Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 120 of 126)

Vocações ainda existem.

Meu amigo Rafael foi nomeado Defensor Público do Estado do Ceará. É por isso que escrevo, porque estou satisfeito com a satisfação dele e porque vejo um caso raro de vocação.

O bacharelado em direito,  no Brasil, tornou-se opção maioritária de quantos têm vocação para nada, dos que têm medo de matemática, dos intelectualmente preguiçosos, dos formalistas aplicados e dos oportunistas em geral. Essa massa busca ganhar a vida com uma atividade meio que no fundo desconhece.

O bacharelado em medicina segue o mesmo rumo, com duas diferenças. Ainda é um pouco mais difícil entrar nesse curso. E os efeitos de sua realização apenas visando ao dinheiro são muito piores.

Não me acuse alguém de estar a defender o desinteresse material, que não é disso que se trata. Nem se trata de defender o ataque quixotesco aos leões ou aos moinhos de vento. É o caso, apenas, de celebrar essa raridade que é alguém interessar-se pelos resultados que podem advir do trabalho nessa área profissional, aviltada pela ignorância, cupidez e falta de nobreza.

A vocação é um pouco como a rebeldia inútil e necessária que permeia a obra de Camus. Ela enobrece e o constante esforço que fazem para desmerecê-la, como algo infantil e ridículo, está a provar sua nobreza. Só as condutas de distinção merecem tanto esforço contrário das massas.

Arrogância e heresia. Por que o Nazareno precisa ser contra Iemanjá?

Houve um grande encontro de adeptos do cristianismo reformado, em Campina Grande. Não sei se todas as denominações estavam representadas, mas acho difícil, pois são muitas e continuamente surgem novas variantes. É um modelo permanentemente cismático e pulverizado.

Nessas grandes ocasiões sempre se reproduzem variações de alguma idéia central. E, os monoteísmos de raiz mosaica derivam suas doutrinas da exclusividade de seu deus. Se o deus do deserto palestino contentava-se em opor-se aos outros deuses, o de agora está bem certo de não haver outros e requer dos seus prosélitos que afirmem essa exclusividade à exaustão.

Leio, em um qualquer jornal, que um qualquer pastor volta suas armas e sua pobre retórica contra a religiosidade de matriz africana, que se cultiva no Brasil. E ele diz que essas crenças africanas devem ser repudiadas porque se baseiam em personagens inexistentes. Ou seja, o pastor reivindica a verdade na historicidade do profeta nazareno que transformaram em um deus e rejeita o resto por historicamente falso.

Já não basta ao pastor a revelação, ele quer a história. E quer esmagar o que reputa serem mitos. Ele não disse, mas imagino que suas grandes provas da historicidade do nazareno sejam as de sempre. O livro de Flávio Josefo, evidentemente falsificado pelos cristãos primitivos, que interpolaram trechos sem pertinência com a história da guerra dos judeus. As cartas de Plínio, o Jovem, de Tácito e de Suetônio, que referem a existência da seita cristã, mas nada realmente sobre a figura do nazareno.

Forte nessas habituais referências – que talvez nem conheça realmente – o pastor diz que o culto de uma Iemanjá é desprezível, porque ela nunca existiu. Ele levou o problema simples de uma religião querer destruir outra para o campo da verdade fática de seus profetas, o louco! Esse é um risco da atomização das denominações reformadas, que não comportam uniformizações doutrinárias.

Ora, no campo da historicidade dos profetas e dos santos, todos são cegos sem guias. Nessa escuridão, ninguém se acha e todos se perdem. É melhor batalharem em outros sítios, invocar conversas diretas e particulares com os deuses, promessas, novas promessas, visitas do anjo, sinais, textos poéticos, textos desesperados, textos mal escritos. Tudo, enfim, que não meta a historicidade de alguém entre os argumentos.

Os favoritos do deus único não precisam da história. Quando acendem as fogueiras, não é para fazer história. Quando queimam as bibliotecas, não é para fazer história. De heresia, já basta acreditarem que sabem o que pode agradar a um deus, portanto não precisam aumentar o catálogo das impiedades invocando verdades humanas.

Kyrie da Misa Criolla, de Ariel Ramirez.

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Morreu Ariel Ramirez, compositor, entre várias outras, da grande obra que é a Misa Criolla. O grupo Los Fronterizos cantou-a desde o início. No vídeo, cantam um trecho do Kyrie, no filme Argentinisima, de 1973.

Há, de fato, uma Argentina que, embora católica, não é propriamente branca, castelhana, italiana ou inglesa. É muito indígena e está para além de Buenos Aires.

Meu Tio, filme de Jacques Tati, de 1958.

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O primeiro vídeo é um pequenino trecho do início deste magnífico filme e permite ouvir a música tema, que será repetida várias vezes. Essa melodia nunca me saiu da cabeça, simples e delicada.

Desconheço outra oportunidade em que a modernidade, como objetivo em si, tenha sido mais atroz e poeticamente ridicularizada que nesta obra de Tati, vencedora de Cannes, em 1959.

Não é sem razão lembrar que Jacques Tati era desprezado pelos diretores autoproclamados sérios e intelectualmente engajados, que pululavam na França pagadora de tributo a uma certa chatice sartreana.

Sugiro que se veja o filme e que se repare numa das cenas finais, que está no segundo vídeo. Hulot – a personagem principal – vai no carro do cunhado a algum sítio. Dentro do automóvel estão Hulot, o sobrinho e o pai deste. O cunhado é o capitão de indústria daquela França em reconstrução, ávida em marchar para o progresso. O carro do cunhado, de último tipo, é o símbolo máximo da modernidade.

Pelas tantas, Hulot quer acender seu cachimbo e não consegue fazê-lo com fósforos. O cunhado aponta a solução tecnológica, o acendedor elétrico do carro. Hulot, nem impressionado, nem resistente, pega do acendedor, tira os primeiros fumos do cachimbo, balança o acendedor como um fósforo e o deita fora pela janela, como a um fósforo…

Urubu tá com raiva do boi. Baiano e os Novos Caetanos.

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Já houve humor realmente satírico no Brasil. O alvo de Baiano e os Novos Caetanos é demasiado evidente. A Tropicália, Caetano Veloso e a filosofice de obviedades e vacuidades lançadas como grandes conclusões.

O Grupo era formado por Arnauld Rodrigues e Chico Anysio. Ontem, morreu Arnauld, cantor, humorista e ator.

Essa música, humorística, é uma pequena amostra de genialidade. O urubu tá com raiva do boi / e eu já sei que ele tem razão / é que o urubu tá querendo comer, mas o boi não quer morrer / tá sem alimentação.

Cria corvos e eles te comerão os olhos.

Esse é um provérbio ibérico – português e espanhol – e até deu nome a um filme de Carlos Saura. Se o Departamento de Estado Norte-Americano atentasse às coisas das diversas culturas, esse provérbio, por exemplo, talvez errasse menos.

A diplomacia estadounidense especializou-se em fomentar os problemas que ela própria teria de enfrentar, mais adiante. Se é burrice ou cálculo, não sei, mas é verdade.

Depuseram Mossadegh, no Irão, para lá pôr o Xá Pahlavi, usurpador dócil aos interesses petrolíferos estrangeiros. Resultou na revolução islâmica, fortemente contrária aos interesses norte-americanos na Pérsia.

Financiaram o Taleban, uma quadrilha conhecida, para dar trabalho aos russos no Afeganistão. Resultou, sim, na saída dos russos do Afeganistão. E, também, nos atuais problemas, já que a banda Taleban voltou-se contra os norte-americanos.

Criaram Sadan Hussein, para dar trabalho aos iranianos. Antes, os britânicos já tinham criado esse artificialismo que é o Iraque. Resultou no que se tem visto por lá, desde há vinte anos.

Algum dia eles estudarão história, ou assim está mesmo bem, porque atuam calculadamente a favor do caos, do saque e da venda de armamentos?

Hillary Clinton está preocupada com o Irã. Ela diria exatamente porquê?

No Catar, a senhora Rodham Clinton, Secretária de Estado dos Estados Unidos da América, disse estar preocupada com a democracia iraniana. Dito assim, tão repentinamente e em companhia de monarcas árabes, deve-se convir que soou estranho a quem se ponha a pensar um pouco.

Na fotografia acima, por exemplo, a Secretária de Estado encontra-se na democrática companhia do monarca da Arábia Saudita. Não consta que ela tenha apresentado alguma objeção a esta forma tão democrática  que é a monarquia da Península Árabe,  inaugurada pelo afã britânico de conformar esse espaço aos seus interesses petrolíferos.

Não consta, tampouco, que Hillary Clinton tenha qualquer interesse na instalação do se convencionou chamar democracia nesses emirados arábicos, muito embora seja possível que os habitantes deles queiram votar!

Com quê, então, está preocupada a Secretária de Estado?

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