Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 122 of 126)

Nós, quem, cára-pálida?

O Zorro era um fidalgote meio castelhano da Baixa Califórnia. Estudara na Europa e voltara com frêmitos de defender os oprimidos dos opressores, ou seja, dele próprio e de sua classe. Mas, essas questões de coerência política das personagens e tolice. De certa forma, o Zorro é um transplante da figura de garbo e virilidade da cultura ibérica, ou seja, do toureiro. Basta imaginar aqueles seus trajos pretos agora coloridos em vermelhos e amarelos para vê-lo como um toureiro.

Houve, contudo, uma falsificação: o Zorro norte-americano, um cowboy como tantos outros, de chapéu branco. Essa figura era o Lone Ranger, o Cavaleiro Solitário, que, não sei porquê, ficou conhecido também como Zorro. Esse Zorro branco – vou chama-lo assim e evitar a distinção verdadeiro e falso – acompanhava-se de um índio, chamado Tonto.

Tonto era a figura aparentemente anacrônica do escudeiro subserviente, devoto ao patrão por opção lúcida e livre de quem vê no outro a superioridade caucasiana do colonizador. Advirto que a culpa de ser possível essa análise não é minha, mas da própria fábula e das disciplinas de história e de sociologia. A provar essa condição do índio Tonto, veja-se que o Zorro branco era o Cavaleiro Solitário não obstante andasse acompanhado! É preciso muito desprezo para lançar-se a uma tal contradição.

Mas, vamos para a anedota, que é a que se refere o título. Um certo dia, deslocavam-se o Cavaleiro Solitário e o índio Tonto por paragens que podiam ser da Califórnia, de Nevada ou do Novo México ou qualquer uma. E viram-se cercados de uma tribo hostil de índios, os selvagens inimigos com quem o Zorro branco batia-se de tempos em tempos. A despeito da fartura de munição e da grande competência com as armas, o Zorro branco percebe que não há escapatória e que seriam capturados ou eliminados pelos peles-vermelhas.

Então, o Cavaleiro Solitário diz para o índio Tonto: Estamos perdidos, Tonto! E o índio replica: Nós, quem, cára-pálida?

Que sirva a piada para fazer pensar os que desacreditam das identificações, nas horas limites.

Geni e o Zepelin. Guy de Maupassant deve mesmo ser citado.

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Ouvi a música de Chico Buarque antes de ler Bola de Sebo, de Guy de Maupassant. Assim que li o livro – isso já há bastante tempo – pensei na música. Geni é uma Bola de Sebo alegórica.

Na época da ocupação prussiana na França, à volta de 1870, os burgueses de uma pequena cidade querem fugir. Há, na cidade, uma prostituta desprezada por todos, Bola de Sebo. O comandante alemão aceita passar um salvo-conduto para os amedrontados franceses de posses, desde que Bola de Sebo deite-se com ele.

Ela, a princípio e a despeito da profissão, encara a tarefa com certo asco. Tinha sentimentos próprios e, antes de tudo era francesa. Mas, aceita. Cumprida a missão e obtidos os salvo-condutos, volta a ser sumariamente desprezada, como antes, embora tenha sido a salvação dos que a desprezavam!

Construção, de Chico Buarque.

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Nunca tinha reparado, até que Alcides chamou-me a atenção. Todos os versos de Construção terminam em proparoxítonas. Isso dá um ritmo bem peculiar ao poema cantado e parece-me um recurso eufônico.  Na estrofe final, os versos, os mesmos, terminam nas mesmas proparoxítonas, alternadamente. E não ficam sem sentido! Um jogo difícil até para um bom esteta.

O Ipod, que virou Iphone, que virou Ipad…

Em 1979, o inglês Kane Kramer inventava um aparelho revolucinário, um Digital Audio Player. O aparelho tinha capacidade de armazenar 8 megabytes e tocar aproximadamente 3,5 minutos de música. Engraçado que nesse mesmo ano, também foi inventado, pela Sony diga-se de passagem, um outro aparelho, similar, mas maior e mais pesado, o Walkman. É claro que não vou fazer aqui comparações estapafúrdias, visores LCD, mesmo pequenos eram bem mais caros do que são hoje, sem falar que não havia memória flash, o inglês usou bubble memory no seu aparelhinho (uma promessa dos anos 70, mas que se tornou inviável comercialmente nos anos 80 com a queda dos preços dos HD’s como hoje conhecemos). A título de curiosidade, o Sr. Kramer até bem pouco tempo atrás estava falido, pois em 1988 por falta de dinheiro pra renovação, ele perdeu as patentes de seu aparelho, e agora a situação continuaria a mesma, não fosse uma empresa malandra requerer direitos sobre a invenção do Ipod, e a Apple ter de “comprar” o apoio do até então ilustre inventor desconhecido. Ai tem uns desenhos de protótipos dele, e o que seria depois o Ipod, é notável a semelhança, não somente com o Ipod, mas com todos os aparelhos da categoria.

Digital Audio Player -> Ipod

Digital Audio Player -> Ipod

Iphone

Iphone

O primeiro modelo de Ipod saiu em 2002, 14 anos depois que a patente foi perdida. Apesar do preço, exorbitante para a maioria das pessoas, o aparelho dominou o mercado e assim tem sido, desde seu lançamento, até que um dia… Chega o Iphone, que seria o então telefone celular da Apple, o Iphone seguiu o mesmo caminho do Ipod, e num seguimento onde a Apple não tinha mercado, seja o de telefones de luxo (quem compra para fazer chamadas apenas), seja no de smartphones (quem usa pra trabalhar, divertir-se, ou ainda usar uma série de utilidades sem as quais passava muito bem antes), certo é que o tal Iphone também deu um susto na concorrência e está ai com sua fatia de mercado dominada. O aparelho é realmente bom, saber a hora em que passará um ônibus ou metrô na parada, e se dirigir até ela 10 minutos antes de ele passar é ótimo, entre outras funcionalidades bacanas. Numa viagem serve como GPS com acesso a transporte público. Mas claro, infelizmente aqui em pindorama, ter um troço desses já seria perigoso por si só, para usar em transportes públicos então… Enfim…

Eis que, nesse meio tempo em que os telefones celulares agregaram funcionalidades, e os computadores diminuíram de tamanho, surgiu um aparelho novo, chamado netbook, bom, o netbook ganhou bastante mercado de notebooks e computadores de mesa, esses últimos já ficando bem vovôs. Acredito eu, por serem mais baratos (também tem hardware mais simples), e mais portáteis que os próprios notebooks. Eis que a Apple, como sempre, surge com um aparelho “diferente”, o Ipad. Ora, o Ipad é um Iphone que não faz ligações (ou um Ipod Touch), que cresceu demais. E ele cresceu para concorrer com os netbooks sem dúvidas, o futuro vai dizer se com êxito ou não, no primeiro momento fez mais barulho que vendas, mas se depender dos irmãos mais velhos, tem tudo pra triunfar, eu não o vejo com bons olhos, mas sem dúvida alguma, o Sr. Steve Jobs tem mais aptidão pro negócio do que eu… Alguem dúvida?

Ipad

Ipad - o novo tablet PC da Apple

Chantagem bancária. Vão quebrar Grécia, Espanha, Portugal, Itália e Irlanda?

Inicialmente, advirto que não segue uma negação dos endividamentos dos países. Sim, há dívidas, é claro. Segue uma tentativa de lembrar que os credores é que fazem o foco de seus retratos, que todos findam por aceitar como o único possível. Mas não é o único e deveria bastar para percebê-lo a dívida dos Estados Unidos da América, a maior de todas.

Os credores nunca aceitam que possam ter avaliado mal os riscos assumidos, o que talvez revele a grande verdade de que, na realidade, não há riscos. Todavia, assumindo-se as balizas formais que os próprios dizem seguir, vamos acreditar que há riscos e que estes são avaliados.

Ora, se os devedores estão à beira da insolvência e não se deu alguma catástrofe imprevista, é claro que duas situações são possíveis: ou os riscos foram mal avaliados, ou tudo está sendo propositadamente magnificado para aumentar o resgate da chantagem.

As duas conclusões possíveis, acima enunciadas, permanecem inalteradas se for acrescentado outro elemento a elas antecedente. Países diversos, mas igualmente endividados, sofrem pressões diversas. Por que? Enxergo uma parte da resposta no urânio, que é o lastro real de algumas moedas – não é o ouro, é claro, que serve para nada.

Sem esse lastro não seria possível a alguém consumir quase tudo quanto os outros produzem e pagar com notas promissórias nunca descontadas. Nem dever mais que todos os outros e nunca ter sua dívida executada e convocar a falência alheia para sempre evitar a própria.

Lembro-me que Caio César teve problemas muito maiores que os discursos chatos do advogado hipócrita que era Cícero, pois República nem havia mais, então. César era um grande caloteiro e utilizador político do calote. Como qualquer general e político esplêndido sabia que as dívidas não podem ser maiores que os devedores. Terá sido Brutus um banqueiro, ou preposto destes?

Uma casa portuguesa, por Amália.

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Quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas…

E uma das casas do vídeo, lembrei-me dela, que fica em Óbidos. A última fotografia, acho que é da ponte que divide Barcelos de Barcelinhos. Andamos um bocadinho por ali, à procura da divisão de veterinária, para obter os papéis da gata de orelhas amarelas.

Bacalhau à Vilar Sampaio.

O título sugere alguma receita de bacalhau, mas não é isso. Ou, melhor dizendo, é também, mas não principalmente. As receitas geralmente recebem os nomes de seus criadores e aqui não é diferente. Os Vilar Sampaio que batizam a nova maneira de preparar o bacalhau são os anfitriões gentis que nos receberam para uma verdadeira farra do peixe, do vinho, da boa conversa e do ambiente agradável.

Não segue uma lista dos convivas, que isso aqui não é coluna social. Os convivas foram os que tinham que ser, o bacalhau foi magnífico, a conversa boa. Uma ocasião dessas que não geram qualquer ressaca, nem na alma, nem no corpo.

Usinas nucleares no Nordeste do Brasil.

Desde os anos da década de 1970 cogitam-se usinas de geração de energia a partir de fissão nuclear a se instalarem no Nordeste do Brasil. Nas duas décadas seguintes, o assunto saiu de pauta, principalmente por conta dos elevados custos. Atualmente, o assunto volta à evidência e planeja-se a construção de duas centrais nucleares em sítios às margens do Rio São Francisco.  Esta localização é quase óbvia, à vista de estabilidade geológica, disponibilidade de água e pouca densidade populacional.

Sucede que os projetos de usinas nucleares sempre suscitam, notadamente por estes lados, objeções muito emocionais e destituídas de sólidas razões. A segurança, enfim, é a objeção sempre pronta a romper a barreira dos dentes dos porta-vozes do senso comum. Elas não seriam seguras, repete-se à exaustão. Mas, aqui existe bastante confusão e razões para crer que as imagens das explosões patrocinadas pela Força Aérea Norte-Americana no Japão fixaram bem fundo uma matriz de rejeição emotiva. É curioso que pouca gente associa um automóvel movido a gasolina a uma bomba de napalm, embora fosse algo razoável.

Acabo de ler um relatório escrito por Fábio Bittencourt, em novembro de 2009, sobre o assunto segurança das usinas nucleares, intitulado Energia nuclear é realmente perigosa?. É um texto muito esclarecedor, que evita a chatice de um paper acadêmico, de um alinhamento de opiniões ou de uma tabulação de estatísticas (embora apresente fartamente dados relativos). O autor alinha dados que comprovam a menor letalidade da geração nuclear, quando comparada às matrizes hidrelétrica, a carvão e a óleo e gás.

Menciona os resultados do estudo encomendado pela Comissão Reguladora Nuclear do governo norte-americano, que resultaram no relatório WASH-1400, publicado em 1975. As curvas de riscos traçadas a partir das probabilidades dos diversos acidentes e dos consequentes riscos de morte evidenciam que o risco de morte é comparável ao de uma pessoa ser vitimada por um meteorito.

O que me prendeu mais a atenção, todavia, foi o autor ter abordado a relação entre as fontes de energia e armamentos de guerra. Sim, porque isso é que está forte no imaginário do medo com a geração nuclear. Ele lembra que a energia hidráulica foi utilizada como arma de guerra, por exemplo na guerra sino-japonesa, em que os chineses arrombaram uma barragem no Rio Amarelo acarretando a morte de 500 a 800 mil pessoas. Lembra também o farto uso de bombas incendiárias, que consistem basicamente em gasolina gelatinosa. E conclui com a evidência de que a energia nuclear foi a menos utilizada como arma de guerra.

Voltarei ao assunto em outras ocasiões, em relação também a outros aspectos a serem considerados. E, com relação a segurança, acho que é tempo de ver as coisas mais objetivamente.

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