Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 59 of 126)

A burrice é arrogante e resulta na morte de funcionários da ONU no Afeganistão.

Um pastor evangélico norte-americano, Terry Jones, inventou de queimar exemplares do Corão. Foi demovido dessa estupidez e descortesia imensas, sabe-se lá a quê custo.

Mas, como a burrice e a falta de cortesia não encontram limites, outro fulano do tipo, Wayne Sapp, retomou a idéia e concretizou a queima, em 20 de março próximo passado.

Como resultado previsível de uma agressão, houve reações. No Afeganistão, que nem os ingleses, nem os russos conseguiram desorganizar como os norte-americanos estão a fazer, mataram-se vários funcionário da ONU.

Não mataram soldados norte-americanos porque não conseguiram, é óbvio. Mas, o pessoal da ONU serve para isso, pois material e formalmente identifica-se como outro, para os afegãos.

Uma ação dessas não se inscreve em movimentos estratégicos maiores de criação e manutenção de tensões e conflitos. Para isso, os interessados servem-se de meios sistemáticos e articulados, não de manifestações isoladas.

Ou seja, o ambiente, na sua dinâmica própria, iniciada e lubrificada por litros de massificação e maniqueísmo raso, gera atos pontuais com um potencial imenso de agressão. São manifestações profundas de burrice e de arrogância.

Sim, a burrice é profundamente arrogante, porque é intrusiva e não considera as hipóteses contrárias. Ou seja, a burrice tem mão única, ele não leva em conta que o agredido é exatamente como o agressor, se estivessem em posições inversas.

Identificam-se, burrice e arrogância, precisamente em desconsiderar que as reações que uns têm diante de agressões os outros também as terão. A burrice sente-se tão superior ao outro que não imagina, nem prevê que ele reaja. Não o considera um ser com valores, dignidade e honradez próprias, logo imagina-o destinado a resignar-se às agressões. Nisso, é profundamente arrogante.

Essas tolices pontuais e desarticuladas do grande sistema são muito inconvenientes para os senhores da guerra, do imperialismo. Eles querem ter sob algum controle as rejeições que despertam, querem manter um discurso de aparências que, embora divorciado de suas práticas, não contenha agressões formais evidentes.

Assim, o sujeito sai de casa para matar, porém a falar de direitos humanos, tolerância, democracia e outras coisas de nebulosa existência. Assim, vai matando e roubando e justificando-se e explicando-se e mentindo.

Aí, surge um sujeito que não percebeu o grande acordo e rasga as conveniências, afirma a diferença, a inferioridade dos outros, viola seus símbolos caros, despreza consequências previsíveis. Enfim, surge um idiota arrogante, mas sincero.

 

É de pesar?

Seu Apolinário tinha um armazém de secos e molhados. Na verdade, um armazenzinho tão pequeno quanto era a cidade dele. Pequenos, armazém e cidade, como podiam ser essas duas coisas na década de 1960, no interior do Nordeste do Brasil.

A única peculiaridade do estabelecimento de Seu Apolinário é que não fechava as portas no horário de almoço, aquele de extremo calor e extrema preguiça. Certamente que isso não se devia à intrepidez comercial dele, mas àlguma mania ou hábito, ou conveniência.

O fato é que Apolinário comia o almoço, que Dona Conceição trazia de casa, ou seja, dos fundos da loja, atrás do balcão. Depois, punha de lado o prato, esticava as pernas e cochilava um sono bem leve, com o botão de cima da camisa aberto. Estava atento, todavia.

Os calores diurnos do agreste nordestino renderiam quilos de papel , tanto em descrição, quanto em poesia. Poupemos essas decrições e esqueçamos da poesia, que ambos seriam longos e eu incapaz da segunda. Fato é que, entre onze horas e três da tarde, quem tem juízo descansa o juízo.

O gato do armazém de Seu Apolinário tinha juízo bom. Quer dizer que o felino dormia nessas horas infernais. E, quer dizer que ele, o gato, ser inteligente, dormia nos locais mais frescos.

Como qualquer armazém, o de Seu Apolinário tinha uma balança, daquelas de dois pratos de metal. De um lado, põe-se o produto comprado a peso, de outro, os pesos de ferro. Ficava em cima do balcão, de madeira velha e alisada pelo tempo. O que havia de menos quente nesse ambiente eram os pratos da balança.

Se alguém vinha até ao armazém nessas horas de almoço, cheio de urgências que levavam àquela única loja aberta, Seu Apolinário abria mais os olhos e perguntava, antes de qualquer boa-tarde: é de pesar?

Sim, porque se o cliente quisesse um produto cuja venda dependesse de pesar-se a quantidade, ele dizia para passar mais tarde. Se o cliente insistisse, ele apontava para o gato deitado no prato da balança.

Justo homem! Acordar um gato para vender algo?

 

Jimmy Carter em Cuba. Apenas para falar de uma lembrança.

 

Lembro-me bem – que eu devia ter uns vinte e poucos anos – de um almoço na casa de meu tio Fernando, em que estava um amigo prezado dele, Camilo Steiner. Camilo, não me lembro se era austríaco há muito no Brasil, ou brasileiro filho de austríacos – era casado com Janet, norte-americana.

Janet era amiga de escola de Rosalynn Carter. Eles eram amigos, os casais Steiner e Carter. Camilo Steiner gostava de Carter, como se gosta de um amigo. Tinham-se hospedado na Casa Branca, quando Carter era Presidente e eles foram visitá-los nos EUA.

Pelas tantas, no almoço em Recife, falava-se das atuações dos EUA no mundo, na época o presidente era o Bush pai, acho. Inaugurava ou aprofundava a indignidade e a falta de honradez que vem caracterizando esses presidentes. Eles falavam, eu escutava, que na época ainda escutava bem.

Conversavam e Fernado disse: Camilo, diz a Andrei, que é novo e anda impressionado com patifarias, o que é Carter e um presidente americano.

Carter – ele disse olhando para mim – é uma pessoa que teu tio receberia em casa e tu sabes que isso depende da pessoa, mais que do presidente ou outra coisa.

Fiquei com isso na cabeça. A situação faz-me parcial, não escapo a julgar de uma forma parcial, os personagens levam-me a isso.

Carter, independentemente daquele amigo de Camilo Steiner, é uma figura muito além de outras que ocuparam a presidência norte-americana, mais real e menos imbecil e menos rude e mais inteligente e mais georgiano e mais civilizado.

 

A obsessão do sangue, de Augusto dos Anjos.

Acordou, vendo sangue… — Horrível! O osso
Frontal em fogo… Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!

Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!

No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão …

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!

Soldados dos EUA brincam com cadáveres de afegãos!

Não feche os olhos, olhe! É feio como nós somos feios internamente. Não é só matar, é divertir-se a matar e ter o cuidado de registrar a diversão. Não é novidade, mas não deixa de ser escandaloso apenas por faltar originalidade.

Eles não compreendem porque são vastamente odiados. Não compreendem que já se percebeu a profunda hipocrisia de seus discursos de direitos humanos ou democracia ou qualquer outra merda destas.

Adiante, o exército norte-americano levando o bem-estar, a democracia, os direitos humanos e uma mensagem de paz aos afegãos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Guerra: o principal por trás dos acessórios.

Não se faz a guerra por interesses alheios. Dos interesses dos outros, cuidam eles e só eles. A guerra por interesses estranhos aos próprios só tem exemplo nos mercenários, mas esse caso não invalida a assertiva inicial. Os mercenários estão a soldo e custam caro; eles não fazem a guerra por interesses alheios, fazem-na por pagamento.

A guerra é instrumento de conquista ou de manutenção: de dinheiro, de território, de recursos naturais, de honradez. Há outra variante das motivações mais evidentes, que com elas se mistura: a geração de despesas para uma nação, a bem de quem vende os instrumentos de guerra.

O evidente é que não se fazem guerras para proteger os outros. Aqui, dois aspectos destacam-se: primeiro, o que se consideram outros; e segundo, a mentira que subjaz à guerra pelos interesses alheios.

Outro é definido por identidade cultural, alem de identidade de interesses econômicos e financeiros. Isso não se devia esquecer, para não se ficar em percepção enviesada e insuficiente do que está em jogo. Para que não se lancem objeções superficiais, outro é muito mais que a diferença entre nacionais de países diferentes.

Mas, não se limita às diferenças, por exemplo, entre muçulmanos e cristãos. Saber o que são os outros implica considerar a história e a cultura como elementos fundamentais das tensões que resultam em guerras. Contra os semelhantes – os não – outros – podem-se fazer violências tremendas, também.

Todavia, as violências entre semelhantes delimitam-se no âmbito não-violento, fisicamente. Delimitam-se no âmbito institucional, jurídico. É questão de embate entre os que detém mais riquezas e os que detém menos. Essa tensão no mesmo grupo resolve-se de forma menos drástica que a guerra, embora possa ser tão ou mais perversa.

O outro é aquele que pode e deve receber bombas na cabeça, porque definido por exclusão. A exclusão do diferente permite que ele seja um fator de justificação, pura e simplesmente, assim mesmo, despersonalizado.

Um exemplo basta, entre muitos. Bombardear a Líbia – ou o Iraque, ou qualquer outro outro – é algo que a opinião pública dos bombardeadores concebe quase abstratamente, com toda confusão que o abstrato pode gerar nas massas. Misturam-se mil e uma impressões, pedaços de conceitos, fragmentos de conhecimentos poucos, para gerar a paixão.

A paixão, tão superficial quanto as lágrimas que substituem uma emoção forte por uma fraca, é cega e torna cegos os que a ela sucumbem. A paixão está a serviço da razão, mas a inclinação emocional de uns a serviço da atividade clara de outros.  Não que uns apoiem estupidamente outros, porque todos sabem a que se visa e o que se ganha.

Todos ganham, uns mais e outros menos, todos são culpados, todos são vencedores ou perdedores. Assim é, porque uns são outros, contra quem tudo é possível, tudo é roubável.

Pára estancar o discurso meio obscuro, lembremos que a gasolina é barata nos EUA porque os outros, que a produzem, não são donos dela. Se eles resolvem aumentar o preço desse líquido inflamável, formam o consenso dos que o consomem. O consenso dos que se beneficiam mais e menos contra os que não se beneficiam de nada.

Faz-se a guerra, a bem de qualquer mentira, que elas servem igualmente bem, sejam bem elaboradas ou não. Faz-se a guerra por razões humanitárias. Esse nome, destituído de significados tangíveis, insere-se no simbólico. Quero matar, mas quero dizer que tive motivos para fazê-lo.

 

Resoluções da ONU, morticínio e o amor juvenil pelas formas.

Leio um artigo assinado, no Diário de Pernambuco de hoje. O escritor ocupa o papel e despende a tinta, a falar do mundo, da ONU, da Líbia, da democracia, do concerto universal, do direito disso e daquilo. Não faz mal à digestão de uma laranja e duas xícaras de café, meu desjejum domingueiro.

Na verdade, faz quase nada, nem agride a lingua, o que já é vantajoso. Em certo ponto, porém, o apego cego – sim, porque não me permito usar ingênuo, que então essa seria minha postura – pelas formas.

O artigo propõe que os bombardeamentos à Líbia deram-se de acordo com uma resolução da ONU, assim mesmo, como se falasse de algo autorizado pelo Deus que subitamente se encarnasse e desse uma ordem. E, a destruição que vem dos céus autorizada por uma resolução da ONU é, portanto, um assunto neutro, asséptico. Deixa de ser uma destruição, passa a ser uma não-coisa, a ser vista pela ótica de uma juridicidade sem nada por trás.

Uma resolução da ONU não passa da decisão de cinco membros, os que têm poderes de veto. Uma decisão de cinco membros representa os interesses deles, só e exclusivamente. Não consiste em qualquer fonte de direito, mas em expressão de poder minoritário. Ou seja, não pode ser fonte jurídica nem mesmo sob o prisma democrático!

O bombardeamento da Líbia não é, nem um assunto jurídico, nem uma bobagem qualquer, nem uma missão humanitária. É o início de uma ação saqueadora maior, para que pouco importam mortes desses ou daqueles civis. Não encontra qualquer chave de compreensão jurídica, porque não há esse direito de violar soberanias, não há mesmo direito quando se inicia a guerra, um e outro são coisas diversas.

É ocioso buscar entender um saque de recursos naturais a partir de autorizações da ONU, porque elas sempre existirão para autorizar, primeiro o que não demanda autorização, segundo o que sempre será autorizado segundo os interesses dos detentores do veto.

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