Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 104 of 126)

Memória fotográfica de Campina Grande.

Gosto de fotos antigas. Apenas não consigo definir nem conceituar, precisamente, antigo. A falta de colorido é um bom indicador, todavia.

Aproveito para sugerir um sítio rico em fotografias antigas de Campina Grande, além de outras coisas, chamado Retalhos Históricos de Campina Grande.

Acima, a Avenida Floriano Peixoto, em 1950. À esquerda, o prédio que se destaca é o Grande Hotel. À direita, a antiga sede da Prefeitura Municipal.

Fotografia tirada desde a Praça da Bandeira, com o prédio dos Correios, ao fundo. Não há indicação da data, mas imagino algo entre 1960 e 1965.  Existem, como se sabe, padrões arquitetônicos, relacionados não apenas às épocas das construções, mas às suas funcionalidades. É perceptível a semelhança de modelo dos edifícios dos correios de várias cidades brasileiras.

Sunshine of your love, pelo Cream.

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Isso atende pelo nome de rock´n´roll. É coisa para puristas. Tive a grata surpresa de encontrar três vídeos do Cream, hoje, no blog do Domingos Sávio e furtei apenas um.

O Nardo de Betânia.

A passagem é conhecidíssima e acho que devia ser mais lembrada por quantos andam a falar em nome do Galileu. Em João, o mais direto, está em 12:3-8. Conta esse evangelista que Jesus estava em Betânia e foi jantar na casa de Lázaro, o que ele ressuscitara. Então, Maria derrama uma libra de nardo puro nos pés do Galileu e os enxuga com os próprios cabelos.

O nardo, convém lembrar, era um perfume realmente caríssimo. A narrativa segue apontando que a coisa foi escandalosa e que Judas Iscariotes teria reputado um verdadeiro absurdo aquele desperdício e que se poderia vender o nardo e apurar trezentos denários para dar aos pobres.

A essa objeção de cunho prático, até bastante sensata, o Galileu opõe outra de inteligência, prática e mística, muito superior. Ele diz que os pobres sempre exisitirão e ele não. Aquilo era, na verdade, uma unção pré sacrificial. Eu diria que o Galileu era bastante inteligente objetivamente e defendeu que cada qual faz das suas coisas o que quer. Além, é claro, de apontar uma provável hipocrisia de Judas.

Pois bem. Não tenho negócios com padres e freiras, nem com suas congregações. Ocorre que uma instituição de freiras mantém um abrigo para velhos carentes. A velhice é uma tragédia e acompanhada da pobreza aproxima-se a viver na encruzilhada do Estige com o Aqueronte. O teto do abrigo caiu e a situação dos velhos piorou. Por isso, as freiras solicitam doações para reconstruir a estrutura.

Fui à instituição para doar algum dinheiro. Cheguei e falei com o indivíduo responsável. Disse quanto era a doação e ele pôs-se a preparar o recibo. Havia na sala duas dessas senhoras piedosas de classe média alta, que iam fazer as suas doações.

Esse pessoal, sentindo-se em território seu, não se contém. Uma delas viu ou ouviu a quantia, pouca, que eu doava e interpelou-me. Cordialmente, é verdade, mas com aquela imperatividade segura que pode ser chamada, sem maiores riscos, de arrogância. O que o senhor faz, perguntou-me. Percebi o que se passaria e fui evasivo propositadamente. Disse: sou funcionário público. A senhora parou um instante, sorriu complacentemente, e insistiu: o senhor pode ajudar mais esses pobres velhinhos. É verdade, respondi.

Não me contive e perguntei-lhe: a senhora conhece a estória do nardo, com Jesus, em Betânia? Ela ficou confusa, pois conhecer de ter ouvido falar, certamente conhecia, mas de ter lido e de lembrar-se, era muito difícil. É curioso, mas essa gente desconhece as bases do  que pensa defender, embora isso seja de pouca importância. Balbuciou um sim, tímido. Pois é, minha senhora, o novo testamento tem coisas interessantes e se o nardo é meu, faço dele o que quiser.

La Bohème, por Aznavourian.

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É conhecidíssima a canção, e bela. Não tenho idéia das experiências desse armênio em Montmartre, nem como lá chegou, nem mesmo se foi pintor ou desenhista. Não é necessário saber isso.

Sei que, depois de mais de dez anos, fui a Montmartre. Chegamos, Olívia e eu, a uma estação do Metro, cujo nome não lembro. Descemos na plataforma e vimos as pessoas se ajuntando à espera do elevador. Não havia escadas rolantes. Esperamos e perdemos a paciência. Decidimos subir pelas escadas, porque demorava muito o elevador.

Não lembro de ter subido tantas escadas. Claro, a estação é muito profunda, pois o terreno é bastante inclinado. Uma pracinha e uns tocadores de jazz. Rumamos para o óbvio, a subida para o Sacré Coeur, aquela igreja feia em um local magnífico. Dessa vez, tomamos o funicular.

Em cima está a vista mais bonita de Paris. Relativamente pouca gente, uns meninos jogando futebol e a gente olhando a cidade. Estou parado, muito calmamente, e sinto a pancada na cabeça, os óculos caem no chão. Era uma bola de futebol, que apanhei, deixei cair até pará-la no pé esquerdo e toquei devagar para o menino que chegava pedindo desculpas: excusez-moi, monsier. Pas de probleme.

Apanhei os óculos e, um tempinho depois, resolvemos voltar ao sul, a Montparnasse, a pé, atravessando a cidade.

O modismo, a ignorância e o atrevimento.

Esse touro é velho ou novo?

Há quinze anos, mais ou menos, tive ocasião de estar em uma palestra de Ariano Suassuna. Ele é uma figura profundamente ibérica, em termos culturais, e nobre de comportamento. Suassuna é um grande autor de romances e de teatro – talvez o maior autor brasileiro vivo – e também professor catedrático de filosofia.

Por cultivar um modelo estético fora de moda, costumeiramente ele é dito anacrônico e preso ao passado. Claro, e isso percebe-se imadiatamente, que é a classificação resultante da conjunção demoníaca da superficialidade com a ignorância reinante.

Nesse dia, Ariano Suassuna contou aos espectadores um episódio que se teria passado entre ele e um repórter de um jornal diário de São Paulo. O caso foi mais ou menos o seguinte, até onde consigo trazer de memória. Estava ele no saguão de um hotel, para uma entrevista com o jornalista. Depois dos cumprimentos de praxe, sentados, o jornalista pergunta, sem mais, nem menos, se Ariano não se julga um homem de gostos ultrapassados, que repudia toda nova manifestação.

Suassuna pára e pede-lhe um instantinho, que ia lá em cima, no quarto, buscar algo. Sobe, apanha o que tinha a buscar e volta. Senta-se com um painel de cartão onde estão, lado a lado, seis representações pictóricas de touros. Ele diz que anda com esse grande cartão cheio de pinturas por todos os lados.

Mostra o painel ao jornalista e pergunta: meu caro, diga-me qual desses seis touros é o mais recente e qual é o mais velho? O jornalista não recua e nisso dá provas de ser plenamente o que é: atrevido e ignorante sem sabê-lo. E aponta aquelas que seriam a mais recente e a mais antiga pintura.

O escritor replica: olhe só, esse que você acha o mais novo é o mais antigo, isso é uma pintura de uma caverna francesa. E esse que você acha o mais velho é dos mais novos, você nunca ouviu falar de Picasso? Como é que eu sou antigo, anacrônico ou rejeito o novo?

Se se tratasse de outra conversa e de outro interlocutor, provavelmente haveria um impasse constrangedor que, também provavelmente, o afável Ariano contornaria iniciando uma de suas deliciosas estórias. A idade das pinturas dos touros foi um recurso ao mesmo tempo perverso e cordial. A entrevista terá seguido seu rumo e o entrevistador seguido a fazer perguntas que não passariam de variantes da primeira tolice. Afinal, era uma obrigação profissional falar com aquele fulano que escreve livros e é anacrônico.

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