Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 108 of 126)

A retranca, o ferrolho, a feiúra futebolística da Inter travou o Barcelona.

No futebol, não ganha o melhor, que isso é confundir êxito com beleza. Ganha quem ganha, o melhor é quem joga mais bonito. Para além de quanto idealismo haja nessa afirmação, convém lembrar quais os objetivos por trás disso que é jogar futebol.

Antes, muito antes, de se pensar em campeonatos organizados, em número de adeptos, em potencial comercial, em preço de transferências, pensou-se em jogar. Na raiz, joga-se por prazer, tanto que houve amadorismo por muitos anos. Claro que isso associa-se à natural busca pela glória, que se relaciona com a vitória.

Um e outro dicotômico de pensamente hei-de-vencer-a-qualquer-custo pode pensar: esse fulano que escreve é um tremendo idealista tolo, que faz propaganda da derrota. Não é isso. A vitória é necessária para os egos, para os excessos dos adeptos, para se venderem camisetas, chaveiros, perfumes, cuecas, bandeiras, telefones, toques, musicais e outras coisas mais.

A beleza é necessária para se saber que as atividades humanas podem ser criativas. E é mais rara. E também triunfa, mas não foi dessa vez.

Recife, por Capiba e Chico Buarque.

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Lindo. Vi no blog do Nassif e apressei-me a por aqui.

Responde ao que vou perguntar
O que é feito dos teus lampiões
Onde outrora os boêmios cantavam
Suas lindas canções…

É impressionante. Vendo as fotografias do Recife dos anos 60, só me lembrava das fotografia de Maputo – então Lourenço Marques – que passei muitos minutos a ver, em um livro que não lembro o nome, na Fnac de Braga!

Mulheres árabes pagam 2000 euros por reconstrução de hímen.

O Dr. Marc Abecassis

Leio, na BBC em português, que o Dr. Marc Abecassis é muito procurado por mulheres árabes, ou árabe descendentes, na França, para cirurgias de reconstrução de hímen, pelas quais ele cobra à volta de 2000 euros. O médico assevera que a procura é maioritariamente de mulheres na faixa dos 25 anos, provenientes de todas as classes sociais.

O assunto chamou-me a atenção porque convencionou-se utilizar este exemplo como mais um das prisões sócio-culturais associadas ao islão e ao pertencimento étnico-social ao mundo árabe. Ou seja, de submissão a padrões culturais e religiosos, cuja infração pode levar à exclusão em graus variados. Ora, claro que é disso que se trata, mas a utilização do caso para acusar o islão ou a cultura árabe de impositores de sujeições sociais deixa entrever quanto somos complacentes com as mesmas coisas no nosso panorama cultural.

Por exemplo, uma vasta porção das populações masculinas jovens de cultura ocidental é refém da obrigação de gastar tempo e dinheiro em academias de levantar pesos, para ter braços fortes e músculos abdominais realçados, para utilizar engraçadas camisetas apertadas, em cores extravagantes e com desenhos estranhos, sob pena de exclusão social.

Uma vasta porção das mulheres jovens de cultura ocidental é refém da obrigação de submeter-se a cirurgias para inserir silicone nos peitos e na bunda, ou retirar gordura de locais vários, sob pena de falta de êxito matrimonial ou profissional. Aqui, é possível até apontar uma grande superioridade da himenoplastia, uma vez que demanda anestesia local e apenas 30 minutos, minimizando os riscos frente às grandes intervenções a que se submetem as jovens senhoras modernamente ocidentais.

Embora muita gente fale do ridículo e dos riscos associados às prisões sociais na raiz das condutas ocidentais, não há qualquer esforço maior de associá-los a causas profundas culturais, étnicas ou religiosas. Pairam como uma simples curiosidade superficial, um deleite de ocidentais livres. Enquanto algo intimamente semelhante, quando dá-se entre árabes, seja a prova irrefutável de uma inferioridade cultural e de uma dominação hedionda sobre as mulheres.

A morte de uma estrela.

Dois processos se distinguem, conforme sejam as estrelas grandes ou pequenas e suas mortes serão diferentes, portanto. Tanto as grandes, quanto as pequenas, vivem da fusão de núcleos leves, de hidrogênio e de sua variante, o hélio. Ambos são muito longos, na escala de biliões de anos, e têm desfechos grandiosos. Em comum, têm na raiz o esgotamento do combustível, mas as diferenças quantitativas implicam nas qualitativas.

Uma estrela pequena, como o sol que vemos, morre a caminho de tornar-se uma anã branca ou uma anã negra. No início do esgotamento do seu hidrogênio fundível, seu núcleo começará a contrair-se, sob a ação da enorme gravidade, mas ainda haverá fusão de hidrogênio nas camadas mais exteriores. Essa contração do núcleo acarretará um aumento da temperatura que se refletirá também nas porções externas e acarretará uma expansão da estrela.

Em pleno processo de morte, ela se expandirá, tornando-se uma gigante vermelha. As temperaturas do núcleo estarão tão elevadas que o hélio transformar-se-á em carbono. Então, acabando-se o hélio, o núcleo começará a esfriar e as camadas externas a se deslocarem ainda mais, terminando por explodirem numa vasta ejecção de matéria, que formará uma nebulosa de planetas.

Uma estrela grande inicia seu fim semelhantemente a uma pequena. O núcleo vai ficando sem hidrogênio e o hélio vai se transformando em carbono, por fusão, em decorrência das elevadíssimas temperaturas e pressões. Mas, aqui, após o esgotamento hélio, o processo continua, porque as massas são enormes. A fusão segue seu curso e o carbono torna-se em elementos mais pesados, como oxigênio, silício, magnésio, enxofre e ferro.

Tornado o núcleo de ferro, a fusão não é mais possível e, sob o efeito da gravidade – enorme à vista da massa e da densidade – ele se contrai tão violentamente que prótons e elétrons tornam-se em nêutrons. Essa contração rápida gera um tremendo aquecimento e a precipitação das camadas exteriores sobre o núcleo que, então, se aquece muito e explode, criando uma supernova. A ejeção de matéria é vastíssima e pode dar lugar à formação de outras estrelas. O que resta do núcleo pode tornar-se uma estrela de nêutrons, ou um buraco negro, conforme a quantidade de matéria.

Analogia, etimologicamente, é a falta de lógica ou, melhor dizendo, a negação dela. Forma-se com a partícula negativa grega a e a também grega lógica. Consagrou-se utilizar analogia para comparação entre situações distintas mas, sob algum aspecto, similares, visando-se a realçar pontos comuns entre o que não obedece a relações de causa e efeito. Não é um formato de argumento, portanto, limitando-se a ser um recurso comparativo.

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O insignificante Zapatero acredita na farsa do Mercosul.

Rodríguez Zapatero, chefe de governo da insignificante Espanha.

José Luis Rodríguez Zapatero é o presidente de governação do Reino de Espanha, um desprezível país com PIB per capita de U$ 34.000,00 e 40 miliões de habitantes. Atualmente, o pobre reino está à frente da UE e a Argentina do Mercosul, precisamente na oportunidade em que se decidiu retomar as negociações para a celebração de acordos entre os dois blocos, depois das tratativas terem esfriado bastante, desde 2004.

Os problemas sempre se referem ao setor agrícola e aos imensos subsídios europeus às suas produções. Todavia, em busca de mercados, a UE parece disposta a flexibilizar suas posturas e aumentar as trocas com os países componentes do Mercosul, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

A proximidade cultural é um fator determinante para a tentativa atual. Realmente, a América Latina tem forte identidade com Espanha e Portugal, por razões evidentes. E eles têm grandes interesses na região, bastando observar-se como andam instaladas por essas bandas a PT Telecom e a Telefónica de Espanha, os grandes bancos espanhóis, a Galp, e outras companhias. Ao contrário do que muitos querem fazer crer, a proximidade cultural é um fator preponderante nas relações econômicas.

Mas, é curioso. Enquanto um candidato a presidência brasileira acha o Mercosul uma farsa, a UE, pelo chefe de governo espanhol e o Mercosul, por sua atual presidência argentina, não pensam o mesmo. Todavia, como São Paulo é o centro telúrico do mundo, o PSDB uma agremiação mais importante que o Partido Democrata norte-americano e a Folha de São Paulo um jornal que deixa o pessoal do New York Times com inveja, europeus e sul-americanos devem estar completamente equivocados…

José Serra acha que o Mercosul é uma farsa.

José Serra brincando com arma de fogo.

O Mercosul, entre outras coisas mais, é uma integração aduaneira entre Brasil e Argentina. No passado ano de 2009, os dois países mantiveram trocas no valor de U$ 24,1 biliões. As exportações brasileiras para a Argentina totalizaram U$ 12,78 biliões e, no sentido inverso, o Brasil importou do parceiro U$ 11,3 biliões, tendo um discreto superávit comercial, portanto.

Um comércio dessa ordem não é farsa por qualquer critério racional que se utilize, ao contrário da aparente tolice que disse o candidato José Serra. Aparente porque não é de se imaginar que ele tenha falado por ignorância. Foi muito significativo que o jornal diário Folha de São Paulo – veículo que faz campanha apaixonada para José Serra, embora siga a negá-lo – tenha se apressado a tentar fazer crer que o dito não foi dito.

José Serra, ao contrário de Ciro Gomes, tem seus piores momentos quando a sinceridade guia suas declarações. Ele às vezes trai o que representa e gera situações embaraçosas. Ao dizer que o Mercosul é uma farsa, está reproduzindo sua intenção de estancar esse bloco de sucesso e partir para a celebração de acordos comerciais preferenciais com a América do Norte, como o NAFTA – North America Free Trade Agreement – que converteu o México em planta de exportação para os EUA e Canadá e o manteve na mesma estagnação de sempre e sem outras alternativas comerciais.

Claro que, estrategicamente, foi uma tremenda bobagem o comentário do Serra. Deve ter desagradado profundamente uma vasta porção do capitalismo brasileiro, que sabe muito bem que destino teria se o Brasil firmasse acordos de comércio nos moldes leoninos que os norte-americanos querem. Ao tempo em que não teriam condições de vender seus produtos por lá, porque o mercado norte-americano é altamente protegido – basta considerar os vastos subsídios agrícolas – seriam esmagados em sua própria terra por mercadorias norte-americanas.

Ciro Gomes não é candidato nas presidenciais e o urubú fica com raiva do boi.

Ciro Gomes, ex-candidato a Presidente do Brasil.

Ciro Gomes é um político brasileiro, cearense nascido em Pindamonhnagaba, São Paulo. Teve uma exitosa carreira no Ceará e na política nacional. Foi governador daquele Estado na época em que novos grupos surgiam a propósito de afastar a velha política dos três coronéis que mandavam lá há décadas, alternadamente. No início, trocaram-se três coronéis por apenas um, Tasso Gereissati. Depois, Ciro Gomes, que lançou-se na política à sombra de Tasso, rumou por caminho próprio.

Ele é muito inteligente e, aparentemente, bastante sincero. Essa última qualidade é tão desprezada no país que recebe os nomes de incontinência verbal, destempero, pavio-curto, descontrole e outros mais que carregam significados negativos. Ciro já foi qualificado por tudo isso, exatamente nos seus melhores momentos.

Flertou com a nova direita brasileira, aquela que é sem querer o nome, que sempre foi mas diz que tornou-se. Seu capital político – votos – e sua inteligência puseram-no no governo de Itamar Franco, o vice-presidente que sucedeu a Fernando Collor de Mello e antecedeu a Fernando Henrique Carodoso. Foi ministro da fazenda em 1994, um dos cargos mais importantes de qualquer governo brasileiro e, então, de mais relevo ainda considerando-se o problema inflacionário, que foi atacado e debelado.

Integrava o PSDB, o mesmo partido de José Serra, de que se retirou em 1996, passando a uma legenda filiada a este, o PPS. Desta época pessedebista deve ter retirado sua convicção quanto à falta de escrúpulos do Serra e é conhecida sua assertiva sem suavizações: Se for preciso, Serra passa por cima da mãe com um trator!

Integrou os governos de Lula. Saiu do governo e, no PSB – Partido Socialista Brasileiro – elegeu-se deputado federal pelo Estado do Ceará, o mais bem votado parlamentar do Brasil. Lançou sua candidatura à presidência da república pelo seu partido, que é aliado do partido do Presidente. Nunca passou dos 10% das intenções de votos, aferidos nas diversas pesquisas e sua candidatura prejudicava a de Dilma Roussef, candidata do Presidente com chances reais de vitória.

Agora, o partido dele resolveu por um fim à sua candidatura e marchar na aliança com o partido do Presidente, apoiando a candidatura de Dilma Roussef. Claro que ele achou ruim e concedeu entrevista disparando para todos os lados. Isso é do jogo político-partidário e um homem experiente como Ciro Gomes pode achar ruim, mas não pode alegar desconhecimento das práticas.

Sintomaticamente, as hostes de José Serra apressaram-se a repercutir a retirada da candidatura de Ciro Gomes como uma violência antidemocrática. Sintomaticamente, o partido de José Serra negou-se a adotar a democrática realização de prévias partidárias para escolher seu candidato, destruindo assim a promissora candidatura de Aécio Neves. Reclamação é reclamação, mas querer dar-lhe ares de violação democrática é tão falso quanto uma cédula de trinta reais, notadamente vinda do PSDB.

O problema todo para José Serra, bem como para a candidatura lateral à dele de Marina Silva é que a saída de Ciro Gomes fortalece a candidatura de Dilma Roussef, apenas isso.

Um avião de caça ecológico. Piada ou apenas contradição em termos?

F/A-18 Green Hornet.

O caça da fotografia acima é um F/A – 18 Super Hornet, semelhante ao que os norte-americanos querem vender ao Brasil, sem repassar a tecnologia. Mas, ele tem uma peculiaridade, é o primeiro caça movido por uma mistura de 50% de querosene de aviação (Jet A-1) e biocombustível de matriz renovável. Por isso, pôde ser batizado de Green Hornet, epíteto bastante criativo e evocativo da simpatia ambiental da aviação da marinha norte-americana.

O jato de guerra foi anunciado no Dia da Terra, 22 de abril passado. É fantástica a celebração ambientalmente correta em um equipamento voltado, exclusivamente, para a destruição e otimizado ao máximo para essa finalidade. Protege e destrói o ambiente ao mesmo tempo.

Claro que o programa da marinha norte-americana é voltado à segurança energética, ou seja, à redução da dependência de combustível fóssil. Todavia, não recuaram um milimetro na teatralização da coisa como uma marcante conquista ambiental.

Green Killer ficaria mais adequado, porém menos simpático.

Padre António Vieira: um negreiro tomista e meio poeta.

Padre António Vieira

Esse texto é uma sugestão de leitura de O Trato dos Viventes, Formação do Brasil no Atlântico Sul, de Luiz Felipe de Alencastro, um livro muito bom. Mas, não é apenas uma sugestão, e faz-se em formato bastante livre. O que se refere a jesuitismo e reformismo é da conta minha, embora a maior parte da informação tenha sido recolhida na obra, notadamente as transcrições dos padres Barreira e Vieira.

Vieira foi um dos próceres da Sociedade de Jesus nos seiscentos. Realmente, os jesuítas estiveram na liderança ideológica do colonialismo luso até Pombal fartar-se de tanta política, tanto poder e tanta hipocrisia e encontrar a única solução possível: a proscrição que, no entanto, deu errado. Os jesuítas e o jesuitismo ganharam, afinal, e não apenas em Portugal e no mundo lusófono. Se é muito difícil definir concisamente o que é o modelo de pensamento europeu ocidental moderno, quem arriscar uma única palavra pode estar no caminho certo: jesuíta.

Alguém poderá objetar com a reforma e suas resultantes européias e norte-americanas. Todavia, a reforma, que encontrou antagonismo aberto na inquisição e nos carmelitas, encontrou o verdadeiro antagonismo no jesuitismo, que a moldou de fora para dentro. A forma histórica por excelência, o jesuitismo, pôs a forma anti-histórica, o protestantismo, a seu serviço ideológico, por razões fáceis de perceber. A dinâmica não é aprisionada pela estática.

A história não são os fatos, nem as pessoas, isoladamente. São fatos produzidos por pessoas que os querem e precisam justificar, porque são maioritariamente fatos criminosos. Daí, a máxima conformação histórica é a justificação de tudo, consoante acontecem as coisas. Claro que um ambiente em que domine a ideologia reformada tem tantos fatos – e tantos criminosos – quanto qualquer outro ambiente. Porém, nele, a contradição ideológica é permanente e não se socorre da fantástica idéia que é a graça, a maior criação intelectual do cristianismo.

Em um ambiente jesuítico as contradições existem na mesma quantidade – que afinal de homens trata-se – mas elas são constantemente lubrificadas pelo óleo que reduz os atritos das engrenagens cerebrais, a hipocrisia sistematicamente teorizada e praticada.

Nos seiscentos e setecentos, o Brasil, Portugal e Angola formavam um sistema econômico-mercantil. O primeiro produzia, primeiro apenas assúcar e depois minérios e café, o segundo recebia a produção e o terceiro fornecia pretos para as empresas assucareira, mineira e cafeeira. Por isso, ter Salvador, Recife e o Rio de Janeiro sem ter Luanda e Benguela era ter nada e o inverso também era verdadeiro. Sem engenhos, não havia para quê vender escravos e sem escravos não havia como funcionar os engenhos.

A Sociedade de Jesus – SJ estava dos dois lados do Atlântico, como empresa bem estabelecida, prestando contas ao Reino e à cúpula, em Roma. Os escrúpulos da SJ com relação à servidão dos índios brasileiros chamam bastante atenção. Eles rejeitavam veementemente a captura e escravização de indígenas, exceto daqueles a seu serviço. Essa resistência ajudou a construir toda uma mitologia da defesa dos índios brasileiros e de outros mitos laterais, como o da preguiça e da inaptidão essencial do índio para o trabalho servil.

Do outro lado do Atlântico, na Mina, no Congo, na Costa do Ouro, do Marfim e em Angola, os escrúpulos da SJ eram outros, pois articulavam-se muito bem ao próspero negócio do tráfico de africanos para a América do Sul e, residualmente, para o Reino e as conquistas asiáticas. Os jesuítas fizeram mais que fornecer o discurso de justificação do tráfico de negros da África para as Américas, eles tomaram parte ativa no empreendimento.

A parte propriamente comercial é menos interessante que as justificações constantemente renovadas pelos jesuítas, variando entre os pólos extremos do discurso aberto de um Baltazar Barreira e a colecção de eufemismos vertidos em prosa e verso de um António Vieira. Em certa altura, o sistema de captura em prática em Angola é posto em questão, inclusive com argumentos propriamente ideológicos como a legitimidade da posse de um cativo. Questionava-se a legitimidade a partir da cadeia de aquisições, mais ou menos como se faz com imóveis hoje.

Em réplica à objeção, Baltazar Barreira, que foi superior da SJ em Luanda, tem ocasião de lançar a seguinte frase, absolutamente destruidora das aparências e até estranha ao pensar jesuíta: O que em geral se pode dizer por parte dos negros que neste Guiné chamado Cabo Verde se vendem e compram, é que nenhum exame se faz sobre o título do seu cativeiro, nem há quem pergunta por ele.

O padre parece estar enfadado de discutir legitimidade de cativeiro, quando, em um negócio essencialmente ilegítimo, ninguém está realmente preocupado com isso. Sincero, o jesuíta Barreira, como se quisesse deixar claro que negócio sujo começa e termina assim, não se presta a entrar no labirinto das justificações, limitando-se a dizer que as coisas sempre foram daquela maneira.

Ele vai mais além e – no que me parece uma declaração de incompatibilidade com a SJ – utiliza o discurso do tudo ou nada. Instado a falar sobre os negócios negreiros da sociedade – que intermediava a compra e venda de escravos com os aprisionadores angolanos – afirma que, ou se mantém as coisas como vão, ou se suprime o tráfico: No que toca ao cativeiro destes negros, matéria tão cheia de dúvidas pro utroque parte, que não é possível tomar-se outro assento nele senão que, ou corra como até aqui, ou de todo se proíba esse trato.

O padre Baltazar Barreira, depois de décadas a serviço da Sociedade de Jesus, do Reino e do comércio do fator de produção que eram os escravos de África, morreu pobre e esquecido. Era um infame, mas nitidamente pouco jesuíta.

António Vieira adotava a mesma ideologia de Barreira, mas fazia-o com circunlóquios, volteios e alguma poesia. Era, enfim, um jesuíta prototípico. Cuidou de ser coerente com a tese de que o cativeiro era menos ruim que a permanência na ignorância do cristianismo. Ou seja, a escravização de negros africanos era, no fundo, uma oportunidade a eles dada de conhecerem os ensinamentos cristãos, uma benção de agradecer-se a Nossa Senhora do Rosário!

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Belo Monte, eficiência energética, impacto ambiental e outras circunstâncias, por Sidarta.

Na anterior postagem sobre a usina de Belo Monte, chamada Eco-tolice e eco-chantagem contra a Usina de Belo Monte, o comentarista Sidarta ofereceu um comentário precioso. Passeia por conhecimentos sólidos de geração de energia, indo até ciência política, economia  e relações internacionais. Resolvi torná-lo uma postagem.

Andrei e João Ezaquiel,

Peço já desculpas a vocês e aos outros participantes do debate se estou me estendendo muito nesses comentários, se estou “ensinando pai-nosso a vigário” ou se estou saindo do tema.

Sobre os seus comentários técnicos a respeito de Belo Monte e de outras opções de geração de energia elétrica, vale lembrar que uma tese de doutorado defendida há menos de 5 anos no Imperial College de Londres, por um engenheiro aqui do Recife, mostrou que o sistema elétrico do Nordeste do Brasil não suporta receber muito mais do que uns 2000MW de geração alternativa local “não despachável”, eólica, por exemplo (ou mais ou menos 20% da potencia instalada).

Tentar gerar muito mais do que isso com eólica (das fontes alternativas já bem dominadas a eólica é a que tem se mostrado mais viável no momento) torna o sistema elétrico instável e complicado para se otimizar o despacho da geração e passa a se correr o risco de jogar água fora nos grandes reservatórios para se aproveitar a energia eólica eventualmente gerada em grandes blocos “fora de hora”.

Hoje em dia, a nossa experiência mostra que se suporta mais de 75% de racionamento de água (um dia com água no cano da rua e três dias sem)… pois é assim, ou pior, que a maior parte da população urbana da maioria das cidades de Pernambuco tem vivido.

Por outro lado, um racionamento forte de energia elétrica em anos passados na Colômbia mostrou que um corte na oferta de menos de 40% já paralizava a economia, gerando desemprego em massa e mais desordem social.

Não há como se estocar “energia elétrica” em grande escala, o que se estoca é combustível ou água nos reservatórios – mesmo uma bateria “cobra pedágio elétrico” para armazenar e restituir a sua energia: uns 10 a 20% para guardar e mais uns 10 a 20% para restituir.

Um exercício interessante é calcular o custo do MWh produzido por uma pilha alcalina AA… se você acha que a gasolina está cara e que paga muito imposto de renda, nunca mais vai querer usar energia de pilha não recarregável).

Essa é uma das razões porque Hugo Chaves está administrando atualmente um pequeno racionamento de energia elétrica na Venezuela com o exército de prontidão para segurar a inquietação social… além de ter iniciado programas emergenciais de suporte a desempregados e a pequenos produtores industriais e agrícolas mais prejudicados com o problema…. um problema de Hugo Chaves.

Pelo lado econômico da produção, o custo da energia eólica em grandes blocos é umas duas vezes o custo de hidráulica… e o custo da energia de térmicas movidas a derivados de petróleo ou a gás (não temos tanto gás assim para rodar grandes térmicas sem parar algumas indústrias já em funcionamento no Nordeste) é ainda maior, sem falar na poluição do ar.

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