Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 85 of 126)

Israel sendo legítimo filho de Josué.

Os meninos palestinos apedrejavam carros, em Jerusalém. A reação que o israelense condutor do carro nas fotografias acima julgou adequada foi atropelar os meninos.

Atacar o infiel é servir a Deus. O absoluto não se atem a coisas relativas, como a proporcionalidade, por exemplo. Então, a conduta do israelense é inculpável, pouco importando que o carro tenha 1.500 kg e a pedra 100 g.

Eles são coerente consigo próprios, têm que viver o tudo ou nada, têm que fermentar o ódio de cada nova geração, têm que viver Masada novamente.

Fanatismo religioso e política. Comentário ao de Julinho da Adelaide.

Acender as fogueiras é fácil e bonito, difícil é apagá-las, depois.

Nós temos, no Brasil, um défice de cidadania enorme, então as pressões sociais passam por canalizações corporativas. As religiões, que são corporações, entram no jogo para canalizar um tipo de pressão.

As corporações religiosas voltam-se para a obtenção de poder social, mais ou menos suave, consoante a época. Quando estão seguras de deter uma suficiente parcela de poder social, suas aventuras explícitas no âmbito político são mais discretas e pouco frequentes.

Por exemplo, em épocas de seguro poder social do catolicismo romano, no Brasil, não precisavam seus hierárcas atuarem diretamente no espaço político. Podiam fazê-lo no segundo plano, certos de disporem de robusto controle.

Á medida que recua seu poder social, precisam investir, primeiramente, em linhas semelhantes às dos que avançam. Assim, surgem, por exemplo, manifestações como a canção nova, um monofisismo de baixo nível. É, em poucas palavras, identificar uma disputa e optar por oferecer o mesmo que os que avançam.

O mercado das almas é daqueles com propensão marginal ao consumo quase ilimitada, e daí é possível essa pulverização enorme que se observa. Quase tudo que se ofereça é passível de ser adquirido, desde que tenha uma e outra tinta de novidade, que nesse âmbito não se está imune à moda.

Acontece que o Brasil é tremendamente liberal em termos sociais, ou seja, é tremendamente dissoluto de costumes. Convivem formas estritas e rigorosas com discursos estreitos, em um paradoxo aparente. O ponto de articulação e a explicação desse aparente paradoxo é a hipocrisia. Em doses cavalares, como as temos, ela desempenha a função do óleo que suaviza o contato das engrenagens.

Uma contraposição possível, no sentido de reduzir essa dispersão religiosa, seria o estímulo a uma religião cívica nacionalista, um pouco à semelhança da simbologia varguista. Claro que isso tem os riscos evidentes da sua semelhança com os nacionais socialismos, mais frequentemente chamados por seus nomes comerciais de fascismo e nazismo.

Essa enorme pulverização tem alguma vantagem e vários riscos. A vantagem parece-me residir em que torna improvável o triunfo dominante de uma só corporação, o que permite a continuação da dinâmica social. As desvantagens encontram-se na indigência intelectual e moral que está por trás da possibilidade de tantas denominações, tão assemelhadas, que à lupa, parecem consensuais.

Ora, o consenso é maior quanto menor for o conteúdo em torno a que se forma. A idéia mais amplamente sedutora das almas por força será a mais vazia, menos nobre, menos sofisticada, mais radical, menos sutil. Com massas – em todas as classes, sempre é bom destacar – tão aproximadas por pontos de comunhão enormemente singelos, que esperar senão movimentos de hordas volteantes e erráticas?

A identidade religiosa só entra no jogo político de forma normal quando ela é o catalisador de uma identidade nacional. Daí que, na Irlanda, por exemplo, faz sentido afirmar-se católico em contraposição a reformado, porque isso é afirmar-se irlandês em contraposição a britânico. Assim, na verdade, o religioso é quase puramente político e nacional, na sua afirmação exterior. Claro que isso não impede que o religioso seja propriamente uma questão de relação com a divindade, para cada pessoa em sua experiência.

Mas, quando o religioso, mormente tão despido de reais conteúdos religiosos, mete-se no político sem desempenhar esse natural papel de identificador nacional, ele é um elemento estranho e desnecessário ao palco político. Prestará um profundo deserviço, confundindo coisas que não são iguais, nem apreensíveis a partir da mesma metodologia.

No Brasil, a mais forte característica social é a confusão entre o privado e o público, no que se refere ao tratamento do público. A inserção das religiosidades nesse ambiente piora as coisas, já ruins, pois insere o meta-privado na discussão do público!

Os políticos, ao contrário do que se convencionou crer, não calculam bem os riscos que tomam. Ou só os calculam bem no curtíssimo prazo, ou, ainda, se os calculam bem são profundamente irresponsáveis e pagam para ver. Com relação à incitação religiosa, eles portam-se como o sujeito que descobriu uma nova bomba e não vai deixar de usa-la sob qualquer argumento, embora saiba a terra arrasada que ela produzirá.

Dilma coordenou operação Danúbio Vermelho.

Segundo informações obtidas por este jornal Advinhação de São Paulo, apuraram-se fortes indícios da participação da candidata Dilma Roussef no desastre ecológico sucedido na Hungria, em que uma enxurada de lama tóxica já matou cinco pessoas e começa a contaminar o rio Danúbio.

A Advinhação teve contato com fontes seguras, que apontam a urdidura de um minucioso plano de ação, chamado Danúbio Vermelho. Uma das fontes esteve presente a uma reunião secreta de alto nível do comando da campanha petista, realizada sorrateiramente no bar do Maneco, vizinho à rodoviária de Brasília, em que ouviu a candidata dar as ordens para desencadear o malígno plano.

Ouvidos, o candidato José Serra e a candidata terceira colocada no primeiro turno das eleições, revelaram profunda indignação com essa ação petista. Marina Silva disse que este tipo de ação revelava o desprezo que Dilma nutre pela ecologia e percebeu ligações da ação com  o intuito de disseminar o aborto na Hungria.

O candidato José Serra disse que era um atentado à democracia tornar o Danúbio, que um dia foi azul, em vermelho, apenas por estratégia política e afirmou que pedirá investigações urgentes desse crime.

Jogo muito sujo do Serra.

Não acho beleza ou sofisticação nos argumentos tu quoque, que nem argumentos são, a rigor. Entre duas pessoas que tenham algum respeito por si e pelo interlocutor e não dissimulem, raramente uma objeção deste tipo será usada, porque serão improváveis situações limites que a recomendem.

Isso acontece entre particulares que se supõe discutem honestamente e um nível de clareza relativamente alto. Política, todavia, é outra esfera. Não que seja uma esfera onde tudo é permitido, ou onde funcione aquele eufemismo weberiano para o vale-tudo. É outra esfera em relação ao primeiro exemplo porque é pública e porque muitos estão quase sempre dissimulando e mentindo. Então, a objeção tu quoque tem muita serventia.

José Serra buscou fazer terrorismo contra Dilma Roussef dizendo que ela aprovará o aborto no Brasil. A estratégia visa a obter os votos dos religiosos cristãos praticantes.

Ora, o aborto no Brasil é materialmente uma realidade. Ademais, é uma prática virtualmente legalizada, inclusive por atos de José Serra quando era ministro da Saúde!

É infame e profundamente vil que Serra utilize o que ele mesmo normatizou como argumento para fazer terrorismo eleitoral, embora não seja surpreendente, vindo de quem vem.

Essa postura não tem paralelo em algumas acusações que se fazem a Serra. Quando se diz, por exemplo, que Serra pretende vender o que resta de patrimônio público é porque ele e o grupo de que fez parte realmente vendeu o que podia na ocasião. E quem acusa não fez o mesmo, portanto não está sujeito ao tu quoque.

As tentativas de suavizar a patifaria terrorista serrista baseiam-se na superficial idéia de que todos são no fundo iguais, embora não sejam. Idéia aparentada a tolices diversas que pretendem desprestigiar a política, afirmar a inexistência de ideologias e reduzir tudo a um discurso gerencial de manual de graduação.


Toma-se um pernil de porco sem osso…

Nunca segui receitas, embora sempre as tenha lido. Trata-se de ter uma idéia, pois a calibração exata de quantidades e tempos de cocção faço-as de improviso.

Ontem, resolvi tomar um pernil de porco sem osso, pequeno, e corta-lo em pedaços retangulares, de mais ou menos 10 centímetros, por 3 de altura, ou seja, uns tijolinhos de porco. Pus os pedaços em uma assadeira e joguei em cima um pouco de sal, um pouco de pimenta do reino, muitas folhas de louro, quebradinhas, vinagre e azeite bastante.

O porquinho assim temperado foi descansar na geladeira por um dia. Quem supuser que isto pode acabar por dar em parentes próximo de rojões minhotos, supõe mais ou menos certo, embora o destino seja outro.

Passado o dia da marinada, hoje à noite, tomei dos pedaços e cortei-os em tirinhas finas e curtas. Reservei o apetitoso caldo com os sucos da carne, o vinagre e o azeite. Em uma panela grande, despejei esse caldo e acrescentei mais um pouco de azeite e  umas folhinhas de manjericão.

Refoguei uns pedaços de alho mal cortado, em fogo alto e, passados uns instantes, deitei na panela os pedaços de porco. Mexi um bocadinho e tampei a panela.

Depois de uns cinco minutos, adicionei extrato de tomate e mais umas folhinhas de manjericão, baixei o fogo e fui cuidar do acessório. Macarrão em formato fusilli, ideal para reter o molho nas dobras de seus parafusos. Aqui, não há mistérios, água fervente, põe-se o sal, põe-se o fusilli e esperam-se uns sete minutos.

Resultado, um espetacular macarrão com porco. É verdade que inadequado aos 30º que fazem agora, mas, a despeito do suor que desce na testa, estava ótimo.

O talentoso Pacheco.

Tenho dois livros de constantes leituras, daquelas a que sempre se volta, livros que deixo ao lado da rede. Claro que afirmando-o, exponho uma de minhas manias e o limiar das minhas ignorâncias, mas é exposição pouca de talvez ignorância muita.

São a Rebelião das Massas, de José Ortega y Gasset e As Memórias e a Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queiroz. Ninguém se apresse a pensar que para mim são a mesma coisa dita de formas diferentes, que minha loucura não chega para tanto. São coisas muito diferentes, embora algum esforço possa constatar pontos de contato, escassos.

A personagem de Fradique não pertence exclusivamente a Eça, muito embora sua maior parte deva-se a ele mesmo. O cosmopolita português do século XIX, varão rijo de origens açorianas mestiças, modos espontâneos e elegantes ao mesmo tempo, domiciliado em Paris, profundo e frívolo, arqueólogo de almanaque e dândi, é a mais deliciosa personagem criada em língua portuguesa que conheço.

Fradique e seu pai Eça são bastante ácidos com certas coisas portuguesas, o que não digo para dar contributo ou acréscimo, que isso é fartamente percebido e comentado. Mas, em um ponto e outro, as coisas vão ter com a arte naquilo que ela é de protótipo da vida, ou seja, vão ao excelente.

A carta ao senhor E. Mollinet, de Paris, setembro, é um retrato pré-impressionista de um tipo que não ficou no século passado, nem circunscrito a Portugal. Fradique escreve ao Millinet, diretor da Revista de Biografia e de História, a propósito de responder-lhe a indagação sobre um certo Pacheco, cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais de Portugal.

O retrato que segue é de um Pacheco permanente, que está por toda parte. Eu conheço vários. De tão real, perde a acidez, embora mantenha, convenientemente, a ironia, em largas doses. Mas ela não torna o desenho caricato ou farsesco, ela é a própria tinta com  que se desenham tais retratos.

Fradique anuncia que o enorme talento do Pacheco começou a perceber-se uma manhã, em Coimbra, na aula de direito natural, quando o Pacheco, desdenhando os manuais, assegurou que o século XIX era um século de progresso e de luz. A partir de então, diz Fradique, todos pressentiram o talento do Pacheco.

Ele andava sempre meditabundo, em passos auteros, como a concentrar forças inimagináveis em um cérebro prodigioso. Claro que esse cabedal de talento iria ter às Câmaras. E lá, as bancadas, fossem de governo, fossem de oposição detinham-se a admirar o Pacheco e a esperar o que sairia dele, sempre sentado.

Cresciam as expectativas do derramamento de talento do Pacheco, até que um dia, levantou-se, em uma arenga qualquer com um padre sobre liberdades, todos detiveram-se, apuraram os ouvidos, o Pacheco pôs-se de pé, apontou o dedo à frente, e brindou a nação ali representada com uma frase lapidar a dizer que ao lado da liberdade devia sempre coexisitir a autoridade!

Embora fosse uma pequena pérola, todos compreenderam que por trás dela havia sistemas e idéias em profusão. Aquilo era apenas a capa de um mar de talento que se descobria aos poucos. Pacheco ficou, depois dessa pequena magnanimidade, profundamente recolhido, calado e absorto em si mesmo. Isso aumentava a percepção de profundidade daquele colosso de talento, com uma vasta testa rebrilhante, atrás de que deviam harmonizar-se as mais complexas teses e antíteses.

Passou a ministro e daí a conselheiro de Estado, embora um e outro invejoso o acusasse de nunca ter feito nada. Incompreensão, evidentemente, que a um talento dessa magnitude não se poderia exigir que se detivesse com detalhes, com clarezas, com laboriosidade plebéia.

Bem, não vou ficar a contar a estória toda, como a reescrever a carta, porque é profanação inútil. Mas, soltando a imaginação e um pouco da lembrança, vou permitir-me uma precária associação. Lembrava-me agora do Homem que sabia Javanês, de Lima Barreto.  É um conto espetacular em que dois amigos conversam enquanto bebem cerveja.

Um deles conta ao outro como tornou-se uma celebridade nacional, recebeu ovação nacional e foi convidado para almoçar com o Presidente da República, tudo a partir de uma grande farsa. Uma vida toda de farsa em que apenas o farsante salvava-se, porque sabia que o era.

Revejo minhas primeiras afirmações, para constatar que, lastimavelmente, o Pacheco e o Homem que sabia javanês não são tão frequentes assim como julgava. Mais frequentes são piadas de menos gosto, personagens de burlas mais grosseiras e caricatas. Que Pacheco e sabedor de javanês foram-no sem esforços e os bufões mais comuns são os que se esforçam na bufonaria. São mais cansativos, portanto.

Que dizer, por exemplo, do tipo do funcionário público que, se descobrir uma nova forma de fritar um ovo quererá tirar patente disso e dar entrevistas pelo resto da vida? Ora, só vale ser Pacheco espontaneamente!

Ciro Gomes e a inteligência sem meias palavras.

Serra tem controle sobre o PV, disse Ciro Gomes, o sujeito que precisa ser considerado pela imprensa como destemperado, para que ela, grande imprensa, não seja a mentirosa.

Ciro disse que Dilma precisa compreender esses 20% de votos que teve Marina Silva e falar para eles. E diz – suprema heresia neste país hipócrita – que fala como cabo eleitoral de Dilma no Ceará, assim mesmo, claramente.

Diz que o discurso ético de Serra é uma farsa e que Na mesa de bar onde eu estiver, Serra jamais será guardião da ética.

A impostura na acusação da queda de nível dos representantes.

Tem ocorrido, sim, uma queda no nível de escolaridade formal dos representantes do povo, na Câmara, e dos estados federados, no Senado da República. Houve, sim, um recuo do que se chama comumente voto de opinião. Por um lado, é bom que haja isso, como é bom que afinal um abcesso rompa-se e derrame o pus que traz dentro.

É uma ilusão julgar que os parlamentos foram, em uma época remota e idílica, reuniões de representantes excelentes. Neles, nos parlamentos, sempre houve massas e excelentes, independentemente de seus pertencimentos sociais, econômicos e de seus níveis de cultura formal.

O que é certo e perceptível é a desconcentração da representação. As mesmas massas e excelentes vão tornando-se mais representativas do todo dos cidadãos e não apenas de uma minoria seleta apenas sob o prisma de seu nível de predação. Por isso, sempre se fez necessário retardar ao máximo, no Brasil, qualquer avanço da democracia representativa.

É impostura das classes dominantes acusar um recuo no nível educacional dos representantes, porque ele decorre de um projeto cuidadoso de deseducação engendrado pelos que hoje reclamam. Quando perceberam que educação básica e média era a parte mais barata, retiraram o Estado dessa parte e puseram seus filhos em escolas privadas, que podiam pagar. Além disso, drenaram recursos públicos para essas escolas por meio de subvenções fiscais.

No mesmo movimento, perceberam que a parte cara da educação era a de nível superior. Então, tornaram-na pública e destinada aos que cumpriram a básica e média nos estabelecimentos privados. Ou seja, uma total inversão de propósitos públicos, que pôs o Estado em função dos interesses de uma minoria. Agora, reclama-se dos resultados?

É algo semelhante a retirar o acesso aos tratamentos de saúde e depois reclamar da quantidade de doentes, como se fosse situação auto-engendrada, sem causalidades identificáveis ou, pior, resultante da própria vontade dos doentes de adoecerem! Assim transita nossa impostura: quando não nos surpreendemos com as consequências de nossas próprias ações, acusamos os outros de serem responsáveis.

Ou seja, ou mentimos, ou adotamos a tese da culpa da vítima. Somos uma classe dominante profundamente deformada e massificada, uma decadência que não tem quaisquer traços de uma aristocracia. Podemos acusar o povo de ignorante e incapaz de escolher, podemos reclamar de sua incultura e de suas escolhas? Fizemo-lo deseducado para que mantivessemos nossas posições e agora  o acusamos de ser ignorante?

Aqui cabe uma verdade sobre o teatro brasileiro. No fundo, quase ninguém das camadas dominantes acredita em democracia, por razões óbvias. Democracia, se houver, em um país com esses níveis de pobreza e concentração, vai acarretar prejuízos para nós mesmos. Então, uma imensa maioria está a repetir uma tolice em que não acredita.

Então, é perceptível – embora possa causar estranheza – que os militares foram melhores que os dois monstros partidários que criaram, a ARENA e o MDB, de resto muito parecidos. Melhores porque, bem ou mal, pensavam o país, enquanto esses arremedos partidários pensavam em si dizendo que pensavam no todo.

A partir dos anos de 1970, a grande verdade é que os militares foram instrumentalizados por esses partidos, ou seja, por cinco por cento da população brasileira. Claro que um e outro ser humano deformado, vestido em fardas, divertia-se a torturar, sequestrar e matar e nisso não era instrumentalizado por ninguém, apenas dava vazão à sua barbárie sob os olhares complacentes de quem estava pensando só em dinheiro.

Eles, os militares, aprofundaram o projeto de deseducação popular, instrumentalizados pelos cinco por cento dominantes. Mas eles, pelo menos, não se viam na patética obrigação de falar em democracia e coisas do gênero, nem de ficar a reclamar dos resultados, de resto bastante previsíveis.

Os que estão reclamando de eleições de um Tiririca ou mesmo do Romário, são os responsáveis por isso e falta-lhes perceber que, no fundo, não são melhores que eles, que são massa do mesmo jeito, um patético arremedo de aristocracia que se compraz em cultivar-se em colunas sociais de província.

Ravel, o basco que percebeu o começo do século XX.

O bebedor de absinto, de Éduard Manet.

La Valse é o século que se inicia depois de seu marco de calendário. Ele não começou em 1900, nem somente ao final da primeira grande guerra. Ele começa com uma aceleração que indefine as linhas e acentua os contrastes. Ele começa com formas novas de captação de realidade, como a fotografia.

Mas começa, apenas, não está findo. Ele, o novo, está começado quando a harmonia confortável da valsa, dança modelar de harmonia, decompõe-se na Valse de Ravel. A imprevisibilidade apresenta-se, a dissociação temática e harmônica já é o tempo que é depois da guerra.

« Older posts Newer posts »