Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 84 of 126)

Dom Aldo Pagotto, um assessor de Torquemada misturado com filósofo de botequim.

O Bispo de João Pessoa, na Paraíba, Dom Aldo Pagotto, dispôs-se ao ridículo papel de gravar um vídeo – está no youtube, para quem quiser ver e ouvir tolices em tom solene – em que se diz preocupado com a candidata Dilma Roussef, que pretende alterar as bases do cristianismo e da família.

Não sei em que proporções Dom Aldo mistura presunção, ignorância e má-fé, que todos esses fatores podem estar presentes ao mesmo tempo. Na verdade, os dois primeiros geralmente apresentam-se em relações mútuas de causa e efeito. O terceiro é uma possibilidade.

Dizer que a candidata quer alterar as bases do cristianismo é presunção dele a supor uma presunção enorme dela. É ignorância profunda dele sobre as proposições de uma candidatura que não dedicou uma mísera linha de seu programa de governo a temas religiosos.

Dom Aldo joga ao lado daqueles que deixaram há muito as preocupações que caberiam a um Príncipe da Igreja, para servir a uma estratégia eleitoral baseada no terrorismo obscurantista que ficaria bem situada cronologicamente há mil anos. Na verdade, isso é preciosismo meu, porque atitudes como essas são deslocadas de historicidade. Dom Aldo poderia integrar a recente Igreja Argentina, aquela que abençoou e tomou parte ativa ao lado de uma ditadura que matou 30.000 pessoas, incluindo uma e outra freira francesa.

O único programa de governo que mencionou algum aspecto sensível às religiosidades foi o do PV, partido que é legenda anexa ao PSDB, pelo qual disputou o primeiro turno a candidata Marina Silva. O programa defendia a ampliação das possibilidades do aborto, o que é curioso em proposta de uma candidata evangélica, que provavelmente não leu programa algum.

Os programas de governo de Dilma Roussef e de José Serra simplesmente não falam do assunto aborto, tema subitamente alçado aos píncaros da importância para os destinos do país! Os propagandistas do Serra resolveram fazer disso um convite à radicalização e à abordagem da eleição a partir de um viés fundamentalista.

Isso prova a essencial indignidade e o oportunismo rasteiro da campanha de José Serra, que ataca Dilma por algo que ela não propôs! Ou seja, para acusar basta querer fazê-lo e ter o auxílio de alguns Aldos Pagottos, não sendo necessário que a acusação tenha qualquer pertinência com a realidade.

O mesmo Dom Aldo, que se acha importante a ponto de ler um comunicado com voz de locutor de rádio, em que anuncia que Dilma visa a por em risco as bases do cristianismo, ou seja, superestimando a si e ignorando o programa da candidata, é objeto de uma carta escrita por vários leigos, religiosos, diáconos e presbíteros, dirigida ao Núncio Apostólico no Brasil e ao Presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.

Na carta, os signatários apontam, basicamente, que Dom Aldo tem reiterados e documentados atos de preconceito em relação aos pobres. Que tem atitudes de desdém ou de humilhação relativamente a todas as iniciativas que se refiram a comunidades pobres. Que viola os deveres de discrição de prudência, indo a meios de comunicação de massas tratar de assuntos que não se referem diretamente à Igreja Católica.

É curioso que esse tipo de sacerdote caracterizado pela aversão aos pobres e subserviência aos mais ricos geralmente justifica-se pela separação das instâncias religiosa e política. Não obstante, em flagrante contradição, eles prestam-se a papel político ativo. Ou seja, eles, na verdade, não acreditam na separação que preconizam, apenas utilizam-na como desculpa.

Frei Betto sobre Dilma.

Reproduzo adiante artigo de Frei Betto sobre Dilma Roussef, publicado na coluna Tendências/debates, da Folha de São Paulo:

Conheço Dilma Rousseff desde criança. Éramos vizinhos na rua Major Lopes, em Belo Horizonte. Ela e Thereza, minha irmã, foram amigas de adolescência. Anos depois, nos encontramos no presídio Tiradentes, em São Paulo. Ex-aluna de colégio religioso, dirigido por freiras de Sion, Dilma, no cárcere, participava de orações e comentários do Evangelho. Nada tinha de “marxista ateia”.

Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau-de-arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte.

Em 2003, deu-se meu terceiro encontro com Dilma, em Brasília, nos dois anos em que participei do governo Lula. De nossa amizade, posso assegurar que não passa de campanha difamatória – diria, terrorista – acusar Dilma Rousseff de “abortista” ou contrária aos princípios evangélicos. Se um ou outro bispo critica Dilma, há que se lembrar que, por ser bispo, ninguém é dono da verdade.

Nem tem o direito de julgar o foro íntimo do próximo. Dilma, como Lula, é pessoa de fé cristã, formada na Igreja Católica. Na linha do que recomenda Jesus, ela e Lula não saem por aí propalando, como fariseus, suas convicções religiosas. Preferem comprovar, por suas atitudes, que “a árvore se conhece pelos frutos”, como acentua o Evangelho.

É na coerência de suas ações, na ética de procedimentos políticos e na dedicação ao povo brasileiro que políticos como Dilma e Lula testemunham a fé que abraçam. Sobre Lula, desde as greves do ABC, espalharam horrores: se eleito, tomaria as mansões do Morumbi, em São Paulo; expropriaria fazendas e sítios produtivos; implantaria o socialismo por decreto…

Passados quase oito anos, o que vemos? Um Brasil mais justo, com menos miséria e mais distribuição de renda, sem criminalizar movimentos sociais ou privatizar o patrimônio público, respeitado internacionalmente.

Até o segundo turno, nichos da oposição ao governo Lula haverão de ecoar boataria e mentiras. Mas não podem alterar a essência de uma pessoa. Em tudo o que Dilma realizou, falou ou escreveu, jamais se encontrará uma única linha contrária ao conteúdo da fé cristã e aos princípios do Evangelho.

Certa vez indagaram a Jesus quem haveria de se salvar. Ele não respondeu que seriam aqueles que vivem batendo no peito e proclamando o nome de Deus. Nem os que vão à missa ou ao culto todos os domingos. Nem quem se julga dono da doutrina cristã e se arvora em juiz de seus semelhantes.

A resposta de Jesus surpreendeu: “Eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estive enfermo e me visitastes; oprimido, e me libertastes…” (Mateus 25, 31-46). Jesus se colocou no lugar dos mais pobres e frisou que a salvação está ao alcance de quem, por amor, busca saciar a fome dos miseráveis, não se omite diante das opressões, procura assegurar a todos vida digna e feliz.

Isso o governo Lula tem feito, segundo a opinião de 77% da população brasileira, como demonstram as pesquisas. Com certeza, Dilma, se eleita presidente, prosseguirá na mesma direção.

Aborto: Bispos brasileiros deixam-se instrumentalizar politicamente.

Primeiramente, deve-se dizer que nenhum dos dois candidatos à presidência propõe a legalização ampla do aborto. Ambos propõem o óbvio, ou seja, que seja dada assistência médica no serviço público às mulheres que necessitarem dela, seja em decorrência de complicações no aborto, seja para realizá-lo nas hipóteses legalmente previstas – risco de vida, por exemplo.

Em segundo lugar, é preciso deixar claro que o Ministério da Saúde tem normas para tais atendimentos e que muitas delas foram editadas por José Serra, o candidato que, hoje, de forma canalha, torna essa bobagem em convite à ressureição de Torquemada. Serra foi ministro da saúde no governo de Fernando Henrique Cardoso e tratou da questão de forma clara e correta. Hoje, serve-se do tema para fazer terrorismo político religioso e assustar as massas.

Muitos religiosos, de várias denominações, prestaram-se ao infamante papel de ser instrumento de campanha para Serra, repercutindo mentiras e instilando um medo infundado. Se eles querem ter uma postura pública contra qualquer hipótese de aborto, inclusive quando há risco para a gestante e quando a gestação decorre de estupro, que o façam, fortes na sua estreiteza mental.

Se querem ser contra o aborto em qualquer hipótese, movam uma campanha contra a lei que o permite em algumas poucas situações. Mas, não movam uma campanha contra uma candidata que não disse o que afirmam ter dito. Isso é pusilanimidade e aceitação do papel de instrumentos de campanha.

Meia dúzia de bispos brasileiros, príncipes da Igreja, prestaram-se a esse papel de propagandistas políticos, papel muito desconforme ao que se supõe serem as atribuições e o nível de conhecimentos de um Bispo. Eles sabem ler, então duas conclusões são possíveis: ou não leram os programas e falam contra de forma leviana, ou leram e movem-se por má-fé deliberada.

Essa é uma falsa polêmica, criada artificialmente para atingir a candidata Dilma Roussef. Além da candidata nunca ter falado em propor a legalização ampla do aborto, essa é uma matéria afeta ao parlamento. E do parlamento ninguém fala!

O melhor comentário sobre essa patifaria toda em torno ao aborto e ao que não se disse sobre ele, fez Severiano. Ele disse que se os homens engravidassem ninguém perderia um segundo a contestar a possibilidade de aborto, que em uma sociedade profundamente machista como essa, nunca se negaria uma vontade masculina. É isso mesmo.

A Petrobrás é o butim, sejamos claros.

À esquerda, a P-57, construída no Brasil. À direita, a P-36, importada e hoje em grande profundidade

As estratégias de campanha, mais e menos sujas, como tratar mentirosa e superficialmente de aborto, incitar ódio religioso, reputar o sucesso econômico e a redução de desigualdades obras do acaso, são isso, estratégias.

O objetivo maior do grupo tucano-udenista e levar a cabo o que faltou para a conclusão da obra fernandina: assumir os destinos da Petrobrás e vendê-la na bacia das almas. É uma companhia tão grande – a quarta maior do mundo – que, vendida a qualquer preço rende comissões astronômicas.

Eles tentaram, mas não conseguiram, pois não houve tempo suficiente. Utilizaram um discurso de convencer néscios e trataram de todas as companhias estatais igualmente, como se os diferentes setores atendessem à mesma lógica.

Privatizar serviço público de telefonia é uma coisa. Desde que haja regulação estatal – que não há, porque o regulador trabalha para o regulado – pode ser um grande sucesso. E, um grande sucesso não é o que aí está: os maiores preços do mundo por uma das piores coberturas. Não sou eu quem diz e percebe isso, é qualquer pessoa que use telefone e internet e os estudiosos sobre o tema.

Privatizar a distribuição de energia é realizável, sem que se recorra ao discurso cretino de concorrência e coisa e tal, que não existe em qualquer lugar, porque ninguém vai fazer linhas redundantes. É preciso regulação estatal, o que virtualmente inexiste.

Além disso, foi extremamente canalha cantar loas à entrada no paraíso com a distribuição privatizada e a geração pública e sem investimentos. O famoso apagão deve ter sido uma punição dos deuses por tamanha impostura. Os maravilhosos capitalistas da distribuição iam vender o quê, se as geradoras pararam no tempo por incúria governamental fernandina?

Quando aproximou-se o maior de todos os negócios, eles não resistiram a um quê de piada antes da grande jogada. Deve ser a propensão ao gozo financeiro precedido de gozo humorístico. Quiseram mudar o nome da companhia, de Petrobrás para Petrobrax. Sim, esse x no final era a modernidade! Não sei, mas talvez pensassem em Rolex, sempre presente no imaginário de qualquer patife novo-rico brasileiro.

Para mim, é mais divertido pensar nesse imenso ridículo da mudança de nome da companhia – algo que lhe acrescentaria valor, diziam – que pensar na urdidura do negócio em si. A estória do nome é deliciosamente reveladora da mente colonizada.

Sabia-se, desde a idéia de vender a Petrobrás, que ela tinha reservas imensas, embora o pré-sal ainda não estivesse comprovado. Ou seja, iam vender pelo preço de antes o que já se sabia ter um depois!

Agora, fez-se uma operação de capitalização da Petrobrás, a maior oferta pública de ações da história mundial, em que o Estado brasileiro aumentou sua participação, até aproximar-se dos 50%. Antes da liquidação do preço das novas ações, formou-se um intenso processo especulativo para forçar a baixa do preço. De certa forma, foi bom para todos.

A baixa do preço permitiu, tanto ao Estado, quanto aos investidores, ingressarem no capital da Petrobrás a preços baixos, em relação ao valor patrimonial. E a oferta foi tão exitosa que precisou-se oferecer um lote residual. Ou seja, todos acharam que era um grande negócio, porque nessa área não é razoável supor que todos sejam estúpidos.

A Petrobrás tem potencial para ser a maior companhia do mundo. É bem administrada, tem mais da metade de seu capital livremente negociado em bolsa, notadamente na New York Stock Exchange – NYSE, tem uma claríssima política de dividendos, tem uma boa relação entre fluxo de caixa e endividamento e tem reservas comprovadas enormes.

A Petrobrás não precisa ser privatizada para melhorar seu desempenho, que ela comporta-se mais eficientemente que a maioria das petrolíferas, sejam públicas, sejam meio públicas, sejam privadas. Paga ao tesouro nacional grandes quantias em dividendos, recursos utilíssimos para uma repartição equânime entre os brasileiros de uma riqueza natural.

Além disso, paga royalties, porque o petróleo é um patrimônio da União Federal e ela tem apenas a concessão da pesquisa e extração.

Lembro-me agora de uma estória amplamente conhecida. Há oitenta ou noventa anos atrás, teriam perguntado a Rockfeller qual era o melhor negócio do mundo e o segundo melhor. Ele teria respondido que o melhor era uma companhia petrolífera bem administrada e o segundo uma administrada de qualquer jeito.

Ou seja, a Petrobrás – que é bem administrada – é um tremendo negócio, que rende grandes dividendos a todos os seus acionistas, inclusive o Estado brasileiro. Não há qualquer razão para querer alienar seu controle acionário, como quer o consórcio tucano-udenista, isso é pura iniciativa criminosa.

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