Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 66 of 126)

O que vi no Peru. Por Ubiratan Câmara.

Um deserto e as surpreendentes linhas de Nazca

Sugestão inicial de Leila: era hora de conhecer as linhas de Nazca. Um passeio deveras cansativo – é verdade – mas definitivamente recomendável àqueles que não nutrem tendências suicidas ou homicidas, ao enfrentar longas viagens de ônibus; bem como aos capazes de suportar manobras bruscas de um pequeno avião.

Pois bem. Embarcamos em um ônibus, às 3 horas da manhã, em Lima. Oito horas depois, estávamos em nosso destino. Embora eu tenha uma absoluta facilidade para dormir em viagens, inclusive quando sou o condutor, despertei aos primeiros raios do sol e não mais repousei.

Quem está a imaginar que a viagem foi a redenção de todas as transgressões terrenas – algo parecido com Recife/Juazeiro do Norte, Expresso Guanabara – esqueça! Além do confortável ônibus, a perfeição da estrada não nos fez títeres de incorreções asfálticas.

O deserto ao sul do Peru é simplesmente impressionante, notadamente pela proximidade do pacífico. As imensas dunas de areia clara, cortadas apenas pelo tapete rodoviário, são muito bonitas. Do nada é possível extrair beleza, afinal.

Chocante são as dispersas, diminutas e pobres aglomerações habitacionais às margens da estrada. Não foi possível desvendar do que aquele povo sobrevivia. Eram conjuntos de quinze, não mais do que vinte, casas próximas; um bar, evidentemente; e muita propaganda de Keiko Fujimori.

Impressionante também é Ica! No meio do deserto, surge uma cidade cheia de contrastes, às margens do rio homônimo. Por um lado, condomínios verdes, condôminos brancos e caríssimos carros; por outro, índios em motonetas que transportam, além do motorista, duas pessoas em um banco traseiro improvisado.

O tempo não permitiu que conhecêssemos, por outro lado, o oásis de Ica, conhecido por Huacachina. Um pequeno povoado surgido às margens de um lago natural ainda no deserto.

Oásis de Huacachina

Chegamos em Nazca. Apesar de termos reservado, por telefone, o voo para o meio dia, esperamos três horas para embarcarmos na pequena aeronave, que, além do piloto e do copiloto, comportava quatro passageiros. Justificaram o descaso sob o argumento de que os outros dois passageiros se atrasaram. Infelizmente, por mais que retrucássemos, não tínhamos poder de barganha. Em favor deles, existiam 16 horas de viagem para um único propósito. Restava esperar…

Chegaram os outros dois passageiros. Dois garotos asiáticos, não mais de 24 anos de idade, aparentemente um casal, ambos com camisa de Michael Jackson. Nada simpáticos. Na verdade, qualquer gesto de cortesia dificilmente seria por nós interpretado, em virtude da espera que motivaram.

Hora do passeio. Devo confessar que hesitei, de imediato, quando observei o tamanho dos pneus do avião. Lembraram-me as rodas plásticas do meu triciclo da infância. Tive duas certezas: a gravidade triunfaria e a máxima popular “Pra descer todo Santo ajuda” não se aplicaria na situação.

Meios de transporte assemelhados na memória, segundo o autor

Diante do receio, Leila retrucou: “Se respeite, homem!” Era o momento ideal de demonstrar a estirpe viril de um implacável homem paraibano. “Me respeita, mulher! E eu sou menino?! Vamo simbora!”.

Decolamos, finalmente.

O piloto fazia questão de apresentar as linhas para os dois lados de janelas, para tanto manobrando bruscamente o teco-teco, enquanto o copiloto auxiliava na identificação dos geoglifos.

Cada identificação entusiasmava, notadamente a dos animais. Eu, particularmente, me surpreendi ainda mais com as imensas e perfeitas figuras geométricas rasgadas no solo, em regra, triângulos, trapézios e retângulos.

Ao pousarmos, conversamos sobre a origem das linhas. Acabamos por não nos convencer se foi obra do povo Nazca, de extraterrestres ou empreendimento turístico do governo peruano. Não importava. Tínhamos uma única certeza… compensou esperar.


Berlusconi: uma chave possível para a compreensão.

Um interlocutor sábio é uma preciosidade. Nem tanto por concordâncias ou discordâncias, mas pela forma de abordar o assunto além, é claro, da escolha deste assunto. Há poucos dias, conversava com o Miguel sobre a existência ou, melhor dizendo, sobre a persistência de Berlusconi no poder.

Não me recordo de toda a conversa, evidentemente, nem fui ao facebook reaviva-la integralmente. Prefiro tentar recupera-la, em linhas gerais, de memória. Iniciei por falar de manipulação mediática, como explicação da persistência berlusconiana. Miguel retrucou – não propriamente como objeção direta – que talvez fosse o caso dos italianos perceberem-se em Berlusconi, ou seja, serem alvos da sedução por identificação.

Acrescentou que são milhões de italianos detentores de cultura formal a votarem no homem, mais de uma vez. E indagou se essa gente toda iria dizer-se, ao depois, enganada. Realmente, não é coisa muito trivial e não se compreende se ficarmos na pura dicotomia manipulação ou identificação.

Achei que os dois fatores estavam imbricados, pois há mesmo bastante de identificação, ou seja, dos eleitores perceberem-se no eleito e assim fazerem escolhas trágicas, mesmo que sejam pessoas formalmente educadas.

A grande pergunta não é mesmo sobre a manipulação. Talvez a grande pergunta seja sobre a liberdade individual, ou seja, se ela ainda se pode considerar existente. E aquilo que Miguel sugeriu, de os italianos perceberem-se em Berlusconi, chamou-me bastante atenção. Meti-me a pensar no assunto e acho que encontrei algumas chaves interessantes para sua compreensão.

Parece-me que acontece algo um pouco mais complicado que a identificação do eleitor com o eleito, mesmo que essa identificação seja pontual, em um e outro aspecto mais visível da pessoa mirada. Creio que vivemos mais uma situação de incapacidade de identificações precisas, algo como uma despersonalização, algo que somente enseja identificações rapidíssimas, ligeiríssimas, pelas aparências.

Não gosto de fazer citações, porque frequentemente resultam em trechos que pouco sentido fazem fora da completude da obra de onde provém, mas farei uma, adiante, para que peço atenção de quem se detiver a ler isto aqui. Trata-se de uma parte do Comentário de Guy Debord à sua obra A sociedade do espetáculo. Esse comentário encontra-se nas edições mais recentes, como espécie de epílogo, e deve ser dos finais dos anos 1980.

O discurso espetacular faz calar, além do que é propriamente secreto, tudo o que não lhe convém. O que ele mostra vem sempre isolado do ambiente, do passado, das intenções, das consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Como já ninguém pode contradizê-lo, o espetáculo tem o direito de contradizer a si mesmo, de retificar seu passado. A atitude arrogante de seus serviçais quando devem apresentar uma nova versão, talvez ainda mais enganosa, de certos fatos consiste em retificar rispidamente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao público; ora, os mesmos serviçais, pouco antes, faziam de tudo para difundir o erro, com o ar seguro de sempre. Dessa forma, o que o espetáculo ensina e a ignorância dos espectadores são impropriamente considerados fatores antagônicos: na verdade, um nasce do outro.

O espetáculo de fato tornou a vida e os fatos dela coisas atemporais, anti-históricas. Dissociou as coisas que compõem uma vida, principalmente a memória, seja pessoal, tradicional ou colectiva. Ele cometeu o crime genial de estabelecer o presente contínuo, sem futuro ou passado, como uma simples sucessão de imediatos que não se liguem entre si. Essa situação embaralha os sistemas de identificação, pois os marcos referenciais deixam de existir.

Debord afirma que o discurso espetacular é, nisso, totalmente ilógico. Eu acrescento que por ser ilógico tornou-se ainda mais triunfante, na medida em que a lógica pode ser muito fácil, se houver algum treino com ela, mas pode ser o maior estorvo para uma mente humana, também. Um discurso ilógico ou analógico pode ser vastamente sedutor, pelo que tem de solto no tempo e no espaço e por não cobrar do espectador que pense, que extraia conclusões, que afaste outras.

Outra coisa fantástica apontada por Debord é que o discurso espetacular não tem compromissos de coerência consigo mesmo. Ele pode bem ir de um pólo a outro e trilhar o caminho inverso sem problemas, já que o espetáculo consiste em uma verdade própria e divorciada de outras, mesmo que das fáticas.

O discurso espetacular e seus expectadores necessitam-se reciprocamente. Como o autor diz na última frase do trecho citado, não se antagonizam os ensinamentos do espetáculo e a ignorância dos espectadores, eles se relacionam. O espetáculo é cretino porque o público é e este último é cretino porque o espetáculo o é.

Obviamente que essa conclusão pode ser veementemente atacada como uma reapresentação do princípio de identidade, pois que dizer-se A=A é dizer nada. Mas, não se trata propriamente de identidade e sim de relação mediada pelo discurso. O meio aproxima as partes, senão não seria o elemento de conexão da relação.

O que percebo, para tentar por a situação sob a ótica dessa teoria, é que Berlusconi não é quem está no topo da cadeia espetacular, embora seja formalmente o ocupante do posto máximo do poder estatal formal e esteja também no topo da escala social. Ou seja, é primeiro-ministro e é riquíssimo, mas de certa forma não vê o espetáculo de fora. É uma engrenagem privilegiada, mas ainda engrenagem.

O sistema espetacular é impessoal e move-se por uma dinâmica com inércia própria, que lhe é conferida por inúmeros e difusos comportamentos, que isoldamente pouco significam. A percepção dele a partir de elementos estáticos, como seja uma personagem isolada, é cair na armadilha de pensar na sua mesma lógica da dissociação. É pensar-lhe estaticamente, quando somente pode ser compreendido dinamicamente.

Não à toa, o espetáculo reage virulentamente contra quantos o percebam dinamicamente, historicamente, porque assim capta-se sua natureza. E, por outro lado, aceita toda e qualquer abordagem que se lhe faça segundo a lógica que ele mesmo propõe, porque assim podem-se dizer coisas muito agressivas, mas nenhuma precisa. O espetáculo aceita vaias e xingamentos, mas não que se queira deixar o teatro!

Então, falar em manipulação mediática é realmente pouco, até mesmo porque ela não precisa existir, assim voluntariamente, no dia-a-dia. E os espectadores são realmente ignorantes, não porque lhes faltem pacotes de conhecimentos escolares, mas por faltar-se a capacidade de relacionarem esses pacotes e de perceberem-se a si mesmos.

A mercantilização avassaladora – ainda como diz Debord – conduziu a isso, notadamente depois da primeira grande guerra européia do século XX. Conduziu ao presente contínuo, percebido na sucessão de eventos espetaculares dissociados entre si e dissociados da realidade mais próxima e, principalmente, da história.

Assim, já não sei se os italianos escolheram Berlusconi, se há, na verdade, escolhas, se querem escolher, se sabem quem são, se sabem para que serve o que aprenderam nas escolas, se sabem o que é Berlusconi, se sabem o que seria preferível a ele…

Neopentecostalismo: ideologia condutora de significativa parte da classe-média ascendente.

Lamento que essa seja a ideologia de eleição da classe-média ascendente brasileira, mas não lamento minimamente que haja mais e mais ascensão das classes médias baixas. Na verdade, esse movimento de crescimento e redistribuição de riquezas é tímido, embora melhor tímido que nulo.

Desse modelo ideológico, muito precariamente pode-se dizer que é uma variante das denominações reformadas históricas, porque seu substrato teológico é muito rarefeito e disperso e mesmo divorciado do que se tomam como suas bases: as escrituras bíblicas judáicas e do novo testamento.

As estruturas da reforma original são, sim, bibliólatras, em sentido muito restrito, até porque usam de livros escolhidos para anunciar uma reforma contra quem os escolheu. Detém-se no estudo desses livros e dão-lhes um caráter revelado, o que sugere uma contradição entre o gosto pela história das fontes e a crença na sua natureza revelada. Ademais, não se servem de textos cristãos primitivos apócrifos, aceitando a escolha feita por aqueles de quem se querem diferenciar.

A princípio, é algo que se parece inspirado na simplificação e na razão, dois problemas quando se trata de religiosidade. O cristianismo de Roma – que não vou ater-me à parte mais próxima das origens, a ortodoxia, porque não temos sua ocorrência – prendeu-se muito à razão, mas não à simplificação. Apropriou-se de Platão e de Aristóteles, o que resultou em um sistema bom e em uma religião vazia e morta.

A reforma veio a ter seu São Tomás em Kant, tão pouco lido como muito celebrado. O que sai dele é um moralismo profundamente sofístico, no que são as premissas iniciais, puras, abstratas, sabe-se lá de onde tenham vindo. Esse conjunto de idéias, que de religiosidade tem a hierarquia e a aceitação de que se decifram designios divinos, serviu bem a uma classe – ou ordem – que se insinuava no protagonismo social.

Da mesma forma, o cristianismo de Roma tinha servido bem a uma classe de libertos e soldados que reivindicavam sua presença no palco social, mil anos anteriormente.

Não quero reduzir as religiosidades a utilidades sociais, apenas destaco essa função que têm. Até porque, as funcionalidades existem a par com as crenças profundas e a sinceridade existente nessas últimas. Não são as religiosidades apenas meios de controle  e coesão social, evidentemente, mas também o são.

Tampouco quero estratificar as religiosidades em seus períodos de florescimento a partir de seus graus de sinceridade de crença e de utilitarismo social. Quero apenas diferencia-las, tanto no tempo, como no espaço. Por esses critérios, elas são diferentes, assim no que têm de religioso, como no que têm de estrutura social.

O neopentecostalismo é nitidamente um fenômeno de raízes norte-americanas. As ideologias reformadas que chegaram à América no Norte, com a colonização, eram basicamente as mesmas que havia na Europa. Lá, mutaram-se, em prazo médio, no que originou o neopentecostalismo atual.

A construção da nação norte-americana não se podia basear em muitos mitos fundadores comuns, porque a fundação era recentíssima e as diferenças regionais imensas. Ou seja, não havia discurso de história nacional a dar o sentido de coesão e a servir de argumento de controle social. Algo devia ocupar o espaço vazio.

Esta ocupação não era possível com tradições alheias, em ambiente de terra-de-ninguém e dissolução de costumes permitida pela ausência de poderes normativos efetivos. E a dissolução ameaçava a prosperidade material. Então, a base reformada foi adaptada e simplificada, para tornar-se em código de conduta e em promessa de recompensa material para quem o seguisse.

Isso – com todas as várias diferenças pontuais óbvias – foi transplantado para o Brasil e cumpre seu papel. Não significa, todavia, que outros modelos não pudessem ter sido adotados, embora evidencie o fracasso deles em se apresentarem para a tarefa. O modelo dominante, o cristianismo de Roma, parece ter sido incapaz de ocupar o espaço por elitismo.

Elitismo, aqui, deve se considerado com algum rigor e sem preconceitos. É a postura que aceita quase tudo, materialmente, ainda que aceite poucos desvios formais. Nas formas está seu código e na complexidade delas sua exclusividade. Para quem as domine, o campo é aberto e de vasta tolerância, mas para quem não as domine, abre-se a perspectiva da submissão hierárquica.

No que diz respeito às crenças religiosas propriamente ditas, o modelo romano antes dominante foi incapaz de assimilar os gnosticismos populares – muitos de origens africanas – mesmo que tenha havido muita propaganda de algum sincretismo, na verdade discretíssimo e somente aparente.

Foi incapaz porque sua racionalidade é imensa, tão grande quanto sua insinceridade religiosa. Não se encontraram lugares para tantos demônios e mensajeiros sem nome no panteão original, mesmo que esse panteão tenha sido, ele próprio, uma concessão inteligente ao paganismo, dois mil anos atrás. As corporações dificilmente conseguem repetir grandes idéias.

O modelo neopentecostal que seduziu vastamente as classes mais baixas e as médias ascendente assimilou medos, demónios, anjos, aspectos particulares da divindade e tudo o mais, despersonalizando-os e metendo-os todos em um grande esquema de recompensas, de mão dupla.

A idéia da via de mão dupla entre o postulante e o seu deus de escolha é genial. Por ela, justificam-se situações díspares. O sujeito que quer uma recompensa adota comportamentos que agradam ao deus e pede-lhe o que quer; se não conseguir, é porque pediu pouco ou não adotou os comportamentos que agradam ao deus. O que já tem aquilo desejado por todos – o rico, enfim – está previamente justificado, na mesma lógica, porque foi aquinhoado pelo deus. Ora, se foi aquinhoado, significa que cumpriu as obrigações.

Ficam todas as situações justificadas, portanto. Aquela do que cumpre as regras de um manual de condutas e quer ficar rico e aquela de quem é rico, embora não se saiba se cumpriu as tais regras mas que,  se já é, inútil discutir se cumpriu as prescrições.

Bem, o fato é que as classes médias ascendentes brasileiras querem sua oportunidade de ganhar dinheiro, de gastá-lo e de impor-se como grupo, ou seja, divulgar suas ideologias e seus valores. E essas são basicamente o ideário neopentecostal que, no plano social, é uma moralidade retributiva, repleta de prescrições de costumes que nada têm a ver com prescrições bíblicas, o que não vem ao caso e não importa.

Adotar e impor prescrições comportamentais a título de religiosidade é algo tão incoerente como qualquer racionalização de vontade de justificação  e de poder. É dizer que se seguem regras e que elas são universalmente válidas, ou seja, é afirmar a validade de regras inquestionáveis , cuja implementação não obedece a limites, porque afinal são divinas.

Mas, alterando-se um tanto o viés, chega-se a resultados desagradáveis dessa neopentecostalização do Brasil, para além das teorias. Trata-se da intolerância e da má educação cívica. A primeira é filha dos moralismos médio-classistas alçados a desígnios divinos, algo que os conservadores de classes mais altas acham desprezível e controlável, porque sempre ignoraram o poder das vontades populares e nunca se ocuparam em compreender-lhes.

A segunda é mais do mesmo, agora também justificada,  moral e religiosamente. Assim, barulhos imensos, invasões de privacidade, e invasões várias às esferas de liberdade individual vão consagrando-se e cristalizando-se como hábitos sociais válidos.

A arrogância das classes dominantes percebe-se no desdém e na crença de que não passam de movimentos aparentemente controláveis dos mais pobres. Desprezam os pobres e acham nesse desprezo razões para desprezarem a necessidade de compreensão da dinâmica social. É a gente que perde o controle, perde a compreensão e fica com raiva.

A intolerância suportada teoricamente por neopentecostalismos só viceja porque vem ao encontro de arcaicos modelos de poder social. Esses modelos já existiam e precisavam de um suporte teórico. Agora que o têm, ampliam-se.

O que vi no Peru. Por Ubiratan Câmara.

Um mercado, outra iguaria e a identidade de um povo.

De início, um sincero pedido de desculpas ao editor do blog. Problemas de conexão e algumas turbulências retardaram, em muito, a pontualidade dos textos.

Continuemos…

Ainda em Cusco, dispomos-nos a fazer rafting. Como desconheço algum termo em português que traduza a expressão, chamarei de insanidade, afinal, percorrer um arredio rio, sobre um bote inflável, ao alvedrio de frias correntezas, não me pareceu um sinal de inteligência. Fomos, mesmo assim, e gostamos muito do feito, pois vislumbramos belíssimas paisagens.

Para realizarmos a proeza, viajamos de carro, com mais dois guias, a um povoado próximo – que infelizmente não recordo o nome – onde tomamos café-da-manhã, em um mercado popular.


O mercado era muito parecido com as feiras livres que eu estava acostumado a visitar, geralmente, aos domingos, em Campina Grande. Tinha de tudo! Como fala um querido amigo, só não tinha o que estava faltando, o resto sobrava!

Tecidos, confecções, artesanato, especiarias, carne de variados tipos e curiosas espécies de milhos e batatas. Para mim, uma maravilha diante da diversidade desconhecida. Sequer hesitei ante o convite de um dos guias para experimentar outra iguaria… sopa de crânio de cordeiro.


Era um caldo ralo, picante, com pequenas batatas submersas e uma saborosa carne. Para nossa sorte, Leila – ao se deparar com parte da mandíbula do ovino em meu prato e diante dos primeiros indícios de náusea – foi caminhar pelo mercado e registrou as imagens que ilustram essas linhas.

Os frequentadores do mercado eram pessoas simples – pobres talvez, miseráveis jamais – em sua maioria agricultores e/ou pastores. Todos, sem exceção, silenciosos – ótimo sinal de educação – e gentis. Uma gentileza serena e sorridente, realçada por roupas coloridas. Gritaria não havia, caixas de som a estuprar tímpanos muito menos. Simpatia, afinal, não precisa vir acompanhada com barulho.


Retornamos a Cusco. Na cidade, além dos turistas, os índios se destacam. Todos os nossos guias eram cusquenhos, quéchuas conhecedores da história e orgulhosos do que foram e, principalmente, do que são. A estatura mediana, o formato triangular e as faces vermelhas são motivos de altivez, sem deselegância. E os cabelos?! Como são belos os cabelos daquele povo! Deixaria qualquer madame da avenida Paulista indignada com o brilho natural dos fios.

A identificação chama a atenção e conduz à lembrança de uma unidade cultural a que não pertencemos. Não pertencer não nos torna melhores ou piores, torna-nos apenas diferentes. O problema e o sinal maior de arrogância é desconhecer a identidade e se julgar cidadão do mundo, por fazer compras esporadicamente, em estabelecimentos sem tributação.

Uma jovem guia cusquenha falou com orgulho, mais uma vez, do seu povo. – Somos vencedores da altitude e da ganancia e, ainda por cima, somos belos. Esta cor e estas bochechas rosadas não se encontram em todo lugar, brincou. – Alguma pergunta? Alguma dúvida? Meu número de telefone?! Sou solteira, disse ela!

Arrancou, assim, o sorriso de todos e se despediu, alertando, subliminarmente, que precisamos conhecer quem somos, verdadeiramente.

Sobre mediocridade, formas, conteúdos e gente realmente capaz.

Um comentário d´O contemplador à postagem imediatamente abaixo. Sem edições quaisquer.

Muito oportuno e bom, tema e texto.

A propósito, o meu office ainda é um 2003 legalizado e não sei usar o powerpoint; uso somente o word para fazer alguns textos mais simples e sou um razoável usuário do EXCEL, que resolve os meus problemas com contas.

Em 1983 tive a oportunidade de conhecer pessoalmente um dos maiores pensadores práticos da hidrologia do mundo, e ídolo dos hidrólogos, o eng. grego/americano Matalas, de quem eu conhecia e aplicava (e ainda aplico) os seus modelos em meus estudos de hidrologia.

Estava junto a outros 9 colegas brasileiros em Washington DC, nos EUA, no U.S. Geological Survey, em uma sala fechada com uma longa mesa retangular e umas 15 cadeiras em torno, esperando para a chegada triunfal de Matalas, provavelmente acompanhado de um séquito de puxa-sacos, quando entra na sala, sozinho, um cara alto, magro, míope, fumando, gravata desalinhada, agitado e muito simples e simpático.

Perguntou em inglês se nós éramos os brasileiros e rapidamente entabolou uma conversa sobre os problemas que tínhamos ido estudar nos EUA (ele tinha se preparado para a conversa conosco e não enrolou ou nos fez perder o nosso tempo e também o dele).

Depois de uns minutos iniciais de conversa já solta disse, “ah, esqueci-me de me identificar, sou Matalas”.

Naquele clima de estar diante de Deus, ele nos trouxe rápido para o panteão e começamos a conversar sobre problemas de planejamento, de soluções e de métodos matemáticos, e foi aí onde ele deu um inesperado show.

Esperávamos que ele falasse em modelos matemáticos sofisticados e ele sintetizou, com uma simplicidade angelical, como estava o estado da arte para o que precisávamos (se podíamos diagnosticar o nosso caso usando um simples raios-X não havia necessidade de usar um caro e raro PET scanning ou coisa parecida), sem invocar nada além dos parâmetros estatísticos “média e desvio-padrão”.

Não usou powerpoint nem giz, fez uns rabiscos em umas folhas de papel (que coletamos e xerocamos como se fossem os pedaços das tábuas de Moisés que se quebraram) e nos passou a tranquilidade entendida pelos bons médicos “de que a clínica é soberana”, ou seja, fazendo as perguntas certas consegue-se chegar ao mais importante que é entender o problema.

Deveríamos gastar o nosso tempo pensando e tentando perceber a “verdade subjacente” e deixar para um computador fazer as contas de que necessitávamos.

Implicitamente trouxe-me a lembrança da frase de Deng Xiao Ping: “Não interessa se o gato é preto ou branco, interessa se caça rato”.

Nunca pensei em ser professor para não ter que me tornar conformista com os rituais, com o teatro e com a obrigação de ensinar os alunos somente a responder, quando ensinar a perguntar parece-me ser tão importante quanto.

Em um dos bons treinamentos formais que recebi na minha carreira profissional, um palestrante disse que nas instituições existiam CP’s, BDC’s e QSP’s, ou seja, “cabeças-pensantes”, “burros-de-carga”, e “quantidade-suficiente-para” (aquela água que se adiciona ao pó do antibiótico para não tomá-lo seco).

A maior parte das pessoas nas instituições formais de ensino médio e universitário pouco dedicado é comodamente treinada, infelizmente, para ser BDC ou QSP, e não CP (… um CP em uma turma de alunos pode ser uma ameaça a um professor medíocre).

Espinoza já denunciava o refúgio na ignorância como um dos maiores pecados das pessoas. Temo a Espinoza…

Nos meus tempos no ginásio católico no interior da Paraíba havia um coroinha que na missa do domingo, quando mudava um livro de lado conseguia se ajoelhar bem no meio do altar, com uma simetria e uma elegância ritualística bem ensaiada.

A sua parelha não era tão bem adestrada e se ajoelhava com alguma assimetria em relação ao centro do altar, atraindo um olhar crítico do padre celebrante do sacrifício.

Fico na dúvida se aos olhos de Deus e de Jesus isso tinha alguma importância…., ou seja, um coroinha assimétrico é capaz de baixar o valor do sacrifício do AGNUS DEI QUI TOLIS PECATA MUNDI?

Adianto que fiz o treinamento básico de coroinha, em latim, mas nunca fui convocado para jogar no time titular, talvez por conta de não conseguir desenvolver nem aceitar que o mundo fosse simétrico… e também por tentar traduzir e entender o texto em latim que eu estava respondendo ao padre e começar a ter dúvidas sérias se já não estava praticando falsidade ideológica fingindo acreditar no que dizia.

A ignorância defendida com eufemismos e rituais.

Os limites do discurso – de uma proposição – encontram-se na linguagem, seu meio, e na impossibilidade do emissor deixar de ser ele mesmo.

O emissor do discurso a favor da burrice, ou seja, da difusão de menos conteúdos que o possível em uma dada circunstância, precisa justificar-se. Isso significa que, no íntimo, ele intui que está a propor a ignorância.

Ele é capaz dessa intuição – percepção imediata e relativamente superficial – porque se reconhece como ignorante, precisamente porque reconhece os menos ignorantes. É capaz de uma comparação, ainda que meio involuntária e imprecisa, enfim. Contrariamente ao que se pensa maioritariamente, as pessoa têm percepção de seus limites, embora suas condutas nem sempre reflitam essa percepção.

O discurso de defesa da burrice apoia-se basicamente em dois pilares: o fetichismo da moda e os rituais formais. Ele afasta-se, como é obviamente dedutível, da matéria, da substância. Não digo que ele apegue-se às formas como um investigador prende-se às regras do método científico. Digo que ele prende-se às formas como aparências, continentes vazios de conteúdos.

Esses dois pilares são, em verdade, um somente, mas bifurcado perto do capitel. O conhecimento específico é substituído por um acervo de lugares-comuns, tirados meio aleatoriamente de um saco repleto deles, que o defensor da ignorância traz sempre consigo. E, esses lugares-comuns variam conforme uma lógica de moda e significam invariavelmente o mesmo: nada.

Eis o caso que me fez pensar nisso. Uma pessoa foi submeter-se a uma avaliação para o trabalho de professor universitário, em uma instituição privada. O teste consistia em apresentar aula a uma banca composta por três avaliadores: um professor da matéria, um psicólogo e um pedagogo. Não vou usar atalhos e direi logo que os defensores da ignorância foram o psicólogo e o pedagogo.

O assunto foi escolhido pelo avaliado, previamente. Havia um lapso de sessenta minutos para apresentar a aula e depois os comentários dos avaliadores. Chegada essa fase, o candidato ao trabalho ouviu do professor que não havia reparos a se fazerem, que compreendera tudo bem claramente e que o assunto fora exaustivamente e claramente abordado.

Em seguida, os profissionais fetiche da dinâmica de seleção de recursos humanos – sim, uso um lugar-comum como quem não quer perder a piada – entram em cena e sacam os comentários previsíveis de seu acervo pré-ordenado. Primeiramente, o mais desconcertante: você não interagiu com os alunos.

Mas, se não havia alunos, era caso de interagir com alunos ficcionais? Ou, por outras palavras, tratava-se de uma encenação meio pueril com personagens inexistentes? Era para fazer um teatrinho com amigos ocultos, uma encenação de escola infantil? Estranha objeção, realmente.

Em seguida, a objeção ápice do fetichismo atual: você não usou o PowerPoint. Vou dizer o que é isso, não porque algum leitor não saiba, mas para ajudar-me a pensar. Isso é um simples instrumento de projecção de slides em alguma superfície. Um instrumento tão instrumental quanto o quadro negro e o giz, tão instrumental quanto a fala, tão instrumental quanto um laboratório e, quem sabe, tão instrumental quanto o silêncio.

Há coisas que podem implicar uma apresentação de slides para serem melhor compreendidas e há outras delas que não. Da mesma forma que há parafusos a demandarem chaves-de-fenda para serem apertados e porcas a pedirem chaves-de-boca para a mesma operação.

E há coisas – geralmente as mais importantes – a demandarem qualquer instrumento, indistintamente, desde que o explicador as conheça! Convém lembrar que Niels Bohr e José Ortega y Gasset não tiveram aulas com PowerPoint, esses dois imbecis, coitados! Deviam ser autodidatas.

Todavia, a objeção informática não se bastava. Tinha que vir com uma explicação, naturalmente tirada do mesmo saco de frases-feitas. O caso é que o maravilhoso meio de projectar slides prende a atenção dos alunos. Sim, esses indivíduos hipopotentes e eternamente infantilizados são incapazes de prestarem atenção a qualquer coisa que não seja exibida mediante slides!

Então, o professor deve prender-lhes a atenção; para quê, pouco importa, contudo. É um espetáculo, evidentemente, o que ser vender e os profissionais a serem selecionados devem ser capazes de produzi-lo. Não se buscam professores, mas mestres-de-cerimônia de conteúdos vazios. Guy Debord não exagerava, portanto.

Ao final, o fechamento como ele deve ser: verdade vinda de quem está preso, mas vislumbra uma pequena réstia de luz e trai-se. A parte moderna da banca avaliadora sentencia: você está perfeitamente adequada a uma universidade federal!

Cabe um pequeno esclarecimento aqui. No Brasil, as universidades federais – públicas – são melhores que as privadas por larga margem, a despeito de algumas pontuais exceções. Essas constituem-se nas universidades publicas não-estatais, o que é fundamentalmente diferente das privadas.

Universidade pública não-estatal é aquela instituição que preza o ensino e a produção científica antes da venda pura e simples de diplomas de licenciados para quaisquer indivíduos que possam pagar-lhes. Neste país de semi-analfabetos em conúbio com deliquentes, produziu-se a falsa dicotomia pura entre pública e privada.

As grandes universidades européias e norte-americanas são todas públicas, embora umas sejam estatais e outras não. Várias universidades no Brasil são entidades públicas não-estatais, como é o caso das universidades católicas. Mas, um número muitas vezes maior é das entidades não-estatais privadas, focadas única e exclusivamente no lucro, voltadas para a oferta de diplomas e de todas as aparências de modernidade vazias de quaisquer conteúdos.

Enfim, se o candidato está destinado e adequado a uma universidade federal – como disseram as guardiãs do templo do fetichismo modista – significa que ele é um bom candidato, mas que aquela instituição quer coisa menor e mais apta a prender a atenção dos adolescentes mal-educados e dispersivos que lá vão ter.

Bem, estranho é o licenciado não compreender, ao depois, a pouca serventia do seu diploma. Os donos das instituições, esses compreendem perfeitamente o que está em jogo e provavelmente licenciaram-se em universidades federais.

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