ou, mais do urubu com raiva do boi.

Acontece-me de seguir minhas leituras de Ortega y Gasset e acha-lo sempre claro e, mais importante, intelectualmente honesto. Além de obrigar-me a pensar, melhoro minha compreensão do castelhano, porque só o encontro nesta língua. Leio ainda mais detidamente, portanto.

A décima nona edição de Espanha Invertebrada é de 1934, portanto de uma das épocas mais convulsivas da história espanhola, precedente à Guerra Civil. Esse período não tem relações com o atualmente vivido no Brasil, embora um e outro aspecto possam ter paralelismos.

Interessante é que a análise da atuação das forças vitais de um país tem linhas de generalidade suficiente para conformarem um modelo. E, assim conformadas, são uma maneira de abordagem utilizável. O autor percebeu que a desagregação originava-se de uma intensa compartimentação dos grupos, de uma compartimentação excludente.

Em certo momento, o padre falava para o paroquiano, o militar para o militar, o advogado para o advogado, o engenheiro para o engenheiro e o trabalhador para o trabalhador. Ao mesmo tempo, todos comportavam-se como vencedores, não como lutadores. São posturas muito diversas, realmente.

O triunfante não precisa lutar, não reconhece perigos, não reconhece que seu triunfo possa não ocorrer, não reconhece que precisaria buscar adesões para obtê-lo. Pensa que ele existe por si e, por isso mesmo, fala para si, não para trazer outros à luta que antecede a qualquer triunfo.

Em certo ponto, a costumeira agudeza orteguiana vai a ponto extremo. No capítulo Pronunciamientos, ele trata de uma coisa  então comum, em Espanha. Um e outro sujeito, representante de algum dos grupos sociais estanques, resolve pronunciar-se. Não o faz como a oferecer à análise, à consulta e à adesão um projeto. Fá-lo para transbordar idéias suas e só suas e de meia dúzia de idênticos.

O autor do pronunciamiento está convencido de que diz o que todos pensam, porque acha que todos pensam igual a si. Daí, não convida os outros àlguma construção, pensa estar a desvelar alguma unanimidade silenciada. O trecho adiante tem muito de aclarador e de violento diagnóstico:

Aquellos coroneles y generales, tan atractivos por su temple heroico y su sublime ingenuidad, pero tan cerrados de cabeza, estaban convencidos de su <<idea>>, no como está convencido un hombre normal, sino como sulen los locos y los imbéciles. Cuando un loco o un imbécil se convence de algo, no se da por convencido él solo, sino que, al mismo tiempo, cree que están convencidos todos los demás mortales. No consideran, pues, necesario esforzarse en persuadir a los demás poniendo los medios oportunos; les basta con proclamar, con <<pronunciar>> la opinión de que se trata; en todo el que no sea miserable o perverso repercutirá la incontrastable verdad.

Esse é o estado de espírito dos grupos que perderão as eleições no domingo próximo.  Hoje, crêem que suas proclamações são o que o todo queria dizer ou escutar, mas são apenas as suas. Porque são proclamações, são intrinsecamente excludentes e auto-referentes. São falas de um grupo para ele mesmo, isso em uma realidade muito maior que um grupo.

Quando não resulta que o todo receba tais proclamações como suas verdades próprias, silenciadas mas suas, reputam que o todo é mesquinho, ignorante ou desonesto. Não lhes passa pela cabeça que os outros simplesmente percebam-se outros em face desses discursos proclamadores.

Não percebem que, quando venceram, foi por não terem assumido tal postura proclamadora restritiva. Foi por terem incluído ao seu âmbito de interesses mais interesses que os seus próprios. A política é sedução, mas não de si mesmo, evidentemente. Esgotada a sedução, fenecem os apoios e as possibilidades de sucesso, ao menos segundo as regras vigentes da representação.

Trágico é que não se percebe o esgotamento e então aplica-se o sentimento do urubu com raiva do boi. O pássaro não percebe como pode o grande mamífero herbívoro não querer morrer para servir-lhe de comida!

Fernando Henrique Cardoso e o doente imaginário.

Na magnífica peça O doente imaginário, de Moliére, o médico tinha sempre a mesma receita para todos os males: purgar, dar clister e sangrar. Pouco importava a doença ou mesmo se ela existia realmente.

Advertido pelo Julinho da Adelaide, em comentário à postagem Europa: baixar salários e aumentar impostos. Eles só pensam nisso?, percebi que alguns grupos atuam segundo a lógica do médico da peça de Moliére.

Fernando Henrique Cardoso, o erudito iniciado nos mistérios eleusinos, foi esse médico por oito anos seguidos e ainda não despiu o jaleco. Durante seu consulado, o Brasil viu o desemprego aumentar constantemente. Ele propunha como remédio restrições aos direitos laborais e previdenciários, que seriam um arcaísmo a impedir a entrada no paraíso.

Os direitos laborais foram basicamente mantidos e os previdenciários recuaram um pouco. Agora, vigorando a mesma legislação trabalhista, criam-se milhares de empregos, a provar que o problema não eram as leis. Prova evidente, é bom que se diga, mas insuficiente para o médico buscar compreender outras terapêuticas.

Não me atrevo a supor que Fernando Henrique tenha a monomania do médico de Moliére por desonestidade, ou seja, por ter sido cooptado para isso. Não, ele não agiria por tais motivações, ele que é o fiador de um período em que nenhum negócio fez-se sobre que pairassem quaisquer suspeitas.

Fico constrangido de ter que flertar com a explicação que resta, ou seja, de que o homem que passeou com Aristóteles, assessorou  Constatino no Concílio de Nicéia, poliu lentes com Spinoza, esteja errado. Pior, esteja e continue a estar, refém de uma monomania de purgas, clisteres e sangrias.

Outra mania interessantíssima era que a venda de tudo quanto fosse estatal seria remédio para os défices públicos. Vendeu-se o que se pode vender e os défices aumentaram.

Recentemente, o Estado brasileiro aumentou sua participação acionária na quarta maior companhia do mundo, a Petrobrás. Foi na operação de aumento de capital realizada há quinze dias, a maior do gênero já ocorrida, convém apontar. Curiosamente, andaram juntas uma maior estatização e a diminuição do défice público.

Como é possível isso?

O Google e a Justiça da França.

A justiça francesa condenou o Google por calúnia contra um cidadão, consistente na manipulação dos resultados de pesquisa. O caluniado fora condenado a três anos de reclusão por corrupção de menores. Quando seu nome era posto como critério de pesquisa no Google, os resultados eram associados a rapto, estupro, satanismo e prisão.

O site de buscas afirma que não pode evitar esse tipo de manipulação, pois decorre de sites que forçam tal direcionamento da pesquisa. A justiça não acatou essa argumentação, até porque os resultados são expostos na página de pesquisas do Google e, portanto, é ele quem veicula a calúnia.

A condenação foi simbolica, em 1 euro mais 5000 de custas processuais. Todavia houve também determinação para que evite esse efeito.

É uma decisão auspiciosa, porque trata-se de um serviço aberto. Assim, devem ser claros os critérios do algorítmo de busca. Além disso deve ser imune a manipulações, já que o próprio serviço não se destina a retornar como resultados manipulações.

Esse tipo de associação de nomes a adjetivos negativos é fonte de inúmeras calúnias, em sua enorme maioria anônimas, que podem tornar-se em violações massivas a honra das pessoas. Seu uso político é vastíssimo.

Ora se o veículo de busca é sujeito a manipulações desse tipo ele torna-se parte da violação, ao expor os resultados manipulados. porque estes são desvinculados do critério utilizado.

Europa: baixar salários e aumentar impostos. Eles só pensam nisso?

As congregações de sábios inquestionáveis, como o Banco Central Europeu, a OCDE, o FMI, recomendam aos países europeus: baixem salários e aumentem impostos sobre o consumo. Muito bem, não é estranho que façam tais recomendações, porque sabe-se bem a que servem. Estranho é esse mantra ser adotado e repetido como fórmula imutável de invocação dos deuses domésticos.

Mas, por que esse é o único remédio aplicável para reduzir os défices públicos? Ou, ainda, por que só se pensa nos défices públicos?  Apenas como exemplo de que as coisas parecem estar sendo abordadas de forma dogmática, vejam-se uns números da economia espanhola.

A quarta economia da Europa viu seus défices públicos reduzirem-se de 62% do PIB para 36%, entre 1999 e 2007. Enquanto isso, a Alemanha, origem do fetichismo fiscalista, viu os mesmos números passarem de 61% para 65% sobre o PIB. Ocorre que, na Espanha, os défices privados elevaram-se a 12% do PIB. Trata-se de desequilíbrios comerciais e, não fiscais.

Outra pergunta a ser feita: por que fala-se em despesa pública como se fosse um bloco unitário? Certamente para difundir o discurso da necessidade de compressão de uma e outra despesa específica, como se todas fossem indistintas. Aqui, alguns números da França são exemplares.

Percebe-se muita insistência na diminuição de salários do setor público. Todavia, uma retirada de 1% significaria à volta de 0,06% do PIB francês. Por outro lado, por exemplo, estima-se que as fraudes fiscais representam entre 2 e 2,5% do PIB europeu, segundo parecer da Comissão Europeia. Admitindo-se que os efeitos da fraude sejam similares em todos os membros, fica evidente que combatê-la traria muito mais recursos que reduzir salários!

Outra fonte de défices públicos de que não se fala são as renúncias fiscais para os estratos sociais mais aquinhoados. Na França, a despesa pública aumentou muito pouco, entre 2000 e 2009,  segundo estudo do deputado Gilles Carrez, do partido governista UMP. Ao mesmo tempo, as receitas fiscais caíram 6,2% do PIB, em torno a 119 biliões de euros. Dois terços dessa redução deveram-se às renúncias fiscais e um terço a repasses a outras administrações.

Dessas renúncias fiscais, aproximadamente 10 biliões de euros devem-se a renúncias sobre os impostos sobre os lucros. Entre 33 e 41 biliões de euros devem-se às reduções das maiores alíquotas do imposto de renda. Ou seja, as perdas fiscais – que aumentam o défice público – devem-se a opções regressivas na renúncia fiscal.

Os governos, então, chamam tudo por défice público e despesa pública, indistintamente, como se fossem blocos unitários, para disfarçarem que estão a impor a conta de crises financeiras aos que dela não se beneficiaram mais. E emitem mais dívida pública para continuar a transferência de rendas ao setor financeiro.

O caso brasileiro é ainda mais escandaloso, qualitativamente e quantitativamente. Aqui, o estado paga os maiores juros por títulos públicos do mundo, embora só um perfeito imbecil possa supor que o Brasil é o pais mais arriscado do mundo! Assim, atrai especuladores de toda parte, seduzidos pelo enorme diferencial entre os juros do restante do mundo e a obscenidade que se paga aqui.

Resulta uma valorização da moeda local que retira competitividade dos produtos exportáveis e uma sensação de agradável enriquecimento, além das facilidades para se viajar ao exterior. Ora, quando convier ao terrorismo financista internacional, organiza-se um ataque especulativo e todos juntos vendem seus títulos brasileiros. A moeda sofre intensa e rápida desvalorização e as dívidas externas aumentam.

A próxima sequência do jogo combinado é a oferta dos conselhos habituais, com ares de verdades délficas. Ou seja, meia dúzia de senhores que se dedicam à rapina sob o nome de consultoria financeira dizem, em uníssono: o único remédio é aumentarem os juros, para acalmar o irriquieto capital e trazê-lo de volta. Então, aumenta-se o que já era elevado, satisfazem-se os capitais e os bancos e deixa-se um rastro de destruição.

Ao mesmo tempo, insiste-se no discurso de que as despesas públicas estão muito elevadas. Todavia, quando falam em despesas públicas não mencionam aquelas destinadas ao pagamento de juros. Despesas públicas, para as aves de rapina, são salários, aposentadorias, rendas mínimas e juros são um compromisso divino.

O que há de estúpido nisso é o que tem de imediatista. Coisinhas como salários, aposentadorias e rendas mínimas foram precisamente o que aumentou o mercado interno brasileiro, aumento que é um dos fatores preponderantes nesse crescimento vigoroso que se tem observado.

Qualquer economista sabe – embora muitos façam questão de esquecer – que a propensão marginal a consumir das classes baixas é muito maior que das altas. Por isso, qualquer transferência de rendas para as classes mais baixas reflete-se em aumento grande no consumo. Não invoco aqui qualquer coisa de justiça social, que seria demais querer a preocupação de alguém com isso. Invoco apenas a inteligência.

Meia dúzia de banqueiros com patrimônios que aumentem de centenas de biliões a mais centenas não produzem qualquer efeito na demanda! Cem ou duzentos Patek Philipes a mais ou algumas Ferraris a mais não têm implicações na taxa de desemprego. Essas coisas sempre se venderão aos mesmos compradores e quase sempre nas mesmas quantidades.

O problema é a Rede Globo.

Diga-se sem maiores introduções ou arrodeios: para veículos mediáticos como a Folha de São Paulo e a revista Veja, haverá o descrédito e o código penal. Jornais, como é sabido por todos, rumam para falências, umas atrás das outras. Um e outro vão manter-se, desde que busquem algo que parece à maioria desprezível: coerência e menos mentira.

O jornal O Estado de São Paulo parece ter percebido isso. Sempre foi um veículo menos ruim que a Folha de São Paulo, mais claramente direitista e menos adepto do vale-tudo. Esta semana, declarou-se em editorial de postura anti-Lula e, consequentemente, anti-Dilma. Ou seja, deixou a farsa da imparcialidade e adotou a correta afirmação de lado seguido.

Revistas semanais pseudo informativas, como é a Veja, buscam soluções para o colapso na transformação, nada sutil, em revistas de fofocas. Pseudo ciência, falsas novidades, glorificação da tolice, receitas para emagrecer, opiniões de Caetano Veloso sobre as órbitas dos planetas e propaganda partidária é seu receituário.

Além, é claro, de contratos generosos com o governo do estado de São Paulo. Contratos que não despertam a curiosidade, anômima ou declarada, de alguns operosos fiscais da legalidade. Aliás, agora que o jornal Estado de São Paulo afirmou-se partidário de José Serra, com um atraso de muitos anos, será que os diligentes fiscais vão perguntar-lhe se está comprado pelo candidato?

Não acredito que esteja, mas se se pergunta coisa semelhante a uns, convém que se pergunte a todos, apenas para democratizar o absurdo.

Com uma rede de TV aberta as coisas são diferentes, contudo. São concessionárias de um serviço público – radiodifusão de sons e de sons e imagens – e não podem agir ao sabor de seus únicos e exclusivos interesses editorias, embora a impostura lhes faça sorrir e dizer que fazem jornalismo.

É preciso identificar em que consiste o serviço público, quais são suas finalidades, perguntando isso ao público, seu destinatário. Não há outra abordagem possível, se as balizas legais atualmente válidas devem ser levadas em conta. Por outro lado, se é para ter lei no papel mas desprezá-las na prática, pode tudo continuar como está ou mesmo piorar.

É preciso promover a desconcentração da detenção de canais de TV e o estímulo à competição efetiva. É preciso que as concessões tenham prazos mais reduzidos de validade e possam ser renovadas em processos claros, com audiências públicas. É preciso que se veiculem conteúdos propriamente educativos e não apenas entretenimento de baixíssima qualidade, cuja única função e estupidificar os espectadores.

É preciso, enfim, uma legislação como a da Argentina – a Ley de Medios – porque se trata de um serviço público, não porque se queira limitar a liberdade de expressão, como desonestamente apontam as emissoras.

A felicidade, de Vinicius de Moraes.

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

« Older posts Newer posts »