Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 106 of 126)

Feira de Mangaio, por Clã Brasil e Sivuca.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=EyijqpgTKSA&hl=pt_PT&fs=1&]

Quem não conhecer, preste atenção. A canção é linda e a interpretação digna da beleza dela. O senhor de cabelos e barbas brancas que está sentado é Sivuca, um dos maiores músicos brasileiros. As meninas que tocam são irmãs, todas são hábeis musicistas e formam o grupo Clã Brasil.

Padre Cícero, livro biográfico de Lira Neto.

Padre Cícero Romão Batista


Um texto de Andrei Barros Correia.


Alcides ofereceu-me o livro Padre Cícero, escrito por Lira Neto, com entusiasmada recomendação de leitura. Disse-me que a prosa do autor é boa e o livro baseado em ampla pesquisa documental. Acabei de ler a obra e corroboro as impressões dele, o livro realmente é bom, o estilo simples e direto, as bases documentais apresentadas de maneira fácil.

Já havia lido uma obra sobre o Padre Cícero e os eventos supostamente milagrosos sucedidos no Juazeiro, na segunda metade do século XIX, um livro do acadêmico norte-americano de Columbia Ralph Della Cava, chamado Os milagres do Joaseiro. Esse é um interessante estudo, de alguém completamente estranho ao ambiente dos acontecimentos. Mas, é uma obra nitidamente de pesquisa acadêmica e, ademais, traduzida para o português.

O livro aqui comentado não sugere que os milagres tenham ocorrido, nem que se tenha produzido um embuste. Não promove o Padre Cícero a santo, nem afirma que foi um bandido. Não põe toda ênfase na religiosidade do Padre, nem na atividade política por ele desenvolvida. O autor – e isso é admirável – conta a história da personagem sem acusá-la ou santificá-la e, mais que isso, sem incorrer na aparente neutralidade de formato acadêmico.

Socorre-se da farta correspondência epistolar e telegráfica mantida na época, entre o Padre e vários interlocutores, nomeadamente os bispos, os cardeais inquisidores, os amigos e apoiadores, os políticos, inserindo-a exitosamente na narrativa. Muitas cartas e telegramas estão transcritos na obra, com pertinência cronológica e sem tornar cansativa a leitura. Preciosa correspondência! Tive reforçada a impressão de que o Padre viu-se em meio a uma situação que ele propriamente não criou mas, que depois de iniciada tampouco podia ser travada.

Punido pela igreja – sempre temerosa das manifestações de religiosidade mística popular – viu-se na contingência de defender-se como podia. E o fez pelos meios ortodoxos, frente ao tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, e também por meios heterodoxos, pois tornou-se político. De fato, nem sempre é razoável esperar que um homem acuado e convicto de não estar a cometer delitos resigne-se às punições e indignidades que se lhe impõem.

Cícero Romão Batista nasceu na cidade do Crato, na região do Cariri, situada no extremo sul do Estado do Ceará, próxima às divisas com os Estados da Paraíba e de Pernambuco. Região inserida no sertão nordestino, assolado por períodos secos realmente trágicos e local de práticas religiosas tendentes a um misticismo próprio. Pobre e católica à sua maneira, enfim.

O padre estudou, quando jovem, em uma espécie de pré-seminário mantido na cidade paraibana de Cajazeiras pelo famoso padre José Maria Antônio Ibiapina, uma figura interessantíssima. Homem nascido em família remediada, Ibiapina foi advogado e deputado e abandonou a vida profissional e política para tornar-se missionário católico nos sertões nordestinos e sair a construir capelas, escolas, cemitérios, açudes e outras obras.

Posteriormente, Cícero ingressou no seminário de Fortaleza e ordenou-se sacerdote. Retornou à sua terra natal, o Crato, e terminou por instalar-se em uma pequeníssima e paupérrima freguesia chamada Joaseiro, a leste do Crato. Passou a cuidar da capela do local e a reunir uma comunidade piedosa, onde antes todos eram considerados vagabundos, bêbados e desordeiros.

Rapidamente, Cícero tinha ao seu redor um grupo de beatas, a viverem em função dos modelos religiosos então em voga: trajes próprios, intermináveis períodos de orações, comportamento litúrgico próprio e vida em comum. Esse formato comunitário agregava em torno à religiosidade e ao padre pessoas que não dispunham de estruturas familiares tradicionais, basicamente por conta do fator desagregador que é a pobreza da região.

Continue reading

Os russos ganharam a II guerra mundial. Mais um pouco sobre a manipulação de informações.

Soldados russos em Stalingrado.

A informação em si não tem ideologia. A forma como ela é oferecida aos receptores tem. Entram em cena omissões, ênfases seletivas, mentiras e exagerações, a tornar em ideologia algum fato. Claro que algum fato pode ser suporte de uma ideologia, a dizer que ela produziu um êxito, mas o fato sem discurso não é mais que isso, é inerte.

Os russos, sob o que então se chamava União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, venceram a II guerra mundial contra os alemães. Não é algo de se estranhar, porque a guerra deu-se entre alemães e russo e, portanto, seria vencida por um dos dois. Evidentemente, essa conclusão não implica negar a participação de outros povos, secundariamente.

Os espaços vitais buscados pela Alemanha não estavam em outro sítio senão na URSS. Com o restante da Europa, Adolfo Hitler construiria uma União Européia avant la lettre, com a capital em Berlin e, não em Bruxelas ou Strasburgo, evidentemente. Nisso retomava parcialmente o que Bonaparte fez com mais engenho e sucesso, com a sede em Paris. Napoleão federou e seduziu os tedescos do Reno e seduziu e avassalou os italianos do Vale do Pó e da Emília Romana. Durou mais e ficou nas mentes de quem experimentou.

Adolfo Hitler destinou 3/4 dos esforços de guerra alemães à frente oriental, o que é sinal evidente de onde a guerra foi lutada. Muito embora cinema e sub-literatura tenham incutido profundamente nas mentalidades as supostas importâncias de detalhes como a guerra no deserto e outras coisas deste tipo, como o desembarque na Normandia, a guerra ocorreu do Elba para oeste.

Winston Churchill, que não era minimamente tolo, pode registrar nas suas memórias que enquanto se divertiam com seis (06) divisões alemãs na frente ocidental, os russos enfrentavam cento e oitenta e cinco (185) divisões alemãs. Simplesmente, trinta vezes mais! Um estúpido pode continuar a não compreender, mas um parcial que preze minimamente o que traz dentro do crânio pode até calar-se, mas não pode ignorar a evidência.

O mesmo Churchill sabia muito bem que Adolfo Hitler havia poupado os soldados ingleses em Dunkerque, permitindo que se evadissem, embarcando de retorno à ilha. Chegava a ser constrangedor e, por isso mesmo, o episódio foi habilmente tornado em uma escapada conseguida com muito esforço. A verdade é que a Wehrmacht deixou-os evadirem-se, porque o Fuhrer ofereceu um gesto simpático aos ingleses.

Na resolução de fazer a guerra à Rússia houve fartas doses de sub-avaliações. O General Halder teria ocasião de dizer, um mês depois de iniciada a ofensiva, que a estimativa de enfrentar 200 divisões era equivocada, pois havia aproximadamente 360! A opinião do General Bluimentritt também é significativa do obstáculo e do histórico desprezo de alemães e russos por poloneses. Ele diz que a resistência e capacidade de lutar dos russos nada tinha a ver com a incapacidade dos poloneses.

Já em 11 de agosto de 1941, Franz Halder, o General bávaro de vastos serviços militares prestados à Alemanha, diria que é cada vez mais evidente que subestimamos o poderio desse colosso russo não só na esfera econômica, como, também, na militar.

O comentário mais revelador veio do Marechal-de-Campo Gerd von Rundstedt, um aristocrata prussiano em serviço desde 1892,  que se havia retirado em 1938, ao saber que Fristch havia sido espionado pela Gestapo. O Fuhrer o reconvocou ao serviço ativo às vésperas do início das hostilidades. Ao que tudo indica, Rundstedt era um militar e só isso.

Capturado, ao fim da guerra, o Marechal-de-Campo Rundstedt disse: Percebi, logo depois de termos começado o ataque, que tudo o que se escrevera sobre a Rússia não passara de tolices.

De minha parte, creio que Adolfo Hitler era mal dotado como militar e levou a esse campo a mitomania que funciona na esfera política. Na política, super estimar ou sub-estimar são rotinas próprias desse âmbito de atuação. Na guerra, é a diferença de gastar demais ou perder. É significativo que muito oficias alemães tenham alegado, no embuste de Nuremberg, que eram apenas militares no desempenho de suas funções: e muitos eram apenas isso.

Terminada a guerra, a parte do mundo em que vivo passou a aclamar-se como única vitoriosa de um grande conflito. E passou a produzir material de propaganda desse êxito, negando o real obtenedor da vitória. Claro que isso esteve e está perfeitamente inserido na necessidade de escamotear qualquer mérito de um novo oponente.

Esse esforço teve sucesso, porém ao custo de ignorância. Passado o tempo e aumentada a distância dos fatos, esse sucesso cobra um preço grande, porque aquilo que era feito deliberadamente por quem sabia o que fazia, passa a ser uma verdade crível para quem vem depois. E até para os sucessores de quem vendeu a mentira propositadamente. Hoje, é como se o vendedor do entorpecente o consumisse!


Mentir vale a pena, está provado.

Científicas medições antropométricas.

Apostar na desinformação e na ignorância das maiorias é arriscar-se pouco. Assim, a mentira, principalmente se for de enormes proporções, vale a pena. No varejo, é mais arriscado, todavia. Portanto, convém ir até os limites da fábula, deixando para trás a simples desfaçatez. Para o êxito, contribuem diversos fatores, sendo que um agente destaca-se, no desempenho de dois papéis similares.

O agente é todo e qualquer meio que lide com a propagação de informações e os meios distinguem-se pela ação e omissão, ou seja, pelo que se diz e se omite. Há quem utilize o termo imprensa mas, na verdade, essa terminologia é muito restritiva, pois deixa de lado outros mecanismos de difusão e de escamoteação de fatos e idéias.

Atenho-me aqui precisamente à fábula dos Estados Unidos da América serem um país constituído sobre a idéia da liberdade. Porém, esse foco deve-se somente a circunstâncias históricas. Se escrevesse em outros tempos ater-me-ia a outros casos, porque os EUA são exemplificativos nos tempos atuais, somente.

A idéia de que a liberdade subjaz a todo o ideário norte-americano triunfou, a despeito de inúmeras evidências em contrário. É coisa velha, é o divórcio do discurso – triunfante – e das práticas. Não se fazem necessárias grandes teorizações, alguns exemplos deixam tudo muito claro.

A nação construída a partir da liberdade manteve e mantém campos de concentração, onde confinam-se acusados não submetidos a processos regulares e formais tendentes à privação de liberdade a partir de balizas legais. Esta mesma nação – orgulhosa de sua constituição plural e dos direitos civis e de cidadania – admite a perda da cidadania sem necessidade de processos regulares formais.

A pátria das liberdades modernas desenvolveu programas de eugenia positiva e negativa, até os anos da década de 1960, de forma bastante clara. Programas de seleção não-natural escolheram quem poderia e não poderia reproduzir-se, a partir de critérios raciais e religiosos, ocorrendo esterilizações massivas e rompimentos de matrimônios por decisões dos poderes públicos.

A mesma gente que praticou eugenia sob os auspícios de cientistas complacentes nunca deixou de fornecer às massas os discursos de acusação do regime fascista alemão pelas mesmas práticas. Sucede que os EUA desenvolveram métodos muito mais sofisticados que a simples eliminação física. Claro que a eliminação e outras brincadeiras médico-científicas deste tipo continuaram à disposição dos que com isso encontrassem infinitos gozos, bastanto dar qualquer coloração de pesquisa científica ao divertimento.

Conseguiram engendrar uma espécie de processo de eugenia por auto-exclusão psico-social do grupo reputado inferior. Além das condições sociais desfavoráveis aos perdedores, incutiram a idéia mais genial e perversa de tantas recentes criações do imaginário: a noção de culpa da vítima. Ao tempo em que é superior à eliminação física porque mantém a mão-de-obra, surte os mesmos efeitos práticos da exclusão drástica.

Essa gente – que levou as captis diminutio minima, media e maxima, do direito romano, aos píncaros – luta pelo mundo a bem das liberdades!

O Estado é bom para salvar bancos, mas é ruim para manter benefícios sociais?

O que domina no mundo não é o capitalismo ou a ideologia liberal – à Mill, por exemplo – é o banditismo. Os gestores dos fluxos de capital e dos meios de pagamentos puseram todos de joelhos. E falta-lhes algo que seus prepostos, os políticos, geralmente têm: a percepção da hora de entregar os anéis para manter os dedos. Os mandantes, esses não enxergam os limites, embora existam.

Não vai ser possível empulhar a todos, todo o tempo, levando-os a pagarem uma conta que percebem não ser apenas deles. O rol de patifarias bancárias é imenso e, por isso mesmo, tornou-se praticamente não escamoteável. A lógica de cassino, aleatória, fica evidente nas famosas classificações de risco das dívidas, públicas e privadas.

Em um determinado momento, certas dívidas são classificadas como muito seguras e, pouco depois, ao sabor da especulação, tornam-se em lixo creditício. Ora, se a ortodoxia utilizada para a classificação posterior fosse utilizada sempre, as dívidas nunca seriam bem classificadas, pois na origem eram a mesma coisa que depois.

A Grécia caminha para a moratória e a verdadeira questão é se o euro sobreviverá e mesmo se não é uma tremenda impossibilidade. Se os gregos deixam de pagar suas dívidas levam, quase de imediato, países como a Espanha, a Itália, Portugal, a Irlanda pelo mesmo caminho. Na sequência, ou precipita-se a quebradeira de todos, porque afinal todos têm imensas dívidas públicas, ou acaba por ser uma febre alta necessária para o pleno reestabelecimento.

Uma parte significativa do problema está sendo encoberta pela insistência nas dívidas públicas. Todavia, o mais grave pode ser a dívida privada, o financiamento com recursos externos. E, se assim for, não haverá como escapar à conclusão de que o foco do problema são os Estados Unidos da América, porque são os detentores da maior dívida privada que existe. Basta, para percebê-lo, observar o outro lado da dívida, ou seja, os créditos chineses.

Não parece que a população grega esteja disposta a engolir o remédio que lhe foi prescrito, principalmente porque tem conhecimento de que uma minoria tomará drogas menos amargas. Na Grécia, por exemplo, a sonegação fiscal gira à volta de 10% do PIB, notadamente em relação a rendas e patrimônios, o que implica dizer que os mais pobres pagarão a maior parte da conta, a partir de tributação sobre o consumo e retração dos rendimentos.

Não é à toa que os programas de austeridade fiscal não contém prescrições retritivas com relação às forças policiais, porque elas serão mesmo bastante necessárias. E o impasse político também se avizinha, porque estará evidente que não há diferenças reais entre esquerda, centro e direita e as populações tenderão a rejeitá-las igualmente.

A única diferença efetiva será entre quem se dispuser a travar a festa bancária e quem não o quiser fazer. Entre quem se dispuser a apresentar a conta proporcionalmente aos benefícios durante a festa e quem insistir em cobrar somente dos que comeram as migalhas.

O crime do Padre Hosana.

Leio, no Jornal do Commercio de hoje, um jornal diário de Recife, que o historiador francês Richard Marin escreveu um livro sobre o crime do padre Hosana. Fiquei curioso, pois o episódio é interessantíssimo e Marin um belo historiador. Juntamente com Bartolomé Bennassar, escreveu um dos melhores livros de História do Brasil que existem.

Hosana de Siqueira e Silva, nascido em 1913, destinou-se ao sacerdócio pela vontade da família, originária da região agreste do estado de Pernambuco e de situação social mediana. Não eram pobres, enfim. O padre teve dificuldades para ordenar-se, o que suporta as teses de que não tinha propriamente vocações eclesiásticas.

Mas, essa questão das vocações deve ser observada com bastante cuidado, pois o catolicismo romano tornou-se, a partir da segunda metade do século XIX, mais rigoroso com a uniformidade doutrinária e comportamental, gerando descompassos com os hábitos consagrados e, principalmente, com as religiosidades de matriz popular e mística. No caso de Hosana, o descompasso nada tinha com alinhamentos ao catolicismo popular, mas com a relativa liberdade sexual que tinham os párocos.

Ao que tudo indica, Hosana tinha vida sexual ativa e relacionava-se com uma prima sua. O caso não gerava qualquer escândalo na sua paróquia de Quipapá, pois obedeciam à regra de que o escândalo decorre da propagação dos fatos, não deles em si. Quem lembrar-se do padre Amaro, de Eça de Queirós, estará a ver o perfeito exemplo da configuração escandalosa desses comportamentos afetivos dos padres. Poder, pode, mas não deve ser abertamente praticado.

O Bispo de Garanhuns, sede episcopal a que Quipapá estava vinculada, Dom Expedito Lopes, tomou conhecimento das aventuras amorosas do padre Hosana e não gostou. Cioso da missão de evitar o escândalo e zelar pelo cumprimento do voto de castidade, instou o padre a desfazer-se de suas companhias do sexo feminino. Parece que o padre tomou a coisa toda na conta de perseguição, relativamente a fatos que não suscitavam desaprovação social.

Dom Expedito não se contentou com os trâmites burocráticos ditados pela legislação canônica e, incoerentemente com a rejeição ao escândalo, voltou-se contra Hosana publicamente. É significativo que tenha feito até mesmo pronunciamentos na rádio de Garanhuns, trazendo ao conhecimento geral o que, a princípio, estava no âmbito de um processo formal. Creio – é só o que vai de opinião aqui – que o Bispo encantou-se com as potencialidades da comunicação de massas e minimizou a honorabilidade do padre.

Tudo já estava encaminhado para a suspensão de ordens do sacerdote pecador. O tratamento mediático da questão parece ter mexido com os brios do padre Hosana. Em julho de 1957, ele dirige-se à sede Episcopal de Garanhuns, onde é recebido pelo Bispo; discutem e o padre saca de um revólver e desfere três tiros em Dom Expedito, que morre a seguir. O padre entrega-se à polícia e aguarda julgamento.

Foram três julgamentos a que se submeteu Hosana de Siqueira. Os dois primeiros absolveram-no, em decisões soberanas do júri popular. Foram anulados e fez-se um terceiro, que resultou na condenação a dezenove anos de prisão, em 1963. Obteve, cumpridos cinco anos da pena, um livramento condicional.

Essa estranhíssima trajetória teria ainda um episódio sem explicações. O padre Hosana foi assassinado aos 84 anos, a golpes de porrete, nas suas terras, para onde havia se recolhido.

É impossível não lembrar, novamente, do Padre Amaro, a propósito das conveniências e inconveniências dos padres terem vida afetiva. Não lembro e não vou pesquisar agora em googles da vida o nome do padre velho da aldeia em que se instala Amaro. Mas, lembro-me bem do momento em que o sacerdote velho adverte o novo de que a questão não era os padres terem, ou não, mulheres, a questão era obedecer às regras não escritas. Podia, sim, ter mulher, como ele, o velho sempre tivera, mas não podia ficar às piscadelas de olhos, aos namoricos, às escapadas sorrateiras, a descuidar das coisas de padre para pensar somente nas de namoro.

O sistema que se praticava então, principalmente nas localidades pequenas e mais afastadas dos bispados, funcionava bem. Padre que queria ter mulher, tinha-na. Havia, nesses casos, aquela beata mais chegada à casa do pároco, ou a mulher do sacristão, que cuidava com muita atenção das comidinhas do reverendo, cuidava para que trouxesse as roupas limpas e andasse bem asseado. Quase todos percebiam o que se passava, mas o relacionamento em si não era motivo de escândalo, embora sua publicidade fosse.

Realmente – e aqui vai outra opinião – a imposição do celibato aos padres seculares é uma tremenda fonte de problemas!

A campanha do Serra. Eles querem voltar… Realmente, ainda há o que vender.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=4UUm9C-o0vE&color1=0xb1b1b1&color2=0xd0d0d0&hl=pt_BR&feature=player_embedded&fs=1]

Uma homenagem à obra de Fernando Henrique Cardoso e da sua criatura, José Serra, que pretende ser presidente. É mesmo difícil saber qual a maior realização dessa gente. A multiplicação da dívida pública por quatro ou o apagão elétrico de 2001?

Homem é alvejado na cabeça por segurança de banco. Estupidez não tem limites.

Um homem foi a um banco, em São Paulo. Os bancos têm aquelas famosas portas duplas, de vidro reforçado, com detectores de metais. Caso o aparelho aponte que há metais, as portas travam-se e os agentes de segurança do banco intervêm. Habitualmente, a pessoa põe em uma pequena janela os objetos de metal que traz consigo e as coisas se resolvem.

O cidadão em questão tem um marca-passo – um pacemaker, como se diz em inglês – que é de metal e, por razões óbvias, não pode ser retirado e colocado na janelinha. Ele trazia um atestado médico apontando que tinha um marca-passo implantado sob a pele, provavelmente para explicar-se em situações desse tipo. E, devia ter êxito sempre, porque aquela não era a primeira vez que ia a algum banco.

Sucedeu que o segurança do banco cultivava a estupidez em níveis muito elevados e não compreendeu o que se passava. Iniciou-se uma discussão entre o homem, trancado na porta de vidro, e o segurança. Pelas tantas, o agente entendeu que a coisa mais apropriada a fazer era sacar de seu revólver e disparar na cabeça do homem! Sim, esse imbecil armado disparou um tiro na cabeça de um cidadão. O projétil transfixou o alvo e atingiu ainda outro homem.

Assaltantes não ficam parados em portas de bancos a discutirem com os seguranças, pedindo para entrarem. Geralmente, não falam, entram aos tiros. Tampouco andam munidos de atestados médicos que afirmam serem portadores de marca-passo, como estratégia ardilosa de entrar em bancos, induzindo os seguranças a abrirem as portas, pois geralmente entram aos tiros mesmo.

O descontrole e a incapacidade de compreender e lidar com situações próprias do trabalho, com relação a quem trabalha armado, não é uma bobagem qualquer. Onde está o maior risco, deve estar a maior responsabilidade e capacitação. Ora, é estúpido que a reação de um segurança de banco a um homem que tenta convencê-lo de que tem um marca-passo e que isso é o motivo dos apitos do detector de metais, seja disparar na cabeça do homem, pura e simplesmente.

A porta estava trancada, o homem não esboçou ânimos de entrar violentamente, o segurança podia simplesmente retirar-se e chamar a polícia, podia assumir inúmeras atitudes, todas evidentemente menos estúpidas que a por ele escolhida. Isso acontece em maiores proporções com as forças policiais, que desconhecem quase em absoluto as noções de proporcionalidade.

Sempre que cometem algum arbítrio e excesso de violência dizem que as vítimas esboçaram reações. Ora, essas mesmas vítimas geralmente estão completamente desarmadas e não têm condições efetivas de qualquer reação que ponha a polícia em risco. Ainda assim, as condutas policiais frequentemente desacambam para a violência desmedida e desproporcional aos riscos e aos fins visados. Algo como atirar com canhões para matar moscas.

Está impregnada na alma nacional a bipolaridade de reações e condutas. Oscilamos entre a total falta de reações e as mais extremadas e violentas possíveis, incapazes de fazer o que dá mais trabalho, ou seja, cuidar de cada situação na medida de sua gravidade e empregando os meios proporcionalmente necessários.

Douro. Lembrança de quem esteve lá apenas uma vez.

As vinha no Douro, em algum dia entre setembro e outubro de 2009.

Já falei disso em outra ocasião, mas não foi bastante, porque volta à memória. Não é que escreva para acalmá-la, mas para cultivá-la enquanto ela pede. Não é que o faça para apagá-la, tampouco, mas para obedecer-lhe.

Essa fotografia é um pouco como o cheiro do chá e dos biscoitos do episódio da busca do tempo perdido. Um pouco porque não evoca infância e camadas sucessivas de lembranças, que eu nunca estivera no Douro. Mas, ela é o estímulo visual que me põe a pensar no que vi, igual e diferente do que se vê no instantâneo. Ela – a fotografia – não me põe lá novamente, esse é o problema e o défice poético.

A imagem somente coloca-me nas minhas próprias recordações, o que é muito mais complicado que estar, não estar ou querer tornar a estar em algum sítio.  As recordações envolvem mais que o instantâneo, mesmo para quem é refém da forma plástica, como sou.  A beleza da paisagem é óbvia e devia ser suficiente, que era para mim inédita.

Acontece que acrescentamos ao visto o pensado. E – sem achar que seja ruim ou bom – vivo a meter o pensado em tudo, ajuntando aspectos vários ao que me fascina à primeira passada de olhos. Penso que assim construo as lembranças, aumentando-lhes o peso, somando ao que chega às retinas o que os miolos inventam de pensar.

Essa postura não é a sucumbência às idéias do patife do Platão, criador de dois mundos, porque não se trata de uma ideologia nem de acreditar que as coisa sejam duas e só duas. É apenas o meter minhas concretudes em cima das concretudes reais e fazer outra coisa.

Mas, basta de subjetividade.

Espírito de rapina, cumplicidade e preservação. A constituição brasileira afirma um princípio da moralidade pública, mas para quê?

Duas atitudes desviam a percepção geral do instinto de rapina, de cumplicidade e de preservação que animam os passos das classes médias e altas, notadamente no seu relacionamento com os poderes públicos.

A primeira é o moralismo que repete à exaustão que falta ética por todo lado. Essa ladainha já elegeu um presidente, no Brasil, Jânio Quadros. Ele, em campanha, não se propunha a qualquer coisa além de falar em limpeza moral e seu símbolo, significativamente, era uma vassoura! Grande homem, tentou um golpe até bem pensado, apenas estava no país errado. Foi presidente por sete meses.

De minha parte, tenho imensa desconfiança por quem faz todos os raciocínios girarem em torno à moral. Deve ser anacronismo meu, mas acho que isso é um tremendo plebeísmo imoral. Fica a parecer que é uma horda de pusilânimes querendo aumentar o preço do suborno a que visam.

Outra vertente do disfarce são as formas. A glorificação de leis, regulamentos, procedimentos, instrumentos de controle, instrumentos para controlar os instrumentos anteriores, prazos, padronização de documentos, formulários e coisas desse tipo. A elevação dos meios a fins, em suma, e o divórcio mais evidente entre o se declara visar e o que se pratica. Aqui, o mote é o desapreço pelas regras e a contínua necessidade de mais delas.

Na essência, tudo pode continuar no seu curso habitual, mas deve se submeter a um processo formal, seja ele judicial, seja administrativo. Ou seja, qualquer problemática é reduzida ao nominalismo e tudo é possível, a depender do nome porque as coisas atendam. Levada essa postura a extremos, chega-se ao dia em que alguém mais sério quer enterrar o cadáver do irmão e ocorre o rompimento.

O Brasil da simbiose público privada aprecia deveras glorificar a banalidade jurídica que atende por Constituição. Banalidade porque é algo comum e não merece, no fundo e ao final das contas, o respeito que seus trovadores afirmam ter por ela. Pois bem, esse texto propôs – ou determinou, como se queira entender – princípios que devem orientar a administração pública. E, coerente com as mentalidades de seus genitores, deixou os traços da ambiguidade que possibilita a permanência da rapina.

Continue reading

« Older posts Newer posts »