Um espaço de convívio entre amigos, que acabou por se tornar um arquivo protegido por um só curador.

Autor: Andrei Barros Correia (Page 100 of 126)

Abandonemos a estupidez. Não há destempero de Dunga. Há perseguição da Globo contra ele.

Não é advertência inútil.

A menção ao lugar-comum da moda – destempero – deve-se à preferência quase unânime por ele. Querem dizer desequilíbrio que, de resto, seria a palavra adequada se realmente ocorresse.

O que ocorre é retaliação da Rede Globo, de forma patife, ao treinador da equipe brasileira porque ele não presta absoluta vassalagem e submissão aos interesses dessa corporação mediática. Atacam-no segundo seu roteiro de costume, na televisão e no jornal diário que mantém.

No jornal, atacaram-no com uma mentira. Disseram que a Fifa estudava puní-lo por dizer palavrões, o que foi desmentido pela entidade futebolística. Ou seja, sem eufemismos ou lugares-comuns, era mentira.

Os palavrões que o Dunga tenha dito são tolices de uma desimportância imensa. Nem Carlos Lacerda daria importância a palavrões de um treinador de equipe de futebol! Existem grosserias imensas que são realizadas sem a pronúncia de um único palavrão e, nem por isso, deixam de ser grosserias.

Parece que o recurso à escandalização da trivialidade está a revelar-se improdutivo para a Rede Globo, todavia. Algumas enquetes sobre a polêmica criada deliberadamente apontam que as pessoas, entre Dunga e a Globo, ficam com o primeiro, por larga margem. Sinal de que a tolice e a iniquidade nem sempre triunfam.

Nesse caso, a Globo parece estar sem saídas, pois nada indica que consiga passar à segunda etapa do programa. A primeira, como sempre, é acusar o alvo de desequilibrado, louco, ou incapaz. A segunda é acusá-lo de desonesto. Talvez, à falta de deslizes que possam configurar alguma desonestidade, a Globo siga seu roteiro, desta feita como farsa grotesta. Ou seja, que procure seguir seu caminho de aprofundamento da mesquinharia.

Vão ridicularizar suas roupas – como se isso tivesse alguma importância – vão falar dos seus cabelos, vão apontar algum plural esquecido em alguma entrevista. Vão seguir seu rumo de tentar destruir quem se interponha, ainda que minimamente, no seu desejo de predomínio absoluto.

Os infames apostam sempre na infâmia. Ou, porque a imprensa tem raiva de Dunga.

Uma parte significativa da imprensa brasileira tem fermentado e repercutido um conflito iniciado por ela com o treinador da equipe brasileira, o Dunga.

O treinador, sabiamente, reduziu bastante o contato da equipe com os media. Nada que signifique algum deserto de informações mas, certamente, uma situação diferente do contubérnio que havia entre repórteres, futebolistas, treinador, lobistas, corretores de futebolistas, companheiras de futebolistas, cartomantes, especialistas em parábolas descritas por bolas de futebol e outros seres mais.

A imprensa não vive de notícias, ela vive de novidades, que são basicamente trivialidades alçadas à condição de fato relevante, ou simplesmente criações. Todavia, as invenções precisam também de alguma base, porque do nada, nada sai. Daí, é preciso ter jogadores de futebol a darem entrevistas sobre qualquer bobagem para, a partir de então, começar a reverberar a bobagem.

É preciso algum escândalo ou qualquer coisa que se aproxime minimamente disso. Entrou no hotel da equipe um grupo de quatro moças airosas. O fulano e o sicrano conseguiram inserir no quarto do hotel meia garrafa de vodka. Realmente, sem esse combustível fático não há razões para se ouvirem especialistas em psicologia, sexologia, alcoologia, fisiologia e outras mais ciências.

O Dunga acabou com isso e ignorou as opiniões dos especialistas de plantão e a soldo das redes de televisão, nomeadamente a Rede Bobo. Ele é, portanto, um herético e merece o tratamento prescrito para esses casos. O manual do repórter inquisidor é bastante claro e simples.

A primeira etapa implica em qualificar o herege de louco, destemperado, descontrolado, sem condições emocionais e esperar que ele aceite o rótulo. Lembro-me agora disso a funcionar como humor e punição por infâmia, quando João da Ega faz Dâmaso Salcede assinar um documento declarando-se um bêbado contumaz e irresponsável pelo que diz. Mas, isso é arte, e nesse caso o infame era o Dâmaso e voltemos às coisas piores.

Se o herético não aceita essa generosa oferta dos inquisidores repórteres de qualificar-se como um destemperado – que esse é o lugar-comum da moda – então ele incorrerá na segunda forma prescrita: será acusado de desonesto. Para tanto, qualquer coisa serve, verdadeira, desprezível, ou simplesmente inventada.

Essa linha de ação jornalístico-inquisitorial pressupõe algo terrível. Pressupõe que o acusado é infame como os acusadores e  que não está disposto a ter respeito por si mesmo. Ocorre que nem sempre isso se verifica! Não convém tentar acuar um homem sério, que ele pode reagir e, mais que isso, ele pode triunfar.

Se a equipe brasileira do Dunga for a grande vencedora deste mundial dar-se-á o seguinte: Dunga terá revelado que estava correto e os infames revelarão que sempre foram infames e indignos, porque buscarão apropriar-se da vitória e esquecer-se que o tinham atacado violentamente.

Portugal absoluto.

Portugal 7 x 0 Coréia do Norte. Vitória eloquente em um dia sem erros de Carlos Queiroz. Entrou quem devia e saiu quem devia, nos momentos certos. Assim, além do grande saldo de gols, ganha-se bastante confiança.

Algo que fica mais claro, neste mundial, é a importância de marcar o primeiro gol. Até equipes supostamente bem estruturadas perdem o rumo, quando isso ocorre. São obrigadas a partirem ao ataque e podem acontecer coisas como a avassaladora investida portuguesa contra a Coréia do Norte.

Joana Francesa, de Chico Buarque.

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Sem comentários, só a letra.

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Brasil faz bela apresentação contra a Costa do Marfim.

Brasil 3 x 1 Costa do Marfim, em bela apresentação, embora não tenha chegado a ser exuberante. A equipe marfinense é fisicamente forte, violenta e maliciosa e defende-se mal. Não tinha percebido os últimos aspectos no jogo contra Portugal, mas agora pareceram-me bastante claros. Depois de sofrer o primeiro gol, perderam-se.

Luís Fabiano conseguiu meter dois gols, o que foi ótimo porque ele deve acalmar-se um pouco e melhorar o próprio desempenho. Era um futebolista evidentemente ansioso e meio transtornado na primeira partida. E o primeiro, devo dizer sem meias palavras, foi lindo.

Elano prova que esforço e inteligência podem suprir insuficiências técnicas. Nunca se destacou por grandes habilidades e, na verdade, é mesmo muito limitado. Todavia, sempre está no lugar certo e não procura complicar as coisas, além de ser extremamente laborioso.

Kaká, o ungido do Deus da prosperidade, precisa deixar de ser menino mimado e jogar futebol. Tem-lhe faltado inteligência, embora sobre talento. Creio que ele não compreende como as coisas podem estar a andar mediocremente e isso contribui para que continuem assim.

Os dois laterais brasileiros são bons, o Michel Bastos e o Maicon. O primeiro pode jogar mais ainda e somar bastante às potencialidades de Robinho.

O oportunismo da Igreja de Roma com relação a Saramago.

A Igreja de Roma não tem a morte de Saramago como assunto que lhe imponha fazer algum comentário. Fê-los quando ele era vivo e isso bastou. Mas voltou a fazê-lo, agora que ele está morto, assumindo uma presunçosa atitude de superioridade. Aquela presunção velha conhecida na fórmula do perdão ao desviado.

Isso é oportunismo e pouco respeito por si e pelo morto. Deveria, a Igreja de Roma, dizer agora o que sempre disse. Agindo como age tenta apropriar-se de quem falou mal dela sempre, quase a santificá-lo. A estratégia é inteligente, mas é pusilânime.

Não quero traçar um paralelo, até porque são situações bastante distintas. Mas, no que toca à conduta, há traços de identificação com o que se faz hoje relativamente ao Padre Cícero. Atualmente, dizem que o Padre pode ser reabilitado – ele que foi suspenso de ordens e excomungado – sem, todavia, que isso represente um reconhecimento pelo erro na excomunhão.

Ora, não há como reabilitar o Padre e continuar a dizer que sua excomunhão foi correta, exceto se se reconhecer que ele foi santo! Por outro lado, não há como ignorar a utilidade da figura do Padre na tentativa de travar o crescimento das denominações reformadas neo-pentecostais.

O assassino do árabe no Estrangeiro, Meursault, ainda teve sua última ocasião com o padre, na cela em que esperava a execução de sua pena. Teve asco do sacerdote e afastou-se dele instintivamente, em uma cena literária de uma beleza cortante. Esse padre, contudo, é uma grande figura. Ele fez seu papel e procurou Meursault vivo e esse vivo era uma pessoa comum.

O conjunto dos padres procura Saramago morto para oferecer-lhe uma compreensão que ele não pediu, vivo. E Saramago não foi uma pessoa comum ou desconhecida. Por que o procuram? Porque afetam com o morto a grandeza que não tiveram com o vivo?

Os fiscais de patriotismo.

Um torneio de equipes nacionais, como a copa do mundo de futebol, da Fifa, é ocasião de exacerbação de ufanismos emocionados. As cores nacionais são o elemento mais marcante, estão nas roupas e nas caras das pessoas, em bandeiras e em faixas, por todos os lados, enfim. É mais ou menos como o choro, esse transbordamento nacionalista, substitui uma emoção forte por uma fraca. Assim são os símbolos, entretanto.

Eventualmente uso uma camisa da equipe argentina, o que não significa que me tenha tornado ou que me queira tornar argentino, mas uso-a. E percebo reprovações, umas mais diretas, outras mais laterais. Todas, porém, profundamente bobas ou hipócritas. Geralmente, as mais enfáticas são as menos sinceras, porque são bastante conhecidos os indivíduos que venderiam o país inteiro, enquanto agitariam entusiasmadamente a bandeira da nação vendida.

Os fiscais de patriotismo são os grandes infames, herdeiros da acusação inquisitorial, aquela que sabe muito bem quais são os riscos reais, mas prende-se aos sinais e aos detalhes. Um modelo quase perfeito de hipocrisia, depurada de seus elementos acidentais, destilada de quase todas as impurezas. Hipocrisia quase nua, que se socorre apenas de emocionalismo superficial para tapar-lhes as partes mais pudendas.

Eles querem a adoção da simbologia, a solidariedade na repetição dos lugares-comuns, a embriaguez sem sentido de uma catarse inexistente. Eles deviam ir a guerra, em homenagem a tão grande patriotismo. Mas, eles, quando vão à guerra, são os que desertam!

O ministério público eleitoral tem quantos votos?

A pergunta pode, à primeira vista, parecer impertinente. Mas, não é. Se o ministério público eleitoral quer fazer política tem que ir em busca de votos pois, do contrário, não está habilitado para as últimas práticas adotadas.

O fato é que essa instituição pediu ao tribunal superior eleitoral a retirada do ar de um blogue chamado Amigos do Presidente, porque veiculou a notícia de que um relatório de bancos suíços previu a possibilidade da candidata à presidência Dilma Roussef vencer as eleições logo no primeiro turno.

Ora, essa previsão dos bancos foi amplamente divulgada em vários meios de comunicação. Por que, então, a fúria do ministério público eleitoral dirige-se apenas contra o blogue mencionado?

Existe um blogue chamado Amigos do Serra, o outro candidato na disputa, e este site faz campanha aberta para ele. Porque nunca foi objeto de alguma preocupação do zeloso ministério público eleitoral?

Não cabe a essa instituição o papel de censura, prévia ou póstuma, de qualquer meio de comunicação, principalmente se os critérios para a censura são desconhecidos, ou se são aleatórios, ou mesmo inspirados pela vontade de privilegiar uma das candidaturas à presidência.

Não é pouco absurdo o pedido de retirada do site do ar, porque a discussão política é livre. Além disso, revela uma abordagem até mesmo tola. Ora, se um site estiver hospedado em outro país, nem ministério público, nem qualquer tribunal brasileiro conseguirão retirá-lo do ar e a tentativa soará como um flerte com o autoritarismo ridículo.

Se o autoritarismo passar a dirigir-se indistintamente a sites apoiadores das duas candidaturas permanecerá o absurdo. Uma coisa é violar as condições de igualdade formal das eleições por abuso de poder econômico ou violar a lei com ataques à honorabilidade à guisa de fazer campanha e outra distinta é discutir política e dar informações. Convém não as confundir ou partir em busca de votos.

A celebração da irrelevância. A tolice falada com solenidade. A ciência de coisa nenhuma. Qualquer desses títulos serve.

Não são todos os jogos do mundial que assisto totalmente sem som. São apenas os narrados por um funcionário da Rede Bobo que se destaca verdadeiramente na falação de tolices. Os outros eu os vejo com o mínimo volume possível, por hábito mesmo, porque afinal a narração e os comentários são desnecessários. O jogo vê-se.

Mas isso que me chama a atenção não é próprio da Rede Bobo. No fundo, todas as transmissões de futebol são parecidas e o que se destaca na Bobo é a quantidade, não a qualidade. Ela é pior porque tem mais do que torna ruim uma transmissão. Abusa da celebração da irrelevância, da oferta da bobagem com solenidade.

Tudo tem que ser tornado em alguma coisa especial, em alguma coisa que se explique com um número, com uma data. Então, quando jogam duas equipes nacionais, o pessoal da televisão começa a derramar-se em datas e números. Nesse preciso momento faz 473 minutos que a equipe tal não sofre gols em dias ímpares. Ou: quando a equipe tal joga com seu uniforme azul e a Lua está em conjunção com Marte sempre cai uma chuva fininha no segundo tempo do jogo e o atacante escorrega antes de alcançar a bola.

Ora, não há problema algum em se repetirem trivialidades e pseudo-estatísticas durante a transmissão de uma partida de futebol. Nada disso é importante e nenhuma dessas estatísticas consiste em algum dado útil a qualquer pensamento. O problema é anunciar essas bobagens com ares de solenidade, como se estivessem a oferecer preciosidades ao público. Isso é humor e deve ser tratado como tal.

Vai começar mais um jogo e o falador televisivo sai-se logo com alguma coisa assim faz seis anos, quatro meses e vinte e três dias que a equipe A não perde uma partida sempre que seu treinador calça a meia esquerda antes da direita e a humidade relativa do ar está maior que 50%. Sim, mas e daí? Fazia minha vida toda até que eu escrevesse esse texto e antes de escrevê-lo ainda não o tinha feito!

Façam piadas, senhores televisivos. Não há mal em falar cretinices desde que não sejam presunçosas.

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