Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 65 of 126)

Comeram Lurdinha! Um episódio de Anus Mundi.

Por Sidarta

Em Anus Mundi só tinha luz elétrica, até meados dos anos 1950’s, das 5 da tarde às 10 da noite. Quando dava 10 para as 10 da noite, a luz dava uma piscada em toda a cidade e diziam que a “usina” estava avisando que “iam soltar a onça”.

Os candeeiros eram acesos e as pessoas retornavam às suas casas para ainda conversarem um pouco ou ir logo dormir. Tinham, enfim, 10 minutos entre a piscada da luz e a chegada em casa com as precárias luzes nas ruas ainda acesas.

Os bares mais perto da zona de meretrício continuavam funcionando até perto das 11 horas da noite, iluminados a candeeiro de querosene, e os que se detinham lá até depois das 10 horas sempre levavam nos bolsos lanternas de pilha, para verem os buracos nas ruas no caminho de volta para casa. Nas noites de lua economizavam pilha, pois o céu era muito limpo e as ruas ficavam bem claras.

Foi em uma noite de lua que se deu o caso de Lurdinha.

Lurdinha, filha do já idoso, vermelho, brabo, com pressão alta, apreciador de uma charque bem salgada e asmático Seu Aprígio, e de dona Luzia, bem mais jovem, recatada, jeitosa e delicada, era, aos 18 anos, uma das mais cobiçadas prendas da cidade e namorava “sério e prá casar” com Zé Luís Lagrange, um rapaz de uns 23 anos de idade, metido a bonito, preguiçoso e o filho mais velho de Seu Luis da granja.

Zé Luís, o jovem namorador, dizia-se descendente de franceses, por conta do sobrenome, mesmo sabendo que o original do seu pai era mesmo bem popular e brasileiro; o nome José Luis Lagrange tinha sido escolhido e registrado no cartório pelo seu pai para  que o filho mais velho não enfrentasse as mesmas piadas. O fato é que o prosáico nome de família vinha desde o avô, que tinha começado o negócio de vender ovos de granja, ainda no início do século XX. Assim, Zé Luís afrancesou-se e tornou-se Lagrange.

Monsieur Lagrange, como vaidosamente apreciava ser chamado pelos colegas no ginásio,  onde não passou nos estudos, também deveria herdar a granja do pai e isso lhe dava a presunção de vir a ter uma renda para manter uma família, comprar bons sapatos e um dia até comprar um carro. Era assim, também, uma boa prenda quando analisado pelo lado das mães com filhas para casar.

Em uma sexta-feira, como de hábito, Zé Luís namorava com Lurdinha no terraço da casa dela, já perto das 10 horas da noite, enquanto Seu Aprígio cochilava ouvindo o rádio e Dona Luzia fazia um crochê,  e tinha um olho no cochilo de Seu Aprígio e uma mão nas pernas de Lurdinha.

Foi aí que a tensão subiu mesmo e resolveram que seria no dia seguinte, um sábado de lua, que iam “partir para os finalmente”. Tinham somente que fazer Seu Aprígio dormir mesmo cedo e profundamente e não somente cochilar, e também dar um jeito de que Dona Luzia fosse mais tolerante no “agarra-agarra” deles no terraço e fizesse “vista grossa”.

Essa última parte da trama não era tão difícil, pois Lurdinha sabia pela mãe que o “velho Aprígio” já não dava conta de Dona Luzia e que ela tinha lhe dito – Jesus me perdoe – que estava a ponto de pensar em arrumar alguém com quem se virar. Mas, nada disso estava confirmado e nem o Padre Almiro tinha ouvido alguma coisa de Dona Luzia nas confissões, só informações de segunda mão passadas pelo seu sacristão.

Verdade é que Dona Luzia vinha fazendo freqüentes consultas ginecológicas com Dr. Aluizio e comprando remédios na farmácia, e especulavam que tivesse com algum problema de útero, o que gerou uma certa solidariedade das amigas e até também a suspeita de que Seu Aprígio tivesse pegado alguma coisa na zona e passado para Dona Luzia. Tomava também, com orientação do Dr. Aluizio, Belergal e Maracujina para as crises de ansiedade e de insônia.

No sábado planejado “para os finalmente” por Zé Luis e Lurdinha, essa conversou com a mãe e disse que não agüentava mais os hormônios em excitação e que ia “se perder” de noite com Zé Luís, no terraço de casa mesmo. Entretanto, precisava da ajuda da mãe para botar Seu Aprígio para dormir pesado e mais cedo e insinuou que desconfiava das idas da mãe ao consultório de Dr. Aluizio, pois aparentemente ela não tinha doença nenhuma em casa e também não tomava os remédios nem usava as pomadas que comprava na farmácia.

Dona Luzia, encurralada pela verdade desconfiada pela filha, concordou em dar uma dose castigada de Belergal e de Maracujina a Seu Aprígio, logo depois do jantar, e a ficar lá dentro de casa das 10 às 11 horas da noite, deixando a porta aberta; depois disso tinha mesmo que fechar a porta da casa pois algum bêbado vindo da zona podia parar na casa com a porta aberta e o candeeiro aceso e perguntar se tinha morrido alguém.

Às nove e meia da noite do sábado, lua bem clara e romântica, seu Aprígio já dormia e roncava pesado na cadeira de balanço enquanto Dona Luzia prosseguia no seu crochê e Zé Luis e Lurdinha em seus trabalhos manuais. Dez da noite e a luz apagou, com Zé Luis olhando para os lados para ver se ainda tinha alguém na rua. A noite de lua tinha atrapalhado os planos dele, pois uma turma já com muita aguardente na cabeça resolveu fazer uma serenata com violão bem no meio da rua. Lá pelas 11 horas os bêbados não conseguiam mais cantar nada, muito menos tocar violão e resolveram ir embora.

Sem perder tempo, Zé Luis partiu prá cima de Lurdinha com toda a sua experiência em sair com as meninas da zona “já amaciadas”.

Com pouca instrução sobre como eram “os finalmente” em termos de incômodos imediatos, Lurdinha começou a gritar um alto “ai, ai, ai” que acordou Biu de Serafim, que cochilava deitado na calçada por conta da cachaça que tinha tomado com os seresteiros.

Entendendo de imediato o que tinha acontecido, Biu de Serafim” deu uma boa risada e gritou também bem alto para toda a cidade ouvir:

–  COMERAM LURDINHA !

Logo os vizinhos também abriram as portas das suas casas e saíram para ver o que estava acontecendo, não dando muito tempo  para que Monsieur Zé Luis Lagrange se ajeitasse e desaparecesse de vista. Estava claro, o escândalo tinha sido mesmo coisa do vadio do Zé Luis.

Mesmo com todo o Belergal e a Maracujina que Dona Luzia tinha lhe dado para dormir, Seu Aprígio também acordou e, ao ver a situação formada dentro e fora da sua casa, teve um passamento, caiu com os olhos esbugalhados e um braço e uma mão entortada. Dona Luzia, que já estava de camisola para ir dormir, correu para chamar o Dr. Aluizio que, ao vê-la naqueles trajes e àquela hora na porta da sua casa, foi logo dizendo:

–  Aqui não, Luzia, segunda-feira no consultório às sete da noite.

Foi quando Dona Luzia explicou a Dr. Aluizio que Seu Aprígio tinha tido um passamento e que tava todo entronchado no chão.

Dr. Aluizio tirou logo o pijama e vestiu a roupa de médico, pegou sua maleta de primeiros socorros e foi com Dona Luzia ver Seu Aprígio. Ao chegar, aferiu logo a pressão arterial do paciente e constatou que estava altíssima e que Seu Aprígio devia ter tido um sério e provavelmente fatal derrame cerebral. Sabia que Seu Aprígio, se sobrevivesse, mataria alguém que ele soubesse  ter feito mal a Lurdinha, ou dado em cima de Dona Luzia, e aí disse:

–  Ele precisa ser bem tratado. O que ele gosta de comer?

–  Charque bem salgada, respondeu Dona Luzia.

–  Pois é, disse Dr. Aluizio,  ele vai ficar assim meio esquisito por uns dias e a senhora deve fazer todos os gostos dele. Pode dar a ele o que ele gosta de comer, e até uma caninha e uma boa carne de sol lá do Araripe; insista também com ele para ele ir prá cama com a senhora, exercício faz bem prá quem tem passamento.

No dia seguinte, depois do almoço, conforme esperado por Dr. Aluizio, Dona Luzia, Lurdinha e Zé Luis, Seu Aprígio teve outro passamento e, lamentavelmente, morreu…

Menos de um mês depois, Zé Luis Lagrange se mandou de Anus Mundi para Teresina dizendo que ia estudar para o concurso do Banco do Brasil e Lurdinha nunca mais ouviu falar dele.

Perguntas que não passam de pedidos de confirmação.

Faltam-me ânimo e tempo para algo que me agradaria bastante: escrever sobre as limitações impostas às pessoas por elas mesmas a viverem socialmente. Ou seja, para fazer aquilo que chamo psicologia social de mesa de café, um deleite para mim, mas que implica algum método, para não sair a falar muitas bobagens supostamente organizadas.

Na falta dessas coisas que o trabalho cotidiano impede, uma e outra divagação ainda é possível, ainda que dispersa, pouco profunda, feita meio às pressas, quando um fato chama a atenção. Realmente, a escravidão, ou o trabalho, por outra palavra, aprisiona e limita e ainda tem a faculdade de raramente produzir alguma utilidade real.

O caso é que pensava em como a enorme maioria das perguntas que se fazem não são perguntas. São pedidos de confirmação, feitos ao interlocutor, daquilo que o indagador afirma. Apenas a forma é de pergunta, a substância é de ordem, rejeição ou confirmação do compartilhamento de alguma opinião.

Claro que muito dessa real natureza das perguntas tem a ver com as maneiras habituais de se conduzir um diálogo. Ou seja, são formatos utilizados para tornar a conversação menos áspera e entrecortada, da mesma forma que atuam os lubrificantes nas engrenagens de algum mecanismo.

Todavia, o caráter lubrificante de algumas formas habituais não afasta a percepção de que a conversação praticamente não existe como diálogo em que as informações transitam entre pessoas e em que perguntas são exatamente isso. Não se esperam respostas, o que evidencia que não se fazem perguntas.

Isso porque acontece mais uma busca de identidade – por padrões variados – que uma busca de conhecimento ou de informação, se se preferir o segundo termo, menos abrangente.

Tive a infelicidade – sim, porque essas coisas são boas e ruins – de ter lido e gostado e prestado atenção em Nietzsche e em Ortega y Gasset. Assim, não consigo deixar de lembrar-me de passagens deles, embora não consiga cita-las de memória, nem me anime a ir agora aos livros para fazer transcrições.

O que se leu não é verdade alguma, assim isoladamente. É um ponto inicial para perceber as coisas que se vêem e que podem não ser assimiladas de maneira orgânica, sem uma modelagem, sem um desenho teórico e geral. E agora lembro-me de um dos lugares-comuns mais tolos e repetidos que existem, aquele de que não se deve generalizar. Ora, deve-se generalizar, é impositivo generalizar; não se devem esquecer as excepções, isso sim.

Uma generalização a não ser esquecida é que as pessoas são em ato muito menos do que são em potência. São limitadas por travas que somente fazem sentido ao se as considerarem coletivamente, porque individualmente e isoladamente elas são inqualificáveis nestes termos. Explico-me melhor: uma pessoa completamente isolada é só ela, sem termos de comparação e, portanto, sua realidade é sua potencialidade.

A vida social – coletiva talvez seja menos ambiguo e gerador de confusões – é o limitador mais intenso. Ela pede a homogeneização dos comportamentos e das idéias e o pedido só pode ser atendido com a padronização pelo mínimo. Essa demanda será atendida, necessariamente, a bem da coesão social e ao preço evidente da perda das potencialidades individuais.

Não se trata aqui de afirmar o individualismo, no sentido habitual em que este se entende. Trata-se de dizer que a vida social produz a limitação dos indivíduos, que se tornam cada vez mais individualistas por serem presas das limitações convencionais. O aparente paradoxo está no coletivo a produzir individualismo e indivíduos cada vez mais limitados.

Esses indivíduos não têm dúvidas, não pararam para pensar suficientemente em algo para saberem se têm dúvidas. Suas dúvidas são se suas certezas encontram-se nas cabeças dos outros da mesma forma que nas suas. A ausência de perguntas fica evidente na impossibilidade de resposta que não seja uma: a afirmação que faz o suposto perguntador.

Chega-se ao outro lado da coisa, as respostas. Ora, não há resposta válida excepto  a confirmação da afirmação que se fez com o nome de pergunta. A única coisa que o perguntador queria – e não era por ter alguma dúvida – era a confirmação do interlocutor de que participava das mesmas escassas idéias.

Portanto, o que se chama diálogo é, na imensa maioria das vezes, um jogo de confirmações e identificações. Uma questão de segurança social, ou seja, de saber quem compartilha das mesmas vulgaridades e dos mesmos preconceitos, mas disfarçada em diálogo.

É preciso identificar o diferente, para o poder rejeitar e, se necessário, combater. Isso é preciso, não o buscar saber a opinião alheia independentemente de qual ela seja. Porque a opinião alheia, como informação ou indicativo de algo a verificar, não importa minimamente. Só importa como elemento revelador de semelhança ou diferença.

As perguntas não visam a obter alguma informação que venha a subsidiar um pensamento ou mesmo a confirma-lo, mas a verificar o pertencimento a um grupo, delimitado pela aceitação de um acervo de preconceitos e pela inserção em um estrato social.

Claro que há excepções e uma delas explica-se pela má-fé, motivação tão forte quanto a ignorância ou a inércia social. A excepção  mais notável é aquela do interesse nas respostas como colheita de provas de acusação contra alguém. Nesse casos, o perguntador não quer confirmações, quer dados.

Esse desejo de obter dados tem raiz na necessidade de ter meios de chantagem, não no interesse de ampliar o campo de pensamento. Os mesmos que fazem perguntas que não o são, fazem-nas, às vezes, somente para ganhar meios de chantagem. Enfim, são duas formas a que recorrem os mesmos tipos de pessoas, aquelas cujo ser é menor que o poder ser, aquelas que se ocupam dos detalhes, os decoradores da vida que não se vive.

Sim, porque o mesmo sujeito que te pergunta, discretamente ou não, quanto tu tens e ganhas, também pergunta-te mentirosamente o que achas de uma idéia. O dado objetivo, ele quer saber para alimentar a criminosa suposição de que és criminoso, a opinião ele não quer absolutamente saber, quer apenas saber se corresponde à dele.

Quando escutas a pergunta por que não fazes assim ou assado, na verdade és indagado se fazes precisamente o que o perguntador faz. Quando escutas essa pergunta, és instado a fazer uma coisa, recebes uma ordem e um pedido de confirmação. Então, se respondes sinceramente desagradas o perguntador, mesmo que não o tenhas querido desagradar. Pronto, és maldito.

Direitos Humanos. Homem é linchado em frente a uma delegacia, em João Pessoa.

Um homem teria assaltado uma mulher ou, melhor dizendo, tentado fazê-lo, em João Pessoa. Saiu a correr pela rua, em fuga. Um outro homem alcançou-o, derrubou-o no chão e começou um espancamento. Em frente a uma delegacia de polícia! É isso que mostra o vídeo acima.

Sim, um linchamento diante de uma delegacia de polícia e os policiais deixaram a coisa acontecer. Omissão estatal criminosa, evidentemente, mas não quero me deter nisso.

O linchamento é a linguagem das massas por excelência e não tem origens norte-americanas por acaso. Uma linguagem rústica, pré-racional, de fúria catalisada por emoções descontroladas. Não tem qualquer eficácia como meio repressivo ou preventivo, porque o linchado, caso escape com vida, não ficará inclinado a qualquer outra coisa além de ele mesmo ter a oportunidade de linchar.

A barbárie se retro-alimenta, ela não é justiça nem coisa alguma assemelhada.

Direitos Humanos: umas palavrinhas para afastar tolices.

Esse nome é inadequado e deve ser responsável por uma parcela de quanta estupidez fala-se a respeito. Claro que responsável por pequeníssima parcela, porque o maior responsável mesmo é a inclinação natural para a burrice, o fanatismo e a violência.

O cuidar de nomes é preciosismo meu. Explico-me apenas para ter ocasião de alinhar algumas palavras. É óbvio que ser-se humano não é condição exclusiva e suficiente para surgimento de qualquer direito. Na verdade, pode até ser, mas em um truísmo, ou seja, assumindo-se que todo e qualquer direito é humano. Isso não explica coisa alguma, todavia.

Direitos existem porque pessoas vivem conjuntamente, não porque pessoas existem. Da humanidade decorrem fome, necessidade de urinar e coisas do gênero. Direitos originam-se da necessidade de se regularem relações entra mais de uma pessoa: é social, portanto.

Os que se chamam direitos humanos são direitos fundamentais. Essa terminologia tem ainda a vantagem de ser muito menos arrogante, porque não carrega a pretensão universalista, algo a que o fundamentalismo dominante sempre aspira.

Mas, a grande tolice não é chamar a uns direitos humanos ou fundamentais, é não perceber o que são direitos. São regras, mais ou menos genéricas, com mais ou menos excepções conforme a ânsia detalhista e diversionista de alguma sociedade.

Basta assumir isto e também que algumas dessas regras são bastante gerais, umas até pretendem-se tão gerais que se proclamam devedoras de um princípio de igualdade. Aí está a raiz do que são direitos fundamentais: os mais genéricos possíveis, em que os destinatários consideram-se mais igualmente.

Essas regras podem ser estabelecidas pelo poder que se atribui ao Estado, entidade que detém a capacidade de criar regras, supostamente por consentimento dos cidadãos. O caso é que as tais regras são criadas, que existem e que a comunidade dos cidadãos vive a dizer que aceita esse modelo.

Se o povo aceita esse modelo, deve saber o que são leis e deve obdecê-las e não deve fingir ignorá-las, nem mesmo ignorá-las por orgulhosa estupidez. Se, por outro lado, não aceita o modelo, acha que o Estado faz leis erradas, deve insurgir-se, revoltar-se, pôr o Estado abaixo, qualquer coisa, excepto mentir ou ser estúpido.

No Brasil, são comuns violências aberrantes, notadamente por parte das polícias. São muitíssimo comuns contra pobres e pretos, deve-se dizer sem arrodeios. Quando elas acontecem e são noticiadas pela imprensa ávida por um escândalo ao dia surgem duas reações básicas: a histeria por conta da violação a direitos fundamentais e a repetição de que as vítimas são bandidos e não têm direitos.

Como advertências nunca são demasidas – embora sejam o cemitério do estilo – aqui vai uma: as reações básicas não excluem as mais ajuizadas. Estas últimas são minoritárias, mas existem. Feita a advertência, sigo adiante.

Quem, diante de alguma violência policial violadora de direitos fundamentais, põe-se a gritar que supostos criminosos merecem tal violência é estúpido ou desonesto, ou ambos ao mesmo tempo, o que é até mais comum. Estúpido porque devia saber que a violência não tem respaldo legal e desonesto porque se fosse a vítima invocaria o que rechaça e faria um discurso pelos direitos.

Em Recife, Pernambuco, a polícia deteve, na avenida à beira-mar, área nobre da cidade, uns suspeitos de crimes de furto. Deteve-os na praia, espancou-os e submeteu-os a tratamento humilhante. Jogou-os no chão, com as cabeças dentro d´água, pisou nas caras e fê-los comer areia.

Isso não é dever da polícia neste país. E não é dever sendo a vítima criminoso sentenciado ou não. Simplesmente não é, portanto é ilegal. Isso não é punição dentro da legalidade, porque punições legais por crimes são impostas pelo poder judicial, em processos abertos para a finalidade de apurar se houve crimes.

As punições por crimes, formalmente, neste país, são privações de liberdade ou de direitos, fixadas por um juiz ao cabo de um processo com ampla defesa. A polícia tem o dever de prevenir, investigar e reprimir crimes dentro dos limites da lei, limites que impedem, formalmente, espancar, torturar, humilhar.

Muito embora tudo isso seja elementar, quando se fala que um abuso ilegal é um abuso ilegal, o número dos estúpidos e dos hipócritas diz que acusar as ilegalidades é defender bandidos. Uma afirmação rasa e vulgar, porque um bandido só é culpado depois que o órgão estatal competente o afirma.

Eu gostaria, preferiria, que dissessem abertamente do seu desprezo por leis e coisas do gênero, coisa que não haverá, todavia, porque implicaria que os selvagens fossem nobres e sinceros, quando são patifes covardes. Não têm qualquer apreço pela igualdade legal, mas tampouco têm coragem de afirmá-lo, porque querem manter o discurso justificador hipócrita.

Ora, não há igualdades pela metade ou restrições à igualdade legal senão as previstas na própria lei. Ou bem é-se a favor disso, ou contra. Não há terceira via, para desespero da hipocritocracia vigente.

Mas o reino da relatividade legal avança, para tragédia dos estúpidos e desonestos que o promovem. Sim, porque o vale-tudo que quer manter a lógica do pau-no-lombo sem julgamento, da falta de direitos para bandidos, do linchamento, vai atingir aleatoriamente os espectadores bobos-alegres que o querem.

E serão atingidos sem perceberem porque avança o vale-tudo aleatório, firmes no discurso hipócrita, tomando pau no lombo eles mesmos e falando em direitos, eles que diziam que direitos existiam, mas não para a, b ou c. Que falavam em direitos sem saber o que são, que invocavam igualdades quando era para ganhar algum dinheiro ou disfarçar alguma patifaria.

Vamos propor o Estado policial, senhores! Vamos propor o fim dos direitos fundamentais e o estabelecimento dos julgamentos sumários ou, melhor, da falta de julgamentos. E vamos propô-lo dispostos a matar e morrer por ele! Bem, já é damais, não adianta instigar o vulgo a ter honra.

Aumentou o preço do escravo! A folha lamenta a falta de empregadas domésticas.

Os bons tempos…

A sinceridade é quase inescapável, embora o uso de disfarces também o seja.  A conclusão é que – andando os dois sempre juntos – o discurso nunca é claro, sempre é codificado, de alguma forma. Ou seja, ele é claro para seu destinatário pré-ordenado e precisa ser decodificado pelo destinatário secundário.

A folha de são paulo de hoje traz uma matéria chamada Achar doméstica vira desafio e famílias têm que mudar hábitos, na secção cotidiano. É um lamento mal disfarçado, essa matéria que inicia por dizer que há quinze anos bastava um anúncio de três linhas para contratar uma empregada doméstica.

A coisa é previsível – não apenas por ser da folha – e segue o roteiro habitual de citar especialistas. Estes são pseudo-intelectuais a serviço dos média, prontos a despejarem quaisquer análises, com a terminologia que costumeiramente faz o leitor comum pensar em ciência.

O sofisma dos especialistas passa por desprezar evidências, abordando-as como se fossem aspectos secundários. Os tais especialistas da folha – que os têm para tudo, desde emprego até a vida sexual das abelhas – não dizem abertamente: o desemprego caiu drasticamente e a renda média aumentou. Não dizem porque se dissessem estariam a falar bem do responsável por esta melhora: Lula.

O sofisma sob nome de análise achega-se à patifaria – não poderia escapar a isso – quando insere um elemento volitivo na questão. A análise diz que agora poucas pessoas querem empregos domésticos. Dizem como se um estigma social, uma posição de escravidão mal disfarçada, fosse uma questão de querer-se ou não.

Eles, os tais analistas ou especialistas, não dizem corretamente que, hoje, menos pessoas precisam submeter-se à mal disfarçada escravidão de trabalhar em posição subalterna e estigmatizante de empregada doméstica. A questão não é de querer, é de poder escolher outro trabalho, que não carregue o peso da inferioridade social, um trabalho que, no Brasil, sempre considerou-se quase um favor prestado pelo senhor ao servo.

E isso tem explicações históricas relativamente fáceis. Aqui, houve escravismo até aos finais do século XIX. O pior serviço que o escravo podia desempenhar era nas plantações e o melhor dentro das casas. Então, o serviço doméstico era uma tremenda atenuação dos males da servidão no campo.

Daí, a raiz do trabalho doméstico é um não trabalho, ou seja, um favor do senhor, de atenuação dos rigores da servidão. Mais enraizado na percepção social da condição servil que na pobreza, pura e isoladamente. Porque um trabalho mal-remunerado, em sociedades mais antigas, é ainda um trabalho e assim percebido.

O estigma social do trabalho doméstico é imenso, no Brasil. Basta observar-se que as pessoas que o desempenham não querem e esforçam-se para que seus filhos não se destinem a ele, independentemente do aumento de salários na atividade. A questão aqui é de poder não se dedicar a este trabalho, porque querer, nunca se quis.

Acabaram-se os plurais!

O título não é grande exagero; foram-se embora os plurais da língua falada pela imensa maioria das pessoas no Brasil. É engraçado, mas ainda impressiono-me com isso. Não é que ache bom, nem ruim, apenas feio.

Como acontece com quase tudo, o fenômeno é pouco distinto por classes sociais e econômicas, ou seja, permeia quase todas elas. É uma supressão democrática, ampla, geral e quase irrestrita.

Uma coisa tem-me chamado bastante atenção, é o seguinte: estou a falar com alguém que não usa plurais; uso as flexões de número porque habituei-me a elas e uso-as naturalmente; o interlocutor não percebe a diferença, ou seja, não se sente corrigido, nem provocado, nem coisa alguma; quer dizer, simplesmente deixou de perceber isso!

O comentário do parágrafo anterior explica-se porque seria sintomático que alguém percebesse nos plurais do interlocutor a falta deles na própria fala. E que assim percebendo, talvez se sentisse acusado de erro ou insinuadamente acusado. Não que alguém – eu, por exemplo – use dos plurais para acusar os outros, que os não usam, mas seria uma reação possível.

A indiferença como reação – ou falta dela, mais corretamente – significa que o normal é a falta de plurais, ou seja, os artigos flexionados indicando substantivos singulares, uma ilogicidade, mas, enfim, tornada normal.

Tento compreender as razões disso. Não quero fazer tese de investigação científica, mas fico a testar hipóteses mentalmente. Lembro-me que é relativamente comum as pessoas aproximarem as formas faladas, para obterem identificação com os interlocutores. Assim, conforme o meio e o interlocutor, fala-se mais ou menos sofisticadamente.

Mas, a supressão quase geral dos plurais na língua falada não se explica pelo que supus no parágrafo acima ou, pelo menos, não se explica somente por isso. Porque essas assimilações propositais soam artificiais e acabam por trair o propósito inicial de gerar identidade e simpatia.

Pensei também na lei do menor esforço ou, por outras palavras, na preguiça. Pensando bem, todavia, pareceu-me pouca razão, porque a flexão é fácil e implica poucas letras e poucos fonemas a mais.

Obviamente, pensei no hábito, e acho que é a razão. Porém, uma razão para o processo já em andamento, não uma razão inicial, por que não há hábitos iniciais. Por outro lado, lembro-me que o hábito não é tão amplo na língua escrita.

Aproveitando para escapar à busca por causas primeiras e reportando-me ao dito sobre língua escrita, passei a outra coisa interessante: uma significativa parcela dos que escrevem com plurais fala sem eles! Nesses casos, deve-se aceitar um divórcio completo entre o escrito e o falado.

O escrito é geralmente assumido como algo muito diferenciado, como um código difícil, a ser utilizado restritamente por possuidores de grandes segredos. É óbvio que o falado e o escrito são coisas diferentes e que o escrito, por exemplo, não reproduz as repetições e hesitações do falado. Todavia, a diferença entre os plurais e a falta deles é de outra natureza.

É um hábito que mostra o desprezo pela normatividade da gramática, por um lado, e pela lógica, por outro. Quanto à normatividade gramatical, pouco problema há, porque ela muitas vezes não tem com a lógica. Ora, se eu falo duas vaca, o duas já mostrou o plural, que a flexão no substantivo apenas vai completar.

Mas, se eu digo as porta, flerto com a preguiça e a falta de lógica, porque poderia ter dito a portas, cumprindo a mesma função e seguindo a mesma razão. Definindo, não há como escapar à necessidade de definir o número no substantivo.

O caso é que tornou-se normal, absolutamente normal e costumeiro. E que muitos, que abolem os plurais, sentem-se plenamente à vontade para apontar outros equívocos de pouca importância na fala de outros. Eis a guerra dos surdos contra os cegos…

Estado mínimo é a proposta dos que não vivem sem ele.

O capitalismo brasileiro nunca teve discurso coerente com sua realidade, excepto por um e outro sujeito mais honesto intelectualmente. Sua realidade é de simbiose ou parasitação do Estado, ou seja, de lucros privados e prejuízos públicos. Mas, a coisa apresenta detalhes mais profundos, que evidenciam a desonestidade da repetição acrítica do discurso do Estado mínimo, precisamente por aqueles que predam o Estado.

Esta opção, a do discurso do Estado mínimo, parece atender a uma necessidade de se parecer crítico e de se renderem homenagens ao liberalismo teórico. O capitalista brasileiro típico sente-se mal no seu hibridismo e precisa disfarçá-lo; precisa, pois, afirmar um desejo que na verdade é profundamente inverídico.

A necessidade de distinção relativamente aos predadores sinceros visa a marcar uma aparente posição de modernidade – um tremendo anacronismo, pois sabe-se que essa modernidade é o dia-a-dia – e buscar aceitação social. Passa por afirmar um discurso que seria a sua absolvição teórica da tremenda apropriação de riquezas sem correspondentes méritos.

Se, de fato, esse grupo fosse composto por livres empreendedores que chegaram onde estão sem quaisquer ajudas estatais, o discurso estaria bem posto e significaria uma notável iniciativa de honestidade intelectual e de assunção de riscos políticos. Todavia, é mentira, porque a realidade os desmente impiedosamente.

Não é o caso de se alinharem aqui todas as formas de simbiose e predação do Estado pelos falsos livres empreendedores brasileiros.  Mas, convém dizer que o Estado mínimo seria a ruína desses hipócritas sem limites que o propõem. E, um e outro exemplo pode vir a calhar para o desenho dessa impostura.

Todos os grandes empreendimentos capitalistas brasileiros contaram com subsídios públicos, seja por via direta, seja por isenções tributárias, seja por empréstimos baratos. Assim funciona por toda parte, apenas não se o deve negar! Contaram ainda com subsídios indiretos, menos perceptíveis, como são as escolhas pontuais dos investimentos do Estado em infra-estruturas.

Se pensarmos nos empreendimentos médios, basicamente não industriais, a coisa é também evidente, embora pouco mais disfarçada, e talvez mais escandalosa. Deu-se que o Estado, apropriado privadamente pelos que falam mal dele, retirou-se de setores fundamentais de serviços, a que está formalemte obrigado. Falo, evidentemente, de saúde e de educação.

Nunca foi grande problema a omissão Estatal, desde que ela gere problemas somente para as camadas mais pobres da população, porque a constituição cumpre-se segundo as circunstâncias e seus intérpretes estão a serviço dos predadores do Estado. As questões do descumprimento de um e outro direito constitucional têm visibilidade quando são, na verdade, questões menores elevadas a espetáculo.

Na educação, o Estado retirou-se quase totalmente dos níveis básicos e parcialmente do nível superior. Abriu, assim, espaço para os prestadores privados. Estes últimos não ocuparam o espaço à força de empreendedorismo tomador de grandes riscos, como seria o caso em um sistema liberal puro e coerente consigo mesmo.

Obtiveram do Estado, que controlam e que se retirou de onde deveria estar, benefícios como as isenções fiscais e a mentira escandalosa das entidades sem fins lucrativos. É um panorama maravilhoso de escolas beneficentes, em que a benemerência curiosamente levou seus donos à riqueza!

No caso da educação de nível superior, a coisa vai mais além, porque os preços cobrados são ainda mais elevados e os subsídios ainda maiores. O mesmo Estado que deve ser mínimo – no discurso desses intrépidos empresários – praticamente isenta faculdades privadas do pagamento de tributos e financia o pagamento pelos serviços.

Ora, se o Estado renuncia a tributos e financia os alunos para que paguem a instituições privadas, porque não gasta esse dinheiro na criação e manutenção de universidades públicas? Ou, do contrário, se o Estado deve ser mínimo, porque não deixa as universidades privadas entregues à sua maravilhosa sorte de livre iniciativa?

O divórcio entre o discurso e a prática fica evidente na postura dos empreendedores, que são intermediários dos dinheiros públicos e não querem a atuação direta do Estado. Ora, isso não é Estado mínimo, é Estado a transferir dinheiros recolhidos de todos – por meio de impostos – para poucos prestadores de serviços que deviam ser públicos e para grandes industriais.

Alguns pretendem inserir uma pouca de sofisticação no discurso, alegando que não se trata do Estado abster-se de dispender recursos, mas que se trata de sua suposta incapacidade gerencial, o que não recomendaria sua presença direta nas prestações. Isso é mais uma variante da falácia, agora acrescida do lugar-comum tolo da capacidade gerencial.

Do ponto de vista gerencial – para usar o termo da moda – é uma estupidez acrescentar intermediários a uma cadeia de instituições cujo objetivo é prestar um serviço. Além disso, em setores de fortíssima demanda, que raio de diferença a capacidade gerencial vai fazer, se se trata de algo que todos querem?

Mais uma sub-variante dessa estória de capacidade gerencial é aquela da prestação por locadores de mão-de-obra. Segundo os teóricos do assalto disfarçado, seria mais barato contratar empresas locadoras de empregados que tê-los diretamente assalariados, porque os custos tributários estariam excluídos.

Aqui, a coisa é mais de mentira escancarada que de argumento sofisticamente elaborado. Os custos tributários – previdência, imposto sobre renda e fundo de despedimento arbitrário – serão pagos por alguém, obviamente. Esse alguém é o próprio Estado, o locador dos empregados, porque o locatário não é um filantropo, mas um predador brasileiro a discursar pelo Estado mínimo!.

Convém ainda lembrar que esses locadores de mão-de-obra provavelmente quebrarão ou mudarão de nomes e de sócios, promovendo a insolvência e a confusão. E aí, o maldito Estado virá em socorro dos empregados, que afinal são a parte mais fraca mesmo, e pagará tudo diretamente. A empresa locadora provavelmente terá quebrado, mas busque alguém saber se os sócios terão…

Em busca de exemplos, posso seguir alinhando os mais diversos, mas seria cansativo e até inútil. Importa somente mencionar, pela magnitude do saque e da hipocrisia, o caso da saúde provida por hospitais privados que recebem dinheiro do Estado. A maioria reclama a cada minuto, mas não vive sem esta simbiose. Se o Estado paga pouco por algum procedimento, inventam-se procedimentos e pronto, fiat lux.

No fim e ao cabo, é mais uma postura a revelar o quanto de mentira permeia o discurso das classes mais elevadas da sociedade brasileira e que consegue seduzir alguns daqueles que são prejudicados pela proposição. O problema é que a mentira, no fundo, é percebida e gera uma ambiente em que o vale-tudo e a hipocrisia são elevados à normalidade e a valores inevitáveis.

Energia nuclear. Uma entrevista de James Lovelock.

Uma entrevista objetiva de um cientista que foi um dos próceres dos ecologistas. O homem trata com evidências e obviedades, para concluir o óbvio: não há melhores alternativas para um planeta com tanta gente. A resposta à pergunta sobre o lixo nuclear – ponto central da rejeição ecotola – está destacada em negrito.

Por que usar energia nuclear e não outras formas tidas como ecologicamente corretas, como a eólica e a solar?

Seria ótimo se pudéssemos contar somente com essas fontes de energia, mas elas não satisfazem nossas necessidades. Se houvesse 1 bilhão de pessoas no mundo, bastaria usar as energias solar, eólica, hidrelétrica e uma quantidade modesta vinda da queima de madeira. Mas já somos mais de 6 bilhões e a população continua aumentando. A energia nuclear é limpa e não provoca aquecimento. Uma estação pode ser construída em três anos. É também uma fonte de energia altamente disponível, não está acabando nem ficando mais cara, como o petróleo.

Um desastre como o de Chernobyl, na União Soviética, não seria suficiente para banir as usinas nucleares?

Há muita mentira em torno desse assunto. De acordo com informes da ONU, houve 45 mortos em conseqüência da explosão do reator em Chernobyl. Quase todos eram trabalhadores da usina, bombeiros e integrantes das equipes que sobrevoaram o fogo para apagá-lo. Os 45 morreram principalmente devido à radiação recebida pelo reator aberto e pelos escombros altamente radioativos que se espalharam ao redor dele. Aqueles que moravam perto da usina foram expostos à radiação, mas continuam vivos. É verdade que alguns podem morrer antes do esperado com cânceres provocados por radiação, mas lembre-se: em 1952, 5 mil pessoas morreram em Londres, num único dia, envenenadas por fumaça de carvão. Estima-se que centenas de milhares morreram desde então em decorrência de câncer do pulmão causado pela inalação de substâncias cancerígenas na fumaça. Mas a mídia não fala da queima de carvão como causa massiva de tumores.

Por que, então, há tanta oposição ao uso da energia nuclear?

As pessoas sempre têm medo de algo. Antes, eram fantasmas e vampiros. Hoje, energia nuclear. A oposição baseia-se numa ficção hollywoodiana, na mídia e em lobbies do movimento verde.

Você sempre foi considerado um guru dos ecologistas e agora não perde uma oportunidade para criticá-los. Qual é o motivo desse desentendimento?

Os verdes são importantes, mas estão errados. Eles se preocupam com as pessoas e esquecem da saúde da Terra. Não percebem que somos parte do planeta e dependemos dele. Eu mesmo sou um verde, mas tento mostrar que estão errados sobre energia nuclear.

Ao quebrar átomos, as usinas nucleares não alteram o equilíbrio de Gaia?

Ao contrário. Se você olhar para o Universo, verá que sua energia natural é nuclear. Toda estrela é uma estação nuclear, inclusive o Sol. O único método anômalo de obtenção de energia é a queima de combustíveis aqui na Terra. É muito mais natural usar energia nuclear do que queimar carvão e mandar gás carbônico para a atmosfera.

Você pede o fim da queima de óleo e carvão. Mas muitos países, como o Brasil, têm na água a maior fonte de energia. Como a troca que você propõe mudará um quadro com tantas variáveis?

Concordo que diferentes países terão soluções distintas para o problema. Mas, no momento, usar energia nuclear é a saída mais acessível e realista para o aquecimento global. Estados Unidos, China e Europa precisam cortar imediatamente 60% do combustível fóssil queimado para não termos conseqüências desastrosas. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, a temperatura no planeta aumentará em média 3,5 graus até 2100. Para comparar, na última era do gelo, que terminou há 12 mil anos, a média de temperatura era 3,5 graus menor que em 1900. Ou seja: a mudança até 2100 será comparável àquela entre a era do gelo e 1900. A floresta amazônica não existia naquele tempo. E ela pode também não existir no fim deste século.

Basear a eletricidade em energia nuclear não provocará uma exploração desenfreada de urânio que ameaçaria a natureza de países como o Brasil?

Não, porque as quantidades são pequenas. Um quilo de urânio produz aproximadamente 10 milhões de vezes mais energia que a mesma quantidade de carvão ou petróleo. Na verdade, o Brasil poderia ter benefícios econômicos com a mudança, tornando-se um grande provedor mundial de urânio.

E o que faremos com o lixo atômico?

O volume de lixo atômico de alto nível produzido pelas usinas nucleares do Reino Unido, em seus 50 anos de atividade, equivale a 10 metros cúbicos. É tamanho de uma casa pequena. Se colocado numa caixa de concreto, esse lixo seria totalmente seguro e a perda de calor ainda poderia ser aproveitada para aquecer minha casa.

As usinas nucleares não podem se tornar alvo preferencial de terroristas?

Não creio. As estações nucleares estão localizadas em construções fortes. Parecem mais bunkers que edifícios normais. Tenho informações de que elas podem suportar o choque de um avião, por exemplo. O grande perigo em relação aos terroristas é que eles roubem plutônio ou urânio em quantidade suficiente para fazer uma bomba atômica rudimentar. Enormes estoques desses elementos foram armazenados na Europa, na ex-União Soviética e Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Você acredita que as multinacionais do petróleo podem encampar sua proposta e produzir energia nuclear?

Certamente. Elas não se consideram companhias de petróleo, e sim energéticas. Não lhes importa de onde a energia vem, mas o lucro que conseguem nesse preocesso. Creio que elas poderiam, inclusive, investir na construção e operação de usinas nucleares.

James Lovelock

Em: http://www.ecolo.org/lovelock/lovelock_gandhi_nuc-Braz_04.htm

O bispo, os índios e o médico de Anus Mundi em: “Esse milagre é meu!”

Por Sidarta.

Corria o ano de 1917 e três crianças educadas em um catolicismo medieval viram e conversaram muito com Nossa Senhora, e ainda pintaram o sete com a lei da gravidade fazendo variar erraticamente a órbita do sol… Isso por várias vezes, ali pelo Ribatejo, em Portugal.

Esses eventos, reconhecidos pela igreja católica como sendo milagres, promoveram a realização de muitos filmes de cinema com o intuito de divulgar a religião e de melhor distribuir e circular a renda dos fiéis.

Em meados dos anos 1930’s, em Anus Mundi, no Piauí, chegou uma versão ainda muda do filme da tal aparição de Nossa Senhora aos três meninos portugueses. O cinema, o cartório e a pia batismal estiveram lotados por vários dias, com o tabelião e o padre recusando-se a registrar e a batizar crianças com os nomes de Francisco, Jacinta ou Lúcia, tal iria ser a previsível confusão na cidade anos depois.

No alto da serra próxima à cidade, nos contrafortes do Araripe, vivia uma família também muito beata e com três filhos que, por pura coincidência, eram duas meninas e um menino. Essa família veio a Anus Mundi para ver o filme das aparições de Nossa Senhora.

O filme só não foi mais visto em Anus Mundi do que “Os Dez Mandamentos”, que apareceu muitos anos após, mas superou o número de assistentes de “La Violetera” já nos anos 1960’s.

Perto do local onde viviam as tais crianças, vivia também uma comunidade de pessoas que se proclamava descendente de índios e era, até então, humilde, pacífica e que compartilhava entre os seus membros os poucos recursos que tinham.

Não deu outra, dias depois os meninos resolveram subir em uma pedra lá no alto da serra perto de onde moravam, na esperança de também ver Nossa Senhora, e a viram mesmo… segundo eles. Receberam até instruções específicas da santa para que combatessem ferrenhamente o comunismo ateu, coisa de que não tinham a menor idéia do que se tratava, mas de que já tinham ouvido os seus pais falando em casa.

A notícia chegou logo aos ouvidos do bispo da diocese a que pertencia Anus Mundi, aos da comunidade de índios que vivia por perto e aos do médico da cidade.

Cuidadoso, o bispo enviou ao alto da serra um padre experiente em exorcismos e em desmascaramento de falcatruas para entrevistar as crianças, que voltou atestando o milagre das aparições, mesmo ele não conseguindo ver ou ouvir nada do que as crianças diziam ser a conversa com a santa, e também o propalado poder curativo do ar e da escassa água do riacho que passava no fundo do vale e que atravessava algumas plantações e currais de gado.

Voltou também com algum dinheiro para comprar uma batina nova, sapatos e chapéu eclesiástico, e também uma sela nova e mais confortável para o seu cavalo.

Era preciso, agora, definir um nome para a santa e conseguir um milagre, ou de preferência três, para que se iniciasse o processo de homologação das aparições e da santidade do local, assim como a igreja já reconhecia Lourdes, na França, Fátima, em Portugal, Aparecida, em São Paulo, e tantos outros mais.

Alguém às portas da morte deveria tomar um pouco da água do riacho no alto da serra, pedir uma graça e se recuperar, pensou o bispo.

Em uma semana o senhor bispo conseguiu um voluntario, um cidadão com a barriga inchada e sinais de cirrose alcoólica avançada, e o fez tomar da água do riacho da serra que atravessava plantações e currais de gado. O coitado morreu de diarréia dois dias depois, fazendo o bispo suspeitar de que a água não servia, pelo menos, para cirrose alcoólica nem para andaço. Mas, talvez servisse para reumatismo, uma doença muito comum em locais frios e úmidos no inverno.

Levando a coisa mais a sério, foi o senhor bispo diocesano, que tinha reumatismo, quem resolveu ir discretamente a Anus Mundi e passar pessoalmente uns dias no alto da serra bem perto do local da aparição nordestina de Nossa Senhora a três crianças piauienses, Raimundo, Severina e Maria, em uma casa até onde se conseguia chegar a cavalo e cujo local Sua Excia. Reverendíssima denominou de Cova do Pé da Serra. A santa tornou-se, inevitavelmente, Nossa Senhora da Cova do Pé da Serra.

A viagem a cavalo serra acima o deixou cansado no primeiro dia e o reumatismo piorou; no segundo dia sugeriram a ele que tomasse da água do riacho, coisa que ele fez, mas depois de mandar ferver a água, evaporando, talvez, os seus fluidos etéreos curativos: também não funcionou. No terceiro dia o bispo concluiu que nas habilidades específicas daquela santa anusmundense não estava a cura do reumatismo, desceu a serra a cavalo e voltou para a sede da sua diocese para pensar.

Foi aí que os pretensos índios, que moravam lá por perto há muito mais tempo, disseram na feira de Anus Mundi que as pessoas lá na serra tinham pouca tosse e asma, provocando um grande fluxo de romeiros asmáticos ao alto as serra para experimentar a cura, agora também orientada pelo pagé da tribo que dava um chá complementar de ervas secretas aos seus pacientes.

Passaram também os índios a cobrar uma “taxinha” de trânsito pelo seu território aos que desejavam chegar até o tal local de aparição da santa, e não se contentavam em ficar somente na parte alguns metros mais baixa do terreno onde moravam os índios e trabalhava o pagé.

De imediato, caiu sensivelmente o movimento de asmáticos na farmácia de Anus Mundi e no consultório do doutor, indo os dois, o farmacêutico e o médico, junto com o padre local conversar com o prefeito para que estudassem uma solução mais empresarial para a mina de ouro que tinham achado  na cidade e que agora os índios estavam criando dificuldades para que fosse devidamente explorada.

A muito desejada solução economicamente conciliatória chegou rápido: a igreja ia emitir um decreto papal “Ad Revisionem Locus Miracoli Mater Dei Anusmundensis”, trazendo o local das aparições para fora da área do pedágio dos índios; o médico ia fazer uma palestra no cinema sobre os perigos para a saúde ao se tomar água do riacho da serra; as crianças viriam ver e conversar com Nossa Senhora da Cova do Pé da Serra no novo local, que ia ter estrada calçada com pedras e onde os mais dotados podiam até chegar de carro de praça; o prefeito ia mandar construir uma imensa imagem da santa com as três crianças ajoelhadas batendo papo com ela; e iam pensar também em como construir um hotel na cidade que fosse mais atraente aos romeiros que vinham de fora do que a antiga Pousada da Rodagem, que também funcionava como um motel primordial.

Para refinar a decoração do novo local das aparições, o prefeito contratou um caro escritório de arquitetura e uma construtora de Teresina para projetar e construir as novas instalações para a sua santa, incluindo uma fonte de água tratada, levada até lá em latas no lombo de burros e que, quando posta a funcionar quando chegavam romeiros de fora, não matava ninguém de diarréia.

Os pais das crianças também ficaram com o seu quinhão: os meninos foram alfabetizados e autografavam os livros com as suas biografias, e a loja de souvenires vendia santinhos, fitas, terços e medalhas (todas com a inscrição “Ad Revisionem Locus Miracoli Mater Dei Anusmundensis” impressa na periferia em torno da imagem da santa da Cova do Pé da Serra.

Na época do São João havia festas no local e é até possível que o nome de “Forró de Pé de Serra” tenha surgido por lá.

No frigir… os capitalistas e a igreja combateram mesmo o comunismo ateu e acabaram o negócio dos índios.

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